sábado, 9 de novembro de 2013

Muitos poetas, poucos leitores?

Adriano Lobão Aragão 




Em julho de 2010, publiquei um texto intitulado "Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos", em que comento o volume da série Roteiro da Poesia Brasileira organizado por Marco Lucchesi e dedicado aos anos 2000. A referência a Argos, o mitológico gigante de cem olhos que mantinha cinquenta deles abertos mesmo quando dormia, foi extraída do próprio prefácio do livro, em que Lucchesi menciona as dimensões da empreitada que buscou realizar: um mapeamento do que de mais significativo se produziu (segundo o antologista, claro) sob a forma poética na referida década. Eis que o tema me volta à mente diversas vezes, sobretudo por conta de recorrentes observações que tenho ouvido sobre a sensação de existirem atualmente mais poetas que leitores de poesia. 

Não é de hoje que se discute isso, e há mais de uma década que, vez ou outra, sou abordado com comentários nesse sentido. Embora não tenha despertado em mim a necessidade de averiguar algum índice, e nem sei se seria possível quantificar tal situação, passei a ficar mais atento aos interlocutores e às situações em que ouço a interessante relação numérica entre poetas e leitores de poesia. Cheguei até a pensar, confesso, que pudesse ser alguma manifestação de clamor contra uma vertiginosa concorrência ou um apelo para a ampliação do mercado consumidor. Mas, como já ouvi várias vezes tal comentário de pessoas que não escrevem poemas (ou, se escrevem, não divulgam), não consigo sustentar tal hipótese para além de um ou outro caso bem específico.

Pensando em minha experiência de professor, imagino que, se os projetos relativos à poesia desenvolvidos nas diversas salas de aula espalhadas pelo país derem bons resultados, seria justamente um aumento significativo do número de escritores o que teríamos, ainda que acompanhados do devido aumento no número de leitores. Salvo raras exceções, não encontrei bons projetos de desenvolvimento de leitura de poesia para alunos de ensino fundamental que não utilizassem a produção textual como mecanismo fundamental, implicando assim a experiência autoral do texto poético. Atividades envolvendo a produção de versos calcados nas relações sinestésicas (que eu mesmo explorei em tantas aulas sobre poetas simbolistas, como forma de instigar os alunos a lerem sonetos de Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimarens e Da Costa e Silva), resultaram em esforços poéticos oriundos dos alunos mais aplicados e dos mais inclinados à produção artística (e não raramente as duas vertente estavam reunidas em um mesmo aluno). 

Se atualmente interação e participação são situações altamente valorizadas, seja na produção de objetos digitais educacionais, seja na reestruturação de currículos e projetos político-pedagógicos de escolas e secretarias de educação, seja na mídia que migra cada vez mais para a internet, seja em mecanismos como o Facebook e o WhatsApp, exemplos de alicerces de interação e participação imediata, em nada me surpreende que a sensação da existência de mais produtores que consumidores tenha se efetivado como uma realidade.

As origens de tal situação talvez decorram das propostas modernistas de 22 que aproximaram do cotidiano a estrutura e a temática da poesia, talvez da pluralização dos meios de divulgação arraigadas nos anos 70, ou, quem sabe, das estimulações construtivistas implementadas por alguns professores, talvez até da ascensão dos estudos culturais e da supressão da valorização crítica como mecanismo de consagração. O fato é que, se nas últimas semanas por diversas vezes fui questionado sobre tal situação, tenho certeza de que daqui pra frente tal sensação só irá aumentar. Aos que mergulharem nesse labirinto, desejo muito discernimento e um bocado de sorte para encontrar e compartilhar o que de melhor possa estar sendo produzido nesse exato momento, onde quer que esteja.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 05 de novembro de 2013

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