terça-feira, 17 de dezembro de 2013

2013 e a literatura no Piauí

[Adriano Lobão Aragão]



Um balanço dos acontecimentos literários de 2013 no Piauí, ou em qualquer outro lugar, é uma tarefa árdua e inquietante. Qualquer esforço nesse sentido será sempre um esboço, pois o risco de omitir lançamentos e eventos é constante, por conta das limitações de informação e da perspectiva pessoal. Em outras palavras, nenhum mapeamento de atividades literárias é onisciente e a falibilidade apresenta-se, talvez, como sua marca mais forte. O interessante, porém, é que as inevitáveis lacunas e omissões sejam complementas por outros textos, de outros autores, que, em conjunto, possam dar uma melhor dimensão do que foi o ano de 2013 no âmbito da literatura nestas paragens.

Pois bem, em 2013, tivemos a continuidade dos salões de livros organizados pela Fundação Quixote, tendo o Salipi como referência. Realizado durante o mês de junho, na praça Pedro II, e apresentando M. Paulo Nunes como principal homenageado, o Salipi contou com a presença de Antonio Carlos Secchin, Evanildo Bechara,  Francisco Alves Filho, Gisleno Feitosa, José de Nicola, Lúcio Asfora, Marcos Bagno, Mac Dowell Leite, Roberto Muniz, dentre vários outros. Em Parnaíba, o Salipa ocorreu no Porto das Barcas, em novembro. Homenageando Evandro Lins e Silva, o evento recebeu Affonso Romano de Sant’anna, Demetrios Galvão, Fabrício Carpinejar, Fides Angélica Ommati, José Galas Filho, Marina Colasanti, Thiago E, Zuenir Ventura, dentre outros. Em setembro, o Salipicos, homenageando Fontes Ibiapina, contou com Eneas Barros, Salgado Maranhão, Wellington Soares, Paulo Lins, Jasmine Malta, Lívia Diniz, Luiz Romero Lima, dentre outros. Entre os encontros literários mais restritos, além dos Cafés Literários promovidos mensalmente pela revista Revestrés, Teresina também contou com o tradicional Sarau do Cineas, promovido pela Oficina da Palavra, e com os saraus organizados pela Sociedade dos Poetas Por Vir.

No âmbito dos periódicos literários, a revista dEsEnrEdoS prossegue suas atividades, exclusivamente no meio digital, aliando a publicação de artigos acadêmico-científicos e textos de criação artística; a revista Revestrés aposta no formato impresso voltado para o grande público interessado em arte e cultura, conquistando a cada edição uma abrangência maior. As suas instigantes entrevistas costumam ser bastante comentadas e, muitas vezes, dividem opiniões. E 2013 assinalou o surgimento de outra revista, a Acrobata, que além de literatura e artes plásticas, alia um forte interesse por cinema e outras manifestações audiovisuais, bem como uma forte tendência para o intercâmbio cultural com outros estados, sobretudo São Paulo, onde marcou presença na Balada Literária. Também em São Paulo, a editora É Realizações, prosseguindo com a publicação da obra completa do renomado crítico literário José Guilherme Merquior, lançou o volume Razão do Poema, contando com posfácio de Wanderson Lima.

Correndo o risco de cometer diversas e notórias omissões, assinalamos os lançamentos dos livros de poemas Cabeça de Sol em Cima do Trem, de Thiago E; Às Vezes, Criança, de Rubervam Du Nascimento e Sérgio Carvalho; Pedra de Cantaria, de Graça Vilhena; Poemas Insidiosos, de Caio Negreiros; Objeto Presença, de Luiz Ayrton Santos Junior; Ode ao Amor Desvanecido, de Gilvanni Amorim; O Mapa da Tribo, de Salgado Maranhão; a 2ª edição, revista e ampliada, de Sonetos e Retalhos, do poeta oeirense Gerson Nogueira Campos, falecido em 1971; e a coletânea 15 Poetas de Oeiras, organizada por Rogério Newton. Façamos também o registro do lançamento do livro-reportagem Cinturão de Fogo, de Toni Rodrigues; das ficções O Buraco e Outras Histórias, de Fernanda Paz; O Rato da Roupa de Ouro, de Dílson Lages Monteiro; No Rumo das Areias, de José Gregório da Silva Júnior; Provisório (para sempre), de Laerte Magalhães; além da 13ª edição, revista e ampliada, de Literatura Piauiense, de Luiz Romero Lima. E por falar em publicações, vale lembrar que a Fundac continua, ano após ano, devendo a edição das obras vencedoras de seus últimos concursos literários.

Por fim, mesmo em face de tantos acontecimentos e lançamentos, o ano de 2013 ficará irremediavelmente marcado pelo lamentável falecimento de O.G. Rego de Carvalho.





Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 17 de dezembro de 2013

sábado, 30 de novembro de 2013

ao ouvidor geral de 1732

[adriano lobão aragão]


canção de amor cantar eu vim
mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
Cardoso Balegão, sargento-mor
este que em companhia de escravos fugidos
este que semeou sangue nos sertões do Piauí
estes Pedro Barbosa Leal e Manuel de Sousa Pinheiro

canção de amor cantar eu vim
mas o ouvidor geral repete
que as mortes não eram naturais

como não era natural que
Antônio Pedro Nunes, advogado
secretário interino do governo
seja assassinado para os olhos de Oeiras
bárbaro e público
no esquecido dia 13 9 1803

e que no ano seguinte
a um homem assassinado
tenha as mãos cortadas
e uma delas pendurada
no badalo do sino da igreja
em Piracuruca

se dos registros de 1694
sendo 16 pessoas mortas
apenas uma por enfermidade

mas agora, de nomes e de usança
novos e vários são os habitantes
se no ano da graça de 1845
o júri julgou 58 crimes
1 de moeda falsa
1 contra a liberdade individual
4 de ameaças
3 de furto
1 de estupro
2 de porte ilegal de arma
23 de lesões corporais
23 de homicídios

canção de amor cantar eu vim, Musa
mas não mais que a lira tenho destemperada
e a voz enrouquecida



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra]


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Entre o amor e a morte

[Adriano Lobão Aragão]


O.G. Rego de Carvalho, autor de “Ulisses entre o amor e a morte” e “Rio subterrâneo”, faleceu em Teresina, no dia 09 de novembro de 2013. Entretanto, a morte não é capaz de silenciar o artista. Permanece, é claro, a tristeza pelo passamento de um homem admirável; permanece o luto, o respeito e a comoção pela dor da família, amigos, leitores, admiradores. Mas permanecem também seus inestimáveis escritos, que mantêm viva a sua voz. Tomemos como exemplo “Ulisses entre o amor e a morte”, publicado em 1953, que considero um livro bastante desafiador pelo fato de utilizar-se de diversas lacunas narrativas e por, à primeira e incauta vista, soar um tanto pueril para leitores supostamente mais exigentes, conforme já escutei algumas vezes, quase sempre utilizando a densidade de “Rio subterrâneo” como parâmetro. Porém, acredito que é justamente nesse ponto que está boa parte da beleza de “Ulisses...”. Pueril não é a obra, mas o universo retratado, a gradativa experiência de Ulisses, afastando-se da infância e sendo levado para um outro mundo repleto de novos desafios, entre a perda do pai e a descoberta do amor. Pueril é o olhar desse menino Ulisses, desconcertado diante de Arnaldo após uma pergunta (”– Ulisses, você já...”) completada com um gesto despudorado; estranhando o comportamento do irmão José; negando para si mesmo o nascente amor por Conceição. “Quente era a manhã, em julho” costuma ser apontado, com bastante razão, como um dos mais poéticos capítulos da obra, mas meu preferido chama-se “Amava-a, sim”. Trata-se de uma divagação de Ulisses, lutando até altas horas da noite contra seus próprios sentimentos, buscando diversos subterfúgios e negações para, enfim, render-se a uma inevitável constatação e afirmar para si mesmo que amava Conceição, “e repeti diversas vezes que a amava com loucura”. Ora, para representar de maneira tão poética as sutilezas dos ritos de passagem de Ulisses, o autor primou pela linguagem mais adequada a tal empreitada: sutil e poética.

A estrutura por vezes lacunar é outro aspecto deveras relevante. Cada momento vivenciado caracteriza-se justamente pelas fraturas provocadas pelo amadurecimento vindouro. Além, é claro, de enriquecer a obra com a cumplicidade do leitor que se vê mais envolvido com a obra sempre que se dispõe a dialogar com tais lacunas, como por exemplo no capítulo “Estava pedrando”, reproduzido integralmente a seguir, em que somos impelidos a refletir junto ao narrador, por conta do corte narrativo ao final do capítulo, acerca das mudanças corporais da adolescência: “Certa manhã em que banhávamos no Poti, atirando-nos de uma pedra no leito raso e arenoso, senti uma estranha dor no bico do peito, descobrindo-o, depois, levemente intumescido: \ – Está pedrando – disse Norberto, ao sair de um mergulho. / Maravilhado com a revelação, estendi o corpo na areia da praia, e pus-me a considerar.”


Engana-se quem menciona que devemos ler um grande autor, tal qual O.G. Rego de Carvalho, porque precisamos preservar sua memória através de sua obra. Não é o autor que necessita da nossa leitura, somos nós quem precisamos aprimorar nossa percepção das possibilidades expressivas da linguagem; somos nós quem precisamos, através dessa construção literária, mergulhar num universo de sensações, angústias, desejos e descobertas que dialoga com a própria condição de existência que nos torna humanos. E é essa experiência artística que um grande autor gentilmente materializou e que agora temos o compromisso de preservar e divulgar, para não privar as próximas gerações de um patrimônio cultural que se realiza, lírica (como em “Ulisses entre o amor e a morte”)  ou angustiosamente (como em “Rio Subterrâneo”), na difícil experiência de amadurecer. Obrigado, O.G. Rego de Carvalho. Onde quer que esteja, obrigado por ter escrito e publicado “Rio subterrâneo” e “Ulisses entre o amor e a morte”.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 26 de novembro de 2013
http://www.diariodopovo-pi.com.br/Jornal/pages/pdf/pdf-2013-11-26-3.pdf

sábado, 9 de novembro de 2013

Muitos poetas, poucos leitores?

Adriano Lobão Aragão 




Em julho de 2010, publiquei um texto intitulado "Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos", em que comento o volume da série Roteiro da Poesia Brasileira organizado por Marco Lucchesi e dedicado aos anos 2000. A referência a Argos, o mitológico gigante de cem olhos que mantinha cinquenta deles abertos mesmo quando dormia, foi extraída do próprio prefácio do livro, em que Lucchesi menciona as dimensões da empreitada que buscou realizar: um mapeamento do que de mais significativo se produziu (segundo o antologista, claro) sob a forma poética na referida década. Eis que o tema me volta à mente diversas vezes, sobretudo por conta de recorrentes observações que tenho ouvido sobre a sensação de existirem atualmente mais poetas que leitores de poesia. 

Não é de hoje que se discute isso, e há mais de uma década que, vez ou outra, sou abordado com comentários nesse sentido. Embora não tenha despertado em mim a necessidade de averiguar algum índice, e nem sei se seria possível quantificar tal situação, passei a ficar mais atento aos interlocutores e às situações em que ouço a interessante relação numérica entre poetas e leitores de poesia. Cheguei até a pensar, confesso, que pudesse ser alguma manifestação de clamor contra uma vertiginosa concorrência ou um apelo para a ampliação do mercado consumidor. Mas, como já ouvi várias vezes tal comentário de pessoas que não escrevem poemas (ou, se escrevem, não divulgam), não consigo sustentar tal hipótese para além de um ou outro caso bem específico.

Pensando em minha experiência de professor, imagino que, se os projetos relativos à poesia desenvolvidos nas diversas salas de aula espalhadas pelo país derem bons resultados, seria justamente um aumento significativo do número de escritores o que teríamos, ainda que acompanhados do devido aumento no número de leitores. Salvo raras exceções, não encontrei bons projetos de desenvolvimento de leitura de poesia para alunos de ensino fundamental que não utilizassem a produção textual como mecanismo fundamental, implicando assim a experiência autoral do texto poético. Atividades envolvendo a produção de versos calcados nas relações sinestésicas (que eu mesmo explorei em tantas aulas sobre poetas simbolistas, como forma de instigar os alunos a lerem sonetos de Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimarens e Da Costa e Silva), resultaram em esforços poéticos oriundos dos alunos mais aplicados e dos mais inclinados à produção artística (e não raramente as duas vertente estavam reunidas em um mesmo aluno). 

Se atualmente interação e participação são situações altamente valorizadas, seja na produção de objetos digitais educacionais, seja na reestruturação de currículos e projetos político-pedagógicos de escolas e secretarias de educação, seja na mídia que migra cada vez mais para a internet, seja em mecanismos como o Facebook e o WhatsApp, exemplos de alicerces de interação e participação imediata, em nada me surpreende que a sensação da existência de mais produtores que consumidores tenha se efetivado como uma realidade.

As origens de tal situação talvez decorram das propostas modernistas de 22 que aproximaram do cotidiano a estrutura e a temática da poesia, talvez da pluralização dos meios de divulgação arraigadas nos anos 70, ou, quem sabe, das estimulações construtivistas implementadas por alguns professores, talvez até da ascensão dos estudos culturais e da supressão da valorização crítica como mecanismo de consagração. O fato é que, se nas últimas semanas por diversas vezes fui questionado sobre tal situação, tenho certeza de que daqui pra frente tal sensação só irá aumentar. Aos que mergulharem nesse labirinto, desejo muito discernimento e um bocado de sorte para encontrar e compartilhar o que de melhor possa estar sendo produzido nesse exato momento, onde quer que esteja.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 05 de novembro de 2013

sábado, 2 de novembro de 2013

4º SALIPA - Salão do Livro de Parnaíba




O Salão do Livro de Parnaíba (Salipa) é um evento anual, já na sua 4º edição, realizado pela Prefeitura de Parnaíba com apoio da Fundação Quixote, a mesma entidade que realiza o Salão do Livro do Piauí (Salipi). O Salipa é considerado a maior festa literária da região da Rota das Emoções por ter o maior número de atividades simultâneas e por reunir, na programação de palestras, escritores consagrados no Piauí e no Brasil.



Programação

Quinta-Feira (7/11)

18h30 – Abertura
19h30 – Conversa com ZUENIR VENTURA
(Jornalista e escritor / Rio de Janeiro)

20h30 – Show Musical
VAGNER RIBEIRO E VALOR DE PI
(Teresina)


Sexta-Feira (8/11)

8h – "Sexualidade - Noções, tabus e preconceitos"
ANTÔNIO NORONHA
(Médico / Teresina)

10h – "A poesia que é reza – A criação poética no sincretismo religioso"
JOSÉ GALAS FILHO
(Poeta e jornalista / Parnaíba)

14h – "A Criação Poética"
ISRAEL CORREIA
(Poeta, Prof. Msc. UFPI, membro da APAL / Parnaíba)

16h – "Gramática, literatura e preconceito linguístico"
JOÃO BENVINDO
(Prof. Dr. da Ufpi / Teresina)

19h – Conversa com AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
(Escritor e professor / Rio de Janeiro)

21h – Show Musical
VAVÁ RIBEIRO
(Teresina)


Sábado (9/11)

8h – "Literatura e História: práticas discursivas e construção de sentido sobre a cidade de Parnaíba (PI)"
FRANCISCO NASCIMENTO
(Prof. Dr. da Ufpi / Parnaíba)

10h – "O cinema como ferramenta de valorização da cultura local"
CÍCERO FILHO
(Cineasta / MA)

14h – "Periódicos literários e as novas práticas de produção e divulgação da literatura"
THIEAGO E e DEMETRIOS GALVÃO
(Poetas e editores / Teresina)

16h – "A paixão pelo teatro e o Grupo Harém”
FRANCISCO PELLÉ
(Ator / Teresina)

19h – Conversa com MARINA COLASANTI
(Escritora / Rio de Janeiro)

21h – Show Musical
GRUPO AQUARELA
(Parnaíba)


Domingo (10/11)

8h – “Evandro Lins e Silva – O homem e sua obra”
FIDES ANGÉLICA OMMATI
(Advogada, professora universitária, membro da APL / Teresina)

10h – “Literatura contemporânea brasileira”
ANDRÉ PINHEIRO
(Prof. Dr. da Ufpi / CE)

15h – "Poesia e memória em H. Dobal"
ADRIANO LOBÃO ARAGÃO
(Poeta e mestre em literatura / Teresina)

18h – Conversa com FABRÍCIO CARPINEJAR
(Escritor/Porto Alegre)

20h - Encerramento
20h30 - Show Musical
ARQUIVO SONORO
(Parnaíba)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

As incertezas da poesia

Adriano Lobão Aragão 



Demorei bastante para gostar realmente de poesia. Gostava, é certo, de determinados poemas que ouvia desde a infância, alguns que minha mãe gostava tanto que os tinha de cor. Vejamos, Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, A flor e a fonte, de Vicente de Carvalho, Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, e, sobretudo, a Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, recitada como uma advertência e uma obrigação para toda a vida. Se ela recitava ou decorava outros, não conseguiria agora lembrar quais. Mas sei que desde cedo eu tive um imenso fascínio por Homero, sobretudo pela Ilíada, que só viria a ler efetivamente aos 23 anos de idade.  Por isso, preciso confessar que o fascínio não provinha da poesia, mas da mitologia, algo plenamente compreensível ao considerarmos o universo imaginário de uma criança solitária e portadora de um verdadeiro tesouro que, bem ou mal, definiu boa parte de minha vida: uma enciclopédia amplamente ilustrada, incluindo generosas informações sobre a mitologia grega. Mergulhei constantemente nos diversos verbetes, muitas imagens continuam pregadas nas minhas retinas, vários textos ainda ecoam na minha mente, mas não me lembro de nenhum poema presente na estimada enciclopédia. Havia, é claro, biografias e comentários sobre escritores, inclusive poetas, mas não creio que tenham reproduzido algum verso, ainda que ilustrativo. Lembro-me de almanaques distribuídos em escolas públicas na primeira metade dos anos 80 que traziam parlendas, versos populares e até mesmo alguma coisa de Castro Alves, mas, na minha vivência de então, o que havia de mais próximo à leitura de poesia era decorar versos dos Titãs, dos Engenheiros do Hawaii e do Ira! E não me passava pela cabeça, na época, que letra de música pudesse ser uma forma de poesia. 

Durante o ensino médio, eu me interessava bem mais pela prosa da segunda metade do século XIX, sobretudo Machado de Assis e Aluísio Azevedo. Num primeiro momento, até mesmo Camões e Gregório de Matos passaram batido, acredite quem quiser. E o que é pior, conseguia boas notas na disciplina limitando-me a memorizar determinadas características, algum contexto histórico, e ainda achava, estupidamente, que sabia alguma coisa sobre poesia. Mas eu sempre amei os livros. E sempre quis ter livros. Minha mãe chegou a fazer assinatura de uma revista desnecessária, chamada Minha, só para receber uma coleção em formato de bolso de clássicos da literatura. Em suma, era Franz Kafka, Tolstoi, Dostoiévski e vários outros, todos impressos em papel vagabundo. Pra mim, era ouro. Mas nenhum dos volumes era voltado para poesia. 


Ora, se hoje sou um leitor de poesia, se durante quinze anos me dediquei a aproximar meus alunos da leitura de poesia, se escrevi e publiquei livros aspiram a alguma possível experiência poética, eu mesmo me pergunto onde, quando e porque isso se tornou um impulso vital. Sei que fui vencido por Manuel Bandeira (meu primeiro salário foi gasto quase que integralmente na compra de sua poesia completa), Fernando Pessoa e H. Dobal, os primeiros poetas que realmente me incomodaram, que lutei para recusar, que detestei no primeiro contato, mas não pude evitar o risco de uma releitura e hoje os tenho como parte do que sou.  Tempos depois passei a me indagar sobre os motivos que me levam a ler poesia. Explicações belas e líricas nunca me interessaram, tampouco algum tecnicismo exacerbado, menos ainda qualquer forma de ideologia que se afaste do fenômeno poético-literário em si. Mas continuarei estudando. A poesia para mim ainda é um campo de incertezas, mas refletir em instâncias cada vez mais profundas sobre os motivos que me levam a apreciar aquilo que aprecio, e jamais me conformar com respostas rasas e circunstanciais, pode ser uma das formas para compreender a essência de mim mesmo; e, diante das inúmeras outras manifestações que causam fascínio nas pessoas (tais como cinema, música, futebol, política, religião e o que mais for), refletir continuamente de maneira íntima e pessoal sobre o que move esse fascínio talvez seja um esforço intelectual que todo ser humano deveria fazer.


Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 22 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

então

[adriano lobão aragão]


em perene forma permanece em idade e fortuna
tudo que no tempo não muda nem tempos nem vontades
nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

somente em mim depositou-se irrelevante mudança
talvez desnecessária dança que o cair das folhas trouxe
talvez inseto da noite que de seu brilho descansa

quem sabe silêncio de outrora agora outra hora propaga
antes de ilusão inata à matéria apurar sua volta
em perene forma precisa mas dispersa inexata

somente em mim depositou-se irrelevante reverso
de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce



[as cinzas as palavras]

domingo, 25 de agosto de 2013

entrevista: Os intrépidos andarilhos e outras margens





Autor de diversos livros de poemas, entre eles, Ave, Eva, o último editado, Adriano Lobão Aragão, piauiense e um dos editores da revista dEsEnrEdoS, estreia na prosa de ficção com o romance Os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens, publicado pela Nova Aliança Editora (2012). Entretextos foi ouvi-lo, a fim de descobrir o que move o novo projeto literário de Aragão.

Dílson Lages - Adriano, o livro de início pode causar aos leitores mais desavisados algum estranhamento, porque, no meu entender, há o objetivo de romper as fronteiras entre prosa e poesia. É nítido um projeto de renovação estilística. Qual exatamente a proposta de Os intrépidos andarilhos e outras margens?
Adriano Lobão Aragão - De início, houve apenas a necessidade de escrever um romance. A preocupação estilística foi surgindo ao longo desse processo. Fiz diversas versões e escolhi a que mais conveniente ao tema e ao propósito de escrever de uma maneira na qual a construção estética dialogasse constantemente em evidência como parte intrínseca do enredo. De qualquer forma, espero ter dado alguns passos nesse sentido.

DL - Por que você optou pelo título da obra no plural? O que isso semanticamente significa?
ALA - Pensei em diversos títulos. Nunca cheguei a um que me agradasse completamente. Mantive “Os intrépidos andarilhos” por ser o objeto de busca, pelo menos num plano inicial, do protagonista. “E outras margens” talvez fosse mais apropriado para um livro de contos, mas optei por manter pois remete às diversas possibilidades de leitura e vivências do personagem. O plural talvez seja uma fuga da individualização do protagonista, talvez. Como saber? Com certeza, Os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens não é um livro de certezas.

DL - Por quais caminhos e margens andam os andarilhos de sua obra?
ALA - Intertextualidade, metafísica, pretensão, equívoco, agonia... qualquer palavra que dê margem ao caminho.

DL - ponto de vista formal, como você define Os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens? Aproveito para pedir que você comente o que há de novo e o que há de tradicional em seu estilo.
ALA - Não sei bem o que há de novo. Na literatura, e na arte em geral, tudo que se faz sempre remete ao que já foi feito. Não vejo como almejar algo essencialmente “novo”. E de tradicional, creio que o livro é em si uma narrativa como qualquer outra, apenas com um esforço estilístico e metalinguístico mais intenso que o convencional.

DL - Pude perceber em Os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens diálogo com Saramago, Guimarães Rosa e João Cabral. Você me dizia informalmente que a obra conversa com o barroco. O que influenciou o estilo de escritura deste livro?
ALA - Como o livro foi escrito e reescrito durante um longo período, mais de cinco anos, com diversas interrupções e retorno ao ponto de partida, diversas influências foram se sobrepondo. Talvez a linguagem um tanto hermética e rebuscada, em vários momentos, e uma preocupação metafísica eu tenha herdado de minha afeição pela linguagem barroca.

DL - Diante da proposta da obra, você acredita que o leitor lerá o livro buscando mais uma trama ou se concentrará no psicológico do narrador personagem?
ALA - Espero que existam leitores para as duas coisas. Que uns mergulhem na trama, outros degustem a linguagem, alguns se preocupem com as intertextualidades, enfim. Para mim, o ideal é que o livro encontre leitores por motivos distintos. De preferência, os mais distintos possíveis. 

DL - O que de vivência de mundo no sentido mais restrito, de uma maneira geral, converteu-se no enredo deste livro?
ALA - Muito do que vivemos, sentimos, imaginamos e observamos vai parar nas páginas dos livros, mas essa transposição não é fundamental para leitura nem para a análise da obra. Ás vezes, até o para o próprio escritor é difícil entender ou apontar essas correlações.

DL - O que mais exerceu influência sobre você na construção desta obra?
ALA - Demorei muito tempo escrevendo, então as influências foram diversas, em momentos distintos. É difícil para mim indicar a que mais se destacou.

DL - Muitos leitores leem obras literárias buscando uma estória. Quando se deparam com o livro que dialoga com a filosofia e com dimensão metalinguística – como é o seu – veem-se forçados a ler diferente ou a leitura da obra literária, incluindo aqui os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens, é exatamente a mesma?
ALA - Também tenho essa dúvida.

DL - Você mergulha em valores e tipos humanos comuns a pequenas comunidades e, nesse sentido, fundem-se o regional e o universal. O que você tem a dizer sobre esses valores e esses tipos humanos?
ALA - Creio que foram essenciais para a construção da obra. Não vi motivos para isolar um elemento em relação a outro. “Universal” e “regional” são conceitos que me pareceram muito estranhos durante a feitura do livro, por isso abandonei qualquer preocupação nesse sentido.

DL - Adriano, para você o escritor escreve aquilo que gostaria de ler?
ALA - Acho que chega a acontecer isso sim, mas na maioria das vezes me parece uma espécie de diálogo com que já foi lido ao longo da vida. Uma forma de tentar, ainda que pretensamente, participar de um diálogo mais amplo que envolve séculos de produção literária e artística. O mais provável é que seja mera pretensão mesmo, mas talvez seja isso o que move diversos escritores. 

DL - Como você espera que os leitores se debrucem sobre Os Intrépidos Andarilhos e Outras Margens?
ALA - Espero que terminem a leitura com a cabeça repleta de dúvidas e com um forte desejo de repetir a leitura mais algumas vezes.

[16/12/2012]

publicado originalmente em:

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

os nomes as pedras

[adriano lobão aragão]


deixai aqui nestas pedras o nome e a fábula
daqueles que almejam a revelação
para que o tempo os apague plenamente
em sopro enigma e luz
a mais cega das visões

comei e bebei com satisfação
pelo bem que propiciastes em dias passados
à espera da palavra e seus cavalos
que árduos disparavam 
pela imensidão do verso

deixai também este verbo
impresso em talhe na mesma pedra de seus nomes
tu que és tantos e deixas tão pouco
para que o tempo também esqueça entre as pedras
a inútil memória do corpo



[in ave eva]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

cabeça de sol em cima do trem


era uma vez uma cabeça de sol em cima do trem [ ponto ] era uma vez os versos e os desenhos que neste livro se tem [pronto] trata-se de thiago e [ vírgula ] acompanhado dos desenhos de joniel veras ou trata-se de poesia em estado lúdico ou estado útil ou estado único ou tem estado o poeta atarantado nas entrelinhas nos entreversos trabalhando em outros sentidos que as palavras escondem ou versos não [ ponto de interrogação ] almeja prosa poética e verbete de dicionário [ aqui se almeja uma vírgula ] eis uma chave de leitura da poesia de thiago [ dois pontos ] deixar de lado a lógica cartesiana cotidiana por um instante e deixar que poesia e experimento e leitura se tornem fato [ pois no intervalo entre os olhos e o texto a poesia se faz palco ]
- adriano lobão aragão

quarta-feira, 29 de maio de 2013

dEsEnrEdoS 17

www.desenredos.com.br







EDITORIAL

Na geleia global em que navegamos, a novidade é o inédito patamar de reconhecimento acadêmico-científico que galgamos: se antes já fôramos reconhecidos pelo Capes-MEC com o Qualis em Letras e História, agora a honraria se estende para as áreas de Filosofia e Teologia. É a nossa voz, plural sem perder a coerência, que devagar impõe sua marca, fruto de muito trabalho. Voz dos que amam ouvir, debater, crescer. Voz que agora, na sua 17ª metamorfose, vem de Cabo Verde trazida pela consciência crítica do grande épico que é Corsino Fortes. Voz criativa de poetas e narradores de várias latitudes do Brasil. Voz sagaz de ensaístas e pesquisadores que nos trazem notícias de Calderón, Machado, Nelson Rodrigues, Borges, Fellini e tantos outros. Aos que gostam de falar, aos que gostam de ouvir, boa leitura!

Os editores

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ataliba, o Vaqueiro de Francisco Gil Castelo Branco




“Achava-se tudo demudado nas terras do Morro, vinte dias depois da festa a que assistimos em casa da tia Deodata.

O sol dardejava raios cadentes e a seca aumentava os horrores dos seus assombrosos estragos.

As campinas estavam tostadas como se acaso uma torrente de fogo as houvesse sapecado; as folhas enroscavam-se, engelhavam-se como se fossem frisadas por um ferro encandescente; as avezinhas abandonavam seus ninhos e em bandos partiam pipilando; as águas decresciam e o Gao, mugindo lugubremente nos campos, tombava exangue. A miséria invadia tudo de um modo sinistro.” (Ataliba, O Vaqueiro, 2012, p.67)


Ataliba, o vaqueiro, narrativa publicada por Francisco Gil Castelo Branco, é composta por 10 capítulos. O fragmento apresentado foi transcrito do início do capítulo V. Trata-se do momento na obra em que a representação idílica do sertão cede espaço para as agruras provenientes da seca, que se aproxima de maneira arrebatadora e irá transfigurar não apenas a paisagem amena dos 4 primeiros capítulos numa ambiente hostil e degradante, mas também a vida dos personagens, sobretudo seus protagonistas.

Publicado em 1878, a obra de Francisco Gil filia-se ao Romantismo brasileiro já em franco direcionamento para uma postura menos idealizada, ainda que não desvencilhada das convenções da escola literária em questão. Em 1875, veio a lume A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, e, em Portugal, que já conhecera o Realismo através da Questão Coimbrã há cerca de dez anos, Eça de Queirós levou a público seu polêmico romance O Crime do Padre Amaro. Era evidente que a desestruturação do Romantismo se encaminhava em terras brasileiras; e, após O Sertanejo (1878), de José de Alencar, poucos romances, tais como O Cabeleira, de Franklin Távora (que segue o filão regionalista), Helena, de Machado de Assis, (ambos de 1876) e Iaiá Garcia, também de Machado de Assis (1878) são tidos com um mínimo de consenso como obras literárias que apresentam significativa relevância, sendo que todas se revelam como obras híbridas, entre a idealização marcante da estética anterior e uma preocupação crítica e social que só iria se resolver com o advento do Realismo e do Naturalismo. O fato de Senhora e O Sertanejo constituírem as duas últimas obras que José de Alencar tenha publicado em vida torna o colapso romântico ainda mais marcante, pois corresponde ao desfecho da carreira de um dos autores fundamentais para a estética em questão. Entretanto, nesse período crepuscular para o Romantismo, diversas obras, muitas vezes ignoradas pela crítica em geral, revelam uma caracterização bastante problematizadora da representação da realidade de determinados rincões brasileiros que requerem um olhar mais agudo. Dentre estas, observamos o caso pioneiro do retrato da seca em Ataliba, o Vaqueiro.
  
Se, após a independência política do Brasil, o Romantismo utilizou a figura do indígena como elemento de distinção entre Brasil e Portugal, o regionalismo de José de Alencar e demais autores regionalistas pode ser visto como um desdobramento desse elemento de distinção, uma vez que seus personagens cumprem funções simbólicas semelhantes ao papel destinado pelo autor a Peri, Ubirajara e Iracema, protagonistas de seus romances indianistas, calcados em lendas e mitos, quase sempre de origem do país, e, em seus heróis regionalistas, encontramos a sedimentação de um tipo distinto dos citadinos europeus que constituíam-se como a visão mais recorrente da vida europeia, transplantada para algumas cidades brasileiras, notadamente o Rio de Janeiro (palco da maioria dos romances urbanos) em franca oposição a um modo de vida rude e fortemente vinculado ao solo em que vive, assim como impregnado pelas lendas que os vastos campos pouco habitados costumam engendrar. Parecia ser, acima de tudo, uma busca por alguma essência do ser brasileiro escondida nos sertões e, embora sua linguagem não tenha sido essencialmente documental, é preciso lembrar, conforme observa Paul Ricouer (Tempo de Narrativa, tomo II, 1995, p. 10), que a narrativa histórica e a narrativa de ficção se utilizam de operações miméticas equivalentes, por isso não as distingue em relação à atividade estruturante utilizada pelo narrador, mas pelo anseio de rememorar a verdade pretendida pela narrativa histórica, enquanto a narrativa literária volta-se para a criação. Artisticamente, Francisco Gil manteve-se preso aos ditames e convenções do estilo de época, mas é bastante louvável o esforço em trazer um desafortunado retirante para o campo da criação estética.


[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 30 de abril de 2013]