quinta-feira, 17 de julho de 2008

O ofício de escritor

por Wanderson Lima


Pede-me um amigo que eu fale sobre o escritor. Não sobre “um” escritor: sobre “o” escritor – seu ofício, seus misteres. A razão que me apresenta o amigo para tal pedido me parece justa: o mar da informação, que caracteriza a sociedade informática pós-moderna, perturbou a tradicional distinção entre produtores e consumidores, e a noção de escritor barateou-se.

Diários infantis (nem sempre escritos por crianças) e poemas adolescentes (nem sempre escritos por quem está na puberdade) são publicados em livro freqüentemente. Estive numa livraria de renome e vi, na estante de psicologia, um livro de Gugu Liberato ao lado de um de Jacques Lacan. Adriane Galisteu, que já admitiu publicamente não gostar de ler, também é escritora. Em geral, para se tornar escritor hoje basta... escrever – ou contratar um ghost writer. Toda uma dimensão ética deste ofício, de que falarei brevemente adiante, foi enfraquecida.

Na década de 60 (século XX), pensadores franceses como Michel Foucault e Roland Barthes questionaram duramente a entronização do autor como dono absoluto de sua obra. Para eles, dar ao texto um autor é supor, teleologicamente, que textos têm um significado último, que deve ser decifrado (e não construído) seguindo-se os passos desse agente de unidade do texto (o autor). A noção de autor, pensam eles, leva a supormos que os textos, especialmente os literários, são pouco mais que confissões e que a tarefa da crítica é desvendar, como diz ironicamente Barthes, a “mensagem do autor-Deus”. Foucault vai mais longe ao atribuir a noção de autor um peso eminentemente repressivo.

O alvo desses dois pensadores franceses era o individualismo burguês e o intencionalismo ainda vigente nas interpretações literárias, isto é, a concepção de que interpretar um texto é procurar descobrir qual a intenção do escritor quando disse isto ou aquilo. Não obstante esse ataque, o triunfo do individualismo narcísico é patente nos dias de hoje: a autoridade do escritor ruiu não pela denúncia de sua pretensão de ser a fonte única e absoluta do sentido, mas pela democratização do ofício. O número de escritores se multiplica numa proporção próxima à inconsciência do compromisso ético que a atividade acarreta. Hoje, muitos publicam, mas poucos assumem o papel social que cabe ao escritor.

Grosso modo, vejo três aspectos que abarcam esse “compromisso ético” do escritor: o profissionalismo, o compromisso social e o conhecimento da especialidade.
O profissionalismo, como é evidente, diz respeito a encarar o ofício de escrever como uma profissão. O escritor é um profissional, um trabalhador, ainda que grande parte não receba por isto. Produz bens culturais que, bem ou mal, direta ou indiretamente, influem na sociedade. Quem não encara o escritor como profissional desconhece a dimensão política do ofício. Nada que circula no mercado de bens simbólicos é neutro ou inocente, e isso é difícil fazer compreender àqueles que pensam que escrever é mera distração.

O escritor empenhado deve, também, ser um intelectual, e como tal tem de assumir um compromisso social mais pesado que o da maior parte das pessoas. Tomo aqui intelectual não como erudito, mas, seguindo a noção de Sartre, como aquele que desrespeita as fronteiras do ofício, rompe com particularismos e busca, na medida do possível, uma fala universalizante, disposto a se bater contra injustiças sociais. É verdade que hoje o intelectual tem bem menos importância social do que tivera até, pelo menos, a década de 1970. Houve a redemocratização do país, que dispensou o intelectual de ser porta-voz (muitas vezes arrogante) dos anseios do povo, que agora, bem ou mal, pode se expressar; houve também um aumento das fontes de aconselhamento, e a televisão, as revistas e a internet passaram a ocupar uma função pedagógica mais relevante que a dos intelectuais. Como Marilena Chauí pode concorrer com Hebe Camargo? Isto, porém, não desqualifica o valor da intervenção social do escritor, quando age como intelectual.

Também não se pode ser escritor sem conhecimento profundo da especialidade. Disse Ezra Pound: “O cientista não espera ter o seu valor reconhecido antes de haver descoberto alguma coisa. Começa por aprender o que já foi descoberto. Prossegue a partir desse ponto. Não se prevalece do fato de ser pessoalmente um indivíduo encantador. Não espera que seus amigos aplaudam os resultados de seu trabalho de principiante. Infelizmente, em poesia, os calouros não ficam confinados a uma sala de aula definida e identificável. Eles ‘circulam por aí’. Será de admirar que ‘o público permaneça indiferente à poesia’?”. Será que a crítica de Pound cai bem só aos poetas?

Acredito que sem se considerar estas três dimensões do que chamei precariamente de compromisso ético do escritor, dificilmente se exercerá tal mister com consciência e responsabilidade. Em seu livro “Sou Pai, e Agora?” Gugu Liberato diz, referindo-se ao nascimento do filho: “De repente surgiu uma atração nova na grade de programação da minha vida”. O livro dele, como de muitos escritores que rebentam por aí, não passa também de uma “atração nova”: modismo, passatempo, meio de acumulação de capital simbólico, inteiramente irresponsáveis.


WANDERSON LIMA é professor e escritor.

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