sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade & Raul Seixas



Campo, Chinês e Sono
[Carlos Drummond de Andrade]
A João Cabral de Melo Neto

O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
Peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidencias.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio
do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.
O campo está dormindo e forma um chinês
de suave rosto inclinado
no vão do tempo.


[in A Rosa do Povo, 1945]



- *** -





O Conto do Sábio Chinês
[Raul Seixas]

Era uma vez
Um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho...

Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida
Lhe acompanhou...

Se ele era
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou se era uma borboleta
Sonhando que era
Um sábio chinês...


[in lp Abre-te, Sésamo, 1980]

2 comentários:

Honey disse...

Chato ser talentoso, né? kkk...
4bjs

vanessa disse...

muito tocante seus poemas