sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Allāhu alam [Deus sabe mais]



No prefácio de sua magistral tradução do Livro das mil e uma noites, Mamede Mustafa Jarouche nos traz notícias de possíveis referências anteriores à versão conhecida das antológicas narrativas de Šahrāzād. Logo abaixo, trecho escrito por um livreiro de Bagdá chamado Abū Alfaraj Muḥammad Bin Abū Yacqūb Isḥāq, ou simplesmente Annadīm Alwarrāq, morto em 390 H. (ou 990 d.C., para o calendário cristão), constante no Alfihrist [“Catálogo”], obra na qual pretendia compendiar todos os livros até então escritos em árabe. No fragmento em questão, o termo asmār pode ser entendido como “histórias que se contam à noite”, e o termo hurāƒāt como “fábulas”.    


"E o correto, se Deus quiser, é que o primeiro a passar a noite em colóquios [asmār] foi Alexandre [da Macedônia]: ele tinha um grupo que o divertia e o entretinha contando histórias, com as quais ele buscava não o prazer, mas sim a proteção e a vigília. Depois dele, os reis utilizaram com essa finalidade o livro Haζār Aƒsān, composto de mil noites e menos de duzentas histórias, porque uma única história às vezes era narrada em várias noites. Em diversas oportunidades vi esse livro completo, e ele, na verdade, é um livro ruim, de narrativa frívola. Abū cAbdillāh Muḥammad Bin cAbdūs Aljahšiyārī, autor do Livro dos vizires e dos escribas, começou a escrever um livro para o qual escolhera mil dentre os asmār dos árabes, dos persas, dos gregos e de outros; cada parte [desse livro] seria independente, sem ligação uma com a outra. Ele reuniu os contadores de histórias noturnas [musāmirūn] e deles recolheu o que de melhor e mais belo conheciam; e escolheram, nos livros já elaborados, os asmār e as hurāƒāt que lhes agradavam. Era um homem de mérito, e reuniu quatrocentas e oitenta noites, cada noite composta de uma história completa, [num livro] constituído de pouco mais ou menos cinqüenta folhas. A morte, porém, colheu-o antes que realizasse o que seu espírito almejava, que era completar as mil noites. Isso eu vi em várias partes, com a letra de Abū Atṭ̣ayyib, irmão de Aššāficī. Antes disso, quem compunha asmār e hurāƒāt na linguagem de seres humanos, aves e quadrúpedes era um grupo de pessoas entre as quais se contavam cAbdullāh Ibn Almuqaffac, Sahl Bin Hārūn Bin Rāhyūn e cAlī Bin Dawūd, escriba de Zubayda, e outros cujas notícias já demos no local apropriado deste livro. Existem divergências quanto ao livro Kalīla e Dimna; dize-se que foi feito pelos indianos, e a informação relativa a isso está no próprio livro; diz-se que foi feito pelos reis ašġānidas e copiado pelos indianos; e dize-se que foi feito pelos persas e copiado pelos indianos. E um grupo disse que quem o fez foi o sábio Buzurjumihr [vizir do rei sassânida Kosroes], em várias partes, mas Deus sabe mais."
  

[Annadīm Alwarrāq, Alfihrist, Beirut, Ed. R. Tajaddud, Dār Almasīra, 1988, pp. 363-364 apud Livro das mil e uma noites, volume 1: ramo sírio / Anônimo (introdução, notas, apêndice e tradução do árabe: Mamede Mustafa Jarouche), 3ª edição, São Paulo: Globo, 2006. pp.16-17]

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