terça-feira, 30 de agosto de 2011

O que é Poesia?

"A poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro. Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim as palavras "inventar" e "descobrir" são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, que descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver."


Jorge Luis Borges, A poesia (1980)
(in Borges oral & sete noite, Companhia das Letras, 2011. p. 165)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Páginas literárias


[Adriano Lobão Aragão



Rascunho, Coyote, Lama, Celuzlose, Zunai, dEsEnrEdoS, AO, Corsário, Sibila, bem como uma série de outras publicações, digitais ou não, circulam pelo país mantendo uma prática que há décadas revela talentos, expõe tendências, acirra polêmicas e debates, dá visibilidade a determinados grupos na mesma velocidade em que cria pontes e também muros. A partir de revistas literárias publicadas recentemente em meio impresso, conversei com três editores sobre as origens, desafios, horizontes e perspectivas de seus respectivos lançamentos: Celuzlose (em São Paulo), AO Revista (no Piauí) e Lama (no Paraná). Publicamos aqui a primeira parte de nossa entrevista/enquete. Na próxima edição da revista dEsEnrEdoS (www.desenredos.com), publicaremos o restante dessa prosa tão afeita à poesia.

Como surgiu a ideia de lançar uma revista literária?

[Victor Del Franco/Celuzlose] A ideia surgiu no final de 2008. Na ocasião, eu colaborava com o jornal literário O Casulo que era editado pelos poetas Eduardo Lacerda e Andréa Catrópa. O jornal tinha o apoio financeiro de um programa de fomento cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Este apoio financeiro foi importante para a edição do jornal durante os anos de 2007 e 2008, depois desse período de 2 anos em que durou o apoio financeiro, o jornal deixou de ser editado. No entanto, eu queria continuar com o trabalho de divulgação da literatura contemporânea e foi justamente por conta disso que a ideia da revista Celuzlose começou a amadurecer. A primeira edição da Celuzlose (versão digital) ficou pronta em junho de 2009 e está disponível no seguinte endereço: http://celuzlose.blogspot.com. Atualmente, a revista já possui 7 edições digitais e a primeira edição impressa foi lançada em junho de 2011, através de uma parceria feita com o poeta e editor Reynaldo Damazio que é responsável pela Dobra Editorial. Quem estiver interessado em adquirir um exemplar da Celuzlose impressa, a revista está à venda no site da editora: www.dobraeditorial.com.br.


[Laís Romero/AO Revista e Trimera] Ambas, Trimera e AO, surgiram da necessidade de publicação. Esse desespero é comum a todos que se relacionam com a Literatura, de querer publicar, mostrar, levar às pessoas todas uma parcela da produção literária que está por aí... Com a Trimera foi o resultado de um livro que não deu certo, e a AO Revista, editada pela Academia Onírica, já nasceu revista. Queríamos um veículo impresso que nos transportasse para a realidade, o retorno que uma revista dá é muito diferente do retorno de um blog (poesiatarjapreta.blogspot.com), por exemplo.


[Fabiano Vianna/Lama] Primeiramente, o projeto era de ser uma revista apenas de fotonovela. Porque eu trabalho com fotonovelas, desde 2006, no site www.crepusculo.com.br. Mas quando eu e minha sócia, Milena Buzzetti, começamos a reunir material e pesquisar gráficas, formatos etc., pensei que poderia aproveitar e convidar amigos escritores que eu conhecia para participar. E então comecei a receber contos ótimos de pessoas como Ana Paula Maia, Luiz Felipe Leprevost, Martha Argel, Giulia Moon, Assionara Souza, Gisele Pacola. Juntaram-se a eles, Daniel Gonçalves, Rodriane DL, Simone Campos e Emanuel Marques (escritor português), pessoas que eu já admirava o trabalho. A maioria deles já caminhava pelas obscuras trilhas do pulp. Então, de revista de fotonovela, a Lama foi transformando-se em uma revista pulp, com uma abrangência maior de temas como eram as revistas pulp dos anos 30/40. Este "guarda-chuva" temático composto por ficção científica, horror, suspense e fantasia. Muitos acham loucura lançar uma revista impressa hoje em dia, numa fase onde os e-books e livros digitais estão dominando o mercado. Mas para mim, publicar literatura é fazer história. A revista impressa pode ser guardada, colecionada. Vira documento. A internet ainda não nos proporciona isso. Por enquanto. E, além disso, são mídias diferentes. Não existia ainda uma revista destinada à literatura pulp. Outra missão da Lama é revelar escritores novos que andam produzindo literatura de primeiro mundo. Queremos consolidar os gêneros policiais, terror, suspense, ficção científica e fantasia no Brasil. Isso não é coisa só de gringo mais. Na 2ª edição temos, além de contos de nossos mestres, Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, a participação de Daniel Gonçalves, Luiz Felipe Leprevost, Diego Gianni, Vanessa Rodrigues, Assionara Souza, André de Leones, Eduardo Capistrano, Índigo, Estus Daheri, Ana Paula Maia e Rodriane DL. A fotonovela da nº 2 chama-se Tocaia, fotografada por Bruno Zotto & Japa Biet e os ilustradores estão incríveis mais uma vez: Daniel Gonçalves, Foca, A.B. Ducci, Renato Faccini, Daniel Carvalho, Danilo Oliveira, João Lavieri, Tati Ferrigno, Yan Sorgi, Fabz, Frede Tizzot, Sama e Bruno Oliveira.



publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 23 de agosto de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

O que é verso livre?



"Mas verso livre cem por cento é aquele que não se socorre de nenhum sinal exterior senão o da volta ao ponto de partida, à esquerda da folha de papel: verso derivado de vertere, voltar. À primeira vista, parece mais fácil de fazer do que o verso metrificado. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar seu ritmo sem auxílio de fora. (...) Sem dúvida, não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão-somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre. Se fosse, qualquer um poderia pôr em verso até o último relatório do Ministro da fazenda." 

Manuel Bandeira
[Poesia e Verso, in Seleta em Prosa e Verso]

terça-feira, 16 de agosto de 2011

bed-in 1969

"Queridos amigos,

Em 1969, eu e John éramos ingênuos a ponto de acreditar que deitar numa cama ajudaria a mudar o mundo.
Bom, pode ter ajudado. Mas na época nós não sabíamos.

Foi bom termos filmado, de qualquer forma.
O filme é poderoso hoje.
O que dissemos na época, poderia ser dito agora.

Na verdade, algumas coisas que dissemos no filme podem encorajar e inspirar ativistas de hoje. Boa sorte para todos nós.

Vamos lebrar que A GUERRA ACABOU, se assim quisermos.
Depende de nós, de ninguém mais.
John gostaria de dizer isso.

Yoko Ono Lennon
Londres, agosto de 2011



sábado, 13 de agosto de 2011

e.e.cummings


somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

cummings por augusto de campos

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

cummings por h. dobal

Nalgum lugar em que nunca viajei alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há cousas que prendem,
ou que não posso apreender porque são próximas demais

o teu mais breve olhar facilmente me desvenda
embora eu me tenha fechado como os dedos,
tu me abres sempre pétala por pétala como a primavera
(tocando cuidados, misteriosamente) a primeira rosa

ou se teu desejo me quiser prender neste, eu e
minha vida terminaremos linda, subitamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosa caindo em toda parte;

nada do que devemos perceber neste mundo equivale
ao poder de tua intensa fragilidade: sua força
me vence com a visão dos seus espaços,
trazendo a morte e o sempre a cada alento

(não sei o que há em ti que prende
e que liberta; somente alguma cousa em mim compreende
que a voz de teus olhos é mais profunda do que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos tão pequenas.

cummings por rodrigo garcia lopes

em algum lugar que nunca visitei, felizmente além
de qualquer experiência, seus olhos retém o seu silêncio:
nos seus gestos mais frágeis há coisas que me encerram,
ou que não posso tocar porque estão perto

seu olhar mais breve me desabrocha feito pétalas
mesmo que eu sempre me feche como dedos,
você me abre sempre, pétala por pétala, como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se seu desejo fosse estar perto de mim, eu e
minha vida encerraríamos com beleza, de repente,
como quando o coração dessa flor imagina
a neve descendo docemente em todos os lugares

nada do que eu possa perceber neste mundo é igual
à força de sua intensa fragilidade: cuja textura
me mistura com a cor de seus campos,
retribuindo a morte e o eterno a cada sopro

(não sei dizer o que há em você que se fecha
e se abre: só um pedaço de mim compreende que a voz
de seus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

cummings por jorge wanderley

em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém
de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio:
em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem
ou que não posso tocar porque estão muito próximas

teu olhar mais leve facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,
e me entreabres sempre, pétala por pétala, como a Primavera
(por toques habilidosos, misteriosamente) abre a primeira rosa

ou se teu desejo é me fechar, eu e
minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente
como quando o coração desta flor imagina
que a neve - cuidadosamente - está caindo em toda a parte;

nada do que podemos perceber neste mundo se compara
ao poder de tua intensa fragilidade; cuja textura
me compromete com a cor de seus países
e me entrega para a morte cada vez que respiro

(nada sei do que te faz tão poderosa
ao me mover; mas algo em mim compreende apenas
que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos tão pequenas

cummings por rui werneck

em algum lugar que nunca fui, alegremente para além
de qualquer experiência, seus olhos têm silêncio próprio:
em seu mais débil gesto existem coisas que me enclausuram,
ou que eu não posso tocar porque estão muito perto

seu mais rápido olhar facilmente me captura
e no entanto eu me fechei como dedos,
você me abriu pétala por pétala como a primavera
abre (tocando habilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se você deseja me fechar,
eu e minha vida nos fecharemos belamente,
de repente, como quando o coração das flores imagina
a neve caindo devagarinho sobre tudo;

nada se percebe nesse mundo igual
ao poder da sua intensa fragilidade: cuja textura
me compele para as cores dos seus campos
traduzindo por hoje e sempre com sua respiração

(eu não sei o que é sobre você nos fechamentos
e aberturas; apenas alguma coisa em mim entende
que a voz dos seus olhos é tão profunda como todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Yu Xuanji

o templo Zifu, fundado pelo eremita Ren

China, 844-869 d.C



Ergueu o templo um homem solitário 
e hoje é descanso a viajantes – pouso – 
Deixam seus nomes vãos à porta, ao lótus
deitam-se escritos nas paredes brancas
As águas correm para o velho tanque 
A relva próxima ao caminho brota
Cem pés é alto o pavilhão de ouro
e em frente ao rio, todo brilho, claro


題任處士創資福寺


幽人創奇境。
遊客駐行程。
粉壁空留字。
蓮宮未有名。
鑿池泉自出。
開徑草重生。
百尺金輪閣。
當川豁眼明。



[in Poesia Completa de Yu Xuanji, tradução de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, Editora Unesp, 2011]

sábado, 6 de agosto de 2011

entre as formas reclinada


[adriano lobão aragão]


 

assim deitada
teu perfil revela
não a púbis encoberta
pelo corpo pelas costas
entre as formas reclinada

mas pelas curvas de tuas ancas
abre-se em ponto e ânsia
a flor que dança em teus quadris
no momento ainda que descansas

quem sabe das ânsias
que reclama o corpo
quando em perfil procuras
a chave que propões guardar




[ave eva, 2011]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um soneto atribuído a Teresa de Ávila



A Cristo Crucificado

[Tradução de Wanderson Lima]


Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu que me hás um dia prometido,
e nem me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
cravado numa cruz e escarnecido;
move-me ver teu corpo tão ferido;
movem-me o insulto e a vida que perdeste.

Move-me teu amor, de tal maneira,
enfim, que sem céu ainda te amara
e a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira.
E se o que ouso esperar não esperara,
o mesmo que te quero te quisera.





Nota do tradutor: Além de Santa Teresa de Ávila (veja outra tradução dela que fiz aqui), pelo menos outros cinco nomes concorrem para serem o autor deste soneto, incluindo aí San Ignacio de Loyola e San Juan de la Cruz. Marcelino Menéndez Pelayo o incluiu numa antologia dos cem melhores poemas da língua castelhana. Manuel Bandeira o traduziu com a sua costumeira competência. O original pode ser lido aqui.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jogo de sombras
Ian Curtis
Tradução de Gleiton Lentz
Edições Nephelibata
São Paulo, 2010




De nada lembro

Nós fomos estranhos.
Nós fomos estranhos, por tempo demais, por tempo demais,
Nós fomos estranhos, por tempo demais.
Violento, violento,
Fomos estranhos.

Cansados todo o tempo, apenas passando o tempo,
Eu no meu próprio mundo, sim você aí ao lado,
As lacunas são enormes, olhando de cada lado,
Nós fomos estranhos por tempo demais.

Violento, mais violento, a sua mão quebra a cadeira,
Move-se sob reação, então mergulha em desespero,
Preso em uma jaula e rendido cedo demais,
Eu no meu próprio mundo, aquele que você conhecia,
Por tempo demais.
Nós fomos estranhos por tempo demais.
Nós fomos estranhos,
Nós fomos estranhos por tempo demais,
Por tempo demais.


Espólio
Rubervam Du Nascimento
2ª edição
Scortecci
São Paulo, 2011




Introdução
 
não é fonte deste livro
acervo do tombo
e seu silêncio pálido
manuscritos salvos
de um arquivo de areia
redigidos com tinta
dágua onde lavo
toda manhã e tarde
lábios da memória

não é fonte deste livro
meu dia perdido
na confusão da noite
nossa vida de cão
passada a limpo
desde que o anjo rebelde
a serviço do criador
armado de lasca de sol
nos expulsou do paraíso



Somente para bêbados
Paulo Tabatinga
Edição do autor
Teresina, 2011




Cogito
 
Penso,
Logo não sei se resisto

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Amy e o inferno

[por Luís Antônio Giron]



À medida que passa o tempo, tenho a impressão de que entendo cada vez menos de música, e menos ainda de vida. Quando se juntam os dois termos, então, o enigma se torna quase indecifrável. E eis Amy Winehouse a me tirar o sono. A morte e a arte da cantora inglesa (1983-2011) perturbam quaisquer convicções e as ideias adquiridas em torno da dicotomia indivíduo-produto, arte-vida, drogas-caretice. Até que ponto ela foi um produto da indústria pop britânica? O que sobrou de sua carreira breve? Que lições sua arte pode dar à vida, e vice-versa? É o que vou tentar responder aqui.[ clique para ler o restante deste ótimo texto de Luís Antônio Giron]