sábado, 4 de março de 2017

HAMLET, William Shakespeare



Sendo para mim uma obra de leitura recorrente, todas as vezes que torno a ler Hamlet vejo o jovem e angustiado príncipe da Dinamarca sob um novo aspecto. Das três traduções que costumo recorrer – a de Barbara Heliodora e sua mãe, Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça; a de Millôr Fernandes; e a de Lawrence Flores Pereira, todas de grande mérito e excelência –, tenho predileção pela de Barbara Heliodora, tanto pela minha imensa estima por seu trabalho de crítica e tradutora, quanto por ter costumeiramente me habituado ao seu estilo de traduzir Shakespeare, sempre preocupada com a dimensão teatral da obra, com o trabalho do ator, sem tornar o texto excessivamente contemporâneo e sem grandes rebuscamentos linguísticos.


Escrita, talvez, entre 1599 e 1601, trata-se da mais longa peça de William Shakespeare e a que seu protagonista apresenta a maior quantidade de falas. E tal estrutura torna o personagem ainda mais complexo e instigante. Vale lembrar que o enredo de diversas de suas peças não costuma ser uma criação de Shakespeare, mas uma releitura de obras anteriores ou temas históricos. Um dos grandes méritos do teatro shakespeariano é justamente a capacidade de dar uma nova e surpreendente amplitude a tais temas e enredos, muitas vezes já abordados anteriormente, representando, a partir deles, o dilema humano e sua precária condição. Em Lear, temos um rei que envelheceu sem se tornar sábio; em Otelo, o nobre e valoroso mouro sendo escravo de seu ciúme cego e doentio; e na peça em questão temos o jovem Hamlet vivenciando o tormento de descobrir que seu pai, o rei Hamlet, foi assassinado pelo próprio irmão, Cláudio, tendo logo em seguida desposado sua mãe. A partir de então, eis a angústia de uma vingança que se protela, eis os monólogos que revelam que o príncipe hesita, pensa em abandonar a própria vida, busca levar adiante seu ímpeto de justiça, reflete sobre os reveses da vida, eis que vivencia dolorosamente diversos questionamentos. As dualidades perceptíveis ao longo da peça desnorteiam a cada leitura. Por exemplo, Hamlet se finge de louco, enquanto sua amada Ofélia efetivamente enlouquece. Hamlet teve seu pai assassinado, mas torna-se o assassino do pai de Laertes. Cláudio, que chega ao trono após derramar veneno no ouvido do rei Hamlet, enquanto este dormia, usa de artimanha verbal contra o príncipe Hamlet, instigando-o através de palavras (aqui entendo metaforicamente como "envenenar pelos ouvidos") para um embate onde almejava que o jovem fosse efetivamente envenenado e, consequentemente, morto. 

A Dinamarca de Hamlet é um reino mergulhado na podridão generalizada. O jogo de aparências, dissimulação e cinismo de Cláudio, o rei usurpador e traiçoeiro, é apenas mais um sintoma de toda uma sociedade corrompida, que tinha no rei Hamlet o pouco que lhe sobrara de altiva nobreza, esta que seu filho não conseguiu reaver. Penso em Hamlet como uma tragédia do amadurecimento angustiante, da tomada de consciência de um mundo que se desencanta e revela seu lado mais doloroso, onde não bastou descobrir o assassinato do pai, mas ter de conviver com a própria mãe casada com esse assassino; e a loucura, que poderia ser o refúgio para este mundo degradado, talvez lhe servisse como instrumento de vingança, enquanto o destino sela definitivamente a tragédia de sua existência.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

CADA COISA, Eucanaā Ferraz



De Francis Ponge a Arnaldo Antunes, diversos poetas desenvolveram obras e poemas centrados em coisas, objetos, cada um à sua maneira, uns buscando a descrição milimétrica das coisas, outros buscando transcendê-las via metáfora; uns buscando ver o ser humano enquanto coisa, outros buscando ver a humanidade nas coisas. E novas experiências sempre irão surgir, como o livro Casa das Máquinas, de Alexandre Guarnieri, e, agora, Cada Coisa, de Eucanaã Ferraz. A seara das coisas se desenvolve tanto numa linguagem mais hermética e rebuscada, como na obra de Guarnieri, quanto numa linguagem bastante lúdica e divertida, como na obra de Eucanaã. Particularmente, afirmo que, mesmo permeando caminhos possivelmente antagônicos, os dois autores desenvolveram um ótimo trabalho. 
Trato aqui do livro de Eucanaã Ferraz, lançado pela Companhia das Letrinhas, em novembro de 2016, contanto com excelentes ilustrações e projeto gráfico de Raul Loureiro. Eucanaã já possui uma longa e frutífera experiência literária. Dentre seus livros, digamos, voltados para crianças, temos Bicho de Sete Cabeças e Outros Seres Fantásticos (2009), Palhaço Macaco Passarinho (2010), dentre outros. No entanto, o autor (acertadamente, ao meu ver) prefere classificá-los como “livres, para qualquer idade”. Entendo “livro infantil” como sendo aqueles que são escritos ou editados tendo as crianças como possíveis leitores, posto que diversas possibilidades de experiência estético-literária não estão limitadas ou necessariamente associadas à idade do leitor. É dessa maneira que li o livro de Eucanaã. E foi dessa maneira que gostei bastante do livro de Eucanaã, como um convite ao lúdico exercício de experimentar, registrar e reinventar o universo de coisas que nos cercam ao longo de todas as idades.
Trata-se de uma espécie de dicionário, tendo poemas por verbetes que apresentam diversas coisas (alfinete, bicicleta, janela, piscina etc) a partir de sua personificação, questionamento, comparação e outras resoluções linguísticas. Daí que não vi no livro de Eucanaã uma poesia sobre coisas, mas uma visão da poesia nas coisas. Se em diversos momentos, sobretudo no modo de vida contemporâneo, os objetos podem dominar o ser, através da linguagem poética também podemos tentar humanizar as coisas, o que talvez nos proporcione uma visão de mundo muito mais interessante.