quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As lições eternas do vagabundo



por Alfredo Werney


Um chapéu, uma bengala, um sorriso. Não é difícil reconhecer o personagem mais aclamado do cinema. A vida do londrino Charles Spencer Chaplin (1889/ 1977) se confunde com a de seus personagens, daí o codinome carinhoso que carregou durante toda sua vida: “O Vagabundo” (The Tramp). Geralmente quando se fala em Chaplin, já se achega ao nosso imaginário as trapalhadas do vagabundo Carlitos. O fato é que as experiências de Chaplin estão muito além do humor mambembe que ele empreendera nos seus filmes. Ao mesmo tempo rigoroso e improvisador, o cineasta inglês construiu obras paradigmáticas. Em “Tempos Modernos”, por exemplo, Chaplin nos ensinou inúmeras lições de cinema: a expressiva montagem, utilizando planos metafóricos para representar a vida mecânica e circular da sociedade que a Revolução Industrial gerara; o cuidadoso trabalho com o som (embora Carlitos não fale) utilizando os timbres metálicos da orquestra e fazendo da ambientação sonora de uma fábrica uma verdadeira sinfonia. Sinfonia esta que nos transmite uma poderosa sensação de opressão.

Coadunado com tais experiências formais, ainda há de se observar a riqueza conteudística dos trabalhos chaplinianos. No já citado Modern Times, como já se sabe, o diretor faz uma dura crítica à sociedade capitalista que surgira com os avanços tecnológicos empreendidos pela Revolução Industrial, gerando pobreza, problemas psicológicos e sociais. Um dos momentos mais sugestivos da película: Carlitos se desestabiliza e é comprimido ferozmente pelas engrenagens da máquina. Decerto, uma metáfora visual muito forte do trabalho alienado e árduo da época. “O grande Ditador” - visivelmente um recado para o mundo e uma afronta a Adolf Hitler, que era vivo nessa época – trata-se de uma análise firme do que o abuso de poder e a falta de comunhão entre os seres podem gerar. “Transformar homens em bucha de canhão”, como diria o próprio Chaplin numa crítica veemente ao nazi-facismo. Em “O Circo”(1928) estamos diante de um humor mambembe cuidadosamente elaborado. O vagabundo entra, por acaso, num circo em crise e o transforma num palco de espetáculos de pura poesia. Este foi um dos ingredientes que Chaplin – influenciado pelo antecessor Meliés – trouxe para o cinema: a capacidade de fabular e fantasiar através das imagens em movimento. A capacidade de transcender a prosa cotidiana e nos apresentar um mundo centrado nas sensações primeiras. É importante dizer que em “O circo”, como em muitas películas do diretor londrino, ele compôs quase tudo: música, cenário, roteiro, personagem.

Facilidade é uma palavra que nunca permeou a vida de Charles Chaplin. O diretor teve uma infância muito pobre, além do que sua mãe tinha graves problemas mentais. Desde muito cedo demonstrou enorme talento para a dramaturgia e em 1912 foi para os Estados Unidos, local onde montou seu próprio estúdio. “O Garoto” (1921) não deixa de ser um filme autobiográfico. Se bem observarmos, a pobreza é um tema sempre presente na filmografia chapliniana.

Diversas animações recorrem aos paradigmas chaplinianos: O Pica-pau, O Picolino, Tom e Jerry. Cenas como “a dança dos pãezinhos” e a que Carlitos, num momento de fome, vê seu amigo como sendo uma galinha, vez por outra aparecem nos desenhos animados. O Pica-pau não deixa de ser uma espécie de Carlitos: um vagabundo atrapalhado que consegue conquistar as pessoas. E não se trata de uma empresa fácil: um vagabundo, figura tão repugnada por uma sociedade da técnica e do trabalho como é a nossa, fazer com que o público o aplauda e seja, de certa maneira, conivente com suas ações “maliciosas”. A dramaturgia brasileira também deve muito ao vagabundo.Há vários clichês estabelecidos por Chaplin no trabalho dos “Trapalhões”, sobretudo no personagem “Didi”. Além do que se observa em alguns programas televisivos de humor.

O trabalho do cineasta londrino pode ser apreciado para além das suas questões estritamente cinematográficas. O artista Charles Chaplin, muito mais do que um diretor de cenas, imprimiu em suas obras questões universais que marcam a vida humana - essa “aventura maravilhosa”. Dentre estas: o poder, a fraternidade, a felicidade, o amor e a beleza.

2 comentários:

Mara Vanessa disse...

Excelente review! :)

Ah, o Carlos Augusto despejou elogios no ''as cinzas as palavras''.

Eu já cadastrei ele no Skoob. :)

Adriano Lobão Aragão disse...

fico feliz que estejam gostando do livro.

é a leitura de vocês que justifica o esforço.