domingo, 6 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Ferreira Gullar



Os Últimos Dias
[Carlos Drummond de Andrade]

(...)
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

(...)

[A Rosa do Povo, 1945]


- *** -



Traduzir-se
[Ferreira Gullar]

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

[Na Vertigem do Dia (1975-1980)]

2 comentários:

EMERSON ARAÚJO disse...

Adriano, a poesia dos dois poetas brasileiros é tremenda. Ouça "Traduzir-se" de Gullar na voz de Fagner é de arrepiar. Abração!

Adriano Lobão Aragão disse...

Concordo. Fagner realizou algumas grandes realizações musicais naquela época. Destaco também o trabalho que ele fez com a poesia de Florbela Espanca, "Fanatismo", e de Cecília Meireles, "Canteiros" (que na verdade foi feita a partir do poema "Marcha"). Abraço.