domingo, 30 de outubro de 2011

dEsEnrEdoS no Diário de Cuiabá







Diário de Cuiabá, edição nº 13149
domingo, 30 de outubro de 2011

A boa visão de uma trama editorial


dEsEnrEdoS não é uma revista literária stricto sensu, mas toma a literatura como epicentro das Humanidades, e está atenta aos movimentos da Cultura

Floriano Martins*
Especial para o Diário de Cuiabá


O poeta e ensaísta Wanderson Lima (Piauí, 1975) dirige, ao lado de Adriano Lobão Aragão, a revista dEsEnrEdoS (www.desenredos.com.br/index.html), de circulação trimestral pela Internet. Trata-se de uma revista eletrônica de periodicidade trimestral fundada em Teresina-PI, em julho de 2009, em substituição à revista impressa Amálgama, da qual circularam 5 edições entre os anos de 2002 e 2004. Segundo seus editores, dEsEnrEdoS tem como missão estimular a criação artística e promover o debate de temas vinculados, direta ou indiretamente, à literatura. Sendo assim, dEsEnrEdoS não se propõe a ser uma revista literária stricto sensu, mas um espaço que, tomando a literatura como epicentro das Humanidades, esteja atento aos movimentos da Cultura. Serão bem-vindos, portanto, textos que, abordando a linguagem, o cinema, a música, as artes plásticas, a filosofia, a religião, a antropologia, a pedagogia, a psicologia, a história etc., ajudem a expandir a compreensão do fenômeno literário. Wanderson Lima, que atua também como professor de Literatura da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), doutorando em Literatura Comparada pela UFRN, é redator da Revista Universitária do Audiovisual (RUA). Publicou os livros Morfologia da Noite (poesia) e Reencantamento do mundo: notas sobre cinema (ensaio), este último em parceria com Alfredo Werney. Os leitores de DC Ilustrado lêem agora uma entrevista que lhe fez nosso colaborador Floriano Martins.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

aos rios do Piauí

[adriano lobão aragão]

 
ai rios do Piauí
corre o sangue dos tapuias
como tuas águas

ai rios do Piauí
diferente de tuas águas
outro rumo
o sangue dos tapuias toma
só à terra retorna

ai rios de sangue do Piauí
água pesada na memória



a) longá

beberam destas águas este povo
que nelas deixaram seu nome
derramado nas águas
onde se espalharam seu sangue

temporário, forma inúmeros alagoados
na época das chuvas

não navegável, recusa as dimensões
da navegação européia


b) Marataoã

padre Miguel Carvalho ante o rio Marataoã:
do ano de mil seiscentos e noventa e sete
restam poucos indícios

nem leitos de piçarra
nem bons banhos na Ilha dos Amores

só um religioso e seus escritos
nenhuma canoa


c) Piracuruca

antes da explosão das armas estrangeiras
o estrondo da guerra vinha de garganta humana

um tabajara podia ouvir o ronco dos peixes

antes do aldeamento São Francisco Xavier
abafar os sons da natureza
pois melhor se fixa
a doutrina européia
a disciplina militar


d) Jenipapo

vinham do Ceará os tapuias Jenipapos
pequena tribo entre Potis e Longas

vinham do Ceará ao Maranhão
engrossar as fileiras militares
aliciadas para a guerra
contra o gentio maranhense

ainda em mil setecentos e doze
ainda na capitania do Piauí
um padre prega outro destino

frei Euzébio Xavier Gouveia
induz Jenipapos à fuga

por ordem do Conselho Ultramarino
pela ordem e prosperidade da guerra
um padre desta capitania é expulso

aliciados e espoliados
desertores desta luta
invasores de fazendas
desaparecidos desta terra

resta um nome no rio
que ainda assistiria em suas margens
portugueses e piauienses em batalha 




[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Breves anotações ao pé da página






Quando Todos os Acidentes Acontecem, Manoel Ricardo de Lima
[Rio de Janeiro, 7Letras, 2009]

A experiência poética a que se propõe Manoel Ricardo de Lima volta-se para a incompletude lacunar, para o verso inconcluso, criando assim um livro que permeia a execução de uma proposta poética definida, e não uma coletânea de poemas de feições diversas. O desafio, entretanto, é o mesmo de qualquer criação artística: definir o que deve ser revelado, o que deve ser descartado e, sobretudo, o que deve ser insinuado. A partir disso, qualquer proposta que sustente a construção de um livro de poemas perde a sua função diante do poema em si, que, quando relevante, dispensa o próprio processo que levou à sua realização. Felizmente, os versos desse piauiense radicado em Santa Catarina enfrentam o desafio com boa desenvoltura, como se pode constatar através de poemas como areia; esboço; sim, uma dança; e piauí, apesar do inevitável risco de reduzir sua gênese à criação de acidentes programados, com hora marcada para acontecer.

Chico Buarque, histórias de canções, Homero Homem
[São Paulo, Leya, 2009]

Homero Homem, organizador do site de Chico Buarque, reuniu as diversas histórias que permeiam as composições de Chico Buarque de Hollanda, das primeiras incursões às produções atuais. Um painel interessante, com inúmeras curiosidades, mas carecendo de um fio condutor mais bem trabalhado, que pudesse sustentar o interesse e a curiosidade do leitor do início ao fim. Fica patente as limitações de Homero Homem como escritor à medida em que nos aproximamos dos mais recentes álbuns de Chico; longe das escaramuças com os censores e a ditadura, parece faltar ao autor matéria prima para manter o fôlego de sua escrita. Mas enfim, a música compensa.

Concerto para Arco e Flecha, Virginia Boechat
[Rio de Janeiro, Oficina Raquel, 2008]

Uma das gratas promessas para a poesia brasileira neste início de século, a mineira Virginia Boechat, radicada em São Paulo, estréia com um livro coeso e pungente, repleto de um lirismo desconcertante que remete a grandes poetas lusos, como Sophia de Melo Brayner Andresen; uma de suas influências evidentes. Para as letras brasileiras, diria que é uma vertente necessária e bem-vinda. Destaco, dentre outros, os poemas Quando menos se espera, Tua morte no meu dia, Carta da baía e Eu menti.

Caim, José Saramago
[São Paulo, Companhia das Letras, 2009]

Concordando ou não com as opiniões e pontos de vista de Saramago, há de se convir que sua escrita permaneceu primorosa e justifica a leitura de qualquer de suas obras. Essa alegoria do ser humano contra seu criador, no caso, o Deus apresentado no Gênesis e personificado por Saramago no romance em questão. De Adão e Eva no paraíso a Noé e sua arca no dilúvio, o desafortunado Caim vaga no tempo em constante desaprovação das obras do Senhor, que nesta obra mais se assemelha a um demiurgo incapaz de conviver com sua própria e imperfeita criação.

Cinzas do Espólio, Ivan Junqueira
[Rio de Janeiro, Record, 2009]

O poeta e ensaísta Ivan Junqueira reuniu em Cinzas do Espólio uma série de ensaios dispersos, com pouca ou quase nenhuma unidade entre si. Porém, mesmo entre prefácios e palestras, ainda é possível vislumbrar a competência do escritor, principalmente nos textos sobre a poesia brasileira no final do milênio, sobre o D. Quixote, sobre a tradução poética e no comovente depoimento à respeito do genial Otto Maria Carpeaux.



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 18 de outubro de 2011.]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Allāhu alam [Deus sabe mais]



No prefácio de sua magistral tradução do Livro das mil e uma noites, Mamede Mustafa Jarouche nos traz notícias de possíveis referências anteriores à versão conhecida das antológicas narrativas de Šahrāzād. Logo abaixo, trecho escrito por um livreiro de Bagdá chamado Abū Alfaraj Muḥammad Bin Abū Yacqūb Isḥāq, ou simplesmente Annadīm Alwarrāq, morto em 390 H. (ou 990 d.C., para o calendário cristão), constante no Alfihrist [“Catálogo”], obra na qual pretendia compendiar todos os livros até então escritos em árabe. No fragmento em questão, o termo asmār pode ser entendido como “histórias que se contam à noite”, e o termo hurāƒāt como “fábulas”.    


"E o correto, se Deus quiser, é que o primeiro a passar a noite em colóquios [asmār] foi Alexandre [da Macedônia]: ele tinha um grupo que o divertia e o entretinha contando histórias, com as quais ele buscava não o prazer, mas sim a proteção e a vigília. Depois dele, os reis utilizaram com essa finalidade o livro Haζār Aƒsān, composto de mil noites e menos de duzentas histórias, porque uma única história às vezes era narrada em várias noites. Em diversas oportunidades vi esse livro completo, e ele, na verdade, é um livro ruim, de narrativa frívola. Abū cAbdillāh Muḥammad Bin cAbdūs Aljahšiyārī, autor do Livro dos vizires e dos escribas, começou a escrever um livro para o qual escolhera mil dentre os asmār dos árabes, dos persas, dos gregos e de outros; cada parte [desse livro] seria independente, sem ligação uma com a outra. Ele reuniu os contadores de histórias noturnas [musāmirūn] e deles recolheu o que de melhor e mais belo conheciam; e escolheram, nos livros já elaborados, os asmār e as hurāƒāt que lhes agradavam. Era um homem de mérito, e reuniu quatrocentas e oitenta noites, cada noite composta de uma história completa, [num livro] constituído de pouco mais ou menos cinqüenta folhas. A morte, porém, colheu-o antes que realizasse o que seu espírito almejava, que era completar as mil noites. Isso eu vi em várias partes, com a letra de Abū Atṭ̣ayyib, irmão de Aššāficī. Antes disso, quem compunha asmār e hurāƒāt na linguagem de seres humanos, aves e quadrúpedes era um grupo de pessoas entre as quais se contavam cAbdullāh Ibn Almuqaffac, Sahl Bin Hārūn Bin Rāhyūn e cAlī Bin Dawūd, escriba de Zubayda, e outros cujas notícias já demos no local apropriado deste livro. Existem divergências quanto ao livro Kalīla e Dimna; dize-se que foi feito pelos indianos, e a informação relativa a isso está no próprio livro; diz-se que foi feito pelos reis ašġānidas e copiado pelos indianos; e dize-se que foi feito pelos persas e copiado pelos indianos. E um grupo disse que quem o fez foi o sábio Buzurjumihr [vizir do rei sassânida Kosroes], em várias partes, mas Deus sabe mais."
  

[Annadīm Alwarrāq, Alfihrist, Beirut, Ed. R. Tajaddud, Dār Almasīra, 1988, pp. 363-364 apud Livro das mil e uma noites, volume 1: ramo sírio / Anônimo (introdução, notas, apêndice e tradução do árabe: Mamede Mustafa Jarouche), 3ª edição, São Paulo: Globo, 2006. pp.16-17]

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

houve tempo em que andaste pelo deserto

[alziro nassar ur]


houve tempo em que andaste pelo deserto, e nestas areias talvez tenha tua letra deixado, antes das pegadas dos gigantes que outrora caminhavam sob o céu devastarem a distância entre tuas palavras e não restou sequer o dia em que fulminaste a todos para que seus pés não profanassem novamente as marcas de tua linguagem terrena, mas resta a fabulação do instante em que o último gigante tombado pela tua ira teve o rosto disposto face a face com o primeiro aedo e antes de morrer ditou-lhe o pouco que guardou na retina quando certa vez olhou para o chão e contemplou as linhas de tua trama, e na planta de seus pés um outro vate encontrou impressas outras marcas de tua fábula, e tão intensa era tua presença nestes fragmentos dispersos que não foi possível a nenhum dos que a tenha tocado fugir do ensejo de propalá-la, ainda que muitas faces tivessem agora os inúmeros fragmentos que a cada canto se multiplicavam, até que surgisse a necessidade de inventar a escrita de teus versos e que todos esses intérpretes das antigas vastidões desse deserto se propusessem a juntar suas versões e, uma após outra, reunissem o emaranhado de tua longínqua palavra, e levantassem nessa faina o estranho monumento de linguagem que os encaminhasse até tua própria voz, perdida em eternidade, mas descontente da ultrajante tradução ao infinito erguida confundisse mais que suas falas, mas seu próprio ato de grafar seus signos e o que deles pudessem decifrar, posto que todo o monumento ruiu, assim como tombaram os gigantes, assim como muito depois também tombou a biblioteca em que, num último esforço sobre a face deste mundo, um ser sem nome e alheio a tua ira dispôs de todas as vidas em que pôde existir para recompor um único verso de tua palavra, guardada na imensidão das versões reunidas neste único volume que resistiu à queda e ao fogo e que, neste deserto, tenho agora em minha mãos enquanto questiono se posso, diante da eternidade, recusar tua leitura

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Gisele Bündchen não faz mal à saúde

 

[por Wanderson Lima]
 
 
A Secretaria de Políticas para Mulheres do governo federal pediu ao Conar – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – a suspensão da campanha publicitária "Hope ensina", protagonizada pela modelo Gisele Bündchen (veja um dos vídeos da campanha acima). A Secretaria argumenta que "a propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas".

Acho que a Secretaria de Políticas para Mulheres errou pelo menos três vezes em seu diagnóstico. Em primeiro lugar, pela falta de bom senso de não ver que está fazendo muito barulho por uma banalidade. Desde quando uma propaganda de lingerie pode implantar o “mal” na cabeça das pessoas? Quem é tão ingênuo para levar ao pé da letra uma propaganda? Mas, vamos lá, mesmo que alguém levasse a sério a propaganda, há um senão que a estupidez dos membros da aludida secretaria não conseguiram perceber. Eis o segundo erro: se é preciso admitir que a propaganda é nociva porque joga com o clichê da mulher-objeto, não menos urgente seria admitir que a imagem do homem ali produzida também é ultrajante. A pressuposição que ancora o comercial é que o homem é um estúpido, puramente instintivo, quase irracional: a simples visão de uma bela mulher atrofia sua capacidade racional.

Mas o terceiro erro da Secretaria torna inútil o segundo. É verdade, sim, que a propaganda de lingerie recorre ao clichê da mulher-objeto e do homem-animal-instintivo-ultra-elementar. Mas como uma propaganda teria eficácia sem recorrer aos estereótipos sociais? A publicidade é uma forma de arte menor do nosso tempo – e como forma menor de arte tem que recorrer a esquemas elementares, simplificados ao máximo para atingir uma ampla faixa de público. E quando eu digo arte menor não estou dizendo, necessariamente, arte ruim: há muitas campanhas publicitárias apoiadas em topoi elementares e, ainda assim, de uma beleza inquestionável (eis aqui um exemplo). O fato de a propaganda ser uma arte submetida a um imperativo extra-estético (vender determinado produto) nem é algo novo no Ocidente nem radicalmente reprovável. Condenar uma propaganda por se apoiar em clichês é desconhecer o que é uma propaganda e nada entender da função social dos clichês e dos estereótipos – tema que tem ocupado as reflexões da lingüista Ruth Amossy, para quem “o locutor não pode se comunicar com os seus alocutários, e agir sobre eles, sem se apoiar em estereótipos, representações coletivas familiares e crenças partilhadas”.

O que, enfim, quero dizer é que, sendo a propaganda uma arte, nenhuma opinião que se dê sobre ela sem levar em conta sua elaboração estética será suficientemente esclarecedora. A este respeito, aliás, cabe notar que a campanha publicitária em discussão tem valor estético quase nulo e, apesar de bela, Gisele Bündchen é má atriz. Não fosse a Secretaria de Políticas para Mulheres uma campanha tão sem sal como aquela seria logo esquecida.

Uma última observação. Ao defender a propaganda como arte menor não quero sugerir que ela seja algo especial e intocável. Nem as grandes artes o são. Não se pode separar tão radicalmente arte e moral. Mas, da mesma forma, é preciso bom senso para que o poder público não perca tempo com bagatelas. O Conar entendeu bem isto e, felizmente, não acatou o pedido da Secretaria de Políticas para Mulheres.

domingo, 16 de outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ilíada e Odisséia de Homero

[Alberto Manguel]


(...)

Nada sabemos sobre Homero. Acontece o contrário com seus livros. Num sentido muito real, a Ilíada e a Odisséia nos são familiares antes de abrirmos suas primeiras páginas. Antes mesmo de começarmos a acompanhar as mudanças de humor de Aquiles ou admirar a esperteza e a coragem de Ulisses, aprendemos a presumir que, em algum lugar nessas histórias de guerra no tempo e de viagem no espaço, nos será contada a experiência de toda luta e toda travessia humanas. Duas de nossas metáforas mais antigas nos dizem que toda vida é uma batalha e que toda vida é uma jornada; se Ilíada e Odisséia beberam desse conhecimento, ou se essa sabedoria foi tirada da Ilíada e da Odisséia, isso, afinal, não tem importância, uma vez que um livro e seus leitores são espelhos que refletem um ao outro infinitamente.
(...)



(MANGUEL, Alberto. Ilíada e Odisséia de Homero, uma biografia.
Coleção Livros que Mudaram o Mundo. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2008. pág.8)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ser ou não ser "fiel": eis a questão!



O cinema não é uma espécie de teatro filmado, muito menos uma narrativa literária ilustrada com imagens. As teorias cinematográficas e os cineastas nos ensinaram estas lições há algum tempo. Trata-se de premissas que, em geral, são aceitas pela maioria dos apreciadores da sétima arte. Mas, se o cinema possui uma linguagem própria e um filosofar concreto por imagens (como nos dissera o filósofo Deleuze em sua obra “Imagem-Tempo”), até que ponto a sétima arte pode fechar-se em si mesma e não procurar diálogos com outros sistemas artísticos? No que se refere a “adaptações”, um cineasta pode reconstruir uma obra literária com inventividade sem lhe tirar a “essência”? São questões instigantes que desafiam constantemente os estudiosos e os interlocutores do cinema e que podem ser observada na construção da obra cinematográfica de diversos autores.

Recentemente assisti a uma “adaptação” cinematográfica da peça “A Tempestade”, de Shakespeare (Propero's Books, 1991, direção de Peter Greenaway). Este filme me fez refletir sobre diversas questões que envolvem cinema e literatura. Uma das questões que mais me inquietou foi sobre o limite de re-criação (a partir de uma obra literária) que um diretor pode chegar. Neste sentido, achei muito invasiva a presença do cineasta britânico. Ele, longe de querer simplesmente adaptar a obra para o cinema, procurou reinventá-la (alguns estudiosos preferem usar o termo tradução intersemiótica quando se trata de adaptações de obras literárias para o cinema). Shakespeare, o bardo inglês da Renascença, ganhou uma montagem de planos rápidos e tempestuosa que pouco tem a ver com a noção de tempo do homem de sua época. A música de Michael Nyman engendrou um tom operístico e romantizado – tanto nas canções como na trilha instrumental – que pouco ou nada se afina com o espírito apolíneo e a suavidade da paisagem sonora renascentista. A peça ganhou um tom surrealista que, mais uma vez, não se observa no universo shakespeariano. Enfim, a obra de Greenaway me pareceu estar povoada de certos anacronismos que me incomodam um pouco. Contudo, não podemos considerar tais anacronismos como simples equívocos. Trata-se, antes, de uma visão de mundo do cineasta e de uma liberdade de expressão própria da recriação de uma obra de arte.

Mas, será se não é possível trazer Shakespeare para o cinema com o espírito renascentista e, ao mesmo tempo, criar uma obra rica e inovadora sob o ponto de vista da linguagem fílmica? Basta assistirmos às “adaptações” de Kurosawa e Orson Welles (refiro-me especificamente à Ran, Trono manchado de Sangue, do diretor japonês e Macbeth, do americano) e então veremos que é realmente possível. E, ademais, trata-se de uma experiência extremamente importante para o universo do cinema de arte. Os cineastas, além de alargarem as possibilidades da linguagem fílmica, ajudam-nos a ler a obra de uma maneira mais rica e abrangente.

Peter Greenaway, na realidade, é movido por um espírito de originalidade que parece extrapolar os limites da criação artística. E sabemos o quanto é problemático o conceito de originalidade. Um termo surgido a partir de um Romantismo que supervalorizava a expressão do indivíduo – este geralmente visto como um gênio acima de todas as coisas. O diretor britânico, ao promover uma distorção da linguagem fílmica, torna-se um maneirista. Abusa de recursos como a sobreposição de telas, exagera na movimentação cênica dentro do plano (basta vermos o seu Calibã dançante - uma personagem que mais parece que está atuando em um musical da Broadway), cria uma confusão de ruídos e sons dessincronizados na trilha. Uma paisagem sonoro-visual que mais se coaduna com o espírito dionisíaco do Barroco.

Acredito que, se bem observarmos, o diretor inglês teme que sua obra seja apontada como uma narrativa linear sem recursos fílmicos. Ele foge do veementemente do rótulo de autor de “cinema romanesco” e, portanto, não quer ser, a nenhum momento, um mero adaptador. Nesse sentido, sua postura é louvável. Filmar é correr risco. É melhor errar do que ser um covarde. E, na verdade, o que mais se vê nas telas de cinema, nas últimas décadas, são “adaptações covardes” que visam tão-somente agradar o grande público. Obras como Odisséia (1997, direção de Andrei Konchalovsky) Dom (2003, direção de Moacyr Goés), Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001, direção de Andrá Klotzel) e Hamlet (1990, direção de Franco Zefirelli), só para citar algumas, são exemplos da falta de ousadia e de inventividade fílmica. Não contribuem em nada para o cinema e muitas vezes nos conduzem a leituras totalmente equivocadas das respectivas obras literárias. Como bem nos dissera Anelise Corseuil[i]:

Existe uma cultura de adaptações fidedignas que pode ser extremamente problemática, uma vez que muitos filmes adaptados esvaziam-se de significado próprio, quando tendem simplesmente a reproduzir diálogos intermináveis. Esses filmes funcionam também para atender a audiências que querem consumir romances (predominatemente romances do século XIX) de uma forma mais facilitada. (pg. 369).

Por estes motivos, a “Última Tempestade”, de Greenaway, é uma obra importante. Isso porque é um filme que, constantemente, erra e arrisca. O artista procura manejar elementos estéticos e narrativos que não são muito experimentados pelo cinema feito para o grande público, como “quebras” da narrativa, sons aparentemente aleatórios e não sincronizados, imagens oníricas, montagens expressivas que não visam uma ordenação lógica e temporal dos planos visuais. Entretanto, tais elementos não fazem de Prospero's Books uma obra-prima, a meu ver.

É importante ressaltarmos que o diretor britânico não se limita a narrar cada cena que está na peça. Claro está que ele não almeja ser “fiel” (aliás, quanta falta de criatividade artística e preguiça intelectual se escondem atrás desta palavra!). A recriação de uma obra literária, como se sabe, não produz a semelhança com o objeto representado, mas sim a diferença. Se o cinema fosse uma arte apenas de reproduzir um texto literário, uma peça ou um discurso, não era necessário que existisse.

Peter Greenaway, com todos os problemas inerentes à sua obra, ensina-nos uma lição através de suas tempestades de sons e imagens: o cinema tem uma dicção própria e não deve se valer de uma obra apenas para agradar aos leitores da chamada “alta” literatura.  Contudo, não podemos fugir de uma questão central que realmente incomoda muitos interlocutores, creio: se por um lado o cinema tem uma expressão própria e não pode ser confundido com outra arte (uma vez que é um sistema de signos autônomo), por outro uma obra literária também não pode ser apenas um mero pretexto para que os cineastas se dissolvam em experimentos cinematográficos exageradamente estetizados. “A Última Tempestade”, de Greenaway, anda nesta linha tênue.



[i] In: Thomas Bonnici & Lúcia Osana Zolin . (Orgs.) Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. Maringá: EDUEM, 2003.

sábado, 8 de outubro de 2011

dEsEnrEdoS 11








Nesta edição, realizamos uma entrevista-enquete com alguns editores de revistas literárias que, assim como a dEsEnrEdoS, dedicam seus esforços para a divulgação artística e literária, fomentar o interminável debate acerca da permanente busca de renovações e reencontros. As revistas Lama, AO e Celuzlose atenderam gentil e prontamente nossos questionamentos. E a dEsEnrEdoS? Como responderia a tais questões? Pois bem, vejamos: Como surgiu a ideia de lançar uma revista literária? dEsEnrEdoS surgiu de uma publicação anterior denominada Amálgama, editada de janeiro de 2002 a agosto de 2004, em Teresina, Piauí. O perfil da revista, embora impressa, era bastante parecido com a atual dEsEnrEdoS, pois buscava mesclar poesia e ficção, ensaios e artigos, sem apegos desnecessários a ideologias reducionistas. Mas, o cerne de sua gênese é a mesma de qualquer revista de arte e literatura, o desejo de dinamizar de alguma maneira o canal entre a produção e a leitura, entre o artista,o pesquisador e seu público. Quais as principais dificuldades enfrentadas? O silêncio e a indiferença sempre são obstáculos maiores que qualquer outro. Mas, felizmente, tivemos o privilégio de contar com a atenção e o apreço de bons leitores que tornam as inevitáveis dificuldades um assunto irrelevante. Enquanto tivermos público, continuaremos publicando e divulgando arte, crítica e literatura. Qual a abrangência, o público da revista? Quem sabe? Diversas vezes nos surpreendemos com o alcance desses textos que fazem esta revista. E algumas poucas vezes, é claro, nos decepcionamos por sonhar uma abrangência ainda maior. Mas, se neste exato momento, tenhamos apenas um único leitor, já valeu a pena o esforço. E as perspectivas, o que se pode esperar daqui pra frente? Melhor esperar 2012 para ver. Até lá, temos bons textos nesta edição para justificar as expectativas e os dEsEnrEdoS.



Os Editores 




contato
lobaoaragao@gmail.com
wandersontorres@hotmail.com




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 11 - teresina - piauí - outubro novembro dezembro de 2011]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Uma certa revelação órfica





“Não me destruas, poema, / enquanto ergo / a estrutura do teu corpo / e as lápides do mundo morto.” Assim se iniciam os versos de Órfica, poema de Dora Ferreira da Silva constante em Hídrias (2004), seu último volume de poemas publicado em vida. De tão lírica, tênue, metafísica, a poesia de Dora Ferreira da Silva é sempre um desafio, como se fosse a tradução diáfana de um mundo mítico ou a busca de um possível reencantamento deste mundo nas coisas mais simples, um jardim, uma chuva, um pássaro. A recorrente imagem do pássaro desafia a rigidez de toda lápide. E como lírica demiurga, a poeta ergue um mundo sob as cinzas de um outro abandonado ao caos que, imperceptível aos olhos cansados de uma realidade sem mistério, balança suas crinas e dispara pela noite eterna na forma de um cavalo azul.

A imaginação reflexiva, a consciência mítica, o diálogo com o simbólico são chaves constantes em sua obra, como se o tempo não lhe fosse linear, e que em seus versos emanasse o complexo tempo dos mitos, sobretudo os gregos, a quem se entrega a voz e o culto. Em Ártemis de Éfeso, também de Hídrias, louvou a “Mãe luminosa, mãe sombria, mistério que tudo abriga, / sê propícia ao trigo do meu canto.”

Poeta e tradutora paulista, nascida em 1918, difícil saber onde nasce sua poesia, que vivencia a Grécia antiga, mas não se circunscreve somente a ela. Suas traduções dariam um interessante indício de onde realmente provém Dora Ferreira da Silva. Rilke, Hölderlin, San Juan, significativas preferências indicam o caminho trilhado. Toda tradução é um diálogo. Tivesse Dora dedicado-se somente ao nobre ofício de traduzir, e nos legado apenas sua versão das Elegias de Duíno e Vida de Maria (Rainer Maria Rilke), bem como a poesia mística de San Juan de La Cruz, sua importância já seria fundamental. Não apenas pela escolha dos autores, mas pela riqueza do trabalho empreendido, buscando o que há entre o poético e o transcendente, e pela influência que deixou disseminada entre leitores de língua portuguesa.

Mas a literatura movimenta-se não apenas pelos livros, estendendo seus espasmos por revistas que, inúmeras vezes, foram mais que porta-vozes de gerações, mas catalizadores de anseios e ideais coletivos. Uma revista literária relevante torna-se uma âncora, um promontório ou mesmo uma senda instigante a guiar seus leitores aos oásis escondidos entre o caos e a indiferença que costumam dominar o mundo prosaico. E Dora não foi fundamental somente na criação de uma única revista desse porte, mas, em épocas distintas, fundou duas que, ainda hoje, mantém-se como modelo de comprometimento de corpo e alma com a poesia e o conhecimento: Diálogo (juntamente com seu marido, Vicente Ferreira da Silva) e Cavalo Azul. A disponibilização desse acervo, como bem lembrou Claudio Willer em ensaio dedicado a Dora, revelaria inestimáveis surpresas ao público atual, bem como a profunda influência exercida por seus editores. Entre os depoimentos daqueles que conviveram com Dora, é notória a reverência dedicada a ela, como um oráculo ou a detentora de uma certa revelação órfica.

Mas, para além de seus ofícios de editora e tradutora, emana de sua existência um forte comprometimento poético que a fez autora. De Andanças (1970) a Hídrias (2004), Dora mergulhou suas águas míticas na linguagem lírica. Poemas simples em sua complexidade, densos no que têm de etéreos. E só estreou em livro com mais de 50 anos de idade. Sua obra poética é marcada por um lirismo de maturação, não de envelhecimento. Poesia de quem se habituou a observar o tempo e seus enigmas, como se fosse (talvez seja) a poesia uma religião.

“Um dos equívocos mais comuns é tentar catalogar a poesia de Dora. Uns querem enquadrá-la na geração de 45. Outros situam como poesia dita feminina. Penso que Dora é livre demais para qualquer um desses rótulos.” Assim manifestou-se Donizete Galvão, no ensaio Dora Ferreira da Silva e a chave do sagrado. Realmente, os versos de grandes poetas costumam recusar naturalmente as rotulações, mesmo aquelas criadas a partir deles mesmos. Também é certo que classificar não é compreender, e a dimensão mítica e simbólica que Dora imprime em seus versos torna a tarefa ainda mais árdua. Mas tal esforço analítico não se trata de um artifício absolutamente inválido, mas sim um recurso que auxilia a busca de quais outros aspectos dialogam com sua poesia, em que âmbito pode ser correlacionada. O que torna ineficaz, e creio que seja sobretudo nesse contexto que Donizete direcione sua crítica (daí o termo “catalogar”, usado com propriedade pelo poeta), é a leitura direcionada, buscando adequar os versos da poeta a alguma teoria ou ideologia reducionista ao invés de debruçar-se sobre o emaranhado de referências gnósticas, míticas, místicas e líricas que Dora permeou para compor sua obra. O equívoco maior de tal procedimento seria então querer ver na poesia aquilo que, a priori, já se decidiu ver, fechando assim os olhos para o que a poesia tem de mais fascinante, sua imprevisibilidade, seus mistérios. E por falar em mistério, fica a incerta certeza de que, se Dora não nasceu em 1918, mas séculos, muitos séculos antes, seu falecimento não se assinala em 2006, e nem se saberá quando.