terça-feira, 12 de abril de 2011

CONTRA A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA DO REALENGO

Fernando Botero - Dores da Colômbia




(Alfredo Werney)


 


Recentemente li, em meio a tantas leituras científicas sem nenhuma excitação, um interessante artigo de Inácio Araújo sobre o filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg. Neste pequeno texto, presente na coleção de livros “O cinema de Boca em Boca”, o crítico de cinema dizia temer que a tragédia vivida por milhares de judeus no período do Nazismo se transformasse um dia em telenovelas banais.

Trata-se de uma discussão interminável: até onde vão os limites da representação na arte? Um artista tem o direito de poetizar e transformar em objeto estético as desgraças alheias? Sobre esse assunto, minha opinião é peremptória: sou contra transformar em arte as tragédias coletivas e as dores profundas de uma determinada sociedade. Refiro-me aos artistas que querem tão-somente se promover na mídia ou despertar sensações fáceis e não àqueles que realmente se propõe a discutir, de maneira séria e sem sensacionalismos, a experiência da dor e suas representações na arte. Importante dizer que não quero afirmar, com tais argumentos, que a arte deva estar sempre atrelada à moral, mas acho uma atitude invasiva e perversa do artista representar uma tragédia só para ter audiência, como muitos fazem. Em relação aos jornalistas, não há mais nada para se discutir: a maioria deles se deleita ao transformar a dor alheia em espetáculo circense de quinta categoria.

Ao discutir essas questões relativas à representação da crueldade na arte, estou me referindo ao lamentoso massacre acontecido no dia 7 de abril na Escola Tasso da Silveira, no bairro Realengo (zona oeste do Rio De Janeiro). Transtornado com o que vi nos meios de comunicação – ainda mais pelo fato de ser professor de escola pública e conviver diariamente com crianças e adolescentes da mesma idade dos que foram baleados – procurei ler muitos textos sobre os assassinatos. Impressionou-me o fato de ver muitos “artistas” criarem poemas, canções (recebi uma recentemente em meu correio eletrônico) e vídeo-arte para expressarem suas dores. Não vou ser tão cético a ponto de dizer que esses “artistas de momento” não se comoveram com a tragédia no Realengo. Contudo, a verdade é que a maioria deles quer apenas ter um instante de atenção na mídia eletrônica para expor suas criações. Uma atitude de perversão, a meu ver.

Mário Quintana, em um de seus poemas curtos e precisos, comentou que por “mais que sejam grandes os problemas da China, nossos calos doem muito mais”. Realmente, tanto nós como esses “artistas de momento” não estamos sentindo absolutamente nada se imaginarmos o trauma que pais, amigos, familiares e professores daquela escola estão vivenciando. É muito fácil compor uma canção ou poema na tranqüilidade de nossas camas, com um saco de batatas fritas e um enorme copo de refrigerante do lado, se nós pensarmos no impacto psíquico experimentado por aquelas pessoas da escola do Rio.

A atitude mais nobre – para quem está vendo de longe um momento da vida tão difícil como esse – é, simplesmente, o respeito e o silêncio. Digo silêncio, porque não se trata de um crime no qual a sociedade possa fazer justiça: não foi por questões relativas ao tráfico de drogas nem pelas condições sócio-econômicas. Ademais, o criminoso cometeu suicídio. Porém, muitas pessoas adoram estar na TV e o fazem a qualquer custo. Lembro-me do caso da menina Isabela, que foi atirada pelo pai do sexto andar de um prédio de São Paulo em março de 2008. Houve indivíduos que saíram de ônibus das profundezas do Nordeste para assistir o “espetáculo” ao vivo em São Paulo. Alguns se vestiam de fantasias de anjo e de santos da Igreja Católica. Além disso, colocavam cartazes e apetrechos na mão para terem um segundo de audiência na tela.

Como sabemos, nunca havia acontecido em nosso país um crime de tal natureza. Não me resta dúvida de que Freud explicaria bem melhor do que Marx o assassinato da Escola Tasso da Silveira. As motivações estão mais ligadas aos distúrbios psíquicos do jovem assassino do que propriamente às contingências econômicas e sociais em que vivemos. E o que fazer desse modo? Seria melhor dizer o que não fazer diante de tamanha catástrofe: transformar tudo isso em poemas banais, em canções piegas e em vídeos espetaculosos. Essa atitude soa mais como desacato e invasão do que como um momento de condolência.

Há poucas semanas estive em Brasília e fui ver (no espaço Caixa Cultural) a exposição “Dores da Colômbia”, do pintor Fernando Botero. Eram cenas fortes de massacre coletivo, de narcotráfico, seqüestros e assassinatos no país sul-americano. Em nenhum momento, porém, senti que havia ali um desejo de auto-promoção do artista. Não existia pieguice, tristeza gratuita, sensacionalismo. Pode parecer uma contradição com o que já foi dito, mas o pintor colombiano me convenceu que ainda é possível mostrar algo trágico de uma nação sem a perversão e o desrespeito.

Houve algo que reforçou mais ainda a minha idéia de que nem todo artista que representa a desgraça do seu país o faz com interesse de se promover na mídia e nos negócios. Botero, ao receber propostas para vender suas telas e desenhos, recusou e fez uma doação ao Museu Nacional da Colômbia. Além disso, pronunciou as belíssimas palavras: “Não vou transformar em lucro as desgraças do meu país”. Reconstruindo as palavras do pintor latino: "Não vamos transformar em banalidade (revestida de arte) a tragédia do Realengo".

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