quarta-feira, 14 de março de 2012

A Casa das Máquinas de Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri e suas máquinas



Casa das Máquinas (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2011) é o livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Poeta e arte-educador carioca, Alexandre apresenta-nos uma poesia marcada por um intenso labor estético-descritivo, explorando as inusitadas possibilidades e rearranjos da linguagem. A seguir, apresentamos uma conversa com o autor, na qual discorremos sobre seu livro e sua poética.



Adriano Lobão Aragão - Casa das Máquinas é um livro organizado a partir de uma temática bem definida. Pode-se dizer que se configura como uma verdadeira engenharia verbal. Como surgiu esse livro-máquina?

Alexandre Guarnieri - O Casa das Máquinas aponta para uma mixagem de muitas das minhas referências culturais da adolescência: a ficção científica, as histórias em quadrinhos, as imagens da Revolução Industrial, as vanguardas artísticas da virada do século XIX para o XX (coroadas com a magnífica produção cinematográfica do filme Metropolis, de Fritz Lang, homenageada na capa do livro [cogitei igualmente usar um fotograma do filme Tempos Modernos, do Chaplin]). A promessa de um mundo maravilhosamente automático sempre me pareceu uma armadilha perigosa e parte dessa crítica consta tanto em Isaac Asimov quanto nos Jetsons! Lembro de ter sido tomado por uma verdadeira paixão pelo tema logo depois de ter escrito o primeiro poema do livro, chamado "3/ três engrenagens", que nasceu como um poema-objeto feito com papel vegetal e acetato (nunca foi de fato construído, mas teria sido em metal e acrílico). A temática me pereceu estar muito integrada às minhas escolhas pessoais, meu caminho técnico, enfim, todas as experiências com que tive contato no campo da experimentação poética, dos irmãos Campos ao Arnaldo Antunes, passando pelo Gullar neoconcreto e seus livros-poemas, o poema-processo, o poema-práxis, Mário Chamie e Wlademir Dias-Pino, pelo E.M. de Melo e Castro. Penso que busquei de alguma forma incorporar no Casa das Máquinas a lógica dos livros-poemas. Mas a escolha pelo foco textual (sobre o plástico e visual) foi consciente, sob a égide das estéticas de João Cabral de Melo Neto, Francis Ponge, Mauro Gama, do Gullar (agora o anti-concreto), entre outros mestres. A ideia de um tema central estruturando tudo sempre me pareceu o caminho lógico a seguir. Justamente por isso levei tanto tempo organizando o livro, mais de 15 anos desde a primeira versão daquelas "três engrenagens" (de 1995). Anos depois, em 2001, chegou a existir uma versão presumidamente definitiva do livro, quando Mauro Gama redigiu seu posfácio. Mas essa versão contava com um capítulo inteiro forjado a partir de 20 frames de um poema em vídeo, chamado "CiClotron" (que mostrei na minha dissertação de mestrado, preferindo à época, chamar de "poema cinético", só com palavras movimentadas sobre fundo branco, ao invés de vídeo-poema, conceito que circulava, onde quase sempre coexistiam imagens filmadas e palavras, superpostas). O aspecto atual do livro, com esse capítulo substituído pelo módulo entitulado "Urbi et Orbitron", seguiu justamente a operação de limpar o terreno, separando o eminentemente visual do puramente textual, muito embora no projeto gráfico tenha buscado homenagear muitas das experiências que citei, incorporando à capa uma chave liga/desliga, numerando estrofes como num flipbook, decalcando pequenas figuras. Existe muita carga oriunda do universo das artes plásticas no livro (Magritte, Duchamp, Tinguely, Palatnik, entre outros). É óbvio que ao longo desses 15 anos fui escrevendo outras coisas bem variadas, mas me parecem complicados os anos que terei pela frente na organização temática de um próximo trabalho que venha a publicar. Chegar a um resultado similar ao dessa Casa das Máquinas é algo que pretendo perseguir. Espero que os anos que esperei para lançar meu primeiro livro se reflitam no reconhecimento dos leitores dessa "engenharia verbal" (que você citou na pergunta), muito embora não espere ser apreciado pelos mais conservadores, nem pelos mais "radicais". Fiz o que estava ao meu alcance, com as ferramentas que dispunha, e adoraria ter fôlego no futuro para mais uns quatro livros (quem sabe).


Adriano - Por que tantas epígrafes, citações, no livro?

Alexandre - Penso que procurei construir para mim mesmo um mapa do meu próprio paideuma, gostei tanto de contemplá-lo que acabei por incorporá-lo ao livro... parte das epígrafes eu havia colecionado no processo de escrita mesmo, ao longo destes anos em que fui forjando o aspecto final desta Casa das Máquinas, parte busquei depois da estrutura pronta. Eram nomes que eu precisava homenagear, com os quais eu queria muito dividir a aventura que foi para mim o processo todo... queria dar aos leitores a oportunidade, ainda que de forma muito passageira, de tomar contato com esses nomes, ligados às minhas escolhas técnicas e estéticas no campo da poesia. As epígrafes representam também anotações do caminho (uma intertextualidade explícita), como as incrições na cela de um prisioneiro, salmos, frases, datas, riscos, como os recortes colados nas paredes sujas da oficina mecânica, cartaz de mulher nua, manchas e impressões dos dedos de graxa, "ruídos limpos" com os quais busquei extrapolar os limites do livro, um olhar para fora, como janelas abertas, revelando (sob a minha própria lente, tentando não perder o foco no campo semântico do livro) parte das paisagens descritas por outros poetas. No projeto gráfico, seguindo uma sugestão do autor das orelhas do livro, o poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves (bastante homenageado no livro), optei por posicionar, além das figuras e títulos, também as epígrafes à esquerda, nas páginas pares, poemas à direita, nas ímpares, o que me pareceu funcionar muito bem.

Adriano - Há uma arquitetura do livro, fisicamente falando, que dialoga diretamente com o tema evocado ao longo das páginas, conforme você mesmo comentou. Há também alguma influência das histórias em quadrinhos nessa arquitetura verbo-visual?

Alexandre - Sim, claro que há. Sempre encarei com bastante reserva livros de poemas ilustrados, porque vi e tenho visto muita associação pobre e gratuita entre imagens e palavras (inclusive em vídeo-poesia), muito embora o Surrealismo tenha proposto um descolamento entre as coisas e seus discursos (o que nem sempre vem a ser o caso). Para a matriz que escolhi no livro, precisei tratar com o máximo cuidado a inserção das imagens, criando um nexo funcional (longe de ser surreal) que enriquecesse a experiência da leitura, e consequentemente fosse de serventia fundamental para o projeto gráfico em si (o livro não seria o livro sem as imagens). A idéia de um catálogo de pequenas coisas, a realização de um micro-inventário visual integrado ao universo do livro foi o que planejei. Meu primeiro contato com a produção literária se deu através das histórias em quadrinhos, a linguagem instigante das formas, dos quadros e balões (ah, e das oonomatopéias!) me arrastaram do mundo dos dos desenhos para o mundo das palavras (que são também desenhos), desde a minha infância. Há muitos pontos de contato entre a escrita ideogramática (e caligramática) e o universo das hqs. Me interessava muito como um autor modulava o fluxo de leitura ordenando campos e superfícies nas páginas, como numa partitura espacial, dirigindo o olhar do leitor, programando um padrão de busca e decodificação em lógicas internas específicas à cada história e necessidade narrativa. Nos anos 90, tive a chance de me aproximar de alguns autores dO poema-processo e lembro como foi emocionante a ida à casa do falecido Álvaro de Sá (que lançou, inclusive, um livro chamado "Poemics", de 1991), folhear um dos raríssimos exemplares (merecia um fac-símile, uma edição de luxo!) do livro "A Ave" (de 1956), de Wlademir Dias-Pino. É muito coerente que a poesia visite as hqs e vice-versa! Para aproximar mais ainda o "Casa das Máquinas" dos quadrinhos, eu diria que o livro tem uma inteligência sequencial básica, tanto nos primeiros poemas, individualmente (os que estão explicitamente numerados), quanto na estrutura maior. Trata-se da proposta de uma grande montagem, um encadeamento que parte de peças menores (miúdas naturezas-mortas) para a construção de uma grande metáfora do funcionamento (um "anti-deus-ex-machina"?). Quem sabe se não foi essa a lição da maquinação (de imagens que colaboram para textos que colaboram para novas imagens) que aprendi com os gibis mais fantásticos da minha infância?

Adriano - Há um mudança significativa nas últimas partes de seu livro, onde, ao que parece, a máquina é também o próprio homem e suas relações sociais. É isso?

Alexandre - Como tema explicitado, sim, você tem razão, isso se verifica mais diretamente numa leitura dos dois capítulos finais, muito embora uma temática humana (da falência, da entropia, dos processos de deterioração, dos defeitos e desajustes) esteja presente metaforicamente desde os poemas iniciais. Mas existe de fato uma progressão que parte das pequenas naturezas-mortas (de peças e partes soltas), as conecta nas máquinas das fábricas e mergulha no humano (na "graxa" do humano, sendo através das relações com a cidade e a violência urbana, com o trabalho, ou mesmo as relações interpessoais) e os transcende numa maquinaria maior, quiçá cósmica (em "daemon-endo-machina" ou em "blecaute", por exemplo).

Adriano - O livro é todo ilustrado quase todo com imagens que remetem ao universo das máquinas, mas, próximo ao final, encontramos a figura de ouroboros e até mesmo um símbolo, ao que parece, maçônico, além de outras místicas e místicas no corpo do poema. Seriam mais referências a essa "máquina cósmica" mencionada?

Alexandre - Exato, Adriano. As imagens do Ouroboros sempre me fascinaram muito porque justamente apontam para a infinita capacidade de renovação, de fecundidade, de eterno retorno, de reinterpretação do mundo, da aquisição de renovadas chaves de entendimento e codificação da realidade e da criação, e acabaram representando, quase no final do livro, meus próprios votos de perpetuação para os próximos trabalhos, o constante contato com a linguagem e o compromisso de renovação poética. O moto-contínuo sempre foi uma promessa para a construção de uma espécie de máquina dos sonhos, cujo funcionamento fosse perpétuo e perfeito, que vencesse, portanto, toda perda de energia, todo o atrito, toda a entropia, e é obviamente um sonho da alquimia. Outros poemas apontam para esse universo dos símbolos mágicos, das parábolas mitológicas e alquímicas, em catálise pesada "uma receita secreta [para transformar chumbo em ouro!] teria sido cifrada, por séculos, na maçonaria", na "pedra fundamental" há uma alusão à pedra cúbica (um símbolo maçom; outra pedra, a filosofal, seria necessária para obter o elixir da longa vida, a imortalidade, ou seja, ainda o moto-perpétuo), "o ninho de Ouroboros desenterra-se" em "mineração", as figuras de Hermes e Thor dialogam musicalmente em "cosmogonia sonora [...]", e tem mais (mas que os leitores descubram)!

Adriano - E quais os próximos passos do poeta Alexandre Guarnieri?

Alexandre - Bem, eu não tenho escolha senão seguir escrevendo, é meu vício, minha necessidade, boa parte de minha vida é ler e escrever. Espero continuar descobrindo novos poetas e artistas que me inspirem com seus trabalhos, que me alimentem, que me deem a chance de conhecer seus mundos, por díspares ou similares aos meus, que são muitos, como os de todos nós. Penso que criar qualquer coisa que seja nesse mundo é lutar no front menos guarnecido (sem fugir do corpo-a-corpo) contra a angústia da alteridade, contra o vácuo abissal do precipício mais sinistro. A baioneta mais eficaz é a da criatividade inquieta e insatisfeita. As satisfações nos estagnam, nos oferecem oásis de inércia, e, ainda assim, é uma satisfação criar algo que dê algum orgulho, mesmo que momentâneo! Quem sabe se meu próximo livro já não está sendo gestado para daqui há uns 2 anos? Enquanto isso, vou precisar de quem quiser me ajudar a divulgar o Casa das Máquinas (que foi uma aventura e tanto!), divulgando também aqueles em quem acredito, os companheiros na batalha das palavras, presentes e vindouros, com o apoio daqueles que amo e que me permitem amá-los.


[Parte dessa entrevista foi publicada no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 14 de março de 2012]

sexta-feira, 9 de março de 2012

dEsEnrEdoS 13 - Chamada para publicação




A dEsEnrEdoS (ISSN 2175-3903, Qualis B) é uma revista eletrônica de periodicidade trimestral que tem o propósito de estimular a criação artística e promover o debate de temas vinculados à literatura, língua, arte e cultura. Estamos recebendo textos - artigo, ensaio, resenha, poesia, conto, crônica e tradução - para avaliação até o dia 20 de março de 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mostra Cinema e Linguagem: Um Cão Andaluz



A mostra CINEMA E LINGUAGEM apresenta a grande obra do Surrealismo cinematográfico: “Um cão andaluz” (de Luis Buñuel e Salvador Dali). Essa obra inaugura um novo modo de se pensar a montagem e a linguagem cinematográfica como um todo. Não há um enredo tradicional e a narrativa é organizada por imagens oníricas e do inconsciente. Buñuel e Dali procuram se desvencilhar da razão e das associações tradicionais entre os planos da linguagem do cinema, para nos mostrar um mundo centrado na pura poesia e na sinestesia das imagens. Trata-se de uma obra essencial para compreender a linguagem das artes audiovisuais modernas!

Aguardamos a presença de todos e todas!

A entrada é franca.


FILME: UM CÃO ANDALUZ
DIREÇÃO: LUIS BUÑUEL E SALVADOR DALI
DATA: 06/ 03/2012 (TERÇA-FEIRA)
HORÁRIO: 18h30
LOCAL: CASA DA CULTURA (PRÓXIMO À PRAÇA SARAIVA- CENTRO DE TERESINA)

segunda-feira, 5 de março de 2012

são josé

[adriano lobão aragão]



estes que talvez aqui não mais se encontram abrigados
em respectivos jazigos que dos herdeiros herdaram
nesta terra se revestem de lembrança e esquecimento

sob a sombra de antigas árvores silêncio tardio
sob o passo lento de transeuntes e de abandonados
gatos leves passos sob céu chuva e nuvem se resguardam

apenas o ponto e o porto em que seus corpos decompostos
inertes se reencontram dispersos nesta mesma terra
semente perene como a noite que lhes protege

sob a sombra destes túmulos nas linhas desta lápide
talvez aqui se revestem de esquecimento e lembrança



[in as cinzas as palavras]

sábado, 3 de março de 2012

O peso do legado


Barrichello com as cores de Senna na cabeça


A foto em questão foi tirada no GP do Brasil de 2011, em Interlagos, que assinalou a última corrida de Rubens Barrichello na F1, após 19 temporadas.  O capacete utilizado homenageava Ayrton Senna, ídolo maior do automobilismo no país. Quando Ayrton faleceu em 1994, correndo pela mesma equipe, Williams, em que Rubens disputou sua derradeira temporada, o jovem Barrichello, com apenas 21 anos, chamou para si responsabilidades superiores a qualquer piloto brasileiro em atividade desde aquela época: atender à expectativa de uma nação em luto pela perda de um herói e continuar um legado de vitórias perpetrado por Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e imortalizado por Senna. Boa parte das ironias e chacotas dirigidas ao piloto nasceu, talvez de maneira inconsciente, da frustração por não vê-lo responder a tais expectativas. Esse início de carreira deixou suas marcas ao longo de toda sua trajetória, e o que parecia uma página virada no mais experiente dos pilotos de F1 em atividade na temporada de 2011 retorna na emblemática figura de seu capacete (que é a verdadeira face de qualquer piloto): despede-se da F1 sob as cores de uma demanda que não pôde cumprir (é certo que ninguém poderia) e carregando um forte desejo de continuar tentando. 


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

CINEMA E LINGUAGEM

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha


 A mostra Cinema e Linguagem continua nesta terça-feira (dia 28 de fevereiro), às 18h30, na Casa da Cultura (localizada no centro de Teresina, próximo à praça Saraiva). Desta vez, será contemplado o cinema inventivo de Glauber Rocha. O cineasta baiano é considerado, pela maioria dos nossos críticos e intelectuais, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Desde muito cedo se envolveu com a política e com as artes em geral, tornando-se um importante movimentador cultural do país.

Glauber Rocha se negou a copiar o cinema europeu, como muitos de nossos cineastas o fizeram em sua época. Dessa forma, ele se propôs a criar uma estética inovadora e uma visão crítica de nossa realidade social e política. Sua linguagem fílmica, avessa aos padrões da decupagem clássica, é repleta de experimentalismos e reveladora das contradições do universo latino-americano. Deus e o Diabo na terra do sol, filme lançado no ano de 1964 e indicado à Palma de Ouro no “Festival de Cannes”, é um marco do “Cinema Novo”. Além disso, é uma das principais realizações cinematográficas do diretor baiano.

Aguardamos sua presença no universo glauber-rochiano!



DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1963, Glauber Rocha) 
DIA: 28 DE FEVEREIRO DE 2012
HORÁRIO: 18h30
LOCAL: CASA DA CULTURA (PRÓXIMO À PRAÇA SARAIVA)

ENTRADA FRANCA
CINE-DEBATE APÓS A EXIBIÇÃO

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Alfred Tennyson

Home they brought her warrior dead
[Alfred Tennyson]

Home they brought her warrior dead:
She nor swoon’d, nor utter’d cry:
All her maidens, watching, said,
“She must weep or she’ will die.”

Then they praised him, soft and low,
Call’d him worthy to be loved,
Truest friend and noblest foe;
Yet she neither spoke nor moved.

Stole a maiden from her place,
Lightly to the warrior stept,
Took the face-cloth from the face;
Yet she neither moved nor swept.

Rose a nurse of ninety years,
Set his child upon her knee
Like summer tempest came her tears –
“Sweet my child, live for thee.”


* * *

Devolveram-lhe seu guerreiro morto:
[traduzido por Adriano Lobão Aragão]

Devolveram-lhe seu guerreiro morto:
Ela, porém, não desmaia nem chora:
E todas as damas velam em coro,
“Precisa chorar ou estará morta.”

Depois teciam discreto elogio,
Dizendo-lhe digno de ser amado,
Amigo sincero, nobre inimigo;
Mas dela, gesto ausente, silente o lábio.

Deixa, então, uma donzela seu posto,
E do guerreiro inerte, levemente,
Retira o fúnebre véu de seu rosto;
Mas dela, silente o lábio, o pranto ausente.

Rose, uma criada de longeva idade,
Sobre os joelhos seu filho descansa –
Vêm lágrimas em árdua tempestade
“Viverei para ti, minha doce criança.”

domingo, 26 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Elisa Biagini, poesia e tradução


Ao longo do mês de janeiro, iniciei uma série de traduções de poemas da escritora italiana Elisa Biagini, a ser publicada em breve na revista eletrônica dEsEnrEdoS. Elisa mora em Florença, Itália, após uma longa temporada nos EUA. Autora de seis livros de poesia, sua obra já foi traduzida para vários idiomas e publicada em diversos jornais e revistas na Itália e em outros países. Também atua como tradutora e artista visual. Seu trabalho pode ser acompanhado no site: www.elisabiagini.it. Conversando com a autora, por e-mail, é óbvio que poesia e tradução foram os temas recorrentes, conforme apresentamos a seguir.   


Como teve início o seu envolvimento com a poesia?
Comecei a escrever poesia quando eu tinha 12 anos... Nunca pensei em narrativa: o instinto me levou subitamente a esta forma de expressão mais concisa e intensa. Eu tive um forte desejo de "dar um sentido" a tudo que me circundava, de compreender. Por um tempo, escrevi "copiando" Eugenio Montale, Sylvia Plath e R. M. Rilke, e então eu finalmente encontrei minha voz, com cerca de 20 anos.

E como você definiria a poética de Elisa Biagini?
Espero que: densa e intensa, necessária.

A poesia é feita de “inspiração” ou “transpiração”? No Brasil, essas expressões são muito utilizadas em relação ao trabalho com a poesia.
Diria que “inspiro” realidade e “expiro” poesia.

Após morar alguns anos nos Estados Unidos, como essa experiência interferiu em sua poesia?
Foi muito importante porque eu pude conhecer o trabalho de muitos poetas talentosos (que eu em parte traduzi). Comecei a escrever e confrontar-me em inglês, e tive a oportunidade de mergulhar na vida cultural de Nova York. Tudo isso permitiu que minha poesia crescesse muito, nos temas e na forma.
  
Discute-se muito acerca dos dilemas da tradução, sobretudo em relação ao texto poético. Em sua opinião, a poesia é traduzível?
Não há uma resposta para essa pergunta: fazer uma tradução que seja precisa, correta, que respeite a musicalidade da língua e suas nuances é impossível (ou pelo menos muito raro, e também depende de que língua a que língua se proceda). Porém, deve-se tentar sempre, porque a poesia deve ser compartilhada tanto quanto possível e então, se possível, tentar reproduzi-la em sua própria língua, pelo menos no conteúdo. Pessoalmente, prefiro as versões que se aderem o máximo possível ao original, sem muita “inventividade” da parte do tradutor.    

Então, na tradução de seus poemas, incomodaria o desenvolvimento de uma versão guiada por uma “transcriação” do tradutor?
Sendo traduzida, eu tento ser compreensiva com o trabalho do meu tradutor e ajudar tanto quanto possível. Naturalmente, depende também do idioma-alvo... o quanto o conheço e o quanto posso segui-lo... Mas sou sempre grata quando alguém quer traduzir meu trabalho em sua própria língua. Entretanto, é verdade que traduzir é, em parte, reescrever, com todos os riscos que se seguem.

Em relação à poesia, como você avalia o mercado editorial italiano?
Na Itália, temos poucas editoras de poesia: as editoras dizem tanto que “poesia não vende”, então por que fazer um esforço? Sabemos que isso não é verdade, porque quando um autor faz um bom trabalho, sempre há resultados. Nesta era de progressiva barbárie, há cada vez menos atenção à cultura... muito menos à poesia!

Acredito que vivemos uma situação parecida no Brasil. Enquanto houver poesia, haverá esperança?
Eu diria que sim... se entendermos a poesia como uma forma de expressão que faz perguntas e não dá respostas, que nos ajuda a refletir melhor e a dar um sentido ao mundo.   



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 23 de fevereiro de 2012]