quinta-feira, 31 de julho de 2008

amálgama #1 - Entrevista com Elio Ferreira e Lisete Napoleão - parte1

Hermes, Lisete, Elio, Sérgio e Adriano

Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002


Entrevistados por Hermes Coelho, Adriano Lobão Aragão e Sérgio Batista, numa manhã de sábado, diante de lentas águas do Rio Poti, o poeta Elio Ferreira e a professora Lisete Napoleão ponderaram sobre literatura piauiense, poesia, hip-hop, folclore, bumba-meu-boi e o que mais apareceu na conversa. Elio é professor de literatura na UESPI, pesquisador da cultura e resistência negra no Brasil e no mundo, autor do livro de poemas O Contra-lei, já em sua segunda edição, onde mistura do hip-hop à poesia marginal. Lisete é Pró-Reitora de Ensino na UESPI, professora de literatura piauiense e pesquisadora de nosso folclore. Escreveu os livros Quem Conta um Conto Aumenta um Ponto, Zamba e Histórias que Ouvi. Entre um gole de água mineral para o Elio e uma cervejinha para Lisete, perdidos no bairro Santa Sofia, sob pés de “segura-ela” e mangas, deu-se o interrogatório.



Amálgama - Quais as características próprias da literatura piauiense?

Lisete - A característica que a gente vê, que a gente tem, no Piauí, é ter esse amor pelo Piauí. Porque são raros os escritores que deixam de falar. O Da Costa e Silva, sempre que falava, era telúrico mesmo. A marca maior deles, que eu vejo, é que sempre que eles usem temas universais, estão sempre voltados para o Piauí. Ao nosso Piauí ou à sua cidade natal.

Elio - Dentro do grande, do nacional, deve existir identidade. Eu sou do Piauí, mas eu sou do universo, eu sou cidadão do mundo. Então meu sentimento daqui vai partir também para o que eu tenho de universal e de humano, que existe em toda parte.

Lisete - Dentro da auto-estima impor respeito e espaço.

Elio - O Piauí não está isolado. Porque o mundo ocidental... muita coisa que se escreve aqui vem do ocidente. Chega aqui e se adapta a uma outra realidade com elementos complementares da arte e da mentalidade de um povo, de um lugar em que está se vivendo.

Lisete
- Nós sabemos o quê? Que nós temos toda uma influência de Portugal, que foi de onde nós passamos muito tempo ligados. Portugal, por sua vez, tem toda sua influência de onde? Do resto da Europa, onde o Garrett [Almeida Garrett, poeta e dramaturgo português do romantismo] e todo o pessoal iam e retornavam à Portugal... o próprio Bocage [poeta português, árcade pré-romântico] deixou essa influência para nós, que por nossa vez, à medida em que fomos aprendendo a caminhar, nós fomos absorvendo essas características e compondo nossas músicas, nossas poesias, dentro da nossa realidade.

Elio - Toda literatura dialoga com literaturas anteriores, como na própria vida existe esse elemento. O diálogo com conhecimentos anteriores. Hoje, a negritude não pode ficar descartada numa situação como essa. Portugal veio, mas tem-se de Portugal como se tem do índio, como temos do negro e de outros povos. E o momento da literatura autenticamente brasileira é quando a gente começa a perceber a dominação, a perceber que temos que pensar com a nossa própria cabeça, por nosso próprio mundo. Estabelecer que a realidade de Portugal veio até aqui, mas temos de Portugal como temos também da África, do índio. Então a gente tem que ver de outra maneira. Ver com os nossos próprios olhos, onde está a questão de identidade. E o que vai marcar a literatura brasileira hoje, a literatura do mundo, é pensar com o olhar do dominado. Então não se pode passar a vida inteira pensando como europeu. Se tem essa estrutura, a gente modifica isso. A gente fala outra coisa...

Lisete [interrompendo] - Ver o que eles têm e construir a nossa realidade.

Elio - É claro. No mundo e na literatura, as culturas dialogam com outras. Deve haver um mundo miscigenado.

Amálgama - A antropofagia na prática?

Elio [gesticulando muito] - A antropofagia da prática. O que é que eu tenho de negro? Eu tenho de negro isso. O que é que eu tenho de índio? Eu tenho de índio isso. O que é que eu tenho de europeu? Eu tenho de europeu isso. Então são as coisas que eu preciso viver nesse momento.

Lisete - O que nós, brasileiros, temos disso...

Elio
- Agora eu, como negro, assumo hoje mais o quê? A questão da negritude. Porque essa é minha maior herança.

Lisete - Embora essa face gritante seja do negro, você não pode negar o que tem do índio e do branco.

Elio - Renegar o índio nunca! A minha ancestralidade também está no presente. Eu fiz um estudo da minha ancestralidade e descobri que a minha bisavó foi pega "a dente de cachorro", que era uma índia. Temos que resgatar esses nossos valores que foram apagados. Temos que resgatar isso para que tudo conviva em pé de igualdade. Essa relação de diálogo e respeito a todas as culturas e a todas as religiões. Isso é o que se busca. Por que falou-se em negritude e na cultura do índio? É para que sejam respeitadas num mesmo nível que o branco. O branco é branco, e é bonito. O negro é negro, e é bonito. O índio é bonito. A cultura do índio é tão importante quanto a cultura do europeu. O que a literatura brasileira faz nos últimos tempos? É buscar uma linguagem aproximada da que o povo fala, quebrar valores também. Não podemos passar o tempo todo discutindo os valores europeus. O que há de Piauí aqui? O que o pessoal do Piauí está escrevendo? A gente deve entender o Piauí, esse conceito, a partir do que se tem escrito. O cordel é uma marca forte no Piauí. E o que marca o Brasil nesse cordel é a oralidade do poema. O poema para ser gritado.

Lisete - Devemos nos arrancar desse marasmo, porque ele é analisado na Sorbonne e no exterior, mas nós conhecemos pouco e trabalhamos pouco o cordel. Até que a nossa Universidade Estadual começou a resgatar e tentar fazer um trabalho junto ao próprio Pedro Mendes Ribeiro, que todos os anos faz um encontro internacional de cordel aqui no Piauí.

Elio - O que precisamos resgatar é a nossa história. Resgatar a memória do Piauí. Essa questão da piauiensidade é importante. Temos que nos identificar para nos assumir como nós somos e conquistar um espaço também fora daqui. Porque o que acontece é isso aqui: nós somos a periferia. Assim como o negro é tido como periferia, assim como o índio é tido como periferia, essas culturas... E o Piauí em relação ao Brasil é periferia...

Lisete [protestando] - Ainda é periferia. Ainda...

Elio - Considera-se periferia. Estamos aqui num isolamento. O Piauí ainda é tido como o estado mais atrasado, mais pobre. Ainda é visto assim. Então voltar a nossa visão para nós mesmos é importante. O amor próprio, e amar aos outros, para começar a conquistar espaço fora. Agora tem-se que fazer alguma coisa aqui.

Lisete - Mas já estamos melhorando, já há um avanço. A preocupação está muito maior.

Elio - Mas tem que ter investimento! Investimento cultural! Pra quem faz literatura é muito pequeno.

Lisete - É pequeno, eu sei. Mas e quando não se tinha nada? E hoje já se tem.

Elio - Mas são pequenos.

Lisete - E quando não se tinha nada?

Elio - Sim. Mas não se está nesse ponto mais. Você vai, por exemplo, ao Ceará ver a quantidade que eles investem em literatura lá. Todo dia tem gente de fora pra falar de literatura lá. O que o Piauí não faz é isso.

Lisete - Mas nós estávamos falando de produção.

Elio - Mas o diálogo pra fora é válido, porque é preciso isso para levar a nossa literatura para outros lugares. Não devemos ficar ilhados aqui. Precisamos nos comunicar com outras literaturas.

Lisete - Nós precisamos conhecer é a nossa casa. Primeiro trabalhar a nossa casa, dentro. A partir desse momento é que nós podemos ir lá pra fora e abrir as nossas fronteiras. Mostrar que nós somos bons também.

Amálgama - Elio, os seus trabalhos sobre Torquato Neto e Mário Faustino foram publicados em jornais. Como você vê o espaço dado a esse tipo de trabalho nos jornais?

Lisete - Os jornais de grande circulação você sabe que têm que ter um retorno financeiro, e esse tipo de matéria não dá.

Elio - Mas o que é que falta para isso? Onde é que está o vazio? Por isso é que o vazio é grande. Naquela época, por exemplo, quando eu fui fazer as performances de poesia de rua, é porque não havia espaço, meu amigo! O poeta se sente sufocado, então precisa de um espaço, porque falta isso num jornal. O que se faz pra publicar hoje? Eles não publicam mais.

Amálgama - O que as agremiações e academias estão fazendo nesse sentido?

Lisete - A Academia de Letras do Vale do Longá tem um espaço no jornal O Dia, onde você tem espaço pra publicar. A UBE também tem um espaço...

Amálgama - Não existe um exagerado elitismo dentro dessas academias?

Elio - Toda academia é elitista.

Lisete - Até porque há limitações no número de cadeiras.

Elio - Essa questão no Brasil hoje é uma questão de amizade. É claro que todo grupo gira em torno de interesses, ou pelo menos de visões parecidas, estéticas e ideológicas, mesmo que surjam divergências dentro do grupo. Mas a academia parece algo mais fechado ainda. Há um padrão, você tem que ser “assim” pra ter uma vaga: “esse aqui não cabe aqui porque foge dos nossos padrões”. Quando é um movimento, há mais abertura. E tem a política no meio ainda, valores morais, econômicos, políticos, que sempre influenciam na academia.

terça-feira, 29 de julho de 2008

amálgama # 1 - O que esperar de Waly Salomão?


Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002

“Que continue fazendo letras de música, que é a praia dele. Se possível, aprenda a respeitar os outros.”
Cineas Santos
professor e livreiro


“Não se poderia esperar nenhuma postura além de provocativa e instigante. Ele é tudo e nada ao mesmo tempo. Ele não veio ao Piauí com outra cara, é assim em qualquer lugar. Mostrou-se verdadeiro, como ele realmente é, embora nem sempre agrade. Waly é isso.”
Rubervam Du Nascimento
poeta


“O poeta Waly Sailormoon esteve em Teresina para falar, na Universidade Estadual do Piauí, sobre o companheiro de artes e artimanhas Torquato Neto, no dia da vida (9) e da morte (10 de novembro) deste. Ora, Waly Sailormoon não é conferencista, não é acadêmico. Mas colocaram o polêmico rapaz no meio de uns universitários que queriam saber quando o Torquato nasceu, qual o seu primeiro poema, quando ele deu o primeiro beijo, com quem casou, qual foi o primeiro filme, como ele fez o Thiago, em que jornal escrevia, essas coisas que todos os estudantes gostam de perguntar. Coisinha básica. Negócio de cursinho. Escolinha do professor Raimundo. Isso que pode ser encontrado em qualquer manualzinho sobre o Torquato feito por qualquer professorzinho de qualquer cursinho de ponta de rua. E o Waly não está nessa. Está muito adiantado. Suas palavras são disparos intergalácticos. Estão escritas nas estrelas. E a meninada não entendeu nada de nada. E foi aquela algazarra bem estudantil mesmo. Muito barulho. Manifestação contra o Waly que, sem compreender o que se passava, continuava na sua, lançando informações avançadíssimas para o nosso tempo e para o nosso espaço. Waly, para quem tem uma noção pequena que seja da vida e da obra de Torquato, deu o seu recado. Desafinou o coro dos contentes. Incomodou os acomodados. Embora, os macunaímas assim não entendam. Os macunaímas acham, entretanto, que o Waly não é de nada. Enrolou, ganhou a sua grana e foi embora. O Torquato Neto dizia: é louvando quem bem merece que a gente vai deixando o que é ruim de lado. Louvemos Waly Sailormoon, na sua plenitude intelectual. O resto é conversa fiada.”
Kenard Kruel
diretor da Biblioteca Cromwell de Carvalho


“A vinda do poeta Waly Salomão a Teresina no final do ano passado foi uma repetição em tom maior do que aconteceu em 1982, por ocasião das homenagens feitas a Torquato Neto pela passagem dos 10 anos de seu falecimento. Convidado a fazer uma 'conferência' sobre a vida e a obra do escritor piauiense, o baiano tropicalista aprontou mais uma, provocando grande confusão na platéia que foi prestigiar o evento no Laboratório de Artes da Uespi.
Não me interessa de modo algum se Waly recebeu um certo cachê (dizem que foi R$ 2.000), mais passagens aéreas e hospedagem em hotel cinco estrelas, nem tampouco se o mesmo não tenha dito nada misturado com coisa alguma, nem se também após a tão propalada 'conferência', ele não quisesse responder a algumas perguntas de uma assistência, em sua maioria composta por universitários ávidos de novas informações, o certo é que a dita cuja acabou se transformando num vatapá tão comum ao gosto baiano de fazer e de pensar a cultura em seus diferentes matizes.
Parece que o tempo passou por Waly Salomão, mas ele não passou pelo tempo. A idéia de cultura como uma ação carnavalizadora, nos moldes como foi proposto pelo Tropicalismo musical, já não encontra mais eco nos tempos atuais. Creio que se alguém é chamado para dar uma conferência sobre determinado assunto em uma universidade, a pessoa de antemão sabe que se trata de um ambiente acadêmico, com todas as implicações que esta palavra tem como significado social, cultural e educacional.
Foi visível que Waly não preparou nada. E como ele havia assumido o compromisso com os organizadores locais, não teve outra alternativa a não ser tentar que a platéia comprasse gato por lebre. Eu fiquei horrorizado quando, em determinado momento da 'conferência', o velho poeta baiano se recusou a responder uma pergunta de alguém na platéia, num total desrespeito a quem saiu de casa para ouvi-lo falar sobre um tema supostamente tão conhecido por ele.
Achei foi bom. Com tanta gente em Teresina e em outros estados brasileiros com ensaios publicados em revistas, em jornais e até mesmo em livros, sem falar de conterrâneos que têm trabalhos defendidos em nível de pós-graduação em importantes universidades brasileiras sobre Torquato Neto, não faz sentido trazer uma pessoa como Waly para falar sobre as mesmas plumas e paetês, mais de três décadas depois do fim do Tropicalismo.
Já sei. Vão dizer que eu fiquei careta e que a minha postura é provinciana. Também pudera. Quem mandou eu mexer em casa de marimbondo de fogo?”
Chico Castro
poeta

segunda-feira, 28 de julho de 2008

amálgama #1 - Waly Salomão deu um troço


Publicado originalmente em amálgama #1, janeiro de 2002

1973. Era um ano marcante para a poesia marginal. Buscava-se sobreviver aos anos de chumbo do regime militar, ao suicídio de Torquato Neto e aos resquícios da aventura tropicalista. Waly Salomão, ainda Sailormoon, que já havia publicado seu livro de poemas Me segura qu’eu vou dar um troço, organizava a obra de Torquato sob o título Os últimos dias de Paupéria. Gramiro de Matos fazia suas experiências lingüísticas (“tupinglês”, “sertanês baianês”...) enquanto “Os morcegos estão comendo os mamões maduros”, e a revista Navilouca, coordenada por Torquato e Waly, anunciava que “Sailormoon está dando um troço” e aglutinava o desbunde de uma geração marcada pela contracultura, onde se tinha de Jorge Mautner (do lado de dentro) a Lou Reed (do lado de fora, com seu fenomenal disco “Transformer”, produzido por David Bowie). E muitos brasileiros também viviam no lado de fora, no exílio, longe dos nossos generais, perto de outras guerras. Os tempos eram esses.

1943. No meio de outra guerra (sempre há guerras), nasceu em Jequié, na Bahia, um menino que quis se chamar Waly Sailormoon, e além do troço, também foi “Gigolô de Bibelôs”, “Algaravias”, “Lábia”, “Tarifa de Embarque” e “Armarinho de Miudezas”.

2001/ 06 de novembro. E como a Universidade Estadual do Piauí – UESPI, Clube dos Diários e Teatro 4 de Setembro dedicam uma semana em homenagem a Torquato Neto, temos uma exposição de fotos, palestras e apresentações. Dagoberto Carvalho Jr., notório estudioso de Eça de Queirós, radicado no Recife, gastou uma manhã inteira fazendo comparações entre Torquato e Eça de Queirós, e falando, falando muito em Eça, não se sabendo bem qual tese defendia ou se buscava simplesmente não falar em Torquato. Mas esperar o que de quem fez questão de iniciar a tal “palestra” afirmando não ter o livro de Torquato? Pouco antes, perguntava para a coordenadora do curso de Letras/Português da UESPI, Dorinha, se a coleção completa de Eça de Queirós que ele havia doado à biblioteca estava sendo bem consultada pelos universitários. Enquanto isso, o senhor Heli, pai de Torquato Neto, presente na ocasião, deve ter percebido que a maior semelhança entre Eça de Queirós e Torquato Neto chama-se Dagoberto Carvalho Jr. Ou não?

1971/ 21 de dezembro. “josé alvaro editor quer lançar uma coleção chamada na corda bamba, com transas de ‘underground” etc. capinam transou esta muito bem e waly mais eu, se continuarmos andando e podendo, também publicaremos um livro logo de saída. o de waly é aquele mesmo, modificado por questões de custo. o meu, estou tentando organizar agora, chama-se do lado de dentro e a base é mesmo a geléia geral, mais coisas antigas, coisas dos sanatórios e muito pouca coisa escrita só para o livro, mas mesmo assim, alguma. vamos ver. essa nova transa, a de liquidarem assim sumariamente a flor, tem conotações negríssimas, e de repente, na transa geral daqui de dentro. foi-se a flor e agora? por enquanto fica só nisso mesmo. depois,conforme for. veremos. veremos.”
(Trecho de carta de Torquato Neto
para Hélio Oiticica, in Os Últimos
Dias de Paupéria, 2.ª edição)


2001 / 9 de novembro, 9h. Trouxeram Waly Salomão para falar na UESPI sobre os bastidores do Tropicalismo. Após rápido impasse sobre onde Waly Salomão iria palestrar, ficou decidido o Laboratório de Artes Torquato Neto. Bem propício. Tinha até a equipe técnica da peça Soy Loco por Ti, a ser apresentada após o falatório, martelando o palco atrás das cortinas. Esse “acompanhamento sonoro”, aliás, foi o único bastidor a que Waly fez referência. Entre suas “gentilezas”, não respondeu a nenhuma pergunta, “não respondi, nem vou responder”, bradava ao final, após o revoltado protesto do poeta Zé da Cruz. Observou que nosso centro artesanal é uma câmara de horrores numa cidade repleta de obras macaqueadas de Miami. Seu conselho para os jovens poetas: “saiam do Piauí”. O pesquisador Kenard Kruel até que tentou manifestar seu desejo de ter Waly como “embaixador” do Piauí junto à viúva de Torquato, Ana Maria, detentora dos direitos autorais de sua obra, mas foi publicamente repudiado de maneira cínica. “Aquela menina ali já me chamou de professor, você me chamou de embaixador, mas eu me nomeio é censor”, ironizava Waly, tomando-lhe a palavra. “Eu já mostrei teu livro pra platéia, fiz propaganda antes de você chegar aqui. É mentira, gente?” Alguém esperava algo mais?

2001 / 9 de novembro, 20h. Tivemos a Roda de Poesia e Tambores, organizada pelo contra-lei Elio Ferreira. Waly havia anunciado pela manhã que estaria presente, declamando poemas seus, de Torquato Neto e de Gregório de Matos. Mas não declamou coisa alguma. Aliás, desapareceu após o poeta Chico Castro subir ao palco para ler seu manifesto contra os “troços” que Waly havia dado pela manhã na UESPI. Um ponto básico foi Waly dizer que o Piauí só tinha Torquato Neto e Mário Faustino. De qualquer forma, é preciso respeitar a ignorância de quem não conhece Da Costa e Silva, Martins Napoleão e H. Dobal, para citar alguns e somente poetas. Como não havia mais Waly, sobraram vaias para Kenard Kruel, que inventou de falar nas disputas políticas entre Mão Santa e Hugo Napoleão para um público que gritava: “Poesia!”. O ator Francisco Pellé, que dirigia o Teatro 4 de Setembro, esclareceu ao público o quanto gastou-se para Waly vir soltar a lábia em Teresina. Um sujeito que tanto já viveu, da poesia marginal dos anos 70 até a “Lábia” de hoje, poderia ter mais a oferecer. No mínimo sair do senso comum e das provocações dispensáveis. Em entrevista aos Cadernos de Literatura Brasileira, João Cabral de Melo Neto declarou: “Eu acho que certas coisas precisam ser levadas a sério. (...) Em 1945, eu fui convidado a participar do Congresso Brasileiro de Poesia em São Paulo. Achei que precisava escrever uma tese, e assim fiz. Deve ter sido a única. As pessoas foram lá participar do encontro de mãos vazias.” Waly, é claro, não é nenhum acadêmico, mas isso não justifica suas mãos vazias. Se veio pra brincar era melhor ter vindo durante a Micarina. Paciência. Os tempos são esses.

domingo, 27 de julho de 2008

amálgama #1



Em janeiro de 2002 iniciamos a publicação de amálgama contando com pouca coisa além da cara e a coragem. Na época, tínhamos como editores: Adriano Lobão Aragão, Hermes Coelho, Jeferson Probo, Sérgio Batista e Washington Ramos.

Nas postagens subseqüentes, reproduziremos o conteúdo publicado em nossa primeira edição.

amálgama. s. f. e m. (lat. mediev. dos alquim., amalgama, do ar. ‘amal al-dja-ma’a, fusão, união carnal.) 1. Mistura de elementos heterogêneos: um estranho amálgama de gente. 2. Designação genérica de ligas metálicas de mercúrio com outro metal; mineral constituído por mercúrio e prata em misturas isomorfas. 3. Fig Mistura de coisas diversas; reunião de pessoas de diferentes classes e qualidades. Confusão. 4. Coexistência de dois significados no enunciado, cujos significantes são combinados de tal maneira que seu produto não é analisável em segmentos sucessivos. || Amálgama formal: no francês au/aux (o); inglês man/men; português a + a = à. || Amálgama semântico: olho-de-mocho, nome de uma planta que nada tem de comum com um olho ou com um mocho, ou o francês oeil-de-boeuf, nada a ver com olho ou boi. 5. Revista mensal preparada em Teresina por diferentes visões, vivências e literariedades. Designação genérica da produção crítica e literária divulgada pela revista. Os editores desta revista. 6. Não apenas os poemas, mas a poesia. 7. O ideal de que a arte existe para melhorar a qualidade de vida das pessoas. A certeza de que escrever é necessário. Necessário quando inevitável, como uma necessidade orgânica inevitável, como comer, dormir e viver. Ou desejar. 8. O desejo pela mistura de todas as linguagens. A linguagem da linguagem. A possibilidade de amalgamar sempre. 9. Todas as palavras. 10.

amalgamar. v. t. 1. Fazer amálgama de (mercúrio com outro metal, poesia com outros poemas). 2. Reunir, confundir, combinar, misturar (coisas diversas). 3. Editar, publicar estas palavras. 4. Colaborar com todas as outras palavras. 5.

sábado, 26 de julho de 2008

Estas flores de lascivo arabesco





poemas eróticos piauienses

Antologia organizada por Feliciano Bezerra e Wellington Soares.

Adriano Lobão Aragão, Chico Castro, Durvalino Couto, Elio Ferreira, Emerson Araújo, Keula Araújo, Laerte Magalhães, Marleide Lins, Nílson Ferreira, Salgado Maranhão


assim sutil recompõe no olhar teu traço que vislumbra
[Adriano Lobão Aragão]

assim sutil recompõe no olhar teu traço que vislumbra
umbra de teu corpo concreto sutil e preciso mar
onde teu ser está no traço que meu olhar desnuda

no gesto que impunha sem que devolva qualquer olhar
nua está na veste que te vista na umbra que te cubra
assim compõe tua figura no estar no vestir no andar

mesmo onde teu ser não está teu traço meu ver vislumbra
estará sempre presente e nua onde meu olhar olhar

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O ofício de escritor

por Wanderson Lima


Pede-me um amigo que eu fale sobre o escritor. Não sobre “um” escritor: sobre “o” escritor – seu ofício, seus misteres. A razão que me apresenta o amigo para tal pedido me parece justa: o mar da informação, que caracteriza a sociedade informática pós-moderna, perturbou a tradicional distinção entre produtores e consumidores, e a noção de escritor barateou-se.

Diários infantis (nem sempre escritos por crianças) e poemas adolescentes (nem sempre escritos por quem está na puberdade) são publicados em livro freqüentemente. Estive numa livraria de renome e vi, na estante de psicologia, um livro de Gugu Liberato ao lado de um de Jacques Lacan. Adriane Galisteu, que já admitiu publicamente não gostar de ler, também é escritora. Em geral, para se tornar escritor hoje basta... escrever – ou contratar um ghost writer. Toda uma dimensão ética deste ofício, de que falarei brevemente adiante, foi enfraquecida.

Na década de 60 (século XX), pensadores franceses como Michel Foucault e Roland Barthes questionaram duramente a entronização do autor como dono absoluto de sua obra. Para eles, dar ao texto um autor é supor, teleologicamente, que textos têm um significado último, que deve ser decifrado (e não construído) seguindo-se os passos desse agente de unidade do texto (o autor). A noção de autor, pensam eles, leva a supormos que os textos, especialmente os literários, são pouco mais que confissões e que a tarefa da crítica é desvendar, como diz ironicamente Barthes, a “mensagem do autor-Deus”. Foucault vai mais longe ao atribuir a noção de autor um peso eminentemente repressivo.

O alvo desses dois pensadores franceses era o individualismo burguês e o intencionalismo ainda vigente nas interpretações literárias, isto é, a concepção de que interpretar um texto é procurar descobrir qual a intenção do escritor quando disse isto ou aquilo. Não obstante esse ataque, o triunfo do individualismo narcísico é patente nos dias de hoje: a autoridade do escritor ruiu não pela denúncia de sua pretensão de ser a fonte única e absoluta do sentido, mas pela democratização do ofício. O número de escritores se multiplica numa proporção próxima à inconsciência do compromisso ético que a atividade acarreta. Hoje, muitos publicam, mas poucos assumem o papel social que cabe ao escritor.

Grosso modo, vejo três aspectos que abarcam esse “compromisso ético” do escritor: o profissionalismo, o compromisso social e o conhecimento da especialidade.
O profissionalismo, como é evidente, diz respeito a encarar o ofício de escrever como uma profissão. O escritor é um profissional, um trabalhador, ainda que grande parte não receba por isto. Produz bens culturais que, bem ou mal, direta ou indiretamente, influem na sociedade. Quem não encara o escritor como profissional desconhece a dimensão política do ofício. Nada que circula no mercado de bens simbólicos é neutro ou inocente, e isso é difícil fazer compreender àqueles que pensam que escrever é mera distração.

O escritor empenhado deve, também, ser um intelectual, e como tal tem de assumir um compromisso social mais pesado que o da maior parte das pessoas. Tomo aqui intelectual não como erudito, mas, seguindo a noção de Sartre, como aquele que desrespeita as fronteiras do ofício, rompe com particularismos e busca, na medida do possível, uma fala universalizante, disposto a se bater contra injustiças sociais. É verdade que hoje o intelectual tem bem menos importância social do que tivera até, pelo menos, a década de 1970. Houve a redemocratização do país, que dispensou o intelectual de ser porta-voz (muitas vezes arrogante) dos anseios do povo, que agora, bem ou mal, pode se expressar; houve também um aumento das fontes de aconselhamento, e a televisão, as revistas e a internet passaram a ocupar uma função pedagógica mais relevante que a dos intelectuais. Como Marilena Chauí pode concorrer com Hebe Camargo? Isto, porém, não desqualifica o valor da intervenção social do escritor, quando age como intelectual.

Também não se pode ser escritor sem conhecimento profundo da especialidade. Disse Ezra Pound: “O cientista não espera ter o seu valor reconhecido antes de haver descoberto alguma coisa. Começa por aprender o que já foi descoberto. Prossegue a partir desse ponto. Não se prevalece do fato de ser pessoalmente um indivíduo encantador. Não espera que seus amigos aplaudam os resultados de seu trabalho de principiante. Infelizmente, em poesia, os calouros não ficam confinados a uma sala de aula definida e identificável. Eles ‘circulam por aí’. Será de admirar que ‘o público permaneça indiferente à poesia’?”. Será que a crítica de Pound cai bem só aos poetas?

Acredito que sem se considerar estas três dimensões do que chamei precariamente de compromisso ético do escritor, dificilmente se exercerá tal mister com consciência e responsabilidade. Em seu livro “Sou Pai, e Agora?” Gugu Liberato diz, referindo-se ao nascimento do filho: “De repente surgiu uma atração nova na grade de programação da minha vida”. O livro dele, como de muitos escritores que rebentam por aí, não passa também de uma “atração nova”: modismo, passatempo, meio de acumulação de capital simbólico, inteiramente irresponsáveis.


WANDERSON LIMA é professor e escritor.

sábado, 12 de julho de 2008

Enquete 03 - Rolling Stones - Resultado


Enquete 03
Qual o melhor guitarrista dos Rolling Stones?

Mick Taylor - 15 (65%)
Brian Jones - 5 (21%)
Keith Richards - 2 (8%)
Ron Wood - 1 (4%)

- encerrada em 15/05/08

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Volte sempre

[Adriano Lobão Aragão]




Não sei há quanto tempo o senhor Inácio mantém sua mercearia naquela esquina. Parece vender sempre a mesma mercadoria desde o imemorável. Também não envelhece, ou já envelhecera demais antes, como precavido ao tempo. Não gostava de débitos e fiados.
Acompanha-o nesta tarde quente o Benedito, bebendo uma cervejinha no balcão. Ontem ou amanhã, a mesma cena. O mesmo modo lento de beber deixando a espuma nos bigodes. E é certa a hora de Aparício ter seu pedido negado. Quer abusar. Se nunca comparece com dinheiro, o que quer Aparício com fiados? Pague o devido primeiro.

Além de novo crédito, queria Aparício cigarros. Ou pelo menos um, só pra matar a vontade. Nem sorriso Inácio oferta. Se sabe que não tem condição de pagar, não deveria alimentar o vício, ponderava atrás do balcão. Prejudica a si e prejudica os outros. Há muito Inácio sente-se vacinado pela vida.

Benedito pede outra cerveja, depois entrega ao balcão seus trocados, o couro-de-rato que traz no bolso da bermuda, que não lhe dá margem ao abuso. Inácio agradece e coloca-se às ordens. Volte sempre.

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Junho 2002 / Junho 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Estas flores de lascivo arabesco



poemas eróticos piauienses

Antologia organizada por Feliciano Bezerra e Wellington Soares.

Adriano Lobão Aragão, Chico Castro, Durvalino Couto, Elio Ferreira, Emerson Araújo, Keula Araújo, Laerte Magalhães, Marleide Lins, Nílson Ferreira, Salgado Maranhão


a bailarina da
Ásia ondula

[Adriano Lobão Aragão]

a bailarina da
Ásia ondula
suavemente seus
gestos lascivos

envolta em sua sombra
sua chama dança
desde a ponta
dos dedos volta
sua dança devassa

a bailarina da
Ásia oscula
suavemente a ponta
dos dedos

desenvolta seu véu
sua chana ao léu
onde dança
aponta a ponta
de minha lança

envolta em sua umbra
suavemente se depura
a cona a anca
o lábio a vulva
avulta a dança de puta

a bailarina da
Ásia perdura
suavemente ondula
os seios

desenvolta em sua dança
sua cona se alcança
desde o lábio
lambendo a anca
ofertada em altar de santa

terça-feira, 1 de julho de 2008

Artesanato Sonoro e Visual - lendo Hilda Hilst


por Alfredo Werney

Alcoólicas - I
[Hilda Hilst]

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.



Essa mulher é demais. Uma poeta que precisamos todos conhecer. Fiz algumas observações sobre este poema que me impressionou bastante já na 1º leitura.

Perceba o cuidado sonoro com que ela diz as coisas:

metal/nela/livor/mórula (versos 1 e 2)- cria um efeito de algo líquido através da repetição do 'L'.

crua/dura/vida/ pedra /ferida/ metal/tripa (versos 1, 2 e 3)- cria o efeito de algo duro, quebrado pela som do 'D' e 'T' e do R.

Parece-me que os sons representam a alternância entre dureza (D, T, R) e moleza (L) inerente a qualquer vida. As imagens também são condizentes: pedra/ água; tinta, lágrima, bebida/ osso, unha, copos. Sólidos e líquidos que estão em constante tensão.

Agora vamos ver as palavras de afinidades sonoras:

lavo-te/ lavo-me/ livor; osso/ rosso; mítica/ mórula; corpo/ copo/ corvos; vida/ viga/ víbora; rua/rubra/ crua

Impressionante é que isso tudo é espontâneo no poema, pois não me parece algo artificioso.

O modo como o poema é constituído sintaticamente é algo também importante. O texto não respeita a sintaxe convencional. Possui inversões, paradas ambíguas, palavras desconexas sem uma função clara, dentre outros recursos.

É crua a vida /A vida é crua (inversão)

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me´

Vejo esse poema como um verdadeiro artesanato sonoro e visual. A textura é como a de imbricados fios de uma renda. Estes efeitos sintáticos e sonoros me impressionam e fico seduzido a afirmar (não sei se concordam) que o que o poema nos transmite – em última análise – é a sensação de embriaguez. As imagens nos parecem muitas vezes como coisas que são jogadas no chão.

-Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
O ritmo do texto realça a idéia de embriaguez. Parece mesmo que a vida nasce no líquido e termina nele. A vida é mesmo dura, uma tripa de metal, e a forma que encontramos de suportá-la é também através do líquido.