quinta-feira, 28 de abril de 2011

Manuel Bandeira & Vinicius de Moraes


A vigília de Hero
[Manuel Bandeira]

Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida. E no entanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie...

Não sei por que te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me.

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer... inquieta...
Ah, como poderei contentá-la, jamais!
Quisera calmá-la na música... Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite préssaga!
Sente o inefável! Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa... Ah, se eu ouvisse a tua voz!
 


[Estrela da Vida Inteira - poesias reunidas]




Ausência
[Vinícius de Moraes]

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
 


[Antologia poética]

terça-feira, 26 de abril de 2011

O leitor na multidão

[Adriano Lobão Aragão]

 

Em Literatura e Sociedade, Antonio Candido faz referência a um episódio ocorrido em 1837, a partir de depoimento do célebre compositor erudito Liszt citado no livro de Stanley Edgar Hyman, The Armed Vision, 1948. Conta-se que “Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de aplausos calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem.” O curioso acontecimento lembrado por Candido para discutir a relação entre a apreciação pública de uma obra de arte e o condicionamento imposto pelo meio. O aplauso e a vaia, para além do mérito artístico em questão, costumam ser bastante contagiosos, por isso é sempre necessário refletirmos sobre nossas próprias convicções diante da arte. Da literatura, por exemplo. Até que ponto somos capazes de reconhecer um bom poema, mesmo que destoante das preferências estéticas e temáticas eleitas pelos leitores com os quais convivemos? Ou quem sabe se nossa capacidade de elencar o valor artístico de um poema esteja mais condicionada pelo que já lemos e reconhecemos anteriormente do que qualquer coisa inerente a nós mesmos? Por mais individual que seja o ato de ler, estamos sempre mergulhados em algum tipo de interação social.

Em relação ao “grande público”, é notória a ausência de um direcionamento crítico. Sobretudo quando distanciado de determinadas tradições culturais que, independente de provincianismos e rusticidades, costumam filtrar através de sucessivas gerações diversos elementos estéticos significativos. Mas em geral, o que se observa são lamentáveis exemplos da inexistência de um discernimento público do valor artístico que bastante se assemelha ao seleto grupo de eruditos que 1837 não soube diferir o gênio de Beethoven da mediocridade de Pixis. No caso da literatura, não é de hoje se faz necessária a figura do que podemos chamar, como o crítico literário Harold Bloom, de “leitor forte”. Aliás, a existência atuante de “leitores fortes” é imprescindível para o balizamento de opiniões. E voltando à música erudita, creio que tão importante quanto levantar-se para aplaudir Pixis (considerando que, hipoteticamente, ele tivesse composto uma boa obra) é ter a devida coragem para levantar a voz acima do convencionalismo institucionalizado e bradar “Isso é Beethoven, mas não é genial!” (novamente, digo isso numa situação hipotética, onde, ao invés de ter simplesmente os nomes trocados no programa do concerto, Beethoven tivesse escrito uma peça medíocre e Pixis uma obra relevante).

Embora o tempo seja popularmente apontado como o crítico mais ferrenho e honesto, sem a atuação de bons leitores, independente se críticos literários ou não, não há tempo que resolva. Um autor de difícil apreensão, como O. G. Rego de Carvalho, por exemplo, poderia facilmente ser relegado ao esquecimento ou à incompreensão generalizada se não tivesse o mérito de conquistar bons leitores. Entretanto, seu apreço público pouco deve à leitura e compreensão de sua obra-prima, Rio Subterrâneo. Notadamente, a adoção de suas obras periféricas, Ulisses entre o Amor e a Morte e Somos Todos Inocentes, em escolas e vestibulares, é bem mais recorrente. De qualquer forma, é certo que aproximar alunos e vestibulandos do universo literário de O.G. através dessas obras seja mais viável que o complexo mergulho em sua obra mais caudalosa. Os poucos que desenvolveram relevantes trabalhos críticos sobre Rio Subterrâneo sabem o tamanho da dificuldade da tarefa empreendida. E merecem meu aplauso por suas tentativas. Mas ainda é pouco para uma obra tão significativa. Sobretudo para quando surgir (se é que um dia surgirá...) um outro “rio subterrâneo”, estejamos preparados para reconhecê-lo e dar-lhe o devido apreço, e não confundir um rio caudaloso com as águas rasas de algum córrego temporário.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

As imagens transbordam

poema de 
Sophia de Mello Breyner Andresen

um filme de
Adriano Lobão Aragão
Wanderson Lima

sexta-feira, 15 de abril de 2011

dEsEnrEdoS 9




editorial
Contrariando a ladainha de alguns pessimistas, a crítica literária, no Brasil, apresenta uma quantia considerável de nomes de qualidade, gente com grande capacidade para analisar textos ou obras inteiras com grande sagacidade e erudição, observando tanto a poética compositiva do discurso literário quanto a ligação da literatura com outras formas de discurso. Aqui mesmo, nesta revista, não poucos já desfilaram análises e teorizações de reconhecido valor por pesquisadores, escritores e por essa imensa variedade de gostos e sensibilidades que planificamos sob a rubrica de “leitor comum”. No entanto, se pensamos em críticos que têm de fato uma contribuição singular a dar, enriquecendo desde os trópicos até a cultura ocidental, a conta fica macérrima. E dentro dela deve constar o nome do paraense Benedito Nunes, falecido em 27 deste fevereiro. No dizer de Antonio Candido, “Benedito se tornou um grande crítico literário, sendo, ao mesmo tempo, filósofo. É raríssimo. Quer dizer, o filósofo traz para a literatura o nível de reflexão e de abstração que os críticos geralmente não trazem; ele leva para a filosofia um sentimento estético e um senso de beleza que os pensadores nem sempre têm”. Num depoimento publicado na Estudos Avançados (SP, 2005), Benedito, convergindo com as palavras de Candido, falou de si: “O meu interesse intelectual não nasce nem acaba no campo da crítica literária”. De fato, não nascia nem acabava, mas sempre tinha como eixo central a literatura. Devemos a Benedito tanto estudos analíticos de grande densidade sobre autores como Clarice Lispector, Oswald de Andrade e João Cabral, como trabalhos de envergadura mais teórica, em que ele trava um diálogo nada epigônico com a fenomenologia, o existencialismo e a hermenêutica. A cultura brasileira sentirá a falta de Benedito, cuja capacidade de articular idéias, transitando da filosofia para a poesia, ofereceu sugestões para mais de um crítico de relevo e nos ajudou a compreender mais de um autor. O que seria – para ficarmos num só exemplo – de Clarice Lispector, ou melhor, em que patamar ainda estaria a nossa compreensão da obra de Clarice Lispector sem os estudos rigorosos e apaixonados de Benedito Nunes? Que, na variedade de textos que aqui se publica neste 9º número de dEsEnrEdoS, brilhe, senão a erudição e a sagacidade de Benedito Nunes, por difíceis que são de serem atingidas, ao menos seu exemplo de seriedade e amor ao ofício.
Os Editores


contato

lobaoaragao@gmail.com
wandersontorres@hotmail.com







revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9
teresina - piauí - abril maio junho de 2011

quinta-feira, 14 de abril de 2011

“Minha perspectiva é aquela do Romantismo, que absorve o gnosticismo – é não retornar ao passado, mas criar o futuro.” Claudio Willer


Entrevista com Claudio Willer
por Adriano Lobão Aragão



 
Poeta, ensaísta e tradutor, Claudio Willer nasceu em São Paulo, 1940. Sua obra apresenta forte vínculo com a criação literária desenvolvida pelo surrealismo e pela geração beat. Tradutor de Lautréamont e Ginsberg, dentre outros. Como crítico e ensaísta, colaborou em suplementos e publicações culturais: Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Isto É, Leia, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Cult, Correio Braziliense, etc; e na imprensa alternativa: Versus, Singular e Plural e outros. Co-editor da revista eletrônica Agulha, também edita o blog http://claudiowiller.wordpress.com/. Doutor em Letras pela USP, com tese defendida em 2008 com o título “Um Obscuro Encanto: Gnose, Gnosticismo e Poesia Moderna”, lançada em livro pela editora Civilização Brasileira. A seguir, apresentamos significativo trecho de entrevista concedida pelo autor sobre o místico labirinto poético ao qual dedicou sua tese. A entrevista completa será publicada na 9ª edição da revista eletrônica dEsEnrEdoS (www.desenredos.com.br).   


 
Adriano Lobão Aragão - O capítulo 1 de seu livro Um Obscuro Encanto tem como título "Gnosticismo: a 'religião da literatura'?". Como se desenvolveu o seu interesse por esses dois aspectos, a tradição esotérica e a tradição literária?

Claudio Willer - Acho que, quanto à  ‘tradição literária’, interesse vem desde sempre. Com uns 20 anos de idade, despertou-se em mim uma vocação de poeta – certamente induzida por leituras e por amizades com outros poetas. Afinidade com surrealismo e simpatia pela geração beat vêm daquele tempo. Quanto ao gnosticismo, essa religião ao contrário, invertendo os grandes monoteísmos patriarcais, há tempos me despertava a curiosidade. E já havia visto autores serem associados ao gnosticismo, por exemplo Artaud por Susan Sontag. Recentemente, achei uma resenha minha de 1987, na Isto É, sobre a coletânea de textos em prosa de Hilda Hilst, Com os meus olhos de cão.  Para minha surpresa (havia-me esquecido) desde então já associava Hilda Hilst ao gnosticismo.  Lautréamont, também, ao escrever sobre ele em 1997 (no prefácio da edição Iluminuras da minha tradução), dizia que ele representava Deus como demiurgo gnóstico em Os cantos de Maldoror.  Minha tese de doutorado, pretendia fazê-la sobre relação de poesia com ocultismo e esoterismo em geral. Quando percebi que o resultado seria de uma extensão inviável, concentrei-me em gnosticismo, que vale como capítulo inicial do esoterismo e ocultismo na tradição ocidental. Pelo resultado – a tese de doutorado e o livro – vejo que foi uma boa escolha.

Adriano - É notório o interesse por temas místicos, incluindo o gnosticismo, caracterizado pelo lançamento de diversos títulos a cada ano. Sabe-se também que bem poucos encaram esses temas com o devido rigor e lucidez que encontramos em Um Obscuro Encanto, por exemplo. Nesse contexto, como tem sido a recepção de seu livro?

Claudio - Não é livro talhado para ter a recepção bombástica de um Dan Brown, por exemplo – a propósito das utilizações mais oportunistas, digamos, do gnosticismo. Além disso, é obra algo pesada – com a primeira parte sobre gnosticismo e história das religiões, a segunda sobre poesia. Pede leitores especiais, exige algo do leitor. Por isso, recepção tem sido lenta – marcada por elogios, é claro – mas firme, constante. A exemplo de outros livros meus que continuam circulando e tendo reedições, permanecerá. Observaria que pode ter frustrado duas correntes ideologicamente orientadas. Uma, a  dos tradicionalistas ou integristas, que execram gnosticismo, por razões óbvias. Outra, as correntes progressistas, que argumentam ser o gnosticismo um cristianismo primitivo – assim atribuindo anterioridade a esse cristianismo mais progressista, legitimando-o. Em termos mais claros: Um Obscuro Encanto não deve satisfazer nem à Opus Dei, nem à Teologia da Libertação...

Adriano - E a quem Um Obscuro Encanto deve satisfazer (ou melhor, encantar)?

Claudio - Ah, essa misteriosa questão, de quem são ou serão os leitores... Se alcançar os leitores de outros dos meus livros – milhares, vários milhares de Geração Beat e das traduções de Ginsberg e Lautréamont, por enquanto meus livros de maior circulação – já estará de bom tamanho. E mais leitores com o mesmo perfil – um perfil bem diversificado. Felizmente, inquietação, sensibilidade poética e vontade de saber mais alastram-se.

[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 12 de abril de 2011]


terça-feira, 12 de abril de 2011

Itaú Cultural e Museu do Piauí convidam

 

 
O programa Rumos Artes Visuais, edição 2011-2013 do Itaú Cultural lança edital de seleção e premiação voltado para jovens artistas e realiza Oficina teórica “Portfólio de Artista” no Museu do Piauí. Entrada franca.

Data: quinta, 14 abril
Horário: 9h às 12h
Local: Museu Piauí - Praça Marechal Deodoro - Centro - Teresina - PI
Atividade gratuita: é necessário inscrição antecipada através do e-mail artesvisuais.fundac@gmail.com
Vagas: 50 pessoas

Veja abaixo a proposta da Oficina, como se inscrever, perfil da palestrante e informações sobre o edital do programa Rumos Artes Visuais., edição 2011-2013.

Sobre a Oficina
A atividade é voltada para a promoção, discussão e formação ampliada acerca da experiência artística contemporânea. Seu objetivo maior é contribuir na organização, sistematização e apresentação de trabalhos de arte assim como promover uma reflexão acerca do que seja um portfólio e suas diferentes formas de elaboração. A oficina visa alcançar tal meta oferecendo exemplos e análise em grupo de portfólios e plataformas distintas de apresentação do trabalho de arte existentes na cena contemporânea. A atividade faz parte da programação de divulgação do edital Rumos Artes Visuais, edição 2011-2013, do Itaú Cultural que está percorrendo 19 capitais do país realizando oficinas ou palestras com especialistas na área.

a palestrante
Janaina Melo é historiadora com atuação na área crítica de arte, curadoria, pesquisa e ensino de história da arte. Graduada em História (FAFICH/UFMG) e pós-graduada em Arte Contemporânea (Escola Guignard, UEMG). Colaboradora da Editora C/Arte na organização de livros da coleção Circuito Atelier. Foi coordenadora do Departamento de Artes Visuais do Museu de Arte da Pampulha, entre 2005 e 2007. Assistente curatorial do Programa Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural (2008-2009). Atualmente é Coordenadora de Arte e Educação do Instituto Cultural Inhotim, Brumadinho (MG), curadora do Programa de residência artística JA CA e do Projeto Atelier Aberto – Escola Guignard UEMG. Possui textos publicados nos livros "Através: Inhotim Centro de Arte Contemporânea". [PEDROSA, Adriano, MOURA, Rodrigo (org.)]. "Belo Horizonte: Instituto Cultural Inhotim, 2008" e "Projeto Bolsa Pampulha – Edição 2005-2006", Belo Horizonte, 2008.

Inscrições para a Oficina: através do e-mail artesvisuais.fundac@gmail.com . Para facilitar a nossa organização, por favor, mencione no assunto do e-mail "inscrição oficina" e no corpo do e-mail o seu nome completo, telefone e local de trabalho ou nome da faculdade e curso.

Sobre o edital do programa Rumos Artes Visuais, edição 2011-2013
A proposta do programa Rumos é incentivar artista emergentes, atuantes no Brasil, tomando como critério de seleção a qualidade das obras. Serão selecionados 45 portfólios. A intenção do programa é contribuir com um olhar artístico mais abrangente, sensível à diversidade de linguagens que integram o panorama artístico do país. Os selecionados receberão bolsas, oportunidades de aprimoramento profissional por meio de ações de formação e terão seus trabalhos em exposições organizadas pelo Itaú Cultural, entre outras situações de apoio e visibilidade dos trabalhos selecionados.
Saiba mais sobre as caractrísticas do edital, regulamento, detalhes de como se inscrever e enviar materiais no site www.itaucultural.org.br/rumos .
Dúvidas sobre o edital: rumosartesvisuais@itaucultural.org.br .
Visite também o blog http://rumositaucultural.wordpress.com/ e acompanhe as atividades da caravana Rumos por todo o país, entrevistas e novidades do Rumos Artes Visuais e também editais de outras áreas de expressão: Rumos Jornalismo Cultural e Rumos Educação, Cultura e Arte.
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contato: itaucultural@comunicacaodirigida.com.br | tel 11 3881-1710 ou 11 8405-4664

CONTRA A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA DO REALENGO

Fernando Botero - Dores da Colômbia




(Alfredo Werney)


 


Recentemente li, em meio a tantas leituras científicas sem nenhuma excitação, um interessante artigo de Inácio Araújo sobre o filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg. Neste pequeno texto, presente na coleção de livros “O cinema de Boca em Boca”, o crítico de cinema dizia temer que a tragédia vivida por milhares de judeus no período do Nazismo se transformasse um dia em telenovelas banais.

Trata-se de uma discussão interminável: até onde vão os limites da representação na arte? Um artista tem o direito de poetizar e transformar em objeto estético as desgraças alheias? Sobre esse assunto, minha opinião é peremptória: sou contra transformar em arte as tragédias coletivas e as dores profundas de uma determinada sociedade. Refiro-me aos artistas que querem tão-somente se promover na mídia ou despertar sensações fáceis e não àqueles que realmente se propõe a discutir, de maneira séria e sem sensacionalismos, a experiência da dor e suas representações na arte. Importante dizer que não quero afirmar, com tais argumentos, que a arte deva estar sempre atrelada à moral, mas acho uma atitude invasiva e perversa do artista representar uma tragédia só para ter audiência, como muitos fazem. Em relação aos jornalistas, não há mais nada para se discutir: a maioria deles se deleita ao transformar a dor alheia em espetáculo circense de quinta categoria.

Ao discutir essas questões relativas à representação da crueldade na arte, estou me referindo ao lamentoso massacre acontecido no dia 7 de abril na Escola Tasso da Silveira, no bairro Realengo (zona oeste do Rio De Janeiro). Transtornado com o que vi nos meios de comunicação – ainda mais pelo fato de ser professor de escola pública e conviver diariamente com crianças e adolescentes da mesma idade dos que foram baleados – procurei ler muitos textos sobre os assassinatos. Impressionou-me o fato de ver muitos “artistas” criarem poemas, canções (recebi uma recentemente em meu correio eletrônico) e vídeo-arte para expressarem suas dores. Não vou ser tão cético a ponto de dizer que esses “artistas de momento” não se comoveram com a tragédia no Realengo. Contudo, a verdade é que a maioria deles quer apenas ter um instante de atenção na mídia eletrônica para expor suas criações. Uma atitude de perversão, a meu ver.

Mário Quintana, em um de seus poemas curtos e precisos, comentou que por “mais que sejam grandes os problemas da China, nossos calos doem muito mais”. Realmente, tanto nós como esses “artistas de momento” não estamos sentindo absolutamente nada se imaginarmos o trauma que pais, amigos, familiares e professores daquela escola estão vivenciando. É muito fácil compor uma canção ou poema na tranqüilidade de nossas camas, com um saco de batatas fritas e um enorme copo de refrigerante do lado, se nós pensarmos no impacto psíquico experimentado por aquelas pessoas da escola do Rio.

A atitude mais nobre – para quem está vendo de longe um momento da vida tão difícil como esse – é, simplesmente, o respeito e o silêncio. Digo silêncio, porque não se trata de um crime no qual a sociedade possa fazer justiça: não foi por questões relativas ao tráfico de drogas nem pelas condições sócio-econômicas. Ademais, o criminoso cometeu suicídio. Porém, muitas pessoas adoram estar na TV e o fazem a qualquer custo. Lembro-me do caso da menina Isabela, que foi atirada pelo pai do sexto andar de um prédio de São Paulo em março de 2008. Houve indivíduos que saíram de ônibus das profundezas do Nordeste para assistir o “espetáculo” ao vivo em São Paulo. Alguns se vestiam de fantasias de anjo e de santos da Igreja Católica. Além disso, colocavam cartazes e apetrechos na mão para terem um segundo de audiência na tela.

Como sabemos, nunca havia acontecido em nosso país um crime de tal natureza. Não me resta dúvida de que Freud explicaria bem melhor do que Marx o assassinato da Escola Tasso da Silveira. As motivações estão mais ligadas aos distúrbios psíquicos do jovem assassino do que propriamente às contingências econômicas e sociais em que vivemos. E o que fazer desse modo? Seria melhor dizer o que não fazer diante de tamanha catástrofe: transformar tudo isso em poemas banais, em canções piegas e em vídeos espetaculosos. Essa atitude soa mais como desacato e invasão do que como um momento de condolência.

Há poucas semanas estive em Brasília e fui ver (no espaço Caixa Cultural) a exposição “Dores da Colômbia”, do pintor Fernando Botero. Eram cenas fortes de massacre coletivo, de narcotráfico, seqüestros e assassinatos no país sul-americano. Em nenhum momento, porém, senti que havia ali um desejo de auto-promoção do artista. Não existia pieguice, tristeza gratuita, sensacionalismo. Pode parecer uma contradição com o que já foi dito, mas o pintor colombiano me convenceu que ainda é possível mostrar algo trágico de uma nação sem a perversão e o desrespeito.

Houve algo que reforçou mais ainda a minha idéia de que nem todo artista que representa a desgraça do seu país o faz com interesse de se promover na mídia e nos negócios. Botero, ao receber propostas para vender suas telas e desenhos, recusou e fez uma doação ao Museu Nacional da Colômbia. Além disso, pronunciou as belíssimas palavras: “Não vou transformar em lucro as desgraças do meu país”. Reconstruindo as palavras do pintor latino: "Não vamos transformar em banalidade (revestida de arte) a tragédia do Realengo".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

o banquete

[adriano lobão aragão]


as sete almas desta família
aqui se encontram

se louvam os antigos ou guardam seus mistérios
            aqui encontram seus gestos
recolhidos em olhar distante

aqui se reúnem
lado a lado
irmanados e entregues à digestão do silêncio





[in as cinzas as palavras, 2009]

sábado, 2 de abril de 2011

A idade da pedra jovem



A idade da pedra jovem
Adriano Lobão Aragão


No dia 13 de novembro de 1985, dois integrantes do grupo Titãs, Tony Bellotto e Arnaldo Antunes, foram presos pela polícia. Tony foi liberado no dia seguinte, após pagar fiança, mas Arnaldo passou 26 dias de choro e reza na prisão, enquadrado como traficante e, depois, condenado a três anos de reclusão (por ter passado heroína para o guitarrista); Bellotto foi sentenciado em 6 meses, por porte de droga, pois a quantidade que possuía o classificava como usuário. Vários shows foram desmarcados por causa da repercussão negativa. Fragilizados, a banda quase encerra suas atividades. De qualquer forma, sem antecedentes criminais e com trabalho declarado, ambos cumpriram suas penas em liberdade. Em janeiro de 1986, o Jornal do Brasil publicaria um artigo de Arnaldo Antunes, no qual ele agradecia a todos que o apoiaram e não viram nesse fato uma transgressão “clicherizada” do mito do roqueiro marginal. Decididamente, não havia sido um bom final de ano para a banda.
Oriundos de diversas bandas efêmeras e projetos executados por alunos do Colégio Equipe e alguns amigos, os Titãs do Iê-Iê, como inicialmente se intitulavam, surgiram de uma absolutamente informal e caótica reunião durante um evento estudantil intitulado A Idade da Pedra Jovem. Curiosamente, alguns anos depois, a referência a um estado primitivo da humanidade seria um importante ingrediente para o amadurecimento artístico que a banda desenvolveu em seu terceiro LP, Cabeça Dinossauro, lançado em 1986.
Introduzidos no mercado fonográfico em 1984, através do hit Sonífera Ilha, faixa de abertura de Titãs, seu primeiro LP, garantiram, no ano seguinte, com Televisão e Insensível, a continuidade de seu sucesso nas rádios e as inevitáveis participações em programas de TV.  Popularizava-se uma imagem de roqueiros bregas, extravagantes, comerciais e pouco relevantes para o público que curtia um rock’n’roll ‘mais autêntico’. “Fomos taxados de brega, de se expor. Mas depois, quase todos que tinham essa postura começaram a fazer TV também. Então, acho que demos uma adiantada no tempo. Era genial estar ao lado do Jerry Adriani, sem preconceito”, avaliou Branco Mello, em entrevista concedida à revista Bizz. Arnaldo completa: “Essa utopia levou a gente a fazer muita cagada. Por exemplo, nos apresentamos toda semana no programa Barros Alencar achando que aquilo era legal. Em nível de construção de imagem foi muito ingênuo, mas em nível de trajetória, isso teve um valor. Queríamos ser tratados como lixo”.
Apesar da produção de Lulu Santos e de Insensível e Televisão tocarem bem nas rádios, seu segundo disco não conseguira a vendagem que banda e gravadora esperavam. A salada de estilos que a banda cultivou terminou gerando um produto ainda mais híbrido que seu primeiro disco, não se revelando muito palatável para o grande público, que se contentou com os dois hits radiofônicos. A prisão de Arnaldo e Tony, aliada à clara vontade de buscar uma unidade sonora mais pesada, influenciou na mudança estética que a banda tomaria em Cabeça Dinossauro, após a sonoridade confusa dos dois álbuns anteriores. “O espírito do disco era todo relacionado com o fato de Arnaldo ter sido preso, não dá para separar as coisas”, comentou na época o baterista Charles Gavin, que após visitar o amigo na prisão readaptou a letra de Homem Palestino, composição sua quando ainda estava na banda Ira!, e a transformou em Estado Violência [“...Homem em silêncio / homem na prisão / homem no escuro / futuro da nação...”].
Gravado e mixado praticamente em um único mês, Cabeça Dinossauro foi temperado com reggae, funk, punk, hardcore, pop, pastiche e o que mais aparecesse na mente de seus oito integrantes. Não apenas as letras estão colocadas de forma direta, objetiva, sem metáforas; a música está integrada a elas e vice-versa. Estava definida a construção de seu libelo contra os pilares da moderna ordem social: a polícia, o Estado, a Igreja, a família e o capitalismo. Suas faixas mais pareciam verbetes de um dicionário iconoclasta, finalizando com o desconcertante funk de O Quê.
O furioso álbum chegou às lojas na última semana de junho de 1986. Não teve boa aceitação imediata. Marcelo Fromer, um dos guitarristas da banda, chegou a afirmar que “teve um locutor da Rádio Cidade que odiou AAUU. Dizia que era coisa de débil mental”. Branco Mello revelou que mostrou o disco para o cantor Lobão “ele dizia que nós estávamos loucos, que era muito hermético”. Meses depois, essa “maluquice” já havia vendido mais de 380 mil cópias. Pela primeira vez, os Titãs estavam sendo um negócio muito lucrativo para a WEA.
Cabeça Dinossauro caracteriza-se como um disco que não revela esperanças nem soluções. Desenvolve tão somente a discursividade de negação do status quo. É caracterizado pela rejeição da ordem estabelecida sem definir o anseio por nenhuma outra. Da mesma maneira que suas letras, as apresentações ao vivo da época foram palco de violência. Durante o show de lançamento, o público destruiu o Teatro Carlos Gomes, em plena sincronia com a selvageria das letras.
A volta da democracia no país permitia que as bandas de rock falassem com maior liberdade, comparados aos compositores da MPB que, desde o final dos anos 60, sofreram a grande repressão do regime militar. Justamente por isso, é sintomático observar que no primeiro ano sem os militares no poder encontremos um trabalho com letras tão críticas e diretas, tão desprovidas de metáforas e outros recursos para driblar os olhares da Censura, ser consumido longe do circuito underground com tanta liberdade, apesar da proibição radiofônica de Bichos Escrotos (o que não impediu que música fosse amplamente difundida). A apropriação da ânsia anti-capitalista do pensamento subversivo esquerdista ganhava a mídia de forma ao mesmo tempo pungente e ingênua, romântica e realista; e, paradoxalmente, como investimento comercial viável, sobretudo nas vozes de Legião Urbana, Plebe Rude e Titãs. Um capítulo interessante da história do rock produzido no Brasil que torna a atual imagem da banda que protagonizou o brado de Cabeça Dinossauro uma pálida sombra do impacto que teve no distante ano de 1986.
 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 29/03/2011]