quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Prelúdio

[Martins Napoleão]


 

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.
 
E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde para, admirado, em cima das montanhas.
 
Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.
 
Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.
 
A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.
[in Poemas da Terra Selvagem, 1940]



Martins Napoleão 
[Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu em União, PI, em 1903. Professor, poeta, jornalista e tradutor. Presidiu a Academia Piauiense de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981. O Cancioneiro Geral, 1981, reúne sua obra poética, composta, entre outros, por Copa de Ébano (1927); Poemas da Terra Selvagem (1940); Caminho da Vida e da Morte (1941) e Prisioneiro do Mundo (1953).]

2 comentários:

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro, Adriano Lobão, este poeta piauiense precisa ser reabilitado na sua integralidade poética. Martins Napoleão precisa ganhar uma fortuna crítica vigorosa e uma publicidade nas escolas, faculdades, imprensa onde for possível. A poética de Martins Napoleão quebra na forma e no conteúdo com qualquer tentativa de bairrismo piegas.

Adriano Lobão Aragão disse...

É verdade, meu caro Emerson. E há vários outros também que, no mínimo, deveriam constar em antologias e reedições.