sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um soneto atribuído a Teresa de Ávila



A Cristo Crucificado

[Tradução de Wanderson Lima]


Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu que me hás um dia prometido,
e nem me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
cravado numa cruz e escarnecido;
move-me ver teu corpo tão ferido;
movem-me o insulto e a vida que perdeste.

Move-me teu amor, de tal maneira,
enfim, que sem céu ainda te amara
e a não haver inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira.
E se o que ouso esperar não esperara,
o mesmo que te quero te quisera.





Nota do tradutor: Além de Santa Teresa de Ávila (veja outra tradução dela que fiz aqui), pelo menos outros cinco nomes concorrem para serem o autor deste soneto, incluindo aí San Ignacio de Loyola e San Juan de la Cruz. Marcelino Menéndez Pelayo o incluiu numa antologia dos cem melhores poemas da língua castelhana. Manuel Bandeira o traduziu com a sua costumeira competência. O original pode ser lido aqui.

3 comentários:

Robermar Vieira disse...

Por favor, ajude-me em uma dúvida: No soneto atribuído â Tereza D'Ávila, qual o significado de "ofender-te". Queria dizer com isto que ofenderia Deus e não o temeria por isto?

Anselmo Mendonça disse...

Não, não. Ela quer dizer no primeiro quarteto do soneto que ela ama a Cristo não pela promessa do céu. E não é o medo do inferno que a impede de ofender ao Senhor.

Espero tê-lo ajudado.

Anselmo Mendonça disse...

Não, ela quis dizer que não é por causa do medo que ela tem do inferno que ela deixa de ofender Jesus (o soneto é direcionado a Cristo crucificado). Elá não o efende Jesus por outros motivos que ela vai explicando na sequência do poema.