quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Antecipações poéticas

[Adriano Lobão Aragão

Há que se louvar aqueles que se dedicam a pesquisar, analisar ou divulgar a poesia neófita produzida no Brasil. Investir no novo requer um exercício complexo de discernimento e paciência, tamanha a enxurrada de edições, antologias, livros artesanais, livros digitais, sites, blogs, uma infinidade de versos e versejadores em busca de um mesmo lugar: o foco do olhar do leitor. Nesse emaranhado de palavras, deve-se valorizar o trabalho de pessoas como André Dick e Marco Lucchesi, por exemplo, que dedicam boa parte de seus esforços literários para compreender e propagar a obra de novos poetas contemporâneos. Acreditam, em seu labor, no valor de suas apostas, e assumem o compromisso de proferi-las. O lançamento do primeiro volume da série Poesia Contemporânea, intitulado Prévia Poesia, editada pela Risco Editorial, representa mais um esforço nesse sentido. Coordenada por André Dick, trata-se de uma realização do Governo de São Paulo e da Secretaria de Estado da Cultura, contando com a produção da Poiesis, Organização Social de Cultura, uma união de esforços em prol de um bem comum: a editoração e divulgação das realização poéticas de autores contemporâneos.

Como o próprio título da antologia sugere, Prévia Poesia antecipa alguns poemas inéditos de 10 poetas, a maioria em vias de publicação. Um interessante contato, sobretudo para os autores, pois permite uma escuta de como sua obra está sendo lida, uma antecipação do caminho que permitiria um melhor equilíbrio dos passos. O apoio de projetos como esse deveria ser um exemplo a ser seguido pelas secretarias de cultura dos demais Estados (apesar de algumas, como a do Piauí, sequer honrarem compromissos editoriais assumidos há alguns anos através de concursos literários, o que demonstra sua falta de interesse nesse âmbito).

Apesar de realizada pelo Estado de São Paulo, a antologia em nenhum momento mostrou-se bairrista. Buscou-se, ainda que breve, compor um painel que abrangesse diversas localidades e tendências, embora nenhum desses elementos possa ser compreendido como critério. O mais provável é que a geografia e a feição linguística da obra tenham espontaneamente apresentando seus matizes ao longo do processo de pesquisa e seleção, como as boas antologias costumam surgir. Não encontramos, pelo menos em uma primeira leitura, exemplos de uma poesia vigorosa e essencial, mas relevantes esforços em diversos momentos. Um bom indicativo para seguir em frente. Nas páginas de Prévia Poesia encontramos os versos de: André Ricardo Aguiar, paraibano de Itabaiana, antecipando “A idade das chuvas”, seu terceiro livro de poemas. Andréa Catrópa, paulista, além de autora, engajou-se na propagação da poesia contemporânea, tendo coeditado o jornal “O Casulo”, participado da organização da “Antologia Vacamarela – 17 poetas brasileiros do XX” e dirigido o programa de rádio sobre poesia contemporânea “Ondas Literárias”. Casé Lontra Marques, nascido em Volta Redonda (RJ), mas radicado em Vitória (ES), mantendo sua obra poética em intenso crescimento editorial e diversos experimentos estéticos, antecipa poemas de dois livros inéditos. Cláudio Trindade, paulista, residente em Florianópolis, artista visual e tradutor de haiku do poeta japonês Issa, explora os versos curtos e fragmentados em seu livro inédito “sem título”. Eduardo Jorge, cearense de Fortaleza, vive em Belo Horizonte (MG), antecipa poemas de “Minissérie casas-elástico”, livro contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária, em 2010. Fabrício Marques, mineiro, antecipa “A fera incompletude”, contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária, em 2008. Izabela Leal, carioca, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Pará, apresenta poemas de “Correspondência”. Ranieri Ribas, baiano radicado em Teresina (PI), professor da Universidade Federal do Piauí, editou em 2004, pela Amálgama, “Os cactos de Lakatus” e, agora, antecipa poemas de “Aos renovos da erva”. Simone Homem de Mello, paulista, reside atualmente em Berlim, Alemanha. Como tradutora, dedica-se à poesia moderna e contemporânea de língua alemã e à obra do escritor austríaco Peter Handke. Tatiana Pequeno, carioca, apresenta poemas de seu segundo livro de poemas, “A torre fulminada”. 

É curioso notar que, dentre os participantes, a maioria não limita seu interesse poético apenas à produção. No prefácio da obra, Dick afirma que “aqui, neste livro que antecipa poemas de livros inéditos, também há poetas-tradutores, como Izabela Leal, Andréa Catrópa, Simone Homem de Mello, Cláudio Trindade e Eduardo Jorge, e críticos, como Ranieri Ribas, Fabrício Marques, Tatiana Pequeno e Andréa Catrópa, que analisam o cânone de Pound/Bloom, Leminski, poesia portuguesa e o cânone da crítica brasileira, respectivamente, além de um poeta que envereda também pela poesia infantojuvenil e pela crônica, como André Ricardo Aguiar.” Trata-se de um perfil bastante recorrente entre os atuais artífices do verso.

Não há certeza alguma de que os poemas apresentados em Prévia Poesia sejam novamente publicados sob essa mesma feição, ou que os livros inéditos anunciados venham a ser editados, ou reescritos, ou mesmo abandonados em prol de novas experiências, mas o certo é que trabalhar com poesia é certamente um laboratório contínuo, aberto constantemente a novas vivências e, no caso da antologia em questão, novas participações, conforme expresso na orelha do livro: “Você, leitor/poeta, também pode mandar seus originais para o e-mail: riscoeditorial.ineditos@poiesis.org.br. A Risco Editorial tem o objetivo de que esta série se transforme num espaço para discussão da poesia contemporânea e revitalização da língua e da cultura.”



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 29 de dezembro de 2010]

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

entre folhas a parreira

[adriano lobão aragão]


mas de tua tez aflora
mais que evidente elegia
de fruta e aurora

e uva talvez teus seios
ou tua vulva
que entre folhas a parreira
espalha sementes

e de tuas mãos sobrepostas
como se a si segurasse
suavemente em essência

sendo o próprio pomo
o que emana teu âmago
em colheita inteira

somente em si

domingo, 26 de dezembro de 2010

e quando retorna a si a oferenda


[adriano lobão aragão]



 
e o que saber de teu anseio entregue ao ventre e ao seio alheio
        [quando retorna a si a oferenda que há pouco somente sêmen seria?
e que força haveria em teu sangue que não vê as marcas
                                       [de teu semblante impressas em um outro ser?
e como artífice tenaz emprenhas o obstinado ofício de reinventar-se
                               [em imagem e semelhança na fêmea que emprenhas
e eis novamente em teus braços os traços que em ti afirmam
                                                        [a perpétua condição de semeador
e como impetuoso autor revisando a própria obra chega até si o desejo e a hora
                                                  [de descartar o esboço que feito fora outrora
e eis que teu riso e tua mão se estendem a apenas um dos irmãos
                             [para que corra o risco e o destino de existir em vão
e que seja a mão que se ergue em fratricídio a mesma que jaz em suplício
                                              [e ambas as duas palmas de tuas mesmas mãos 
e o que saber de teu feito quando retorna a si a oferenda
                                                  [que reafirma em teu filho teu genitor?



segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Contra um mundo melhor: ensaios do afeto



Wagner Moraes
Foto
Luiz Felipe Pondé: "O que nos humaniza é o fracasso"
“Contra um mundo melhor: ensaios do afeto”, novo livro do filósofo provocador Luiz Felipe Pondé, será lançado com um debate aberto ao público na próxima sexta-feira (3), na CPFL Cultura, em Campinas. Também vão participar da discussão o historiador Leandro Karnal e outro filósofo, Oswaldo Giacoia Jr.

Lançado pela editora LeYa Brasil, o livro de Pondé traz ensaios sobre a filosofia do cotidiano, com temas variados, como: relação entre homens e mulheres, memórias da infância, fracasso, dinheiro, egoísmo e humildade. Fiel ao seu estilo contundente, o autor recusa lugares-comuns e uma postura conformista, procurando provocar o leitor para tirá-lo da apatia.

Filósofo e professor universitário, Pondé utiliza uma linguagem coloquial, entre o discurso acadêmico e o jornalístico, que tira as discussões filosóficas do ambiente restrito das salas de aula. Colunista do jornal Folha de S. Paulo desde 2008, busca ampliar o diálogo que mantém com os leitores em sua coluna.

Para muitos, Pondé revitalizou o colunismo através de seu estilo polêmico e provocativo. Não por acaso, no ensaio inicial de “Contra um mundo melhor” o autor cita algumas vezes outro colunista controvertido, Nelson Rodrigues, a quem oferece o livro. “Hoje faltam homens como ele: homens que não têm medo. Assim como ele, não acredito num mundo melhor e direi isso de várias formas diferentes até morrer”, diz Pondé.

Os ensaios possuem tamanhos variados, alguns mais curtos que outros, mas todos breves, de modo a facilitar a leitura e adaptá-la a um cotidiano apressado. O autor explica a opção pelos fragmentos afirmando que “a descontinuidade descreve melhor uma filosofia do afeto, que se move a sobressaltos, e também porque o cotidiano é descontínuo”. Reafirma seu ceticismo com frequência, o que o faz recusar a busca insistente por um mundo melhor, que para Pondé, é uma impossibilidade e também um falso objetivo.

Nos ensaios, ele denuncia o que chama de “marketing do comportamento”: discursos e posturas hipócritas com toques de sofisticação, que buscam mascarar a angústia e o sofrimento do mundo, o que, para o filósofo, constitui a essência do humano. “O que nos humaniza é o fracasso”, diz.

Pondé ainda explica por que decidiu escrever para não filósofos e por que não acredita em um mundo melhor: “Cansei da filosofia, por isso comecei a escrever para não filósofos, porque a universidade, antes um lugar de gente inteligente, se transformou num projeto contra o pensamento. Todos são preocupados em construir um mundo melhor e suas carreiras profissionais. E como quase todas são pessoas feias, fracas e pobres, sem ideias e sem espírito inquieto, nada nelas brota de grandioso, corajoso ou humilde. Eu não acredito num mundo melhor. E não faço filosofia para melhorar o mundo. Não confio em quem quer melhorar o mundo. É isso mesmo: acho um mundo de virtuosos (principalmente esses virtuosos modernos que acreditam em si mesmos) um inferno”.


Fonte: CPFL Cultura

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Quantidade suficiente para poesia

Veículo q.s.p. - foto de Kátia Barbosa


Quantidade suficiente para poesia
[Adriano Lobão Aragão]


A Academia Onírica é resultado de um curioso encontro de vertentes e gerações que, inevitavelmente, culminariam na mesma direção: a necessidade da poesia e suas múltiplas formas de expressão. A despeito do nome, não espere as formalidades típicas que o uso do termo “academia” costuma evocar. E se o adjetivo “onírico” remete ao sonho e à fantasia, que seja assim, mas a Academia Onírica parece sonhar com os olhos abertos para o futuro e suas possibilidades. E o hibridismo revela-se como a tônica dessa harmonia dissonante, pois encontramos conexões múltiplas, envolvendo desde encontros poéticos mensais, a editoração do zine AO, até a exibição de documentários, como “A Revolução dos Pirulitos” (abordando o controverso poeta Chiquinho Garra) e “Sem Palavras” (que retoma o panorama da cena underground teresinense da década de 70, tendo como foco o artista Arnaldo Albuquerque), ambos dirigidos por Aristides Oliveira e produzidos pelo Coletivo Diagonal. Encontramos também o blog poesiatarjapreta.blogspot.com, que dá o devido suporte de divulgação via internet e, como a maioria dos veículos on line, desenvolve-se a partir de seus próprios recursos: vida própria, um blog que, ao mesmo tempo em que divulga os eventos e as ideias da Academia Onírica, veicula-se como um blog de poesia que sustenta-se autonomamente. Nesse sentido, a veiculação do zine AO, um breve prontuário de poemas apresentados como remédio contra a mesmice, não é um desdobramento do blog, muito menos dos encontros poéticos realizados no Orbital Cultural Canteiro de Obras, pois funcionaria da mesma forma sem o evento ou o blog, mas ganha, é claro, muito mais força quando reunidos. 

Sediada em Teresina, Piauí, e envolvendo Demetrios Galvão, Fagão, Kilito Trindade, Laís Romero, Thiago E., Valadares e Arianne Pirajá, a Academia Onírica finalizou as atividades de 2010 com o lançamento de um CD intitulado Veículo Q.S.P (quantidade suficiente para), no qual, sob o acompanhamento musical da banda Quarterão, os oníricos declamam seus poemas. Apesar do estilo “manifesto” que costuma instaurar-se nos textos de apresentação produzidos pelo grupo, há no CD um equilíbrio entre declamação e musicalidade que, diversas vezes pende para uma ambientação mais lírica do que muitos poderiam supor. Destacaria, para uma audição mais demorada, as faixas “Eu Digo Amor”, de Laís Romero; “Be Bop”, de Fagão e Adolfo Severo; e “A Língua” de Thiago E. Vale lembrar que o trabalho poético de Thiago E. na Academia não parece competir ou valer-se de sua participação na banda Valeduaté, e uma prova disso é a gravação de seu poema calcada quase que exclusivamente na declamação. Trata-se de poesia em espaços distintos, feições distintas, mas, enfim, poesia. 

Em relação aos encontros poéticos, as noites homenageavam artistas da palavra, como Pablo Neruda, Manoel de Barros, Arnaldo Antunes, Rubervam Du Nascimento, Ana Cristina César, entre outros. “Não sei se todos entenderam, mas o poeta ‘homenageado da noite’ era sempre uma desculpa para que os encontros existissem, pois o que estava sendo valorizado eram os poetas presentes e a produção dos demais artistas envolvidos,” declarou Demetrios Galvão, em texto publicado no blog do grupo. E, oniricamente, Kilito revela que “era a eletropoesitividade de uma noite onírica que me invadiu e multiplicou-se pelo soma impulsionando minhas células a movimentos radônicos tal qual carrinhos de bate-bate num parque de diversão”.
 
Nas palavras de Valadares, “este coletivo, que começou a ser idealizado por duas mentes precisadas destes comprimidos (Kilito e eu), há quase vinte anos, busca através de olhares aguçados, de corpos sãos, de mentes sãs... novas primas, novas eras, novas floradas, que tragam a textura dos ipês, a modelagem colorida das palavras, de coisas que traduzam a vontade de ser artífice, que tragam o horizonte dos artistas...”

Não creio que, no momento, caiba aqui uma análise crítica dos versos apresentados nas noites poéticas, nos zines AO, na Academia em si. Há, como em qualquer canto em que se busque a poesia como meio de expressão, bons e razoáveis resultados, e só faria sentido um julgamento crítico mais apurado caso voltássemos a atenção para algum poema ou autor específico. Mas essa é uma outra questão, pois a Academia Onírica abre-se para a pluralidade e, enquanto grupo, deve ser valorizada naquilo que tem de melhor: a agregação de valores distintos que dá visualidade a um fenômeno maior, a colocação da poesia como ordem do dia e da noite, uma grande experiência em que cada um pode contribuir com um (ou vários) verso(s), e depois de 11 noites de poesia, 11 edições do zine AO e do CD Veículo Q.S.P. o sonho continua pulsando pela noite adentro.



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 14/12/2010]

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

o filme os cinemas

[adriano lobão aragão]


o que vi nesta sala de exibição jamais verei na seguinte sessão
no rex no royal no centro de convenção
o que vejo nesta sala a sua própria e escura exibição

o que aqui se projeta nestes olhos que aqui se encontram aqui estão
o que vi apenas não o que outros aqui agora verão
e o que somente a mim se mostra a cada projeção

e depois nem a mim novamente serão
as mesmas imagens repetidas em tantas cenas em tantas salas então
revelando a cada um uma outra nova atenção




[in as cinzas as palavras, 2009]

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ValeduArnaldo

Arnaldo Antunes ao vivo lá na casa dele

Sei não, mas o cenário do novo trabalho de Arnaldo Antunes, Ao Vivo Lá em Casa, lembra muito o visual explorado no encarte do primeiro CD da banda piauiense Valeduaté.

A banda Valeduaté mostrando a cara no peito

No encarte do CD Pelos Pátios Partidos em Festa, as camisetas coloridas estão penduradas nos varais, semelhante ao que foi feito no palco da casa do Arnaldo. Logo abaixo, o momento em que Thiago E., integrante do Valeduaté, presenteia Arnaldo com o CD da banda (percebe-se, no final do video, que Arnaldo elogia a capa). Na criação artística, influenciar e ser influenciado é absolutamente natural, mas ficaria feliz se encontrasse um "agradecimentozinho" ao pessoal do Valeduaté, ainda que em letras minusculamente discretas em algum canto perdido do encarte do Ao Vivo Lá em Casa.

domingo, 5 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Singularidades de uma rapariga loura (2009), de Manoel de Oliveira

Singularidades de uma rapariga loura

[por Wanderson Lima]



Em alguns artistas, a velhice traz a clarividência de que dizer a verdade consiste, em grande parte, em livrar-se de truques e barroquismos. Manoel de Oliveira, que em dezembro completará 102 anos, pertence a este rol: a cada filme seu, a depuração vai atingindo uma essencialidade franciscana. Depuração, porém, não significa transparência: o sentido dos filmes desse português é, para lembrar a expressão do poeta, um claro enigma. Tudo é posto e disposto numa honestidade brutal e quase ingênua, mas nessa clareza resplandece a luz ofuscante do mistério. É que num estilo essencial qualquer signo que pareça decorativo ou deslocado é logo estranhado, ganhando uma conotação simbólica. Assim é Singularidade de uma rapariga loura (Portugal, 2009): escorreito, contido, mas eivado dessas armadilhas simbólicas.

Quem quer assista a Singularidades sem conhecer o conto homônimo de Eça de Queiroz que o filme recriou, terá um ganho e uma perda evidentes. O ganho, sem dúvida, é o impacto do desfecho (desde o esplêndido Um Filme falado, de 2003, Oliveira não fazia um final tão impactante); a perda é que o conto nos dá um conhecimento prévio da postura moral de Luisa que nos ajuda a perceber com mais discernimento a sutileza de certas cenas.

Na verdade, Manoel de Oliveira não adaptou o conto de Eça de Queiroz, se por “adaptar” entendemos buscar ser fiel ao original, encontrar recursos equivalentes no cinema àqueles que o prosador se valeu na arte literária. Embora correto e elegante, qualidades também evidenciáveis no cinema de Oliveira, o estilo de Eça é pródigo de recursos estilísticos, abundante de adjetivos usados em contextos insólitos, ricos em subentendidos críticos e cômicos (“Tinha o carácter louro como o cabelo...”), irônico nos comentários que tece sobre a sociedade. Na versão cinematográfica do conto realizada por Oliveira, creio eu, ganha-se em sutileza (qualidade que o autor de O crime do Amaro nem sempre ostentou entre suas maiores) o que se perde em ironia ferina e análise social impiedosa. Mas o diferencial maior entre ambas as narrativas talvez seja a discrepância entre a ambição eciana, mesmo no curto espaço de um conto, em constituir um painel social em comparação com a contenção manoelina, que se centra no drama que envolve o casal  Macário e Luisa. Em resumo,  Manoel de Oliveira não viaja ao país de Eça: traz Eça ao seu mundo.

Infidelidade? Penso que, quando se trata de recriar no cinema a obra de um grande escritor, só se é infiel quando se é subserviente à obra literária ou quando se exorciza do filme toda a complexidade da obra literária unicamente com fins comerciais. Naturalmente, os aficionados na prosa de Eça irão desconsiderar o mais de meio século de trajetória artística de Manoel de Oliveira e dirão que o filme é pouco eciano; já os zelosos professores de Literatura talvez considerem, com razão, que seus alunos irão achar o filme enfadonho, com sua mise-en-scène minimalista e os atores recitando o texto, à maneira de Bresson (aliás, a atriz que interpretou a Luisa, Catarina Wallenstein, é uma perfeita “modelo” bressoniana, deixando a leitura das emoções por nossa conta; já o tio de Macário atuou de um modo um pouco excessivo, para os padrões do filme). É quase ocioso dizer que essas opiniões reticentes quanto ao filme não dizem nada sobre o filme em si e, portanto, não podem sequer arranhar a reputação de Manoel de Oliveira.


Singularidades de uma rapariga loura, o filme, arma um expediente narrativo bastante conhecido: o protagonista, numa viagem de trem, conta, ainda amargurado, sua história de amor frustrado a uma desconhecida. Com esse expediente, Manoel de Oliveira concretiza seu propósito estético de narrar apenas o essencial, desobrigando-se de colecionar imagens meramente ilustrativas. O que é inessencial, não vemos – só ouvimos; apenas se filma o estritamente necessário à economia estética do filme e à revelação dos traços psicológicos e morais das personagens (não é à toa, pois, que o filme só tenha uma hora).

     A primeira cena significativa do filme – considerando que as cenas do trem servem primordialmente como muleta narrativa – é sintomática do que enunciei parágrafos acima, isto é, de como o estilo clean e contido do diretor imediatamente desloca à condição de símbolo qualquer signo aparentemente inessencial da encenação. O protagonista Macário (Ricardo Trêpa) contempla, da janela do seu escritório, a bela e misteriosa Luísa (a mão segura um leque chinês, a que o protagonista não cansa de falar em seu relato; os cabelos cobrem um dos olhos; a postura é discretamente dissimulada); nesta hora um discreto ruído de microfonia cede lugar ao repicar de sinos (numa celebração sacral ao amor que nasce, como bem notou o crítico Fábio Andrade); Luísa desce uma cortina translúcida mas não deixa de, através dela, trocar olhares com Macário.  O leque “chinês” (objetivo de conotação simbólica também no conto de Eça), a cortina translúcida, os sinos que repicam – eis aí armada a teia simbólica do filme, embora dificilmente percebamos isso a primeira vez que o vemos. Macário se apaixona por uma imagem, no sentido platônico; isto é, por um eikon, uma sombra, uma ilusão. E ele irá perseverar nessa imagem até a revelação sobre o caráter de Luísa que o desfecho mostrará. Para quem não leu o conto, ou assistiu ao filme distraidamente, a atitude de Macário poderá parecer mais dura do que de fato o foi.

Uma cena sintomática quanto a um ponto basilar que tenho assinalado acerca do estilo do filme – a saber, como no estilo minimalista do diretor qualquer gesto ou objeto “em excesso” ganha força simbólica – dá-se quando Macário decide viajar para Cabo Verde a fim de conseguir o dinheiro necessário para casar e dar uma vida digna para Luísa. Ao comunicá-la pessoalmente sobre a viagem (ela já sabia através de carta), os dois se beijam; no momento do beijo, a câmera foca apenas as pernas de ambos (outra opção que lembra Bresson). Nesta hora, de uma maneira gritantemente forçada e artificial, Luisa levante uma das pernas. Índice do caráter dissimulado de Luisa? Referência paródica a Hollywood? Difícil, ao menos para mim, decidir. É nos pequenos gestos, nos detalhes ínfimos, que Manoel de Oliveira abre clareiras de mistérios em seu estilo clean e quase didático. Uma cena como essa, ainda que não decidamos o seu sentido preciso, nos lembra que há um corpo (há uma mecânica do corpo) e que este pode reagir diante das situações de maneira natural ou de modo maquiavelicamente premeditado. Ou seja: a imagem é dubitável em sua própria constituição. Em última instância, portanto, Singularidades de uma rapariga loura é um filme sobre o caráter ambíguo da imagem, sobre o que podemos (e sobre o que queremos) ver. Quantos de nós já não nos apaixonamos por uma mera imagem (eikon)?
  
A impressa mundial não cansa de apresentar Manoel de Oliveira como um fenômeno exótico (positivo, mas não por isso menos exótico): um simpático velhinho centenário que faz um filme por ano! Mas producente seria indagar como o fator idade influi na economia de seus filmes. Na depuração estilística de seus últimos filmes, por exemplo, isso é inquestionável. E, no caso de Singularidades, no anacronismo evidente dos valores vividos e partilhados pelos personagens. Anacronismo esse que não só corrobora a autenticidade autoral do filme (Manoel, além de dirigir, adaptou a história de Eça e participou do processo de montagem) como nos faculta um distanciamento crítico dos personagens que nos afina a percepção dos valores (nem sempre nobres) que fundamentam nosso modo de vida.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Celuzlose - sétima edição







A sétima edição da revista Celuzlose já está pronta e disponível na internet.

Para acessá-la, basta clicar no link abaixo:




NESTA EDIÇÃO

Entrevista 
Armando Freitas Filho
 

BR.XXI - Literatura Brasileira Contemporânea 
Ana Tanis
Annita Costa Malufe
Beth Brait Alvim
Bruno Brum
Bruno de Abreu
Chiu Yi Chih
Diniz Gonçalves Júnior
Edson Bueno de Camargo
Isadora Krieger
Reynaldo Damazio
Roberta Ferraz
Thiago Ponce de Moraes
 

GEO - Literatura sem Fronteiras
Ignacio Muñoz Cristi (Chile)
José Landa (México)
Juan José Macías (México)
 

Caderno Crítico 
Por uma leitura fenomenológica de Édipo Rei - por Chiu Yi Chih
Borges e a poesia: Esse ofício do verso - por Wanderson Lima
 

O que é poesia?
Edson Cruz (Organizador)
Ana Maria Ramiro
Beatriz Bajo
Laís Chaffe
 

BIO - Vida & Obra 
Arthur Rimbaud - por André Dick
 

LÚCIDA RETINA - Poesia Visual
 Guilherme Mansur

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

prefácio

[Adriano Lobão Aragão]




uma ânfora vazia
desde remotos séculos repete
“Kleimachos me fez e eu sou dele”

Kleimachos não mais existe
só a posse de sua ânfora se perpetua
mais forte que sua matéria

uma estatueta arcaica repete
“a cada um que me pergunta
respondo a mesma coisa
Andron filho de Antífonas
dedicou-me como dízimo”

nesse dízimo se prepara a palavra
no princípio era o verbo
e o verbo se fez arma

pergunta como salvar uma alma pela palavra




[in Entrega a Própria Lança na Ruda Batalha em que Morra, 2005]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sem Palavras - documentário

Arnaldo Albuquerque
 
 
[postagem extraída da Academia Onírica]

Sem Palavras é um documentário produzido pelo Coletivo Diagonal em parceria com o Núcleo de Quadrinhos do Piauí. O filme percorre fragmentos ainda existentes nas vozes de Cineas Santos, Durvalino Couto Filho, Alberti Piauhy, Paulo Machado, Maria Soledade, Bruno Leonardo e Antônio Amaral para registrar o panorama da cena underground teresinense na década de 70, tomando como foco inspirador o artista Arnaldo Albuquerque. Intencionalmente esquecido por alguns, respeitado e valorizado por outros, o filme se filia a segunda opção.

Resgatando um conjunto de memórias que localizam historicamente o papel desse artista, atuante no cinema super-8, ilustração, gravura, arte gráfica, artes plásticas, HQ’s, incentivador dos festivais de música autoral na cidade, happenings sangrentos na avenida Frei Serafim e muitas outras práticas culturais, o filme levanta nas suas entre-imagens o significado e importância de Arnaldo Albuquerque para a construção da cena artística teresinense e seus desdobramentos contemporâneos.
Longe dos estereótipos pós-torquateanos, mas contraditoriamente aderindo-se a ele, com ressalvas e devidas correções, Arnaldo Albuquerque continua vivo, ao seu modo...

Um vídeo de Bernardo Aurélio, Aristides Oliveira e Meire Fernandes.
Direção: Aristides Oliveira.
Roteiro: Aristides Oliveira.
Câmera: Aristides Oliveira e Bernardo Aurélio.
Direção de Arte: Meire Fernandes.
Edição: Denes Filho.
Realização: Coletivo Diagonal e Núcleo de Quadrinhos do Piauí.
Duração: 86’
Ano: 2009/2010.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Prelúdio

[Martins Napoleão]


 

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.
 
E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde para, admirado, em cima das montanhas.
 
Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.
 
Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.
 
A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.
[in Poemas da Terra Selvagem, 1940]



Martins Napoleão 
[Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu em União, PI, em 1903. Professor, poeta, jornalista e tradutor. Presidiu a Academia Piauiense de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981. O Cancioneiro Geral, 1981, reúne sua obra poética, composta, entre outros, por Copa de Ébano (1927); Poemas da Terra Selvagem (1940); Caminho da Vida e da Morte (1941) e Prisioneiro do Mundo (1953).]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O engenho musical de Da Costa e Silva





A obra de Da Costa e Silva, desde o seu preâmbulo, “Sangue” (1908), se nos mostra como um rigoroso exercício melopoético (música e palavra). Isso porque, em grande parte de sua poesia, os aspectos fanopaicos e cognitivos parecem estar sobrepujados pelos aspectos musicais. Em outros termos: a literatura dacostiana – inegavelmente influenciada por vertentes simbolistas – procura se pautar em uma estética na qual os sons são a base material do fazer artístico. As palavras, desse modo, ligam-se umas às outras mais pela questão da afinidade fônica do que mesmo pelo sentido que procuram expressar. As construções frasais do texto são pensadas predominantemente com intuito de se atingir a precisão horizontal da música tonal: um arco melódico narrativo no qual se observa a alternância entre momentos de tensão e repouso.

Vejamos, em uma breve análisea)literário em um , dois importantes poemas do autor:


SAUDADE

Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... O caburé com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
a saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de Dor do Pensamento
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas de névoa sobre a serra.

Saudade! O Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... E ao longe,
o mugido dos bois da minha terra...


A MOENDA

Na remansosa paz da rústica fazenda,
à luz quente do sol e à fria luz do luar,
vive, como a expiar uma culpa tremenda,
o engenho de madeira a gemer e a chorar.
Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
e, ringindo e rangendo, a cana a triturar,
parece que tem alma, advinha e desvenda
a ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...
Movida pelos bois tardos e sonolentos
geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.
Ai, dos teus tristes ais, ai, moenda arrependida
- Álcool! para esquecer os tormentos da vida
- e cavar, sabe Deus, um tormento maior!


            O poema ormpço, “Saudade”, por exemplo, agrupa um conjunto de recursos fonoestilísticos e musicais de uma maneira virtuosística. Aliás, “virtuosismo melopoético” é uma expressão que se coaduna muito bem ao universo da poesia dacostiana. Algumas vezes, o poeta chega mesmo a exagerar (como na seção Poemas da fauna, em “Zodíaco”), transformando um recurso literário em uma espécie de truque lingüístico. O poema “Saudade” expressa – através de uma série de imagens dispostas de maneira quase que cinematográfica e num um ritmo lento, arrastado – uma intensa melancolia, este sentimento tão peculiar à nossa cultura de tradição lusitana. Para tanto, o poeta se utiliza de várias pausas, reticências, suspensões, orações gerundiais, assonâncias – métodos que tornam os versos largos (no sentido musical do termo), como as frases musicais de duração longa. E de fato – como nos mostra os estudos musicológicos da canção, em especial as investigações na área da semiótica – as frases musicais de durações longas geralmente estão associadas à melancolia, à tristeza e à solidão. Um distanciamento entre sujeito e objeto.

            O que realmente nos impressiona nesse soneto é o equilíbrio entre imagem/ som/ sentido que Da Costa e Silva conseguiu atingir. Não raro, observamos que o sentimento de melancolia e saudade é tratado de maneira piegas pela nossa poesia e, mais ainda, pela nossa música popular. Da Costa e Silva conseguiu expressar a saudade pela sua terra natal de maneira extremamente rica e balanceada: as imagens soltas (o olhar de minha mãe rezando, o caburé com frio, as folhas lívidas ao vento, as mortalhas de névoa sobre a serra) se mesclam com o ritmo expressivo e com a sonoridade medida e pesada de cada palavra. A própria musicalidade do poema e a sugestão de suas imagens já nos impregnam de melancolia e de sentimento de perda e distanciamento das coisas. Em uma leitura em voz alta desse poema é possível ouvirmos os sons do vento (gemidos vãos de canaviais ao vento), sentirmos o fluxo ininterrupto de um rio (cantigas de águas claras soluçando), sentirmos a dureza de um sentimento pela própria “dureza sonora” do verso (Saudade! asa de dor do pensamento). Todas estas colocações parecem corroborar o conceito de Paul Valéry, para quem a poesia é “a hesitação entre som e sentido”.


Em “A Moenda”, o primeiro recurso que nos chama a atenção é a repetição insistente da consoante alveolar r. Esta consoante cria um efeito fônico muito sugestivo, já que está presente em grande parte dos versos. O ruído simboliza a sonoridade ríspida da moenda, o seu “choro” e “gemido”, como nos diz o poeta. O efeito onomatopaico fica mais claro na segunda estrofe:

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
e, ringindo e rangendo, a cana a triturar

O ritmo fônico deste verso é gerado pela sonoridade constante da consoante vibrante e da fricativa g. Em relação ao uso das vogais, observamos que a seqüência das nasais imprime no texto um ritmo arrastado e uma sonoridade mais fechada. Vejamos também que a pontuação (vírgula e ponto-e-vírgula) contribui mais ainda para engendrar a sensação de lentidão do poema. A cadência rítmica criada sugere o próprio movimento de uma moenda, “movida pelos bois tardos e sonolentos”. “A Moenda” é um poema cujo ritmo e sonoridade, a todo o momento, nos proporcionam uma sensação de dureza, de cansaço. Os adjetivos e substantivos escolhidos pelo poeta estão intimamente concatenados com os elementos estruturais: tristes, arrependida, sonolentos, doridos lamentos, ruína, dor, desgraça. Observamos que o escritor procura harmonizar o ritmo fônico com a semântica, o que dá unidade ao texto poético.

Da Costa e Silva nos apresenta – através de uma linguagem rica em efeitos onomatopaicos, assonâncias e aliterações, mudanças rítmicas repletas de sutilezas, modulações melódicas de grande expressividade – uma moenda personificada, que geme, chora e parece ter alma. Um engenho de madeira carregado de ruídos que compõem uma estranha música. Esta musicalidade que simboliza a própria “coisa representada” no poema, como é o caso de “A Moenda”, dos poemas da Fauna e de “Saudade”, é recorrente na obra do escritor piauiense.
           
Os estudos de literatura piauiense geralmente não enfatizam as camadas estruturais e fônicas da obra do poeta de Amarante. Debruça-se muito mais em análises insipientes de poemas de menor envergadura como “Amarante”, do que mesmo em suas experiências melopoéticas mais bem realizadas artisticamente. Muito mais que “um poeta telúrico que canta as belezas de sua terra natal”, Da Costa e Silva é um arquiteto do verso, um engenheiro que experimenta incansavelmente as potencialidades musicais da palavra.



Alfredo Werney é músico, pesquisador e arte-educador. Autor do livro “Reencantamento do mundo: notas sobre cinema”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A imagem da conquista

[Adriano Lobão Aragão]



“Estamos arriscados a ser o primeiro povo da história que conseguiu tornar suas ilusões tão vívidas, tão persuasivas, tão ‘realistas’, que é capaz de viver dentro delas”, assim afirmava o historiador e sociólogo americano Daniel J. Boorstin em seu livro The Image, publicado, na primavera de 1962. Boorstin discutia os modernos meios de comunicação de massa, a suplantação da racionalidade da palavra escrita por uma variedade estonteante de imagens gráficas e eletrônicas, e suas consequência nos valores, expectativas e visão de mundo no amplo público que atingiam. Eis que Clint Eastwood, famoso por atuar como o policial 'Dirty' Harry Callahan na série de filmes das décadas de 1970 e 1980, e principalmente como o “Homem sem nome” dos antológicos westerns spaghetti de Sergio Leone, nos anos 60, acrescentou à sua filmografia (que nas últimas décadas também incluem a direção), um instigante mergulho na necessidade de persuasão que o poder público faz uso para atender suas necessidades através da imagem pública.  

Produzido por Steven Spielberg e pelo próprio Eastwood, “A Conquista da Honra” (Flags of our fathers, EUA, 2006) não é, essencialmente, um filme de guerra, tampouco a visão americana do conflito em Iwo Jima, durante a II Guerra Mundial, que se contrapõe a uma visão japonesa apresentada em “As Cartas de Iwo Jima” (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), realizada simultaneamente por Eastwood. A princípio, poderia ser a reutilização de um recurso que pode ser visto em “O Mais Longo dos Dias” (The Longest Day, 1962), dirigido por Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki, abordando o desembarque dos aliados na Normandia a partir dos dois lados em conflito, mas Eastwood quis ir além da mera documentação histórica, da representação/encenação do combate. “A Conquista da Honra” volta-se para algo maior, mais abrangente e fundamental para a construção da vida contemporânea, não apenas ocidental: o poder da imagem.
 
Essa visão torna-se mais relevante nos dias atuais que em 1944, numa sociedade cada vez mais voltada para a estética iconográfica. É o contraste entre a aparência e a essência, entre o real e o simbólico que interessa a Eastwood. E sobretudo para os propagandistas militares americanos, que precisam de dinheiro para continuar uma guerra que, segundo suas próprias palavras apresentadas no filme, durou mais do que deveria (o que corresponde a dizer que "gastou-se mais do que deveria"). Mas, a partir da imagem de seis soldados fincando uma bandeira no alto de uma montanha japonesa, as pessoas estariam dispostas a patrocinar aquela guerra, pois não estariam comprando bônus de guerra do exército, mas investindo em heróis que, com certeza, trariam a vitória. Aquela foto era mais que uma esperança, era uma garantia. A controvérsia das bandeiras, a morte de diversos soldados, a tênue linha entre a homenagem e o anonimato, juntamente com a angústia de Reyes, o soldado indígena, o altruísmo de Doc e o senso oportunista de René, nos remetem a uma nova história sobre uma bandeira e seus frágeis personagens, uma história muito mais instigante e sincera que a história oficial, recontada por Eastwood em seu habitual estilo sóbrio e equilibrado, como uma reminiscência do que Hollywood já teve de clássico. Mas há um senão: o final ancora-se excessivamente na necessidade de um narrador, arrastando-se demais. Essa indeterminação de encerrar a película é uma característica recorrente em outros filmes de Eastwood, como “A Troca” (Changeling, 2008) e “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby, 2004), mas felizmente não chega a comprometer a relevância e a harmonia de suas obras. Talvez porque, acima de tudo, Eastwood é um cineasta necessário em um mundo cada vez mais dominado pela imagem vazia, mas altamente persuasiva, que marca fundamentalmente nossa contemporaneidade.

sábado, 13 de novembro de 2010

o tempo as fotografias

[Adriano Lobão Aragão]


em tempo: antigo passeio fixado em sépia    
de bordas um dia brancas agora amareladas
de data em um canto auxílio da memória
em torno do que ainda é possível lembrar

em tempo: olhando o olhar de outrora
a vida para um instante para a pose



[in as cinzas as palavras, 2009]

sábado, 6 de novembro de 2010

inútil poema

[Adriano Lobão Aragão]
quando o poema
é inútil
a inutilidade me desusa
pra coisas úteis
por isso gosto tanto
do desfazer poético

espero que me incompreendam

apoéticos pensam que ser poeta
é uma coisa boa
...



[in Uns Poemas, FCMC, 1999]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Deus e o Diabo no Reino deste Mundo

[por Adriano Lobão Aragão]





É bastante sintomático que o dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635) tenha posto na boca do demônio a afirmação de que a América, ainda não possuída pelo europeu, há muito lhe pertencia, e que questionasse o motivo de para o novo mundo terem enviado Colombo. E a história transcorrida no continente desde então não se desvencilhou de seus aspectos míticos e, quase sempre, emaranhados entre o sonho de um paraíso perdido e a aspereza de um inferno terrestre, onde ser humano implica, por diversas vezes, clamar a Deus e ao Diabo. Ao iniciar a primeira parte de O reino deste mundo (Martins Martins Fontes, 2009), é justamente o fragmento de Lope de Vega que o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) toma por epígrafe para sua obra, que aborda a vida do escravo Ti Noel em meio ao processo de independência do Haiti. No prólogo, Carpentier define a própria história da América Latina como o real maravilhoso, em franca oposição com o universo europeu, como uma história que somente poderia se passar no hibridismo cultural do Novo Mundo. 

O crítico literário Harold Bloom, em seu livro Gênio (Objetiva, 2003), observa que “a idéia de que latino-americanos, seja em Cuba, na Colômbia, ou em qualquer outro local, vivem uma realidade mais mágica do que, digamos, os habitantes de Manhattan, é dúbia. É possível que os gênios de Borges, de Carpentier, de García Marquez nos convençam do contrário, enquanto nos encontramos no interior de suas narrativas, mas delas emergimos com novas dúvidas, tanto de natureza metafísica quanto psicológica.” Uma dualidade que a narrativa condensada de Carpentier parece herdar do barroco, acumulando ainda um hibridismo que não seria apenas uma interseção entre Europa e América, Civilização e Barbárie (ou melhor, no caso do Haiti, uma tríplice interseção que incluiria também e, sobretudo, a África), mas os eventos relativos à independência da ilha caribenha constituem justamente uma negação do próprio ambiente híbrido que se desenvolveu na América, onde colonos franceses haviam tomado posse para a construção de algo que não seria nem Europa, nem África, nem mesmo o que fora a América até a sua posse. Mas que aspecto poderia tomar a independência haitiana, em seu pioneirismo libertário numa terra governada pelo signo da dualidade? Carpentier nos apresenta continuamente um ciclo, como as metamorfoses que o personagem Mackandal vivenciou até retomar sua forma humana, destroçada pelo trabalho com os brancos de maneira visível e irremediável, faltando-lhe o braço esquerdo. E Ti Noel, muitos anos depois, também vivenciaria seu ciclo de metamorfoses. Da mesma maneira que a população negra manteria vivo Mackandal na ordem do imaginário, a própria África permaneceria pulsando em sua ânsia de retornar ao continente original sem abandonar a posse da nova terra. E repetir em prol do novo a mesma opressão de dominadores e dominados. Resta-nos, portanto, observar como a peculiar e dinâmica narrativa de Carpentier recria a transição haitiana de colônia francesa, sob dominação branca, para uma nação negra regida pelo primeiro monarca coroado no Novo Mundo; e como a revolução mergulha numa barbárie através do terror. Novamente, eis o interminável ciclo do Reino deste Mundo.

Curiosamente, Alejo Carpentier apoiou a ditadura de Fidel Castro, e foi enterrado em Cuba, com honras de chefe de Estado, embora sua magnífica literatura estivesse voltada para o absurdo do autoritarismo e a decadência das revoluções. Na vida e na obra, temos o signo da dubiedade, como na descrição da segunda rebelião dos escravos haitianos, liderada pelo jamaicano Bouckman, quando “cercaram as casas dos capatazes, apoderando-se das ferramentas. O guarda-livros, que aparecera de pistola em punho, foi o primeiro a tombar, a garganta cortada de um lado ao outro com uma espátula de pedreiro. Após banharem os braços no sangue do branco, os negros correram em direção à casa-grande, gritando morte ao senhor, ao governador, a Deus e a todos os franceses do mundo. Porém, compelidos por velha sede, a maioria correu para a adega, em busca de bebida alcoólica.” No decurso da rebelião, Ti Noel subirá com os filhos para o primeiro andar da casa, pois “havia tempo sonhava em estuprar Mlle. Floridor”, e deixará a jovem “atirada sobre o tapete, pernas arreganhadas e uma foice enterrada nas entranhas.” Ao que parece, o demônio de Lope de Vega tinha razão. 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina-PI, 02 de novembro de 2010]