sábado, 18 de fevereiro de 2017

CADA COISA, Eucanaā Ferraz



De Francis Ponge a Arnaldo Antunes, diversos poetas desenvolveram obras e poemas centrados em coisas, objetos, cada um à sua maneira, uns buscando a descrição milimétrica das coisas, outros buscando transcendê-las via metáfora; uns buscando ver o ser humano enquanto coisa, outros buscando ver a humanidade nas coisas. E novas experiências sempre irão surgir, como o livro Casa das Máquinas, de Alexandre Guarnieri, e, agora, Cada Coisa, de Eucanaã Ferraz. A seara das coisas se desenvolve tanto numa linguagem mais hermética e rebuscada, como na obra de Guarnieri, quanto numa linguagem bastante lúdica e divertida, como na obra de Eucanaã. Particularmente, afirmo que, mesmo permeando caminhos possivelmente antagônicos, os dois autores desenvolveram um ótimo trabalho. 
Trato aqui do livro de Eucanaã Ferraz, lançado pela Companhia das Letrinhas, em novembro de 2016, contanto com excelentes ilustrações e projeto gráfico de Raul Loureiro. Eucanaã já possui uma longa e frutífera experiência literária. Dentre seus livros, digamos, voltados para crianças, temos Bicho de Sete Cabeças e Outros Seres Fantásticos (2009), Palhaço Macaco Passarinho (2010), dentre outros. No entanto, o autor (acertadamente, ao meu ver) prefere classificá-los como “livres, para qualquer idade”. Entendo “livro infantil” como sendo aqueles que são escritos ou editados tendo as crianças como possíveis leitores, posto que diversas possibilidades de experiência estético-literária não estão limitadas ou necessariamente associadas à idade do leitor. É dessa maneira que li o livro de Eucanaã. E foi dessa maneira que gostei bastante do livro de Eucanaã, como um convite ao lúdico exercício de experimentar, registrar e reinventar o universo de coisas que nos cercam ao longo de todas as idades.
Trata-se de uma espécie de dicionário, tendo poemas por verbetes que apresentam diversas coisas (alfinete, bicicleta, janela, piscina etc) a partir de sua personificação, questionamento, comparação e outras resoluções linguísticas. Daí que não vi no livro de Eucanaã uma poesia sobre coisas, mas uma visão da poesia nas coisas. Se em diversos momentos, sobretudo no modo de vida contemporâneo, os objetos podem dominar o ser, através da linguagem poética também podemos tentar humanizar as coisas, o que talvez nos proporcione uma visão de mundo muito mais interessante.

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