quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos".


- Frase atribuída à Luís Vaz de Camões. Infelizmente, não consegui confirmar a fonte, mas fica a relevância do pensamento, sendo dele mesmo ou não.





//

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

bônus de natal

___Emerson Araújo, Adriano Lobão, Kenard Kruel, Airton Sampaio e Elio Ferreira

Bônus de natal
[Emerson Araújo]

Aos poetas fwilson, Paulo Machado, Chico Castro e Adriano Lobão



Morte à reminiscência fugaz
Tão comum neste tempo de natal
E papai noel precisa de uma companheira de baby doll
E as cabras de outros apriscos ruminam, ruminam
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

Ah, tempo de escuridão e seus dezesseis movimentos
De frase dura, pedra desfeita na ação do esmeril
De eros farto em pele de avelã e aviamento
Farinha e café sobre a mesa de cristal e taça
Só a minha vertigem a traduzir-se
Numa parte que é transbordamento
Outra exclusão.

A primeira pessoa predomina nas folhas que rumorejam
E não quero saber da linguagem improdutiva
Nem no poema que se resolve a luz do olhar
Ou no sopro dos dedos que foi chacal e lobo voraz
O meu poema é minha fala e minha audição
O meu poema, antes, é nada, nada
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

Assim prefiro construir a sétima margem do rio flores
Sem ter horário fixo e londrino
O meu horário é o meu sertão
Sem neve cor de chumbo
A minha neve é a minha nódoa
E os cavaleiros partem no beijo de nuvens
Na doideira elétrica de Artaud.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poeminha de Natal




Poeminha de Natal
à memória de Mário Quintana


Na sala de estar, o burrico farsante reluzia na lapinha,
sob o olhar atento do Menino Jesus.

Na sala de jantar, o gatarrão manhoso ronronava saciado.

Na alcova, a priminha azul, inesquecível,
sonhava países distantes.


[Paulo Machado]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

terceto íntimo

[adriano lobão aragão]



profundissimamente pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
este ambiente me causa repugnância análoga à ânsia que se escapa
da boca de um hipocondríaco

domingo, 20 de dezembro de 2009

Fundação Biblioteca Nacional

PORTARIA N.º 94 FBN/PRESI Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2009.


O PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Estatuto da Entidade, aprovado pelo Decreto n° 5.038, de 07 de abril de 2004, publicado no Diário Oficial da União em 08 de abril de 2004, torna público o resultado do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional do ano de 2009.


1. Prêmio Alphonsus de Guimaraens
Categoria: Poesia
Comissão Julgadora:
· Eucanaã Ferraz
· Francisco de Castro Mucci
· Moacir Amâncio

Vencedor: Marina Colasanti, com a obra Passageira em trânsito, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Reynaldo Damazio, com a obra Horas perplexas, publicada pela Editora 34.
3º lugar: Rodrigo Petronio, com a obra Venho de um país selvagem, publicada pela Editora Top Books.


2. Prêmio Machado de Assis
Categoria: Romance
Comissão Julgadora:
· José Guimarães Castello Branco
· Beatriz Vieira Resende
· Flávio Martins Carneiro

Vencedor: Raimundo Carrero, com a obra A minha alma é irmã de Deus, publicada pela Editora Record.
2º lugar: Rodrigo Lacerda, com a obra Outra vida, publicada pela Editora Alfaguara.
3º lugar: Bernardo Ajzenberg, com a obra Olhos secos, publicada pela Editora Rocco.


3. Prêmio Clarice Lispector
Categoria: Conto
Comissão Julgadora:
Mário Bezerra Pontes
Moacyr Jaime Scliar
Mànya Dias Millen

Vencedor: Beatriz Bracher, com a obra Meu amor, publicada pela Editora 34.
2º lugar: José Rezende Jr., com a obra Eu perguntei pro velho se ele queria morrer, publicada pela Editora 7 Letras.
3º lugar: Antônio Carlos Viana, com a obra Cine Privê, publicada pela Companhia das Letras.

4. Prêmio Mário de Andrade
Categoria: Ensaio Literário
Comissão Julgadora:
Vera Lúcia de Oliveira Lins
Walnice Nogueira Galvão
Frederico Augusto Liberalli de Góes

Vencedor: Luiz Costa Lima, com a obra O Controle do Imaginário & A Afirmação do Romance – Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy, publicada pela Editora Companhia das Letras.
2º lugar: Marcus Mota, com a obra A Dramaturgia Musical de Ésquilo – Investigação sobre composição, realização e recepção de ficção audiovisual, publicada pela Editora da UNB.
3º lugar: Ronaldes de Melo e Souza com a obra A Geopoética de Euclides da Cunha, publicada pela EDUERJ.


5. Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
Categoria: Ensaio Social
Comissão Julgadora:
· Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota
· Elias Thomé Saliba
· Carlos Fico da Silva Júnior

Vencedor: Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos Pereira das Neves, com a obra Dicionário do Brasil Joanino, 1808-1821, publicada pela Editora Objetiva.
2º lugar: Mary Del Priore, com a obra Condessa de Barral, a Paixão do Imperador, publicada pela Editora Objetiva.
3º lugar: Demétrio Magnoli, com a obra Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial, publicada pela Editora Contexto.


6. Prêmio Paulo Rónai
Categoria: Tradução
Comissão Julgadora:
· Leonardo Fróes da Silva
· Ivo do Nascimento Barroso
· Per Johns

Vencedor: Erick Ramalho, com a obra Poemata, poemas em latim e em grego, publicada pela Editora Tessitura.
2º lugar: Paulo Werneck, com a obra Zazie no Metrô, publicada pela Editora Cosac Naify.
3º lugar: Luís Antônio Martinez Corrêa, com a obra O Percevejo, publicada pela Editora 34.


7. Prêmio Aloísio Magalhães
Categoria: Projeto Gráfico
Comissão Julgadora:
Sônia Virgínia Moreira
Amaury Fernandes
Rodolfo Capeto

Vencedor: Marina Carolina Sampaio, com a obra Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi de Silvana Rubino e Marina Grinover, publicada pela Editora Cosac Naify.
2º lugar: Ângela Lago, com a obra Bichos, de Ronaldo Simões Coelho, publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Luciana Facchini, de Décio Pignatari, com a obra Bili com limão verde na mão, publicada pela Editora Cosac Naify.


8. Prêmio Glória Pondé
Categoria: Literatura Infantil e Juvenil
Comissão Julgadora:
· Neide Medeiros Santos
· Mariza de Almeida Borba
· Elizabeth d´Angelo Serra

Vencedor: Bartolomeu Campos de Queirós com a obra Tempo de Voo, publicada pela Editora Comboio de Corda.
2º lugar: Ronaldo Simões Lopes com a obra Bichos publicada pela Editora Aletria.
3º lugar: Graziela Bozzano Hetzel com a obra O Lobo publicada pela Editora Manati.



MUNIZ SODRÉ
Presidente
Fundação Biblioteca Nacional

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lendo as cinzas as palavras

______Herasmo Braga, Alfredo Werney, Vagner Ribeiro, Wanderson Lima, Adriano Lobão



Lendo as cinzas as palavras, confesso que errei por pensamentos e palavras
por Vagner Ribeiro



A possibilidade por exercício
De pensar a inutilidade
Das conjunções aditivas
Das drogas americanas
Das boas ideias
Do herói e sua lança
E e e e
Do gaguejar do viciado
Sua rude batalha
É luta mais vã
Em que
Vivo
Não se dá por vencido

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As lições eternas do vagabundo



por Alfredo Werney


Um chapéu, uma bengala, um sorriso. Não é difícil reconhecer o personagem mais aclamado do cinema. A vida do londrino Charles Spencer Chaplin (1889/ 1977) se confunde com a de seus personagens, daí o codinome carinhoso que carregou durante toda sua vida: “O Vagabundo” (The Tramp). Geralmente quando se fala em Chaplin, já se achega ao nosso imaginário as trapalhadas do vagabundo Carlitos. O fato é que as experiências de Chaplin estão muito além do humor mambembe que ele empreendera nos seus filmes. Ao mesmo tempo rigoroso e improvisador, o cineasta inglês construiu obras paradigmáticas. Em “Tempos Modernos”, por exemplo, Chaplin nos ensinou inúmeras lições de cinema: a expressiva montagem, utilizando planos metafóricos para representar a vida mecânica e circular da sociedade que a Revolução Industrial gerara; o cuidadoso trabalho com o som (embora Carlitos não fale) utilizando os timbres metálicos da orquestra e fazendo da ambientação sonora de uma fábrica uma verdadeira sinfonia. Sinfonia esta que nos transmite uma poderosa sensação de opressão.

Coadunado com tais experiências formais, ainda há de se observar a riqueza conteudística dos trabalhos chaplinianos. No já citado Modern Times, como já se sabe, o diretor faz uma dura crítica à sociedade capitalista que surgira com os avanços tecnológicos empreendidos pela Revolução Industrial, gerando pobreza, problemas psicológicos e sociais. Um dos momentos mais sugestivos da película: Carlitos se desestabiliza e é comprimido ferozmente pelas engrenagens da máquina. Decerto, uma metáfora visual muito forte do trabalho alienado e árduo da época. “O grande Ditador” - visivelmente um recado para o mundo e uma afronta a Adolf Hitler, que era vivo nessa época – trata-se de uma análise firme do que o abuso de poder e a falta de comunhão entre os seres podem gerar. “Transformar homens em bucha de canhão”, como diria o próprio Chaplin numa crítica veemente ao nazi-facismo. Em “O Circo”(1928) estamos diante de um humor mambembe cuidadosamente elaborado. O vagabundo entra, por acaso, num circo em crise e o transforma num palco de espetáculos de pura poesia. Este foi um dos ingredientes que Chaplin – influenciado pelo antecessor Meliés – trouxe para o cinema: a capacidade de fabular e fantasiar através das imagens em movimento. A capacidade de transcender a prosa cotidiana e nos apresentar um mundo centrado nas sensações primeiras. É importante dizer que em “O circo”, como em muitas películas do diretor londrino, ele compôs quase tudo: música, cenário, roteiro, personagem.

Facilidade é uma palavra que nunca permeou a vida de Charles Chaplin. O diretor teve uma infância muito pobre, além do que sua mãe tinha graves problemas mentais. Desde muito cedo demonstrou enorme talento para a dramaturgia e em 1912 foi para os Estados Unidos, local onde montou seu próprio estúdio. “O Garoto” (1921) não deixa de ser um filme autobiográfico. Se bem observarmos, a pobreza é um tema sempre presente na filmografia chapliniana.

Diversas animações recorrem aos paradigmas chaplinianos: O Pica-pau, O Picolino, Tom e Jerry. Cenas como “a dança dos pãezinhos” e a que Carlitos, num momento de fome, vê seu amigo como sendo uma galinha, vez por outra aparecem nos desenhos animados. O Pica-pau não deixa de ser uma espécie de Carlitos: um vagabundo atrapalhado que consegue conquistar as pessoas. E não se trata de uma empresa fácil: um vagabundo, figura tão repugnada por uma sociedade da técnica e do trabalho como é a nossa, fazer com que o público o aplauda e seja, de certa maneira, conivente com suas ações “maliciosas”. A dramaturgia brasileira também deve muito ao vagabundo.Há vários clichês estabelecidos por Chaplin no trabalho dos “Trapalhões”, sobretudo no personagem “Didi”. Além do que se observa em alguns programas televisivos de humor.

O trabalho do cineasta londrino pode ser apreciado para além das suas questões estritamente cinematográficas. O artista Charles Chaplin, muito mais do que um diretor de cenas, imprimiu em suas obras questões universais que marcam a vida humana - essa “aventura maravilhosa”. Dentre estas: o poder, a fraternidade, a felicidade, o amor e a beleza.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Matsuo Bashô & Guimarães Rosa


Bashô
(Japão, 1644-1694)

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

[tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi]


- *** -



Guimarães Rosa
(Brasil, 1908-1967)

Verde

Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo...

[in Magma, 1936]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bashô & Camões


Bashô

(Japão, 1644-1694)

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

[tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi]


- *** -


Luís Vaz de Camões
(Portugal, 1524?—1580)
Os Lusíadas
Canto II

27
Assim como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem por ventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando, o charco soa,
Por fugir do perigo que se sente,
E acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:

domingo, 6 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Ferreira Gullar



Os Últimos Dias
[Carlos Drummond de Andrade]

(...)
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

(...)

[A Rosa do Povo, 1945]


- *** -



Traduzir-se
[Ferreira Gullar]

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

[Na Vertigem do Dia (1975-1980)]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Entrevista de Airton Sampaio concedida a Herasmo Braga

_____Airton Sampaio, foto de M. de Moura Filho




Entrevista de Airton Sampaio concedida a Herasmo Braga em setembro de 2009

Airton Sampaio de Araújo é contista, novelista, cronista e articulista. Teresinense, publicou, individualmente, "Painel de sombras", contos, 1980, e "Contos da Terra do Sol", 1996, tendo participado de diversas coletâneas, entre as quais se destaca "Vencidos", contos, 1987, ao lado de J. L. Rocha do Nascimento, José Pereira Bezerra e M. de Moura Filho, e "Sob um CéAzultigrino", novela, em Concursos Literários do Piauí, 2005, além de várias premiações. Organizador do livro Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos. Formado em Letras (1982) e Direito (1984) pela Universidade Federal do Piauí, é professor-mestre-adjunto no Departamento de Letras da referida Universidade.




"Nasceram-me. Não pequei o suficiente. Não aprendi dançar um tango argentino."
Airton Sampaio

Herasmo Braga - Em que época e quais circunstâncias o encaminharam para a literatura?
Airton Sampaio
- Logo na entrada do ensino médio, menino ainda, decidir escrever. Não foi fácil. Escrevia e rasgava, escrevia e rasgava, escrevia e rasgava e achava que não conseguia produzir um só texto por falta de talento, o que desanimava bastante. Só depois vim a ter consciência de que o texto raramente se oferece pronto e que precisa ser construído. Então aquela angústia inicial de escrever e rasgar passou. É claro que Painel de Sombras, meu livrinho de 1980, ainda não pode, a rigor, ser chamado de literatura, mas não o posso renegar porque lá já estão os germes de algumas coisas boas que, acho, eu faria depois. Comigo não teve essa história de li fulano ou sicrano e resolvi escrever, até porque na adolescência o que eu lia muito mesmo eram livretos de faroeste, hqs e seriados de tv, coisas fora do cânone literário. Nesse cânone, o primeiro a me conquistar, ainda que eu não entendesse bulhufas, foi Machado de Assis. Penso que foi a ironia dele a responsável pelo encanto, sei lá...

Herasmo - Como se deu sua aproximidade/proximidade com o conto? E por quê?
Airton - Meu primeiro conto saiu num jornalzinho mimeografado que a gente editou na então Escola Técnica Federal do Piauí, na década de 70. Parece que se chamava A Cova do Anjo e fez um pequeno sucesso ao meu redor, embora eu imagine que o texto fosse bobinho. O mais foi daí pra frente...

Herasmo - Como constitui o seu processo de criação?
Airton - Pode acontecer de repente ou não. Quer dizer, se ocorrer de repente a ideia de um conto é porque ele já vem dentro de mim. Posto no papel, não tem jeito. Há que se burilar o texto que veio de primeira mijada, às vezes até desistir dele. Mas não sofro com isso não. Acho que a escrita é assim mesmo. É praticamente impossível algo em primeira, segunda ou mesmo terceira versão já ficar pronto para publicação. Como diz Umberto Eco, a escrita é um objeto preguiçoso...

Herasmo - Quais autores influenciaram ou influenciam na sua formação de contista? Airton - Qualquer bom contista me influencia, pertença ou não ao cânone literário. Então, passaria linhas e linhas citando nomes e contos, contos e nomes. Mas no Piauí arrisco citar o M. de Moura Filho, para mim um baita contista.

Herasmo - Como o senhor avalia a tradição brasileira na produção de contos?
Airton - Não sei se é melhor que a poesia, mas sem dúvida é melhor que a romancística e a cronística. O conto é um gênero que deu certo no Brasil, e vocês sabem que praticamente nada dá certo nesse complexo país de elite hiperegoísta e povo supermanipulável.

Herasmo - E dentro da literatura nacional de expressão piauiense, como o senhor avalia a tradição contista?
Airton - O conto é uma manifestação literária que nos acompanha, no Piauí, desde o Romantismo. Tivemos grandes contistas, como Carlos Castelo Branco, com Continhos brasileiros, de 1953. Mas infelizmente a vertente que mais vingou foi a do regionalismo tacanho ou regionalismo de segunda linha, capitaneado por Fontes Ibiapina. Creio, sem querer puxar brasa para nossa sardinha, mas já puxando, que esse modo de contar foi superado pelo Grupo Tarântula da Geração de 1970, que legou um conto mais urbano, mais estetizado e mais moderno.

Herasmo - Ainda dentro da pergunta anterior, quais os aspectos o senhor destacaria desta tradição?
Airton - A tradição é, como já disse, muito regionalista, no sentido menor da palavra.

Herasmo - Harold Bloom sempre levanta a tese que não temos tanto tempo para ler tudo o que seria de extrema importância, portanto uma seleção criteriosa deve ser realizada de forma minuciosa. Ele propõe uma lista canônica das obras de grandes autores imprescindíveis que não podemos morrer sem termos lidos ou mesmo nos considerarmos como escritores com ausência destas leituras. Gostaria de saber, então, qual a sua concepção sobre essas formações canônicas “vitais” e quais seriam as suas obras fundamentais?
Airton - O cânone é importante como uma referência qualitativa, mas é preciso não esquecer que na sua formação não entram critérios exclusivamente estéticos. As escolhas e imposições políticas são uma evidência, tanto que se torna inexplicável, por exemplo, a não inclusão de Da Costa e Silva no cânone parnasianista e simbolista brasileiro, cheio de nomes sem dúvida menores que ele.

Herasmo - Qual seria suas considerações a respeito do novo contexto da literatura nacional? Quem o senhor destacaria e por quê?
Airton - Acho que a internet nos trará boas novas. Mas ainda precisamos esperar para ver. É claro que o livro jamais morrerá, porém é ótimo termos um mídia a ele alternativa, como a internet. Dela virá, se é que já não está vindo, uma literatura digna de nota.

Herasmo - Nesse nosso contexto, percebem-se inúmeras questões em relação à literatura - suas teorias e suas obras. Qual ou quais mais lhe incomodam? Por quê? E quais delas vêm recebendo a sua atenção?
Airton - Nenhuma teoria literária me incomoda. O que me incomoda é o desconhecimento delas e o seu equivocado uso. Por exemplo: certa feita, uma estudante me pediu para que a ajudasse a fazer um trabalho universitário sobre a carnavalização na obra de O. G. Rêgo de Carvalho. Achei impossível aplicar essa formulação de Backthin à obra de O. G. Que carnavalização há na obra de O.G? Só com muita forçação de barra se pode detectar isso. Outro exemplo é um professor como o Luís Romero Lima pôr Fontes Ibiapina como vanguardista. Ora, isso não é uma escolha pessoal: vanguarda tem uma demarcação definitória que não permite esses arroubos impressionistas. Isso incomoda.

Herasmo - Há dentro da teoria e da critica literária novas considerações advindas dos estudos culturais. Será que o senhor concorda que a literatura em seu sentido maior tem sido deixada de lado, principalmente nos aspectos estéticos ao se privilegiar outras questões mais sociais?
Airton - A literatura é basicamente linguagem estetizada, mas não só. Centrar-se apenas na literatura como estética é, a meu ver, o mesmo erro que olhá-la somente como expressão de questões extraliterárias. Sempre digo que literatura é linguagem, linguagem, linguagem e vida e não só linguagem, linguagem, linguagem e linguagem.

Herasmo - Tenho observado que dentro de um mundo mais compacto em que as distâncias temporais e espaciais tornam-se menores, alguns escritores levantam a bandeira do regionalismo literário, entre eles temos Assis Brasil do Rio Grande do Sul que só publica seus textos em editoras do seu estado. Como o senhor avalia este regionalismo? Será que o regionalismo de 30 não fora muito mais de estilo do que geográfico?
Airton - Não consigo ver nenhum regionalismo que não seja tentativa de autoafirmação de um lugar ou de um modo de vida posto em desigualdade, numa relação assimétrica. Se não esquecermos as profundas intenções separatistas dos gaúchos, hoje inconfessadas mas existentes, então... E nas periferias culturais, como o Piauí, o regionalismo também é forte. Ou seja, não há como falar de regionalismo sem considerá-lo uma atitude, em primeiro lugar, política, de quem busca dizer até para si mesmo: eu existo!

Herasmo - Quando o senhor realizou a pesquisa sobre os contistas da década de 70, pensei que colocaria apenas autores que publicaram naquele período, mas temos algumas presenças que só agora começam a ter mais visibilidade com suas publicações. Qual o motivo que fez o senhor ampliar o leque e englobar esses que aparecem no livro e são recentes?
Airton - Porque um autor não se forma de bate-pronto. Ele se forma ao longo dos anos. Foi o caso do Wellington Soares, que não publicou na própria década de 70, mas, sendo formado lá, publicou só muito tempo depois. Com certeza, o Wellington não é um autor da Geração de 2000 só porque publicou a partir daí.

Herasmo - E entre os críticos, quem o senhor apontaria como realidade ou promessa?
Airton - O melhor, sem dúvida, é o Ranieri Ribas, apesar do seu estilo um tanto empolado, que o torna chato e até inacessível. O Wanderson Lima só me desagrada porque é muito sectário, mais até que os piores momentos de minha Geração, que ele acusa, exatamente, de sectarismo. Você, Herasmo, tem todas as condições de ocupar também esse espaço, já que tem formação teórica e sensibilidade para tanto. E deve haver outros, embora não muitos, que agora me fogem à lembrança. De qualquer forma, Ranieri e Wanderson são grandes e incontestes avanços em relação, por exemplo, a Chico Miguel de Moura e Herculano Moraes, nomes máximos, no Piauí, da crítica compadresca. Não cito o Adriano Lobão porque para mim ele é o poeta por excelência do Grupo Amálgama: tem talento e consciência do que faz. Só não gosto quando ele renega seu primeiro livro, um vezo ogerreguiano que só deve ocorrer em situações muito específicas.

Herasmo - Em relação às revistas literárias, como o senhor analisa as possíveis contribuições na formação de leitores e divulgação literária. Quais delas o senhor destacaria?
Airton - A Revista Pulsar, apesar de ser muito fechada, foi uma grande revista. A Amálgama, principalmente em sua versão internética, tem contribuição deveras relevante. As demais, até onde lembro, são oficiais demais: Presença, Cadernos de Teresina, De Repente... Quanto à recepção, enquanto não houver um investimento maciço em divulgação (outdoors em profusão, chamadas televisivas intensas, merchandising forte, etc), não me convencerei de que o autor piauiense não vende. Ou o Paulo Coelho venderia sem todo esse aparato midiático? Publicar hoje é até fácil. Duro mesmo é divulgar a obra e distribuí-la...

domingo, 29 de novembro de 2009

as cinzas as palavras




as capas os discos
[adriano lobão aragão]

ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória




à venda:


pela internet
lobaoaragao@gmail.com
R$10,00 [frete incluso]

na Toccata
Rua Afrísio Lobão, 922 / Esquina com Av. N. Sra. de Fátima
Loja 01/03 - Jockey Club - Teresina PI

na livraria Nova Aliança
Rua Olavo Bilac, 1258 - Centro [por trás do Colégio Diocesano]
Teresina - PI

na banca de revistas do Teresina Shopping

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Raul Seixas



Campo, Chinês e Sono
[Carlos Drummond de Andrade]
A João Cabral de Melo Neto

O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
Peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidencias.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio
do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.
O campo está dormindo e forma um chinês
de suave rosto inclinado
no vão do tempo.


[in A Rosa do Povo, 1945]



- *** -





O Conto do Sábio Chinês
[Raul Seixas]

Era uma vez
Um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho...

Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida
Lhe acompanhou...

Se ele era
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou se era uma borboleta
Sonhando que era
Um sábio chinês...


[in lp Abre-te, Sésamo, 1980]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

as cinzas as palavras



as cinzas as palavras
adriano lobão aragão

lobaoaragao@gmail.com
R$10,00 [frete incluso]




as cinzas as palavras


pintada em verbo angústia nenhuma palavra incendeia
decantada a mesma iluminada metáfora escura
seguindo em eterna fuga do discurso que se perca

expressão que inexata deseja toda exatidão
envolta entre sim e não se refaz a dúbia certeza
exatidão toda inexata que deseja expressão

qual verbo abandonado por remota prosa incontida
qual chama irrestrita escrevendo seu ardor devastado
cinza palavra ao vento calado palavra descrita

como que semeando a si espalhando do vento ao gosto
as cinzas em torno de todas as obras a destruir

sábado, 21 de novembro de 2009

Cecília Meireles & Arnaldo Antunes


Retrato
[Cecília Meireles]

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?


- *** -



Não vou me adaptar
[Arnaldo Antunes]

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O que é saúde mental?




"A meus olhos, a saúde mental é o estado de uma pessoa capaz de conhecer seus limites e amá-los. Ser psiquicamente saudável significa viver relativamente feliz consigo mesmo apesar das inveitáveis provas, experiências e restrições que a vida nos impõe."
J.-D. Nasio
[in Um psicanalista no divã, Jorge Zahar Editor, 2003, p22]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Zila Mamede




Banho (rural)
Zila Mamede


De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.



[in O Arado, 1959]

domingo, 15 de novembro de 2009

São Benedito






















São Benedito na chuva,
Adriano Lobão Aragão,
óleo sobre tela, 1997

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Zila Mamede

O Prato
[Zila Mamede]

Na casa escura, o prato campinava
dimensão magra de conviva e pasto.
Se lume de candeia refletia,
naquela toalha, o barro inerte branco

uma dor de menino sacudia
as miragens de pão que o habitavam.
Liberta de função a branca rosa
desarvorada lua se fazia

nas cercas, no curral espantamento
em que o menino reinventa reino
onde aboiavam prados. Infiltrava-se

na mesa neutra e vã o medo infante:
os dedos cavalgados por fantasmas
serenamente despedaçam luas.

___________________
In O Arado, 1959.



Pertence Zila Mamede àquela estirpe de poeta que não renega a tradição lírica, não foge da “forma”, ao tempo em que não se submete a ela, mas explora-a, transforma-a em instrumento e não em fim, tal como Carlos Drummond de Andrade (sobretudo em Claro Enigma), João Cabral de Melo Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima (magistralmente em Invenção de Orfeu), Cecília Meireles e H. Dobal (A Província Deserta), dentre muitos outros, assim o fizeram. Os sete sonetos de O Arado, em um universo de 19 poemas, refletem menos o que é estruturalmente inerente a sua forma do que a dicção peculiar da poeta, e as sugestivas imagens que seus versos evocam. Publicado em 1959, no Rio de Janeiro, pela Livraria São José, O Arado constitui sua obra seminal, como bem caracterizou Hildeberto Barbosa Filho, em posfácio da reedição de O Arado, pela Editora da UFRN, em 2005: “No âmbito de sua poética individual, O Arado funciona como a obra canônica, na medida em que reflete, mais equilibradas e mais amadurecidas, as experiências do passado. O que vem depois confirma a qualidade de uma dicção lírica singular, mas não ultrapassa os ângulos de irradiação mais iluminados que vêm deste livro/chave.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

aos rios do Piauí

[adriano lobão aragão]



Ai rios do Piauí
corre o sangue dos tapuias
como tuas águas

ai rios do Piauí
diferente de tuas águas
outro rumo
o sangue dos tapuias toma
só à terra retorna

ai rios de sangue do Piauí
água pesada na memória


a) longá

beberam destas águas este povo
que nelas deixaram seu nome
derramado nas águas
onde se espalharam seu sangue

temporário, forma inúmeros alagoados
na época das chuvas

não navegável, recusa as dimensões
da navegação européia


b) Marataoã

padre Miguel Carvalho ante o rio Marataoã:
do ano de mil seiscentos e noventa e sete
restam poucos indícios

nem leitos de piçarra
nem bons banhos na Ilha dos Amores

só um religioso e seus escritos
nenhuma canoa


c) Piracuruca

antes da explosão das armas estrangeiras
o estrondo da guerra vinha de garganta humana

um tabajara podia ouvir o ronco dos peixes

antes do aldeamento São Francisco Xavier
abafar os sons da natureza
pois melhor se fixa
a doutrina européia
a disciplina militar


d) Jenipapo

vinham do Ceará os tapuias Jenipapos
pequena tribo entre Potis e Longas

vinham do Ceará ao Maranhão
engrossar as fileiras militares
aliciadas para a guerra
contra o gentio maranhense

ainda em mil setecentos e doze
ainda na capitania do Piauí
um padre prega outro destino

frei Euzébio Xavier Gouveia
induz Jenipapos à fuga

por ordem do Conselho Ultramarino
pela ordem e prosperidade da guerra
um padre desta capitania é expulso

aliciados e espoliados
desertores desta luta
invasores de fazendas
desaparecidos desta terra

resta um nome no rio
que ainda assistiria em suas margens
portugueses e piauienses em batalha


e) Poti

índios tapuias
talvez vindos do Rio Grande do Norte
habitar as nascentes
doutro rio

atacados pelo cap. Domingos Rodrigues de Carvalho
expulsos para os lados do Maranhão

palavra indígena:
resíduo, fezes
o nome que em tupi se dá ao camarão

água que passa arrastando arraias
sem nome



f) Berlengas

no Novo Oriente do Piauí
na serra da Lagoa Funda
Bangüê Buriti Mocambo
Vaca Morta
todos os outros afluentes
a mesma solidão
da fazenda que em 1697
abrigava apenas Dionísio Dias Pereira
e um negro


g) Canindé

periódico e não-navegável
o mais longo dos afluentes do Parnaíba
nele se mergulha em sua margem direita
vindo do nascente

em Campinas do Piauí a sua margem direita
tem a Fome e a Volta
por afluentes

18 9 1832 Conselho Geral da Província
o engenheiro Pedro Cronemberger
é incumbido da desobstrução
de suas cachoeiras

15 10 1834 nova resolução
destruir 6 cachoeiras que impedem sua navegação
trabalho incompleto para o mesmo engenheiro





[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

terça-feira, 10 de novembro de 2009

aos que fizeram guerra ao gentio bárbaro da nação crateú e crateú-mirim

[adriano lobão aragão]



Dispersas as sobras do extermínio
resta a um povo a odiosa alcunha
de gentio bravio

por ordens de Pernambuco
capitão Bernardo Coelho de Andrade
tem por missão a guerra
a todos os sobreviventes
Crateús, Crateús-Mirins
cem anos após a morte
do primeiro estrangeiro

lavrado o campo
entre restos de sombras
sobre as cinzas se busca firmar
uma vila do Príncipe Imperial
uma vila da Independência
e plantar o esquecimento



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

domingo, 8 de novembro de 2009

aos que aqui primeiro plantaram uma cruz onde há mortos

[adriano lobão aragão]


Lembremos hoje os nomes de Francisco
Pereira Pinto e Luís Figueira, padres
acompanhados de índios tabajaras,
seguindo a barco para Jaguaribe.
Lembremos a submissão tabajara
que fiéis guiavam os homens de fé
por lentos dias pela sombra da selva,
onde a semente européia buscava
abrir este caminho pela fé.
Haveremos de revelar a face
iluminada de Deus ao gentio.

De Jaguaribe ao Maranhão, o caminho
da verdade por terra deve ser.
Seguem Pinto e Figueira carregando
uma cruz para além daquela serra.
Carajirus, Caratiús ou Crateús,
eram estes os senhores da terra
pela rústica expedição invadida.
Marca-se a reação crateú com a morte
de Francisco Pinto e três tabajaras.
Restou-lhes o retorno a Pernambuco.

Recaía sobre os Caratiús a vingança
do gentio tabajara em guerra
que uma nação apagada não redime

Aos sobreviventes deste embate
o constante contato com colonos
em encontros cada vez mais hostis.
Estrangeira mão renova-se armada,
não mais os homens da cruz e da fé
mas os senhores suas armas e espadas
buscando estabelecer o direito
de posse de terras, de homens e de almas.

Lembremos aqui todos os que com sangue
marcaram os passos de seu caminho.



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

terça-feira, 3 de novembro de 2009

2005

[Mário Quintana]

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias em quadrinhos...
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível.



(in A Vaca e o Hipogrifo)

sábado, 31 de outubro de 2009

dEsEnrEdoS 3





Boas revistas, eletrônicas ou não, precisam errar. Errar – tentar, testar, “make it new” – é a condição necessária para se ver brotar boas idéias. Geralmente, em nossa tradição das humanidades, quando um autor recolhe um texto para um livro, este texto já errou antes por revistas e sítios, já foi testado, o autor já pôde avaliá-lo com mais distanciamento. A idéia, enfim, já foi mais ou menos domada. Olhando o conjunto de textos que ora se publica neste terceiro número de dEsEnrEdoS, tão diferentes entre si – seja pela perspectiva teórica, seja pelo gênero textual – o que se constata é esta vontade saudável de errar, de assumir riscos, de explorar novos flancos, de desbastar plagas esquecidas. Isto faculta à dEsEnrEdoS o status de periódico responsável e utilidade pública. E o mérito, talvez seja ocioso dizê-lo, o mérito cabe muito pouco aos editores, devendo ser delegado a todo um batalhão de figuras desprendidas que empenharam seus esforços intelectuais a fim de fomentar diálogos. E já que se falou tanto na arte de errar, os editores gostariam de dedicar este número à memória de um jovem de larga generosidade, que errou muito pelas sendas da literatura: Rodrigo de Souza Leão (1965-2009).


Os Editores


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano I - número 3 - teresina - piauí - novembro/dezembro de 2009]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

ao ouvidor geral de 1732

[adriano lobão aragão]





canção de amor cantar eu vim
mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
Cardoso Balegão, sargento-mor
este que em companhia de escravos fugidos
este que semeou sangue nos sertões do Piauí
estes Pedro Barbosa Leal e Manuel de Sousa Pinheiro

canção de amor cantar eu vim
mas o ouvidor geral repete
que as mortes não eram naturais

como não era natural que
Antônio Pedro Nunes, advogado
secretário interino do governo
seja assassinado para os olhos de Oeiras
bárbaro e público
no esquecido dia 13 9 1803

e que no ano seguinte
a um homem assassinado
tenha as mãos cortadas
e uma delas penduraram
no badalo do sino da igreja
em Piracuruca

se dos registros de 1694
sendo 16 pessoas mortas
apenas uma por enfermidade

mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
se no ano da graça de 1845
o júri julgou 58 crimes
1 de moeda falsa
1 contra a liberdade individual
4 de ameaças
3 de furto
1 de estupro
2 de porte ilegal de arma
23 de lesões corporais
23 de homicídios

canção de amor cantar eu vim, Musa
mas não mais que a lira tenho destemperada
e a voz enrouquecida



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]

sábado, 24 de outubro de 2009

O que é Literatura?

foto: Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo


"Atualmente, a literatura parece querer ser um mero adorno social. Coelho Neto tem aquela frase horrorosa que diz que a literatura é o sorriso da sociedade. Hoje, é mais ou menos isso."
Roberto Gomes

[in: jornal Rascunho, outubro/09, pág 21]

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"As viagens mais completas que fiz em minha vida foram dentro dos livros, levado pelas asas das palavras"

Rubervam Du Nascimento. Foto: Kenard Kruel


7ª pergunta para RUBERVAM DU NASCIMENTO

Colégio São Francisco de Sales – Diocesano
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série A/2009
Ramerson
Carlos
Felipe
Jessé
Victor




Rubervam Du Nascimento, da Ilha de Upaon-Açu, no Maranhão. Após passar temporadas no Rio de Janeiro e outros estados brasileiros, desde 1972 resolveu radicar-se em Teresina. Bacharel em Direito com especialização em Direito do Trabalho. Lecionou Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Mantém contato direto com escritores não só do Brasil, mas de outros Estados da América Latina, como Guatemala, Chile, Peru, Venezuela, onde já participou de encontros literários. Presidiu a União Brasileira de Escritores do Piauí-UBE-PI. Tem participação em coletâneas de poemas e contos editados nos anos 70 e 80. Artigos, entrevistas, colunas literárias em jornais e revistas. Editor de Literatura da Revista de Cultura Pulsar, editada em Teresina. 4 Livros individuais: A Profissão dos Peixes, 2a edição, revista e diminuída, Editora Códice/DF-1983; Marco Lusbel Desce ao Inferno, 1o lugar Concurso Nacional da Blocos/RJ-1998; Os Cavalos de Dom Ruffato, prêmio Literário Cidade do Recife-2004; e mais recentemente: Espólio, vencedor do VII Prêmio Literário Livraria Asabeça de São Paulo. Editado e lançado em agosto de 2008 pela Editora Scortecci, durante a Bienal do Livro de São Paulo.




O que lhe influenciou a seguir uma carreira de escritor?
Quando adolescente queria ser cientista. Achava interessante a idéia de poder descobrir alguma coisa. O poder de criação dos indivíduos sempre me impressionou. Penso que me tornei poeta ao entender que poderia com o uso da palavra transformar-me em inventor. Hoje estou consciente de que o poeta é capaz de construir objetos de raciocínios, utilizando como suporte a palavra. Por isso acredito que apenas a poesia dos poetas inventivos deixa a sua marca e pertence a todos os tempos.

No início dela você teve que enfrentar algum tipo de dificuldade?
Sim, as mais diversas. Lembro que meus primeiros anos de estudo foram feitos em uma cidadezinha do interior do maranhão chamada Coroatá, onde não existia qualquer biblioteca pública. Em minha casa, o único conjunto de livros que existia era a Bíblia. Os primeiros livros que li foram os livros bíblicos, cuja leitura até hoje servem de substratos a muitos poemas que escrevo, principalmente a parte histórica do chamado Velho Testamento. Cheguei a decorar os Livros de Ezequiel, Daniel, os livros da Gênese bíblica. Até o Apocalipse eu decorei. Impressionam-me bastante as imagens construídas por esses escritores bíblicos. Inclusive, entendo que o livro do Apocalipse está colocado errado na Bíblia. Não poderia ter sido posto como último livro da Bíblia. As metáforas históricas construídas nesse livro, não tem nada a ver com o fim do mundo. Têm a ver com o fim de um período político de um império. Um grave erro de avaliação histórica de quem selecionou os livros que compõem a Bíblia. Somente muito depois, já completando o antigo Ginásio, próximo a sair de Coroatá é que fui descobrir outros autores através do professor Hildegardes da Silva, de português, que me repassou Os Lusíadas e uma cópia de um livro estranhíssimo que me perturbou bastante desde o título: O Guesa, de Souzândrade que, a princípio, pensei tratar-se de algum poeta espanhol e não um Maranhense. Como acredito que ninguém pode querer ser escritor sem leituras básicas, digo que a falta de referenciais de leitura durante a minha infância e início de adolescência, contribuíram para retardar os exercícios necessários de impulso criativo e lapidação do ofício de poeta.

De onde vem sua inspiração para escrever livros?
Não acredito que a inspiração por si só ajude o poeta a construir seu universo poético. A inspiração é por demais medrosa, não aceita a cesta de lixo, nem o fogo que antes de tudo é purificador. Para mim, a respiração é muito mais significativa do que a inspiração. Respiração é fôlego, mas também é pausa; é som com voz de silêncio, é mergulho na água e ao mesmo tempo na pedra da fala. É parto e resguardo ao mesmo tempo. De onde vem meus poemas? Surgem das leituras e releituras de livros e dos cadernos e telas da vida. Nascem da observação comprometida com o exercício da dúvida, ao divertir-se com o avesso e com as verdades estabelecidas.

Quais são seus livros de cabeceira?
Leio muitos estudos críticos literários. Além de fazer questão de acompanhar o que é editado, principalmente a nível de poesia, no Brasil, na América espânica e o que circula em paises da periferia européia, traduzidos ou não em português, aproveitando alguns poucos conhecimentos de línguas estrangeiras que possuo. Interessa-me, sobretudo, autores que os estudiosos dos cânones literários chamam de fundadores da poesia universal que seleciono para constantes releituras: Rimbaud, Mallarmé, Vicente Huidobro, Olivério Girondo, Lezama Lima, Octavio Paz, Ezra Pound, Murilo Mendes, entre outros, leituras sempre necessárias e úteis a qualquer poeta.


Por que as edições de seu livro "A profissão dos peixes" são revistas e diminuidas?
A Profissão dos Peixes é um projeto de viadapalavra. Podem emendar as palavras. São juntas mesmo. É uma só palavra. Quando digo revisar e diminuir, não significa apenas reduzir poemas ou páginas do livro, fundir ou retomar a origem de alguns versos. Implica muito mais em potencializar estruturas significativas da linguagem e tratar com rigor a concepção estrutural dos poemas.


O que você acha que falta para que a cultura literária piauiense se desenvolva?
É impossível desenvolver-se culturalmente qualquer lugar do mundo se não tiver uma economia forte. Não falo do processo criativo, esse independe de força econômica, nasce e cresce à margem de qualquer processo econômico, político e ou social.

Você acha que existe um preconceito contra ela?
O que se escreve e se publica hoje no Piauí, em se tratando de tratamento estético e busca de novas linguagens, está em pé de igualdade com o que se escreve e edita no chamado eixo Rio-São Paulo. O que torna frágil a divulgação de obras de autores extraordinários que aqui vivem, escrevem e publicam, tem explicação justamente nos reflexos dos péssimos indicadores econômicos, sociais e políticos, que determinam a ausência secular de políticas públicas de editoração de obras, fomento à leitura, criação e manutenção de bibliotecas, cujas preocupações nunca foram e continuam não sendo prioridades dos gestores públicos do Piauí, principalmente dos seus municípios.

Com quais outros autores você se identifica?
Daqui do Piauí: gosto muito da proposta de linguagem ousada de trabalhar a paisagem e os tipos do Piauí do poeta Leonardo da Senhora das Dores Castelo-Branco, que além de outros, editou em 1854 um livro que, infelizmente, é rejeitado pelos acadêmicos de plantão que não aceitam a postura subversiva, portanto, não acadêmica do autor, e por essa razão confundem autor com a obra e há tempo condenam esse poeta ao silêncio e ao esquecimento. O livro chama-se: A Criação Universal. Também aprecio e muito a poesia do Mário Faustino e do H. Dobal. Outra proposta interessante, um tanto incompreendida, é a do nosso poeta Torquato Neto, que muitos equivocadamente acham que não é poeta. Gosto da poesia de alguns poucos poetas da minha geração que prefiro não citar os nomes, mas que acompanho com a devida atenção.

E atualmente, você está trabalhando em alguma obra?
Tenho alguns conjuntos de poemas em preparo. Chamo de rascunhos que podem futuramente serem destruídos ou servirem como matrizes para novos projetos. No momento estou trabalhando um livro de nome: As formigas, o poema. Estou gostando do resultado. Um conjunto de poemas que tem como centro o dia-a-dia das coisas e do mundo que me cercam.

O que você diria para um adolescente que não tem interesse na leitura?
Qualquer pessoa, não somente os adolescentes não sabem o que estão perdendo em não se interessarem pela leitura. As viagens mais completas que fiz em minha vida foram dentro dos livros, levado pelas asas das palavras. Não são as imagens que nos ensinam, como pensam alguns, quem nos ensinam mesmo são as palavras. Elas nos ensinam a ver o mundo de forma diferente. São as palavras e não as imagens que deixam nossos olhos agitados, em busca de novas respostas. Somente as palavras nos levam a invadir mundos que se acredita impossíveis de serem penetrados. São as palavras que nos orientam e nos capacitam para a criação de mundos paralelos ao mundo velho, fatigado, repleto de mesmice, em que vivemos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O que é História?




"A história é a ciência da infelicidade dos homens."
Raymond Queneau

[in: Une histoire modèle, 1966]

domingo, 18 de outubro de 2009

Violante do Céu



Vida que não acaba de acabar-se
[Soror Violante do Céu]

Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa?
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?


____________________
Soror Violante do Céu (Lisboa,1602 - Lisboa,1693) era uma freira dominicana que na vida secular se chamou Violante Montesino. Professou no Convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630. Aos 17 anos celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Além do volume Rimas publicado em Ruão em 1646 e do Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, publicado em Lisboa em 1733 em dois volumes, tem várias composições poéticas na Fênix Renascida.

sábado, 17 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Sei que o mundo não teria muito significado para mim se não houvesse música"


7ª pergunta para ALFREDO WERNEY

Colégio São Francisco de Sales – Diocesano
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série B/2009
Marcelo Vitor
Manoel da Cruz
Rayanne Silva
Wilka Maria


Alfredo Werney Lima é arte-educador, músico e pesquisador. Professor de violão da Escola de Música de Teresina. Instrutor e integrante da Orquestra de Violões de Teresina. Formando em Educação artística pela UFPI. É autor do livro "Reencantamento do mundo: notas sobre cinema". Edita o blog Staccato.



Como é possível utilizar dois fenômenos artísticos diferentes: música e literatura?
As artes surgiram unidas em uma mesma expressão, assim acreditam alguns pesquisadores da cultura. No fundo, acredito que as artes são mais parecidas umas com as outras do que imaginamos. Elas possuem uma estruturação interna muito parecida. Dessa maneira, sempre me interessei pela relação entre diferentes linguagens artísticas, em especial: cinema / música e literatura / música. Dessa forma, é possível, e mesmo relevante, utilizarmos fenômenos artísticos diferentes em nossas abordagens, pesquisas, textos etc. Uma arte ajuda-nos a compreender a outra.

Quais são os seus projetos para o futuro?
Projetos são muitos. Especificamente na área de música, o meu projeto futuro PE ingressar na pós-graduação. Pretendo seguir a carreira acadêmica, fazer mestrado e doutorado. Além disso, tenho projetos mais ambiciosos (que exigirão muitos anos de trabalho): tocar a obra completa para violão de Villa-Lobos, ler toda poesia de Baudelaire em francês, conhecer Paris, etc.

Como músico, qual seria o verdadeiro motivo da música para você?
Não fui eu que escolhi a música, mas foi a música que me escolheu. Desde criança não sabia brincar de outra coisa. Tudo que eu fazia estava relacionado com música. A música para mim não é apenas diversão, lazer, prazer, profissão. É uma relação mais profunda, nem mesmo sei explicar. Sei que o mundo não teria muito significado para mim se não houvesse música.

O que vocês quis transmitir para as pessoas com o livro “Reencantamento do Mundo”?
Há muitas coisas que queremos transmitir quando escrevemos um livro de análise de obras artísticas. Mas, ao fazer o livro, não pensei em nada específico a ser transmitido. O livro trata-se de uma compilação de textos que eu e meu irmão, o professor Wanderson Lima, resolvemos publicar. Percebo que há no livro a idéia recorrente de que um filme é uma obra de arte que deve ser analisada em seus aspectos formais e não como um mero pretexto para se discutir outros assuntos.

Quais seus autores preferidos da literatura piauiense?
Devo dizer que a idéia de “literatura piauiense” não me agrada muito. Sempre penso em Literatura como algo universal e não apenas como uma produção local desvinculada do todo. Assim, gosto de um autor pelo que ele escreveu, e não porque nasceu no Piauí. Mas, levando em conta que literatura piauiense é aquela produzida por autores nascidos no Estado do Piauí, as produções que mais me agradam estão na poesia. São eles: H. Dobal e Da Costa e Silva. Admiro também outros escritores: Assis Brasil, Ávaro Pacheco, Mário Faustino e O.G. Rego de Carvalho.

O que você sugere para as crianças que pretendem ingressar na carreira de músico?
Sugiro que estudem bastante e não encarem a música como uma simples atividade lúdica e relaxante. Com isso, não pretendo afirmar que a música não deva promover a recreação, a alegria e o bem-estar psíquico. Quero afirmar que a música (para aqueles que desejam se profissionalizar) é uma arte complexa, que exige pesquisa, estudo, treino e dedicação. É uma profissão como qualquer outra.

No que você se inspira para produzir sua música?
Certa vez perguntaram para o escritor Ignácio de Loyola Brandão em que ele se inspirava para escrever. Ele disse: “Minha inspiração é o prazo”. Eu vejo as coisas também por esse lado. Se alguém me contrata para compor a música de um filme, por exemplo, eu devo entregá-la no prazo determinado, independente da inspiração. O artista não pode parar um projeto, em um mundo veloz como é o de hoje, por falta de inspiração. Se você tem um prazo, deve cumpri-lo. Por outro lado (e de maneira paradoxal), não acredito também que a arte é só transpiração. É mentira! Há dias em que realmente as coisas não fluem. Comenta-se que Fernando Pessoa escreveu o famoso “Guardador de Rebanhos”, do seu heterônimo Alberto Caeiro, praticamente de um só fôlego. Isso sim é inspiração, não é tão-somente labor artístico.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"Encaro o ato de escrever como um trabalho que envolve pesquisas e experimentações da linguagem"

7.ª pergunta para DEMETRIOS GALVÃO


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série B/2009
João Victor
Denilson
João Neto
João Pedro

Demetrios Gomes Galvão nasceu em Teresina, em 1979. É poeta e historiador, atualmente cursa o doutorando em História do Brasil na UFPE. Autor de Fractais Semióticos (2005), Bifurcações no Diafragma do Tempo (2006) e do CD Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005).


Qual o poema que você fez e que mais gostou?
Essa é uma pergunta difícil de responder, pois gosto de vários de meus poemas, tanto de alguns antigos, como de alguns novos também. Mas tem um que tenho um apego muito grande que se chama “Nenhuma epígrafe para nós, pelo menos por enquanto”. Creio que esse é um texto que, mais ou menos, inicia minha fase como poeta. Quero dizer, que é pelo momento em que escrevi esse texto que começo a sentir uma certa segurança enquanto poeta.

Em que você se inspira para criar seus poemas?
Minhas idéias para escrever vêm de diversas direções, principalmente de setores imagéticos como as artes plásticas e o cinema, mas também me ligo muito em poetas que tenham um forte apelo a uma escrita imagética como Roberto Piva e Vicente Huidobro.

Para você, a poesia é um trabalho ou apenas um hobby?
A poesia para mim é coisa séria, encaro o ato de escrever como um trabalho que envolve pesquisas e experimentações da linguagem. Não vejo minha poesia apenas como um passatempo. Fora o ato de escrever, sempre que posso estou envolvido em recitais e rodas de poesia, a fim de lançar os textos para fora do papel por meio de performances e utilizando outros suportes para a poesia, que não só o papel e a voz, utilizando-se por vezes de percussão e de elementos eletrônicos.

Você enfrentou alguma dificuldade em sua carreira? Qual?
As dificuldades são muitas. Primeiro, de conseguir os livros de determinados autores, até porque Teresina não possui livrarias especializadas e as bibliotecas públicas são bastante deficientes. Com relação a isso, a internet tem solucionado em parte, pois agora podemos pedir livros a livrarias direto em seus sites. Outra dificuldade é referente aos interlocutores, ou seja, pessoas que também escrevem e que sejam acessíveis ao diálogo e a troca de idéias. Uma terceira, seria quanto a publicação. No início, eu publicava meus poemas em fanzines, material alternativo de poucas páginas e pequena tiragem confeccionado por mim mesmo, que tinha reprodução por meio de xérox e divulgação gratuita. Com o tempo, passei a produzir pequenos livretos, também alternativos. É importante mencionar que existem os concursos literários promovidos pelo Estado e pelo Município, porém há sempre o crivo de uma comissão que escolhe “os melhores”, muitas vezes de qualidade duvidosa. E além disso, a falta de compromisso em publicar as obras dos primeiros colocados. Desse modo, tenho um livro publicado por um concurso realizado pela FUNDAC (Fundação Cultural do Piauí) e um outro que a mesma instituição está a me dever e aos outros autores há pelo menos uns 3 ou 4 anos. Mas quanto à publicação, a internet também tem ajudado bastante, pois tem aparecido espaço para publicações em sites, blogs e revistas virtuais.

O que o senhor já teve livro publicado através de Concursos Literários da FUNDAC. Como o senhor avalia esses concursos?
Esses concursos têm um caráter político de “dar a ver” o “trabalho” de uma gestão. Os livros levam o carimbo e a marca de um governo, pois livros vão para as estantes das bibliotecas e perduram ao longo do tempo. Os livros fazem parte de estratégias de marcar no tempo os feitos de um ou outro gestor. No mais, esses concursos não são levados a sério pelas pessoas que cuidam da cultura. Na maioria das vezes são pessoas despreparadas e só realizam trabalho burocrático, são burocratas da cultura. Por isso a FUNDAC está devendo todas as publicações do último concurso que aconteceu há pelo menos uns 3 ou 4 anos, e quando publicam, as edições vêm cheias de erros.

Você tem preferência por algum estilo literário? Poderia comentar o motivo dessa preferência?
Gosto muito de escrita imagética, de escrita que tem força e vigor. Não sou muito simpático à poesia que se basta em si. Tenho preferência pela poesia surrealista, pelos trabalhos dos escritores beatniks americanos e por um grupo de poetas brasileiros da década de 1960, como Roberto Piva e Claudio Willer. Mas também existem escritores que eu tenho um carinho muito especial, como Caio Fernando Abreu, Ana Cristina Cesar e também alguns amigos que são ótimos poetas como Mardônio França, Uirá dos Reis e Ayla Andrade, pessoal que produz a revista virtual Corsário.

De que maneira a publicação de fanzines e outras publicações alternativas influenciou sua maneira de escrever?
Sou uma pessoa que tem uma formação enquanto leitor muito ligada ao universo dos fanzines. Desde a metade da década de 1990 que me relaciono com essas publicações que compõem práticas de leituras, de produção e circulação de textos. No início, eu me correspondia com pessoas de todo o Brasil, mandava meus poemas e fanzines para as pessoas e elas me mandavam os seus materiais, suas publicações. Nessa troca de idéias íamos divulgando nosso trabalho. O massa é que os fanzines constituem um mundo paralelo. Onde parece que as coisas não acontecem ou não podem existir, lá no universo dos fanzines tudo pode e acontece. Então o lema do “faça você mesmo” é o guia desses trabalhos. Por isso tenho uma relação forte com o universo alternativo. Assim a minha prática nesse universo se encontra presente também na minha escrita.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“Sem leitor, não há literatura”


7.ª pergunta para CINEAS SANTOS


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série A/2009
Ana Karoline
Breno Celso
Joice Alexandrino
Marina Lima
Snayla Natyele



Cineas Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, sertão do Caracol, PI. Aos 17 anos chegava a Teresina, em 1965. Formou-se em Direito, mas dedicou-se à Literatura. À frente da Oficina da Palavra e da Fundação Quixote, Cineas é também um dos idealizadores e organizadores do Salão do Livro do Piauí, SALIPI, e responsável pela publicação de vários autores piauienses, como Da Costa e Silva e Mário Faustino. Atualmente, preside a Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Escreveu os livros Tinha que Acontecer (contos), Miudezas em Geral (poemas), As Despesas do Envelhecer (crônicas), O Menino que Descobriu as Palavras (infantil, com ilustrações de Gabriel Archanjo), Nada Além (poemas).


Quando começou a gostar de escrever?
Menino ainda, no sertão do Caracol, certa noite, ouvi uma tia cantar um folheto de cordel, "A história do Pavaão Misterioso" e experimentei, pela primeira vez, a emoção estética, algo que eu nem sabia o que era. Naquele momento, decidi que, quando crecesse, queria fazer aquilo. Ainda não cumpri a pomessa, mas não desisti.

Qual a maior dificuldade em lançar livros no Piauí?
Todas as dificuldades imagináveis e mais algumas. Em primeiro lugar, não existem editoras(profissionais) entre nós. Em segundo lugar, os concursos literários são poucos. Finalmente, não existem leitores. Sem leitor, não há literatura. Curiosamente, a Constituição do Piauí estabelece que o ensino da literatura piauiense é obrigatória nas escolas públicas e privadas do Estado.

Como surgiu a oportunidade de apresentar um programa de televisão?
A ideia foi do Jesus Filho, diretor da TV Cidade Verde. Ele insistiu tanto que resolvi arriscar. Conheço as minhas limitações, não sou do ramo, não disponho de recuros financeiros nem técnicos para fazer um grande programa. Faço algo quase artesanal, mas, a despeito disso, o programa é diferente e tem alguma repercussão. Faremos até quando for possível.

Como autor, apresentador e advogado, você já pensou em escrever uma autobiografia?
Quintana afirmava, com propriedade, que qualquer confissão não transfigurada pela arte é uma canalhice. Concordo. Como ser isento falando de você mesmo? Ou você exagera para mais ou para menos. Machado, espertíssimo, matou o Brás Cubas para que ele pudesse escrever suas memórias com isenção. Além disso, minha vida nada tem de extraordinário. Sou um cidadão comum. Nunca pensei em memórias.

Você tem alguma obra que foi ou é muito importante na sua vida?
Há obras que nos marcam para sempre. Sem esforço algum, posso citar, no meu caso: "O Estrangeiro", "O velho e o mar", "Infância", "Ninguém escreve ao coronel", "Memórias póstumas de Brás Cubas".

Quais foram as maiores dificuldades em conciliar as atividades de advogado e de escritor?
Nunca fui advogado. Sou apenas graduado em Direito. Minha praia é a sala de aula. Sempre quis ser professor. Quanto a escritor, sou, quando muito, um modesto aprendiz. Faltam-me, para tanto, talento e disciplina.

Qual foi seu maior objetivo ao fundar a Oficina da Palavra?
A Oficina da Palavra nasceu como um simples curso de português. Os amigos, os artistas, os intelectuais piauienses é que fizeram-na um espaço cultural. Aqui, eles mandam. Sou uma espécie de "zelador". Aqui, diarimanete, encontro meus amigos, converso, brinco, me sinto feliz. É a minha "igreja".

domingo, 4 de outubro de 2009

“Um bom poema é um meio de expansão e experimentação da linguagem”


7.ª pergunta para WANDERSON LIMA


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série B/2009
Ana Flávia
Beatriz Moura
Letícia Mariz
Letícia Meneses



Wanderson Lima nasceu em Valença do Piauí em outubro de 1975. Poeta e professor. Publicou "Escola de Ícaro – O Exercício Necessário da Queda", "Morfologia da Noite", "Balé de Pedras" (poemas) e "Reencantamento do Mundo - notas sobre cinema" (ensaios, com Alfredo Werney). Atualmente, edita a revista eletrônica dEsEnrEdoS.



Quando você percebeu que poderia ser escritor?
Fiz meu primeiro verso com 9 anos e, desde que me entendo por gente, quis me tornar ou goleiro de futebol ou escritor. Entrei na educação, inicialmente, para não me afastar da leitura e escrita. Hoje, me sinto realizado como professor. Mas, sem dúvida, minha vocação profunda é escrever.

Você acha que os jovens de hoje devem ler mais livros? Você recomendaria algum dos seus? Qual?
Vivemos na sociedade da imagem e dos hiper-estímulos de sons, cores e movimentos intrínsecos à imagem. Particularmente, sou favorável à imagem: fotografia, cinema, video-game, internet, etc. Para mim, são formas sintéticas e complexas de transmissão de informação e conhecimento. Não considero um filme inferior a um romance, nem uma foto inferior a um poema. Mas vejo com preocupação a conduta de pessoas que estão deixando de lado a leitura em prol da imagem; estas pessoas estão se prejudicando, se limtando, se tolhendo de experiências fundamentais, que só a leitura pode oferecer. Antes de qualquer livro meu, eu recomendaria a leitura dos clássicos, pois eles pensaram o mundo com mais complexidade e aprimoraram o poder de expressão da linguagem.

Em que ou em quem é a inspiração do seu trabalho?
São muitas. Nos últimos tempos, as maiores fontes de minha inspiração têm sido, além das leituras de outros autores, o cinema e as memórias que tenho de minha avó, Raimunda Lima.

Você exprime alguns de seus sentimentos em seus trabalhos? Por quê?
Quando faço poesia, evito o derramamento sentimental. Um bom poema, no meu ponto de vista, é um meio de expansão e experimentação da linguagem e não uma forma de confissão. O poeta deve sair do palco e deixar a linguagem brilhar.

Por que você faz poemas de difícil interpretação para certas pessoas?

Não sei. E, na verdade, o fato de um poema ser difícil não é mérito nem demérito. Entender um poema às vezes exige não examente grande capacidade intelectual, mas uma espécie de disponibilidade, de concentração e de consciência que o dizer dos poetas costuma ser oblíquo, indireto.

Para quem não tem o hábito de leitura qual livro de sua autoria você recomendaria? Por quê?
Eu procuraria conhecer melhor a pessoa e sugeriria algo próximo dos interesses dela. Poderia ser um livro meu, mas também poderia ser de qualquer outro autor.

Além de escritor, você também é professor. Qual dessas duas atividades você prefere?
As duas coisas se interpenetram. Se dou boas aulas, é porque li e escrevi muito; se li e escrevi muito, tenho chances de dar boas aulas. Uma coisa implica a outra. Porém, como disse no início, minha vocação profunda é ler e escrever.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

“Sou exigente como leitor, como escritor e principalmente como editor”


7.ª pergunta para KENARD KRUEL


Colégio São Francisco de Sales – DIOCESANO
Prof Adriano Lobão Aragão

Alunos – 7ª série A/2009
Francisco José
Maria Clara Silva
Ulhiana Lopes
Rodrigo Holanda
Luis Felipe



Kenard Kruel nasceu em São Luís (MA). Bacharel em Direito, Licenciado em Letras Português e Inglês, presidente do Sindicato dos escritores do Piauí e da Associação Piauiense de Imprensa. É autor dos livros Torquato Neto ou a Carne seca é Servida (2001), Gonçalo Cavalcanti - o intelectual e sua época (2005), Djalma Veloso - o político e sua época (2006) e O. G. Rêgo de Carvalho - Fortuna Crítica (2007). Edita o blog Kenard Kaverna.


Qual dos seus trabalhos foi o mais relevante e o que mais lhe marcou?
A publicação do livro Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, lançado no dia 14 de março de 2008, no Espaço Cultural do Nova Brisa, na Avenida Presidente Kennedy. Fruto de 30 anos de pesquisa. Dividi o livro da seguinte maneira: 1) dados biográficos; 2) antologia poética (do primeiro ao último poema de Torquato Neto, inclusive dando publicidade aos dois livros inéditos que ele deixou: O fato e a coisa e Pesinho pra dentro, pesinho pra fora); 3) fortuna crítica, além de um texto quase inédito sobre a cultura popular, publicado precariamente no jornal O Dia, em 1964, e cartas para alguns amigos, entre eles a cantora, compositora, jornalista Lena Rios, e o empresário musical Magalhães (dos Cartolas). Já está com a segunda edição quase esgotada. Foi revista e ampliada, em breve saindo a terceira edição.

O que o influenciou a seguir esta carreira de escritor e editor?
O meu pai (Antônio de Sousa Santos) gostava muito de ler. Ele se deitava numa rede com vários livros ao chão e passava o dia lendo, ouvindo música (Martinho da Vila era o seu cantor preferido). Meu pai faleceu em 1984, deixando este legado para mim. De ser um grande leitor. Aos 10 anos de idade, passei a freqüentar o jornal Folha do Litoral, em Parnaíba. Limpava o chão e os tipos do jornal. Ficava admirado quando alguém chegava com um texto para ser publicado. Mais ainda quando alguém se sentava à maquina e ali mesmo produzia o seu texto. Decidi que seria jornalista. Passei a escrever. E a importunar o pessoal do jornal para publicar o que eu escrevia. Tudo era jogado na sexta página. Até que um dia, abri o jornal e vi meu nome lá. Orgulhoso, fundei o meu próprio jornal – Batalha do Estudante, com a cumplicidade do seu Vicente Correia, que me emprestava a máquina de escrever, e da Cora (esposa do conselheiro Olavo Rebelo), que me dava o papel, o stencil e permitia que eu utilizasse o mimeógrafo do Colégio Estadual Lima Rebelo, onde eu estudava e ela era secretária. De jornalista para escritor, foi um pulo. Como escritor, eu me inspirei no poeta José Elmar de Melo Carvalho, quando este trabalhava nos Correios, em Parnaíba. Eu o visitava todos os dias. Ele, entre uma carta e outra, que ia colocando no escaninho, ia me limando na arte poética. Generoso, me passava livros, corrigia meus poemas, me honrava com recitais exclusivos. Com ele e mais o poeta Paulo Couto publiquei o meu primeiro livro (de poemas) – Em Três Tempos (1979), com capa do Vilson, impresso em Teresina, na Comepi. Atualmente minha área de atuação é mais biografia e pesquisa no campo histórico. Quanto a ser editor, o meu guru é o professor, livreiro e editor Cineas Santos. Uma frase dele me marcou profundamente: mostramos o nosso amor por um escritor, lendo-o, e, mais ainda, editando-o. Não me lembro das palavras exatas, no momento, mas o sentido é este. Seguindo os seus passos, criei a editora Zodíaco, que já lançou aos ventos da publicidade escritores locais, nacionais e até do exterior. Como não tenho obrigação com o lucro, edito quem eu acho que merece. E até agora tenho acertado nas minhas escolhas. Sou exigente como leitor, como escritor e principalmente como editor.

É difícil encontrar público leitor no Piauí?
Eu tinha esta visão até ser nomeado diretor da Biblioteca Pública Estadual Des. Cromwell de Carvalho (10 de dezembro de 2001 a 7 de março de 2002), no segundo governo Hugo Napoleão. Apesar da Biblioteca Des. Cromwell de Carvalho ser muito carente de livros (os existentes são por demais desatualizados, em se tratando da área didática), a freqüência ali é muito grande. E poderia ser melhor se o acervo fosse atualizado e o espaço oferecesse conforto. Como ser diretor da Biblioteca Des. Cromwell de Carvalho é ser diretor também do Sistema de Bibliotecas Públicas do Estado, passei a visitar as demais bibliotecas. Todas lotadas, todas as horas do dia. Antes, quando eu fui coordenador do Projeto Petrônio Portella, da Fundação Cultural do Piauí, idealizei o Projeto Livro nas Escolas, indo de escola em escola com livros de autores piauienses e outros. Sucesso total. Fui a Fortaleza, São Luís e Brasília. O Projeto Livro nas Escolas foi bastante premiado. Além de livros, mostrava dança, cinema, teatro, artes plásticas, entre outras manifestações artísticas e culturais. Percebi, assim, que temos público leitor, e exigente. O que falta é a realização de mais projetos voltados para o estímulo da leitura. Atualmente. Não temos isso.

Você acredita que a televisão atual e os video-games alienam a mente das pessoas?
Tudo que estimula o cérebro é bom. Infelizmente, a televisão brasileira, no geral, é da pior qualidade, em sua programação. Temos que sair catando um programa ou outro. Atualmente, o meu canal preferido é o 16, da Assembléia Legislativa. Deveria ser o 2, da TV Cultura. Mas, esse é como orelha de freira. Ninguém vê. Não tem nada na grade dele que me agrade, por exemplo. O Rodrigo Ferraz ainda não mostrou a que veio, depois de quase sete anos ou mais na direção da TV Cultura. Parece que não tem vida inteligente ali dentro. Quem achou que a TV Assembléia seria um saco, como eu, por exemplo, se enganou redondinho. Que bom. A televisão brasileira, por exemplo, é uma ilha repleta de urubus: se banqueteiam de carniça. Só há divulgação para assassinatos, estupros, sequetros, politiquices, catástrofes, Raramente há a divulgação de um lançamento de um livro, de um show, de uma peça de teatro, de uma dança, de um cientista recebendo prêmio por sua descoberta. Infelizmente, um imbecil disse que o que dá ponto no ibope é droga, sexo e sangue. E haja baixaria na TV brasileira! Os video-games fazem a meninada fluir mais em seu raciocínio. Eu mesmo, de quando em quando, me pego com um ou outro. Os pais, mais uma vez, neste momento, poderiam ajudar a separar o joio do trigo. Tanto no uso da televisão quanto no uso dos video-games. Tudo tem dois lados.

Você já se arrependeu de publicar alguma matéria? Se sim, poderia comentá-la?
De várias. Todas que eu, deliberadamente, ofendi as pessoas. Eu era um jornalista implacável. Uma por exemplo: comentando um livro do professor A. Tito Filho, passei a atacá-lo, de forma impiedosa, por meio de suas filhas. Eu não podia admitir que um cultor da língua portuguesa, como ele, registrasse suas filhas com nome das estrelas do filme E o Vento Levou. As filhas do saudoso mestre levam O'Hara em seus nomes. Ele foi à redação do Jornal da Manhã, chorou na minha sala, e disse que eu poderia atacá-lo sempre, mas que deixasse sua família fora dos nossos assuntos. Ver o professor A. Tito Filho chorar me tocou muito. Passei a amá-lo. Passei a freqüentar mais a Academia Piauiense de Letras. Tornei-me amigo de sua esposa, dona Delci, e de suas filhas. Amizade esta que ainda se faz muito presente em meu coração. Realmente, a família é sagrada. Esta foi a maior lição da minha vida. Ainda hoje vivo a me desculpar pelo grosseria cometida contra o professor A. Tito Filho.

Qual o seu livro preferido? Por quê?
Breviário dos Políticos, atribuído ao cardeal Mazarino. É uma obra atual depois de 300 anos, basta ver o acontece nas Cortes de Justiça, no Congresso Nacional, nos Palácios de Governo. Na sociedade em geral. Se não tem a popularidade — e a densidade — de O Príncipe, do Maquiável, o Breviário dos Políticos leva vantagem por não dar conselhos a um príncipe em particular. É um guia para aqueles que sonham conquistar o poder. Mazzarin sucedeu ao Cardeal Richelieu, o todo-poderoso ministro de Luís XIII, em 1642. Não tinha nem a classe nem a sabedoria de Richelieu, mas era esperto o suficiente para circular com desenvoltura pela Corte, a ponto de assumir a educação do jovem príncipe que o Mundo conheceu como Luís XIV. Vem dessa intimidade com o poder a matéria-prima para os conselhos que em 300 anos não perderam a atualidade. Dele, podemos extrair: “Mantém sempre presente estes cinco preceitos: simula, dissimula, não confies em ninguém, fala bem de todo mundo e reflete antes de agir”.

O que falta para o desenvolvimento e divulgação da cultura piauiense?
O Governo do Estado e a Prefeitura de Teresina atualmente não têm uma política compromissada com a cultura piauiense. Reconheço algumas ações isoladas. Estou confiante na atuação do Cineas Santos, na presidência da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Ele é do ramo. Tem muito prestígio com o presidente Lula, com o governador Wellington Dias e com o prefeito Silvio Mendes. Fez sua equipe, com pessoas talentosas, honestas e capazes. É esperar o resultado. O Piauí deveria levar vantagem na área cultural. Vejamos: em cada cidade hoje temos uma Academia de Letras instalada. Se elas funcionassem, o mínimo que fosse, haveria um pouco de agitação cultural no Estado. Mas, elas não funcionam. São casas de vaidades pessoais. A própria Academia Piauiense de Letras, quase centenária, não funciona porque vive das migalhas do Governo do Estado. São homens ricos, inteligentes, educados, mas pobres de ações. Além disso, os artistas e os intelectuais quando assim querem, apenas olham para os seus próprios umbigos. Podemos falar da cultura baiana, cearense, maranhense, mineira, carioca etc, mas, aqui, infelizmente, falamos da Maria da Inglaterra, do Albert Piauí, do Cineas Santos, do Pedro Costa, da Dora Parentes, do Ací Campelo, do Arimatan Martins, do Edvaldo Nascimento, do Jandaia, do Nonato Oliveira, do Mestre Expedito, do Mestre Dezinho, do Torquato Neto, do Mário Faustino, do Da Costa e Silva, ou seja, de individualidades. Não há um projeto coletivo. Um envolvimento geral. Engajamento total. "Teresíndia" se divide em grupinhos, ainda, infelizmente. Estou apostando nestes pontos de Cultura do Governo Federal. Esta é a maior novidade nos últimos anos, em termos de ação de governo. Falar da falta de espaços para a cultura piauiense nos meios de comunicação é chover no molhado. Como é também chover no molhado cobrar dos professores divulgação do que acontece nas letras e nas artes piauienses em suas salas de aula. Dessa forma, o que resta, meus caros e minhas caras, é acreditar que, em vocês, que ora entrevistam este velho urso hibernador em sua kenard kaverna, haja uma luz no final do túnel. Obrigado, e retornem sempre!