quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

“Música e palavra nas canções de Chico Buarque e Tom Jobim”



O livro “Música e palavra nas canções de Chico Buarque e Tom Jobim”, de Alfredo Werney, surgiu a partir da dissertação de mestrado “A relação entre música e palavra: uma análise das canções de Chico Buarque e Tom Jobim”, defendida em julho de 2013 na Universidade Estadual do Piauí (UESPI), sob a orientação Professor Doutor Feliciano Bezerra (que escreveu a apresentação do livro). A partir de uma linguagem fluente e de grande alcance analítico, o pesquisador se propõe a realizar um estudo das canções de Tom Jobim e Chico Buarque, que fizeram doze composições em parceria.  

Por meio de uma análise que engloba conhecimentos da semiótica, da melopoética e das pesquisas de Mário de Andrade, o autor busca, em seu texto, compreender a canção popular como um discurso em que o sentido é construído através da articulação de componentes verbais e musicais. Alfredo Werney aponta as relações intertextuais que há entre as canções de Chico/Jobim e a moderna literatura brasileira, evidenciado aspectos como o uso da ironia, da paródia, da linguagem prosaica e da concisão poética.

Alfredo Werney, natural de Valença-PI, é graduado em Música pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Mestre em Letras (UESPI). Desenvolve um trabalho de Educação Musical em Teresina-PI há mais de quinze anos, já tendo sido professor da Escola de Música de Teresina e integrante da Orquestra de Violões de Teresina. Atualmente é professor de Educação Musical do Instituto Federal do Piauí (IFPI) e faz parte do Conselho Editorial da Revista “Desenredos”. Como músico, tem participado de vários congressos e shows pelo Brasil, realizando apresentações que conjugam música e literatura.

A edição da obra “Música e palavra nas canções de Chico Buarque e Tom Jobim” ficou por conta da editora paulista Max Limonad. A produção do evento foi conduzida pelos professores Jonas Moraes e Daíse Cardoso. O lançamento do livro será realizado juntamente com o show musical “MEUS CAROS AMIGOS”, em homenagem aos compositores Chico Buarque e Tom Jobim. O show terá a participação, além do próprio autor, dos músicos Adelino Frazão e Silvana Ferreira – professores de música da cidade de Teresina-PI.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Palavra e silêncio: a "luta vã" no Piauí


Meu trabalho em sala de aula sempre me levou a conhecer pessoas instigantes que me fazem reavaliar e aprimorar constantemente meu ofício de professor. Aprendi bastante com alunos, colegas de trabalho, gestores, funcionários e, é claro, com os livros que me acompanham em todas essas jornadas. Além de ter utilizado em sala de aula a coleção Português: Linguagens, tive a honra e o privilégio de trabalhar com William Roberto Cereja, atuando como assessor pedagógico de sua obra no Piauí, Maranhão e Ceará. Foi uma excelente jornada de aprendizado, interrompida neste ano, pois tive que me desligar da Editora Saraiva por conta de novos compromissos profissionais no IFPI que me exigem dedicação exclusiva. Mas eis que, hoje, o professor William me surpreende ao escrever em seu blog,Português Cereja, sobre meu livro as cinzas as palavras. A jornada continua.

http://portuguescereja.editorasaraiva.com.br/palavra-e-silencio-a-luta-va-no-piaui/




Palavra e silêncio: a "luta vã" no Piauí
William Roberto Cereja



Já conhecia a prosa criativa, inusitada e dialógica de Os intrépitos andarilhos e outras margens, do jovem professor e escritor piauiense Adriano Lobão Aragão. Contudo, surpreendi-me com seu novo livro de poemas as cinzas as palavras (Editora dEsEnrEdoS).

Nesse livro, Aragão adota uma dicção entre clássica e moderna,  fazendo uso de uma linguagem enxuta e despojada. A quase totalidade de seus poemas situa-se no coração daquilo que se vem chamando de modernidade (no sentido da tradição baudelaireana ou valeryana): a metalinguagem, a poesia emparedada entre o silêncio e a palavra. O silêncio é o não canto, já cantado por Drummond e outros poetas modernos. E a palavra, muitas vezes, sem poder cantar o tempo presente, canta a própria palavra ou o próprio canto poético, especialmente neste caso, aquele ancorado na tradição luso-brasileira.

O dialogismo, tão fortemente presente em Os intrépitos, também se faz presente em As cinzas. No diálogo com Camões, temos, por exemplo, a referência a um tempo heroico passado, que já não se pode cantar, como já se via na fase lírica final de Camões:

           este verbo disperso em distante campo de poeira
           Areia estéril onde não canta tágide nem musa
           estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte
                                                                           (“As odes os signos”, p. 15.)

Também as reflexões em torno da passagem do tempo e das mudanças do próprio eu lírico deram origem ao poema “então”, quase uma paródia do poema camoniano “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”:

         em perene forma permanece em idade e fortuna
         tudo que no tempo não muda nem tempo nem vontades
         nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

         [...]

         somente em mim depositou-se irrelevante reverso
         de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce.
                                                                     (“então”, p. 19.)


Drummond está explicitamente evocado em “não cantaremos o amor”. Embora o tempo não seja de guerra, diz o poeta: 


         Ainda que nos fosse permitido
         não cantaríamos o amor

         [...]

         e ainda que em nossos túmulos
         habitem novamente flores amarelas e medrosas
         não cantaremos este amor
         que resultou inútil
                                                               (“não cantaremos o amor”, p. 59.)


Assim, cantar o impossível canto é a única opção para o poeta, que, perplexo diante de seu tempo e das armadilhas da linguagem, mais uma vez prefere a palavra ao silêncio.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Kannet Levyt

Rita Dahl


Uma das maiores gentilezas que se pode conferir a um escritor é a leitura atenta de seus escritos. Sou absolutamente grato a cada uma das pessoas que dedicaram alguns minutos de suas vidas à leitura de algum poema meu. É por isso que não tenho palavras para agradecer a gentileza da poeta finlandesa Rita Dahl, que, além da leitura de as cinzas as palavras, se dispôs a traduzir para seu idioma pátrio alguns de meus poemas. Logo abaixo, a versão finlandesa do poema “as capas os discos”. 

KANNET LEVYT

eilen näin kauppakujalla myynnissä lehmän levyn
jonne katosin monia outoja peltoja sitten
vinyylin juovien moottoripyörän ja sinfonian väliin

eilen näin vanhuksen taulussa kantamassa polttopuita
koristaen seinää albumin tuhottu kansi
lyijyn ilmalaivan valaistu pimeys

eilen näin valkoisen albumin, jonka voi käsittää vuosien kuluttua
hälvenneiden väriensä sävyinä
ja pintaan painettuna kovakuoriaisen salaisena nimenä

mutta hiljaisuudessa sen äänet herättävät
sonorisen kuvan joka tulee esiin verkkokalvon muistista

(adriano lobão aragão: as cinzas as palavras, desenredos 2014, käännöksen [tradução]
 rita dahl)

______________

AS CAPAS OS DISCOS

ontem eu vi o disco da vaca à venda na galeria
onde há muito naqueles campos estranhos me perdi
entre os riscos do vinil motocicleta e sinfonia

ontem eu vi um velho em um quadro carregando lenha
adornando em parede destroçada a capa de um álbum
e a iluminada escuridão de um dirigível de chumbo

ontem eu vi o álbum branco que depois de muitos anos
pude perceber as matizes dispersas de suas cores
e seu discreto nome de besouro impresso em relevo

mas há muito dispostos em silêncio seus sons evocam
sonora imagem retida na retina da memória

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O ITINERÁRIO DE FÁBULAS INCONCLUSAS: “Os intrépidos andarilhos e outras margens”, de Adriano Lobão Aragão




I
Se eu começar este comentário citando o seguinte trecho de Os intrépidos andarilhos e outras margens [1], “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”, o meu leitor mais experiente e safo poderá abanar a cabeça e dizer com seus botões, ai meu Deus!, mais outra narrativa de metalinguagem, de fabulação narrativa voltada para a própria práxis da fabulação narrativa (e suas conexões intertextuais) como tema, ai, não aguento mais!

E se eu acrescentasse outra citação, “…com os mais diversos exemplos de histórias e temas, como um entrelaçar de dias e noites que não revelava seu fim. Mas agora tinha diante de si o enredar de fios que talvez tecesse o paradeiro do objeto de sua busca (…) à espera de quem chegasse para ouvir de-que-se-trata em cada livreto, e seguia um a um desvendando se estaria ali enredada a história que procurava, se entre todos aqueles breves e inúmeros volumes encontraria os andarilhos…”, talvez venha à mesma cabeça abanada desse leitor aquele trecho paradigmático do conto de abertura (“Os desastres de Sofia”) de uma coletânea que em 2014 chega, vejam só, aos 50 anos (A legião estrangeira): “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias…”; Clarice Lispector, há meio-século, parecia já esgotar o assunto.

Mas não esgotou. E o lindo romance de Adriano Lobão Aragão está aí para desafiar os arautos e augúrios do esgotamento. Sim, ele trilha os caminhos da metalinguagem e da intertextualidade [2], e as peripécias do seu herói (o caminhante) deságuam no mundo de histórias contadas em verso e prosa no mundo de cantadores e cordelistas; ao fim e ao cabo da sua perambulação temos um livroque tanto era sua bagagem inicial quanto foi objeto de busca, e dentro do qual ele, seu leitor (que se formou, arduamente, como leitor, vindo do analfabetismo total), está contido como personagem, naquela coisa circular da cobra-mordendo-o-próprio-rabo. E não afirmarei que, nesse ponto, encontramos exatamente o encanto peculiar de Os intrépidos andarilhos e outras margens (infelizmente, esse título não foi dos mais felizes [3]), ainda que possa afirmar que o autor piauiense seja um dos que se saíram melhor, na ficção contemporânea, ao enveredar por essas espinhosas e traiçoeiras sendas.

Antes de tentar, todavia, definir tal “peculiar encanto” e esclarecer por que achei tão lindo o texto, seria bom fazer um percurso (sumário) pelos mil e um percursos da narrativa, a qual, seguindo a mais pura matriz homérica, mostra um protagonista que erra pelo mundo.

II
O território delineado em Os intrépidos andarilhos e outras margens é um sertão simbólico (eu quase que diria conceitual, se esse termo não fosse tão escorregadio; então usemos: poético), mas que se apresenta muito verossímil. Até os detalhes mais “fantásticos” (outro termo escorregadio) são apresentados de uma forma que me lembra García Márquez ou Juan Rulfo: há um deslocamento das leis físicas, sem que tal “liberdade poética”, por assim dizer, afete o substancial prosaísmo do real.

Instigado pela passagem dos “andarilhos intrépidos”, “caravana mambembe que perambulava ininterruptamente, mas não se sabe desde quando”, o rapaz de 20 anos deixa sua isolada terra natal. São percursos dolorosos, marcados pela quase-morte e uma ressurreição (“à beira da morte, que à beira da morte sempre esteve”).

A primeira passagem de relevo é por uma região arcaica e erma, esquecida do mundo (como a dele próprio) e orientada por uma férrea tradição pré-cristã, nem por isso deixando de contar com seus próprios totens e tabus. Uma história exemplar demonstra isso de forma inequívoca: o forasteiro que fora bem recebido pelos nativos, comera e bebera, contara maravilhas e lorotas de lugares distantes, e que por roubar uma cabra à sua partida, era morto e desmembrado por todos:  “…todos queriam fazer valer a lei dos antigos, que era essa ainda a sua lei e o que poderiam nomear justiça (…) Onde tantas mãos se erguem bradando a necessária justiça, que nenhum nomearia vendeta, e a todos abarca o ofício de testemunha, acusador, juiz e carrasco, e que o culpado seja executado junto a seus defensores, se estes houvessem, claro, estes mesmos que não há…”

Nesse povoado há uma moça que vaga à noite (sonâmbula) até que um dia é violentada pelo filho do magarefe local. O avô mata o abusador (seguindo a Lei), mas a partir daí ela se sente vigiada pelo pai dele. Já não mais vaga inconsciente pela noite, e sim bem desperta. E em locais a que ninguém vai, quase interditos, ela descobre o caminhante, o rapaz que saíra de casa por conta dos “intrépidos andarilhos”, e que praticamente morreu de exaustão e escassez (uma de suas muitas mortes na narrativa). Como num conto-de-fadas, é o beijo da moça que o faz reviver, que o traz de volta ao seu corpo, num momento aliás de grande voltagem poética:

“E ela o beijou. Ela o beijou como as primeiras gotas de chuva chegam a tocar as pétalas das flores de seu perfumado campo (…) E ela o beijou como o odor da terra úmida se mistura ao odor do mato após a chuva e ofusca o perfume das flores (…) E ela o beijou como diversas vezes juntou várias flores e pétala a pétala as desmanchava  em seu corpo e fingia a si mesma estar adormecida, esperando que acreditasse em sua própria ilusão (…) E ela o beijou profundamente, e entregue ao fascínio daquele instante, o caminhante não pôde mais continuar distante de seu corpo, entregue aos enleios de uma moça que lhe devolvia sua própria vida.”

A meu ver, no entrelaçamento da trajetória do caminhante e da sua salvadora é que está o ponto alto dos 61 capítulos do romance. Apesar dos ricos veios explorados mais adiante, nada se iguala em beleza, concentração e apreensão de um mundo rústico, parado, atávico, e no entanto fremente, no qual por mais que se evoque uma tradição (violenta, por sinal) e interditos, todos os gestos parecem recém-inaugurados. Adriano Lobão Aragão parecia particularmente inspirado ao escrevê-los.

Tanto que quando o caminhante dali se afasta sentimos pelo resto do romance saudade da moça que lia os seres e as paisagens no céu, como se este fosse um espelho do mundo (haverá outra mulher, porém sem a sua força). E que se encaixa na macro-narrativa ao ser ao mesmo tempo uma individualidade e uma estória em estado virtual, nesse universo que exige exemplaridades (no sentido de histórias exemplares, que alertam e reprimem): Transformava-se assim em mais um enredo para a história de uma jovem que caminhava dormindo pelas trevas, pronunciando palavras terríveis, enquanto era seguida por um avô ensandecido, como um personagem acrescido a uma fábula inconclusa”; ou ainda: “… até ser esquecida por todos e transformar-se de vez em apenas mais uma das histórias que mantêm firmes as tradições morais de seu povo.”

O próximo estágio civilizatório já é cristão, embora um mundo cristão agônico, pejado de superstição e violência, e onde o caminhante encontrará duas novas figuras iniciáticas: o padre local, que está ali como uma espécie de esteio contra a barbárie, e que se apresenta muito menos fanático do que os seus fiéis [4], e um membro desgarrado da trupe dos “intrépidos andarilhos”, o ilusionista, que abdicou do destino mambembe por conta de um amor.

Ao contrário do mundo iletrado e telúrico da moça que o beijara (e o salvara), aqui temos o mundo regido, teoricamente, pela Palavra, e palavra escrita, embora poucos tenham o aprendizado da leitura. Nota-se, porém, correndo sob a tensão dessa Palavra, um mesmo rio de brutalidade latente ou explícita (daí a terrível solidão do padre e também a ambiguidade do talento lúdico do ilusionista, que sempre pode ser tomado como demonismo, como um avatar da “mão esquerda”, a sinistra, a malsinada) [5], baseada no famigerado costume.

Como figura típica de história iniciática, o padre diz ao caminhante (quando supõe que ele já está de partida): “A pergunta, a verdadeira pergunta, seria: o que sabes sobre si mesmo? Procuras respostas sobre essa tua jornada, caminhas por estas ruas para descobrir quem é aquele homem, mas nunca paraste para perguntar nada a si mesmo. O que esperas saber dos outros?” E é ele quem dá as “pistas” para o prosseguimento da jornada: um caminho que segue o leito seco de um rio (tendo em mente que se palmilha o dorso de uma baleia, como em certos mitos e estórias romanescas havia o dorso do dragão), e do qual ele não deve se afastar para poder encontrar a fugidia trupe intrépida.

Antes de passar para a próxima etapa, não me furto a citar um dos trechos mais bonitos do romance:“Guiara o caminhante até aqui apenas os seus instintos, sem nenhuma outra indicação. Não poderia ter receio algum em continuar, até que seja inevitável que encontre o seu destino.Sabendo que o destino de todo vivente é sempre a morte? Justamente por isso, não haveria motivo algum para temer seguir adiante.” [6]

Há um interregno que evoca justamente as jornadas iniciáticas: o leito por onde se caminha, “vereda de águas ausentes”, o sono de exaustão, as cascavéis, os sete dias de “esmorecimento”, sendo tratado por um casal misterioso, que fornece a próxima “pista” (o que os cantadores cantam, como repositório de sabedoria) [7].

Após o território do arcaico e do território da sanção cristã, o caminhante se embrenha por uma espécie de mundo-feira, labiríntico mundo onde a cultura popular e mundana (“…detinha-se agora  no mergulho dos intrincados caminhos da memória dispersa de um povo…”) é destilada nos livrinhos de cordel, nas histórias mirabolantes que se imbricam com as lorotas dos vendedores de mazelas e de remédios, das malas onde pode sair uma cobra (da qual foram retirados elixires) [8].

Ao se tornar ajudante e acólito de um vendedor desses folhetos de histórias, ao tentar penetrar no seu âmago (e, por isso, aprender a ler), e assim conseguir a pista final para configurar sua jornada em demanda dos “intrépidos andarilhos” e seu paradeiro, o caminhante (e a narrativa) penetra num estágio que poderíamos chamar de “borgiano”. Malgrado haja ainda muitas peripécias (o caminhante servirá como tropeiro por muitas estradas, por exemplo), a respeito das quais não convém entrar em maiores detalhes, tudo vai se armando para equacionar esse leitor em formação, o Livro (além dos livros) e espelhá-los, sendo ele o que o livro que está lendo contém.

Nesse sentido, um dos momentos mais importantes (e verdadeiramente borgianos) é quando se evoca a vida do patrão do caminhante, e descobrimos que ela pode ser uma das vidas virtuais do jovem caminhante (“E se agora reaparecia restituído à juventude, outra vida era preciso viver, e novamente jogar-se ao interminável caminho, o mesmo”). O outro é o mesmo (e, assim, elementos anteriores da narrativa vão sendo recolhidos e transmudados, como a história do justiçamento do forasteiro, que toma outro vulto na boca do tropeiro-contador).

E aqui eu mesmo posso fazer a cobra morder o rabo, remontando ao começo deste meu comentário:“… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”.

III
Espero que aquele que me seguiu até este ponto tenha se dado conta (não fora por mais nada, pela insistência nas citações) do trabalho de linguagem que faz o deleite do leitor de Os intrépidos andarilhos e outras margens. Esse sertão que parece saído fresquinho do novo testamento (quando Javé ainda era um deus primitivo, pouco tomístico), manhã recém-inaugurada do mundo, e seus contrapontos de feira e ruído, de palimpsestos de textos e referências (rios heracletianos, vendedores de folhetins e tropeiros borgianos), só são críveis e só fascinam porque há um senhor poeta mapeando os percursos.

Ah, o perigo: fala-se em poeta, e imaginamos uma “prosa poética”, a narrativa apenas pretexto para um lirismo mal contido. Nada disso! Poeta, e dos bons [9], Adriano Lobão Aragão também é um ficcionista, só que daqueles que plasmam uma linguagem peculiar para a sua ficção (que, no entanto, tem um impulso épico, mesmo que com suas “fábulas inconclusas”).

Li em algum lugar que ele levou cinco anos para estruturar a forma final do romance e que, por isso mesmo, ela se ressente de conter em si vários estágios diferenres. Há, de fato, alguns pontos frouxos na tessitura geral, insisto, na impressionante coesão alcançada, o ponto de tensão mantido na maior parte das páginas. Se destaquei em especial a parte arcaica é talvez porque, localizada no início, ela já nos deslumbra de saída, o restante, portanto, pegando-nos prevenidos e já afeiçoados aos meios e recursos do escritor.

O que ele criou foi uma narrativa-fluxo incessante, que tem uma dicção muito ampla, correndo o risco de esfacelar-se. Para evitar isso, seu talento de estrategista poético encontrou a solução perfeita: pequenos capítulos concentrados e plásticos, verdadeiramente rapsódicos. Sem falar nas pequenas joias lapidares, ocultas no “enredar de fios”“…continuou falando silêncios…”; “…porque aquela manhã foram muitas manhãs…”; “…o empoeirado chão lhe abrigou sereno, com seus modos amenos de abrigar tanto a semente quanto o cadáver…”; “…como o tempo que depois de desfalecer precisa o corpo reencontrar para o seu estar…”; “perfume é coisa rara em terra em que bala se alastra…”

Agora só me resta convidar o leitor a tentar decifrar (e torná-lo mais conhecido, porque ele o merece) esse “livro escrito em osso, pecado e purgatório”. Osso, pecado, purgatório, signos de paisagens físicas e morais calcinadas e agônicas.

(escrito especialmente para o blog Monte de Leituras em junho de 2014)


NOTAS
[1] Ed. Nova Aliança, 2012.

[2] Entre outros, o leitor identificará referências, veladas ou mais óbvias, a Guimarães Rosa, a João Cabral de Melo Neto, a José Saramago, a Borges, a Graciliano, a García Márquez.
E mais Milton, Sheherazade, Homero e tantos outros, como se pode verificar no longo trecho abaixo:
“Conta o cantador de versos que ao fim da praça com diversos livretos à venda, e que muitos dos versos que agora proclama aprendeu ali, como a história de um príncipe que voava com uma ave misteriosa, e de outro que matava suas esposas todas as manhãs, e de uma princesa que, raptada, enganava seu raptor com todos os homens que encontrava, e de uma outra princesa que contava histórias que não acabavam nunca, e de um poeta cego que escrevia um livro enorme sobre o céu e o inferno com a ajuda das filhas, e de um outro poeta cego que escrevia livros e mais livros com a ajuda do tempo e da eternidade, como se estivesse perdido no labirinto da imensa biblioteca da torre que deveria ligar o mundo dos homens aos céus, e de ainda outro poeta cego que mendigava e cantava a ira de um guerreiro temido que se afasta das batalhas e depois, para vingar o amigo, retorna a matar e morrer na mesma intensidade, e bem pareceria até que todos os poetas fossem cegos, mas havia ainda as aventuras de homens vestidos em metal, montados em cavalos, enfrentando dragões, vilões e bruxos que se organizavam rumo a uma terra distante que buscavam recuperar e por ela morreriam, e de jovens apaixonados que preferiam morrer a não vivenciar seus amores, e outras muitas outras histórias de toda feição e feitio que a voz de um cantador pudesse pôr em verso e enredo…”

[3] Ele é insatisfatório porque não dá conta do essencial da história, e também não combina com a gravidade da linguagem (mesmo com seus elementos picarescos e paródicos, decerto). É certo que os tais “intrépidos andarilhos” são uma espécie de elemento desassossegante no imobilismo sertanejo, e fazem com que o protagonista queira abandonar seu lugarejo, e é certo que eles são inúmeras vezes citados, entretanto não creio que funcionem para o título, o que é piorado pelo “outras margens”, vago e insosso.

[4] Conheceremos sua história pregressa.

[5] Devo dizer que li o romance duas vezes e ainda considero os capítulos referentes ao ilusionista bem menos convincentes do que os do padre.

[6] E como confirmação do que coloquei nos parágrafos anteriores, a próxima frase: “Mas ainda existe muita selvageria habitando este mundo”.
A esta passagem podemos ligar outra, mais próxima do final: “… a sua única coragem talvez fosse apenas a estranha necessidade de continuar, como um rio que não sabe onde ou quando irá desaguar, ou se irá algum dia desaguar.”

[7] Há um travejamento meio à Guimarães Rosa/ Manoel de Barros na linguagem: “De tanto repetir, a gente aprende ou esquece, que é sempre a mesma coisa”. No entanto, há momentos que considero menos felizes, rebarbativos, por exemplo; “O que canta a musa antiga já acabou. Agora é só se alevantar e pegar rumo. No pé adiante é que se vai. Se é tua a parte feita, o por fazer é o por fazer. E quando se lascar todo, tá chegado então. Não tem graça nem simpatia, nem arte nem engenho. O único mistério é não ter mistério nenhum.” Felizmente, a tessitura narrativo-poética que Adriano Lobão Aragão imprime ao seu livro sustenta até essas quedas retóricas.
Mas a parte mais fraca do romance, felizmente poucas páginas, e por isso nem a incluo na minha síntese acima é a do barqueiro que nunca sai do rio e não pesca nada, apenas existe ali indefinidamente (meio  A terceira margem do rio), uma não-existência consentida. Há todo um trabalho de paródia (no sentido de apropriação a sério das leituras do autor) admirável em Os intrépidos andarilhos; nesse entrecho, porém, fica-se mais próximo do pastiche.

[8] “(…) inúmeros versejadores, inúmeros declamadores, inúmeros vendedores de alívio para tudo, em formas mil, seja em pomada, em garrafa, em raiz ou raspa de pau, e sempre acompanhado de inúmeras histórias que entretinham o povo ante a ânsia de uma mala prestes a ser aberta, tendo, diziam, uma cobra por conteúdo, e do veneno da cobra extraía-se muitos produtos ora anunciados, e na fala o espetáculo da paciência animada e novos resquícios do interminável poema. E repetiu esse escutar diversos vezes, atento a todos os detalhes e variações, pois diante de uma nova fonte, a esperança de realinhar a voz da história pulsava forte em suas veias, mas, após inúmeras audiências, era evidente que todas as narrações de todos aqueles famigerados divulgadores dos milagres da ciência e das misturas eram sempre as mesmas e, inevitavelmente, a mala com a cobra, origem de todos os lenitivos que anunciavam, jamais seria aberta, como caixa de alívio e de males que herdaríamos do princípio da narrativa.”

[9] Exemplos de boa fatura poética do autor de Os intrépidos andarilhos:

dois rios (de as cinzas as palavras)

há em minha terra dois rios
silenciosos

um
estendido em verde tapete de aguapé
onde não mais trafegam canoas
apenas diminutas criaturas buscando seu pasto

outro
árido tapete árabe
onde todos caminham acima de sua face


então (de as cinzas as palavras)

em perene forma permanece em idade e fortuna
tudo que no tempo não muda nem tempos nem vontades
nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

somente em mim depositou-se irrelevante mudança
talvez desnecessária dança que o cair das folhas trouxe
talvez inseto da noite que de seu brilho descansa

quem sabe silêncio de outrora agora outra hora propaga
antes de ilusão inata à matéria apurar sua volta
em perene forma precisa mas dispersa inexata

somente em mim depositou-se irrelevante reverso
de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce


emendatio  (de “A Coluna de São Simeão”)

corrigir um ato

refazer a coluna
reanotar cada indicação do caminho
onde não há horizonte
restam nuvens por solução

reelaborar o caminho
para continuar o mesmo
toda obra de um homem
se refaz no tempo

como tudo que é sólido
se desmancha no sangue
um homem busca corrigir seu tempo
que sozinho se esvai



não saber teu nome liberta (de “Yone de Safo”)

não saber teu nome liberta
a tarefa de nomear-te
não mais um substantivo, mesmo próprio
mas a ordem absoluta do caos

então chamo-te poesia
quando recolhes o mais tênue lirismo
na dimensão infinita de um sorriso

e quando passas breve e leve
entre silêncios justapostos
teu nome é brisa
e rompendo o silêncio te chamo lira

nomeio teu ser presságio
onde outros chamariam acaso

e não por acaso, em tua aparição repentina
juntar queria a teu nome todas as sensações
na mais profunda sinestesia

e se acaso perguntasse
que reposta me daria?
que adianta um nome
se nada mais estaria
nesse nome sua dona
que nunca mais veria?

então juntaria teu nome
a todos os nomes da vida
e em cada coisa querida
ali teu nome estaria

quando desejar não é ter
mas querer mais além ainda
mesmo apenas guardar um nome
entre as lacunas da vida


sexta-feira, 25 de abril de 2014

O velho Hemingway e o mar de Alexander Petrov

[Adriano Lobão Aragão]

Santiago, personagem de Hemingway, sob as tintas de Petrov


Escrito em 1951 e publicado em 1952, O velho e o mar foi o último livro publicado em vida pelo escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961). Conta a história de um velho pescador cubano, Santiago, que ficara 84 dias sem pescar nada e lança-se ao mar almejando a superação de seus dias de azar. Ao fisgar um gigantesco marlin, passará dias enfrentando obstinadamente o seu maior desafio.  Mais que lutar para pescar o peixe, Santiago está em luta consigo mesmo. Hemingway foi agraciado com o Nobel de Literatura de 1954, e O velho e o mar é uma de suas obras mais conhecidas e reeditadas. 

O russo Alexander Petrov (Александр Петров) é um cineasta de animação que utiliza uma técnica rara e impressionante, consistindo em pintura a óleo, utilizando a ponta dos dedos, em vez de pinceis. Petrov pinta em superfícies de vidro, muito maiores que uma folha A4, posicionadas em vários níveis, cada um coberto com tintas de secagem lenta. Após fotografar cada quadro pintado sobre as folhas de vidro, ele altera ligeiramente a pintura para compor a próxima imagem, num processo lento e meticuloso (conforme se pode constatar em making of disponível no youtube).    

O velho e o mar foi adaptado por Petrov e lançado em 1999, recebendo, merecidamente, o Oscar de Melhor Curta de Animação de 2000. Durando cerca de 20 minutos, foram necessários mais 29.000 fotogramas (foto de cada uma das pinturas feitas no vidro) e alguns de trabalho intenso e solitário. Perfeccionista, cada pintura era exaustivamente trabalhada e retrabalhada até alcançar o efeito desejado, guardando alguma semelhança com o impressionismo de Renoir.

Uma obra excelente, podendo gerar em sala de aula boas discussões e significativas atividades com literatura, cinema, artes plásticas e, sobretudo, desfrutar de ótimos momentos de apreciação de uma apurada beleza artística.


O VELHO E O MAR

O VELHO E O MAR – Making of
http://www.youtube.com/watch?v=b_kjEJrJc-g


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Publicado originalmente no blog Português Cereja, em 10 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

matadouro

[demetrios galvão]
(diálogo com o livro “entrega a própria lança 
na rude batalha em que morra”
do poeta adriano lobão aragão)


a província diz não aos seus filhos,
é rude e árida, mesmo quando farta e molhada.
entoa liturgia de campo arrasado.


a província tem canto maldito.
não hospeda sementes em seu leito.
exporta desertos para quem mal diz sua sina.


a província é geografia esquecida.
nenhum coração palpita por seu mapa.
nas suas rotas corre sangue de matadouro.


a província deflagra dizimações.
cultiva um cemitério farto.
sisuda e quente, cozinha a própria cria.



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Demetrios Galvão, habitante da província de Teresina (PI), é historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (previsto para 2014) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi dos editores da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.

terça-feira, 18 de março de 2014

e planta a dança em arcanjos estáticos

[adriano lobão aragão]


e planta a dança em arcanjos estáticos
fácil arranjo de arpejo distante
entre pétalas dispersas em maio

e dançam flores em cores estanques
nesses arcanjos perdidos na luz
que em escuro silêncio se cante

e canta cores em céu difuso
entre pétala perdida no azul
e dispersa pelo jardim escuro

este teu ser multiplicado encanto
quando em silêncio planta o canto e a dança


[in ave eva, 2011]

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Donizete Galvão (1955-2014)


Donizete Galvão (1955-2014)














Lamento profundamente o falecimento do poeta DONIZETE GALVÃO. Seu livro "Ruminações" é um dos meus preferidos dentre os poetas contemporâneos. Uma grande perda, também pela pessoa solícita e íntegra, que sempre demonstrou cortesia em todas as vezes que tivemos contato (ainda que apenas via web e correios). Donizete nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955. Publicou Azul navalha (1988), As faces do rio (1991), Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), Ruminações (1999), Mundo mudo (2003) e O homem inacabado (2010). Faleceu em São Paulo na madrugada do dia 30 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Entrevista com Adriano Abreu: “O teatro deve ocupar todos os espaços”

[Adriano Lobão Aragão]


Adriano Abreu iniciou sua carreira teatral em 1992, como ator na companhia dirigida pelo ator e encenador paulista Laurent Matallia, onde participou das montagens “Boca de Ouro” (texto de Nelson Rodrigues, 1992), “Histórias de Muitos Amores” (texto de Domingos Oliveira, 1994). Com “Boca de Ouro”, ganhou indicação de melhor ator coadjuvante no Festival Nacional de Teatro de São Mateus, ES (1994). Após o retorno do diretor Laurent Matallia para São Paulo em 1995, cria, juntamente com o ator e diretor Chiquinho Pereira, a Associação de Teatro Circo Negro, onde desenvolve intensa atividade teatral até 2003, atuando, dirigindo, escrevendo e iluminando cerca de 15 espetáculos. Em 2001, cria seu próprio grupo e, em 2003, desvincula-se definitivamente do Circo Negro. Concebe e dirige nos últimos anos quatro espetáculos “Lázaro Feito em Pedaços”, “O Rouxinol e a Rosa”, “Fogo”, “Exercício Sobre Medéia”. Coordena e dirige o Projeto Ciclo de Leituras Dramáticas do Piauhy Estúdio das Artes. Foi diretor administrativo do Teatro do Boi (Teatro Municipal) e editor de teatro da Revista de Cultura Pulsar. Professor, poeta e assessor de cultura da cidade de Água Branca, PI. Atualmente, é diretor do Sated, PI, escreve regularmente artigos sobre teoria teatral no blog Piauhy Estúdio das Artes (piauiestudio.blogspot.com.br). Apresentamos aqui um breve trecho de nossa conversa sobre seu trabalho.


Como você avalia a atual situação do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense?
Vivemos um momento importante, diria, de reconstrução e definições em todos os aspectos. Acredito que durante muito tempo, aqui no Piauí, os artistas da cena acreditavam que podiam desenvolver suas atividades e criar dependendo apenas do seu talento, que, aliás, de maneira geral, é enorme. Hoje, uma parcela dos que fazem as artes cênicas no estado já compreendeu que o teatro chegou a um nível de desenvolvimento tecnológico, estético e conceitual tão grande que a pesquisa, somada a uma rotina duríssima de ensaios, bem como, uma produção qualificada, são imprescindíveis para que façamos um produto cultural competitivo no mercado brasileiro e internacional. Os que pensam ao contrário certamente ficarão na poeira da história, construindo espetáculos sempre muito ingênuos.


Quais as maiores dificuldades enfrentadas?
O processo de formação do artista de teatro, na minha opinião, é uma dificuldade que não podemos ignorar. Isso é primordial. Todos os meus esforços no Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (grupo que dirijo) são no sentido da formação intelectual e técnica dos artistas. Outro problema reside no gosto adulterado do púbico. As pessoas ainda confundem show de humor com teatro; e as classes média e alta não consomem cultura. Para termos uma ideia, desconheço qualquer iniciativa fundamentada das escolas ou universidades na valorização dessa arte milenar. Me parece óbvio que, se pais e professores não frequentam as salas de espetáculo, por que os filhos e alunos frequentariam? Por fim, temos uma gestão cultural tremendamente amadora. O resultado é um teatro que vive ainda sob a égide do diletantismo.


Ao longo de seu trabalho, é possível perceber uma forte interligação, sobretudo entre teatro, poesia e música. Nesse sentido, poderia comentar um pouco seu processo de criação?
Exatamente! Essas marcas permanecem fortes nos meus trabalhos. Todavia, amadurecendo no ofício de dirigir espetáculos, percebi a importância de deixar-me penetrar pela visão dos atuantes, do iluminador, do músico, do cenógrafo, etc. Busco um teatro de cura, para quem faz e para quem assiste, como era nos primórdios dessa arte ritualística, o sábio da tribo explicando através dos mitos, cantos e poesias a magia da vida, para o povo da aldeia em volta de uma fogueira. Enxergo-me naquele xamã da gênese do teatro, quando ainda não era teatro. Uso a palavra, a música e o gesto como artes mágicas, estabeleço conexões com os artistas com quem trabalho que vão além da técnica; eles, por sua vez, têm obrigação de interligar-se aos espectadores, usando o espetáculo como via. Os espetáculos que criamos são mitopoéticos e, em detrimento disso, "terapêuticos" (rsrs). A música (vibração eterna) nas peças do Piauhy Estúdio das Artes, trabalha, entre outras coisas, a dimensão da memória; cure a memória e a saúde impera. Concluo com parte do fragmento "Primeiro/Ulisses" do livro "Mensagem", de Fernando Pessoa: “O mytho é o nada que é tudo. / O mesmo sol que abre os céus / É um mytho brilhante e mudo / O corpo morto de Deus, / Vivo e desnudo. / / Este, que aqui aportou, / Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo / E nos criou."


O teatro deve ocupar os espaços públicos?
O teatro deve ocupar todos os espaços, públicos e privados; todavia, o local que o teatro deve ocupar, acima de tudo, é a mente de quem assiste um bom trabalho de arte. Peças de teatro chatas, mal realizadas ou herméticas atrapalham o desenvolvimento cênico no nosso estado. Para sermos profundos e inteligentes não precisamos ser pedantes ou ingênuos. Atualmente, fiz uma opção, passageira, por apresentar espetáculos para poucas pessoas, em espaços alternativos ou salas menores, por uma questão estratégica, mas gostaria muitíssimo de ir para as ruas e praças. Infelizmente, não existe uma política que insira o teatro como produto cultural viável e os artistas ainda têm que trabalhar em outras atividades para sobreviver. O Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense vive de raras subvenções, desconhecimento e vontade de ser grande. Após 40 anos, nossa arte teatral ainda é semente.

  
Você participava da edição da Revista Pulsar. Como foi esse processo?
Fazia a editoria de teatro, juntamente com a extinta Associação de Teatro Circo Negro. Realizamos a última entrevista com o dramaturgo Gomes Campos, para mim, um dos momentos importantes da Revista Pulsar. O projeto daquele periódico era demasiadamente ousado, tão ousado que aqueles que faziam cultura no Piauí na época não se reconheceram nele. Entre outras coisas, retomávamos a discussão sobre a identidade cultural piauiense, definindo-a em cada página, através da arte gráfica do Antonio Amaral. Tudo naquela revista era extremamente pensado e discutido, até o tamanho da revista obedecia a um ritmo. Cada artigo indicava uma visão de cultura. Passamos “a limpo”, de acordo com nossa visão naquele momento histórico, toda cultura do Estado. O capitão daquela "Nau Genial" era o poeta Paulo Machado, provavelmente um dos maiores e mais comprometidos intelectuais da história do Piauí. Porém, pecamos, pois não fazíamos concessões a nada, não tínhamos visão de mercado, nossa distribuição era péssima e, depois de algum tempo, aconteceram divisões internas que culminaram, como temíamos desde o primeiro número, com uma revista desfigurada, inclusive no papel, por falta de recursos. Todavia, acredito que a Pulsar era profética e cumpriu seu papel na Cultura Brasileira, inclusive recebendo elogios do poeta Ferreira Gullar, que considerou a publicação uma das melhores coisas do Brasil naquele período.


Que tipo de concessões vocês evitavam?
Primeiro, procurávamos evitar qualquer tipo de apoio institucional, bem como de políticos comprometidos com os governos. Não aceitávamos patrocínios da indústria de bebidas ou cigarros etc. Alguns artistas que possuíam produtos culturais ligados à lógica "dominante" ou com comportamento ético questionável nunca foram veiculados na revista. Por fim, abominávamos todo tipo de arte que não representava aquilo que considerávamos importante para o desenvolvimento de uma cultura piauiense autêntica e de qualidade. Como disse, éramos, muito provavelmente, fora do eixo (rsrs), numa época em que nem se falava nisso (rsrs).


Como o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes foi constituído?
Após a nossa saída da Associação de Teatro Circo Negro, em 2004, por divergências na condução dos trabalhos, eu e o ator Carlos Aguiar, meu parceiro no exitoso projeto “Lázaro Feito em Pedaços”, passamos quatro longuíssimos anos no ostracismo (rsrs). Nessa fase, que vai de 2004 a 2009, sobrevivi artisticamente escrevendo poemas, sempre com desejo muito presente de voltar à cena teatral. Em 2009, já não aguentando mais o meu exílio voluntário dos palcos, bem como, com a extinção do Circo Negro, estava à vontade para recomeçar. Recebi um convite da atriz Sandra Loiola para que fizéssemos um trabalho. Depois de algumas reuniões, constituímos um laboratório de pesquisas cênicas denominado “Puty Teatro Labore”. Nele, realizamos a peça “O Rouxinol e a Rosa”. Após a estreia, senti as limitações do “Puty”, principalmente no que se referia às motivações da Sandra em relação às artes cênicas, muito diferente das minhas. Mais uma vez deixei o barco nas mãos de quem quisesse remar. Falei para os demais que partiria para outra. Novamente, o Carlos me acompanhou, seguido do ator David Santos. Assim nasceu o “Piauhy Estúdio das Artes”, com um modelo operativo mais flexível do que um laboratório ou grupo de teatro, podendo futuramente incorporar outras linguagens.  Atualmente, compõem o Coletivo: três atores, duas atrizes, um músico, um iluminador,  eu (na coordenação, direção). Conjuntamente com a atriz Silmara Silva, cuido também da divulgação e produção do “Piauhy”.  Desenvolvemos três projetos, os espetáculos “Fogo” e “ Exercício Sobre Medeia”, e o “Ciclo de Leituras Dramáticas”, que vai para 7ª edição. Neste ano de 2014, desejamos implantar mais dois projetos, o suplemento cultural do Coletivo, impresso, chamado “Cigarra”, que deve sair lá para março, e os “Fóruns de Arte”, encontros onde discutiremos produtos culturais diversos com artistas e convidados. Para um Professor da PMT, lotado 40h/aulas, a tarefa é hercúlea, mas foi assim que escolhi e gosto de viver.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 14 e 21 de janeiro de 2014