terça-feira, 1 de julho de 2008

Artesanato Sonoro e Visual - lendo Hilda Hilst


por Alfredo Werney

Alcoólicas - I
[Hilda Hilst]

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.



Essa mulher é demais. Uma poeta que precisamos todos conhecer. Fiz algumas observações sobre este poema que me impressionou bastante já na 1º leitura.

Perceba o cuidado sonoro com que ela diz as coisas:

metal/nela/livor/mórula (versos 1 e 2)- cria um efeito de algo líquido através da repetição do 'L'.

crua/dura/vida/ pedra /ferida/ metal/tripa (versos 1, 2 e 3)- cria o efeito de algo duro, quebrado pela som do 'D' e 'T' e do R.

Parece-me que os sons representam a alternância entre dureza (D, T, R) e moleza (L) inerente a qualquer vida. As imagens também são condizentes: pedra/ água; tinta, lágrima, bebida/ osso, unha, copos. Sólidos e líquidos que estão em constante tensão.

Agora vamos ver as palavras de afinidades sonoras:

lavo-te/ lavo-me/ livor; osso/ rosso; mítica/ mórula; corpo/ copo/ corvos; vida/ viga/ víbora; rua/rubra/ crua

Impressionante é que isso tudo é espontâneo no poema, pois não me parece algo artificioso.

O modo como o poema é constituído sintaticamente é algo também importante. O texto não respeita a sintaxe convencional. Possui inversões, paradas ambíguas, palavras desconexas sem uma função clara, dentre outros recursos.

É crua a vida /A vida é crua (inversão)

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me´

Vejo esse poema como um verdadeiro artesanato sonoro e visual. A textura é como a de imbricados fios de uma renda. Estes efeitos sintáticos e sonoros me impressionam e fico seduzido a afirmar (não sei se concordam) que o que o poema nos transmite – em última análise – é a sensação de embriaguez. As imagens nos parecem muitas vezes como coisas que são jogadas no chão.

-Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
O ritmo do texto realça a idéia de embriaguez. Parece mesmo que a vida nasce no líquido e termina nele. A vida é mesmo dura, uma tripa de metal, e a forma que encontramos de suportá-la é também através do líquido.

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