terça-feira, 26 de abril de 2011

O leitor na multidão

[Adriano Lobão Aragão]

 

Em Literatura e Sociedade, Antonio Candido faz referência a um episódio ocorrido em 1837, a partir de depoimento do célebre compositor erudito Liszt citado no livro de Stanley Edgar Hyman, The Armed Vision, 1948. Conta-se que “Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de aplausos calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem.” O curioso acontecimento lembrado por Candido para discutir a relação entre a apreciação pública de uma obra de arte e o condicionamento imposto pelo meio. O aplauso e a vaia, para além do mérito artístico em questão, costumam ser bastante contagiosos, por isso é sempre necessário refletirmos sobre nossas próprias convicções diante da arte. Da literatura, por exemplo. Até que ponto somos capazes de reconhecer um bom poema, mesmo que destoante das preferências estéticas e temáticas eleitas pelos leitores com os quais convivemos? Ou quem sabe se nossa capacidade de elencar o valor artístico de um poema esteja mais condicionada pelo que já lemos e reconhecemos anteriormente do que qualquer coisa inerente a nós mesmos? Por mais individual que seja o ato de ler, estamos sempre mergulhados em algum tipo de interação social.

Em relação ao “grande público”, é notória a ausência de um direcionamento crítico. Sobretudo quando distanciado de determinadas tradições culturais que, independente de provincianismos e rusticidades, costumam filtrar através de sucessivas gerações diversos elementos estéticos significativos. Mas em geral, o que se observa são lamentáveis exemplos da inexistência de um discernimento público do valor artístico que bastante se assemelha ao seleto grupo de eruditos que 1837 não soube diferir o gênio de Beethoven da mediocridade de Pixis. No caso da literatura, não é de hoje se faz necessária a figura do que podemos chamar, como o crítico literário Harold Bloom, de “leitor forte”. Aliás, a existência atuante de “leitores fortes” é imprescindível para o balizamento de opiniões. E voltando à música erudita, creio que tão importante quanto levantar-se para aplaudir Pixis (considerando que, hipoteticamente, ele tivesse composto uma boa obra) é ter a devida coragem para levantar a voz acima do convencionalismo institucionalizado e bradar “Isso é Beethoven, mas não é genial!” (novamente, digo isso numa situação hipotética, onde, ao invés de ter simplesmente os nomes trocados no programa do concerto, Beethoven tivesse escrito uma peça medíocre e Pixis uma obra relevante).

Embora o tempo seja popularmente apontado como o crítico mais ferrenho e honesto, sem a atuação de bons leitores, independente se críticos literários ou não, não há tempo que resolva. Um autor de difícil apreensão, como O. G. Rego de Carvalho, por exemplo, poderia facilmente ser relegado ao esquecimento ou à incompreensão generalizada se não tivesse o mérito de conquistar bons leitores. Entretanto, seu apreço público pouco deve à leitura e compreensão de sua obra-prima, Rio Subterrâneo. Notadamente, a adoção de suas obras periféricas, Ulisses entre o Amor e a Morte e Somos Todos Inocentes, em escolas e vestibulares, é bem mais recorrente. De qualquer forma, é certo que aproximar alunos e vestibulandos do universo literário de O.G. através dessas obras seja mais viável que o complexo mergulho em sua obra mais caudalosa. Os poucos que desenvolveram relevantes trabalhos críticos sobre Rio Subterrâneo sabem o tamanho da dificuldade da tarefa empreendida. E merecem meu aplauso por suas tentativas. Mas ainda é pouco para uma obra tão significativa. Sobretudo para quando surgir (se é que um dia surgirá...) um outro “rio subterrâneo”, estejamos preparados para reconhecê-lo e dar-lhe o devido apreço, e não confundir um rio caudaloso com as águas rasas de algum córrego temporário.

2 comentários:

Alfredo Lima disse...

ótimo texto. parabéns

alfredo werney

Adriano Lobão Aragão disse...

valeu, Afredo. suas palavras são um estímulo para continuar escrevendo.