terça-feira, 22 de outubro de 2013

As incertezas da poesia

Adriano Lobão Aragão 



Demorei bastante para gostar realmente de poesia. Gostava, é certo, de determinados poemas que ouvia desde a infância, alguns que minha mãe gostava tanto que os tinha de cor. Vejamos, Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, A flor e a fonte, de Vicente de Carvalho, Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, e, sobretudo, a Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, recitada como uma advertência e uma obrigação para toda a vida. Se ela recitava ou decorava outros, não conseguiria agora lembrar quais. Mas sei que desde cedo eu tive um imenso fascínio por Homero, sobretudo pela Ilíada, que só viria a ler efetivamente aos 23 anos de idade.  Por isso, preciso confessar que o fascínio não provinha da poesia, mas da mitologia, algo plenamente compreensível ao considerarmos o universo imaginário de uma criança solitária e portadora de um verdadeiro tesouro que, bem ou mal, definiu boa parte de minha vida: uma enciclopédia amplamente ilustrada, incluindo generosas informações sobre a mitologia grega. Mergulhei constantemente nos diversos verbetes, muitas imagens continuam pregadas nas minhas retinas, vários textos ainda ecoam na minha mente, mas não me lembro de nenhum poema presente na estimada enciclopédia. Havia, é claro, biografias e comentários sobre escritores, inclusive poetas, mas não creio que tenham reproduzido algum verso, ainda que ilustrativo. Lembro-me de almanaques distribuídos em escolas públicas na primeira metade dos anos 80 que traziam parlendas, versos populares e até mesmo alguma coisa de Castro Alves, mas, na minha vivência de então, o que havia de mais próximo à leitura de poesia era decorar versos dos Titãs, dos Engenheiros do Hawaii e do Ira! E não me passava pela cabeça, na época, que letra de música pudesse ser uma forma de poesia. 

Durante o ensino médio, eu me interessava bem mais pela prosa da segunda metade do século XIX, sobretudo Machado de Assis e Aluísio Azevedo. Num primeiro momento, até mesmo Camões e Gregório de Matos passaram batido, acredite quem quiser. E o que é pior, conseguia boas notas na disciplina limitando-me a memorizar determinadas características, algum contexto histórico, e ainda achava, estupidamente, que sabia alguma coisa sobre poesia. Mas eu sempre amei os livros. E sempre quis ter livros. Minha mãe chegou a fazer assinatura de uma revista desnecessária, chamada Minha, só para receber uma coleção em formato de bolso de clássicos da literatura. Em suma, era Franz Kafka, Tolstoi, Dostoiévski e vários outros, todos impressos em papel vagabundo. Pra mim, era ouro. Mas nenhum dos volumes era voltado para poesia. 


Ora, se hoje sou um leitor de poesia, se durante quinze anos me dediquei a aproximar meus alunos da leitura de poesia, se escrevi e publiquei livros aspiram a alguma possível experiência poética, eu mesmo me pergunto onde, quando e porque isso se tornou um impulso vital. Sei que fui vencido por Manuel Bandeira (meu primeiro salário foi gasto quase que integralmente na compra de sua poesia completa), Fernando Pessoa e H. Dobal, os primeiros poetas que realmente me incomodaram, que lutei para recusar, que detestei no primeiro contato, mas não pude evitar o risco de uma releitura e hoje os tenho como parte do que sou.  Tempos depois passei a me indagar sobre os motivos que me levam a ler poesia. Explicações belas e líricas nunca me interessaram, tampouco algum tecnicismo exacerbado, menos ainda qualquer forma de ideologia que se afaste do fenômeno poético-literário em si. Mas continuarei estudando. A poesia para mim ainda é um campo de incertezas, mas refletir em instâncias cada vez mais profundas sobre os motivos que me levam a apreciar aquilo que aprecio, e jamais me conformar com respostas rasas e circunstanciais, pode ser uma das formas para compreender a essência de mim mesmo; e, diante das inúmeras outras manifestações que causam fascínio nas pessoas (tais como cinema, música, futebol, política, religião e o que mais for), refletir continuamente de maneira íntima e pessoal sobre o que move esse fascínio talvez seja um esforço intelectual que todo ser humano deveria fazer.


Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 22 de outubro de 2013

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