domingo, 27 de março de 2011

“Sou um artesão e Edições Nephelibata é o nome que designa de forma genérica o artesanato que eu faço.”



Entrevista com o editor Camilo Prado




Camilo Prado (1969) nasceu em Santa Catarina; depois de diversas ocupações e ofícios normais, tais como bancário, servente de pedreiro e professor, criou em 2001 as Edições Nephelibata, especializada em edições de livros artesanais. É também tradutor, do francês e do espanhol, e autor de alguns livros de contos: Nefas (2004), Uma Velha Casa Submarina (2005), Pulcritude (2006). Encontra-se às vésperas de defender doutorado em Literatura, na Universidade Federal de Santa Catarina, com tese em tradução da obra Tribulat Bonhomet de Villiers de L’Isle-Adam. A entrevista completa será publicada na edição nº 9 da revista eletrônica dEsEnrEdoS a ser veiculada em abril. 


Adriano Lobão Aragão - A divulgação e distribuição consistem um grande desafio para quem se propõe a editar livros, mesmo com a popularização da internet?
Camilo Prado - Não creio que seja um grande desafio no momento. Já foi. Hoje a internet nos possibilita alguma igualdade na divulgação e distribuição. Tanto é que tenho vendido livros para várias cidades diferentes em quase todos os estados do país. Qualquer pessoa no Rio Grande do Sul, Piauí ou no Maranhão pode, via internet, adquirir com a mesma facilidade um livro da Cia. das Letras, por exemplo, quanto um da Nephelibata. Há vinte anos atrás isso não seria possível, mas hoje é inevitável. Em qualquer livraria que você entra, o funcionário vai direto ao computador e, normalmente, responde: “Não temos na loja, mas em duas semanas chega”. Creio que as livrarias irão desaparecer em breve. Porém, eu tenho um pequeno problema com vendas à distância por conta dos livros serem artesanais. Normalmente as pessoas imaginam alguma coisa mal feita. É curioso. Por séculos os livros foram feitos artesanalmente e apenas algumas décadas nas mãos das máquinas bastaram para que as pessoas se tornassem desconfiadas da qualidade de um livro artesanal. Por conta disso retirei da página a informação de que é artesanal, e algumas pessoas ao receberem o livro e descobrirem que é artesanal, que é numerado, etc., ficaram um pouco emocionadas e me escreveram elogiando. Isso é gratificante. Se elas tivessem comprado o livro em uma livraria nunca me teriam escrito para dizer que gostaram do “material”.

Adriano - Como é definida a linha editorial da Nephelibata?
Camilo - Não há exatamente uma linha editorial definida, para além do objetivo de publicar literatura e filosofia. Procuro apenas publicar textos de qualidade, confiando nos autores e/ou tradutores. Mas isso no fundo é muito relativo. Como se sabe, os gostos estéticos e filosóficos são muito diversos. Por algum tempo a Nephelibata teve uma “comissão editorial”, mas não funcionou muito bem. O fato dos livros serem artesanais e de ser eu sozinho que os faço tornou a coisa inviável. Tenho uma relação muito íntima com os livros. Eu os manufaturo um a um, é impossível pensar a coisa como uma editora, ou seja, como uma empresa onde haja reuniões e decisões de conjunto. Não tenho o menor ânimo de ficar costurando 50 exemplares de um título que me desagrade só porque irá vender ou porque uma “comissão”, mesmo que composta por amigos, chegou à conclusão de que é algo bom. Sou criticado por isso, mas não me importo. É fácil dizer o que se deve fazer quando não é você quem faz. Mas apesar das críticas creio que na diversidade de títulos publicados até agora pode se entrever alguma linha mais ou menos definida. E por outro lado, demonstra bem o quanto posso ser eclético e elástico. Mas não descarto a possibilidade de qualquer dia me decidir, para dar razão às críticas, a transformar a Nephelibata em uma editora exclusivamente dedicada aos mortos do século XIX.

Adriano - Em que aspectos seu trabalho como escritor mistura-se com o de editor?
Camilo - Eu diria que em todos os aspectos. Por publicar meus próprios livros e traduções tenho sido motivo de críticas constantes. Dizem-me: “é fácil publicar um livro quando se tem uma editora!”. Mas a coisa é inversa. É por escrever, por traduzir que comecei a fazer livros. Há dez anos atrás tentei formar um grupo, queria criar uma editora. Mas acabou não dando certo. Não desisti da idéia; os amigos, mesmo continuando a me apoiar, tomaram certa distância e então fiquei sozinho. Tudo o que eu tinha era uma caixinha de papelão com dez disquetes e a cabeça cheia de sonhos. Meu primeiro computador eu ganhei cerca de três anos depois. Viam-me, com alguma razão, como um lunático que sonhava com uma editora mas que não tinha nem uma folha de papel para escrever. Eu digitava os futuros livros na casa de amigos, em laboratórios de informática na universidade; os primeiros livros foram em xérox; depois a mãe de um amigo custeou a compra de uma impressora, mas como eu não tinha computador, ia até a casa dele para trabalhar: três ônibus para ir, três para voltar. Enfim, eu agia como um Dom Quixote. Comecei a fazer livros entre o riso e a caridade dos outros. E o que me mantinha e me mantém ainda é a literatura, minha escritura e minhas traduções — por pior que as possam considerar — não a “editora” ou a “publicação”. Mais recentemente fui, faustianamente, vender minha alma para a universidade em troca de uma bolsa de estudos. Foi o que me possibilitou adquirir o mínimo necessário para manter a Nephelibata viva nos últimos quatro anos: um melhor computador, impressoras, uma guilhotina. Na verdade, é somente agora, neste ano de 2011, que começo a poder trabalhar com um mínimo de material necessário para a manufatura de livros dentro da minha casa (alugada). E, no entanto, foi em péssimas condições de trabalho e com material ruim que consegui dar a Nephelibata o respeito que tem atualmente, inclusive no chatérrimo meio acadêmico. Então, toda a persistência — e resistência às intempéries da vida — deve-se ao fato de eu gostar de literatura, de escrever e traduzir autores que me agradam e querer transformar isso em livros. Que eu publique o livro de outros é conseqüência disso. Alguém já me perguntou, sarcasticamente, qual era a diferença entre a Nephelibata e eu. E a minha resposta não podia — e não pode — ser outra: “a Nephelibata é uma obra minha”. É isso, talvez, que a diferencia das editoras. E eu não me canso de repetir: “a Nephelibata não é uma editora”, “eu não sou uma empresa”. Sou um artesão e Edições Nephelibata é o nome que designa de forma genérica o artesanato que eu faço. E isso faz parte do universo literário que vivencio diariamente, de meus fantasmas, de minhas leituras, etc.




[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 22 de março de 2011] 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Carlos Drummond de Andrade & Haroldo de Campos

Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz
[Carlos Drummond de Andrade]


Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro

à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
                            mancebos,
                            senhoritas,
-chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2.000, que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias,
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o a.C., believe or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranquilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São-Nunca.
Saiu pra não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando ele nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.


Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho


a paz
da
paz



[in Viola de Bolso]

 





 

meninos eu vi
[Haroldo de Campos]


vi oswald de andrade
o pai antropófago em 49
reclinado numa cadeira de balanço
lendo o trópico de câncer de henry miller
(a rosa dos alkmin maria antonieta o mimava
enquanto ele ia esmagando com o martelo de nietzsche
contumazes cabeças de diamante)

vi ezra pound em 50
na via mameli em rapallo
(tuesday four pm ore sedici)
erguendo nas mãos o gato de gaudier-brzeska
uma forma felina que ocupava todo o espaço
de um exíguo pedaço de mármore cinza
(por essa altura o velho ez já começara a calar-se
e os olhos ruivos faiscavam na inútil
procura de punti-luminosi)

vi roman jakobson en la jolla
califórnia ano 66
(a seu lado krystina pomorska loura cabeça altiva)
passei rápido pelo teste das palavras trocadas:
v zviózdi vriézivaias ;/ 'entremeado às estrelas"
buraco negro na primeira estrofe
do poema de maiakóvski a sierguêi iessiênin
(venha ouvir krystina un poeta brasileiro
que resolveu o problema da rima às avessas
na tradução dos versos de vladimir)

convidou-me então a comer comida árabe
e foram muitas as vezes e os lugares em que nos revimos
encontros marcados por luminosas doses de vodka
(albo lapide notari - diziam os romanos)
e até mesmo uma carta
aberta
depois de ter lido as coplas de martin codax
sobre o mar de vigo


(...)

vi julio cortázar anos mais tarde
em paris rue de l´éperon
chamou-me cronópio como fazia
aos amigos
(ele cronopíssimo o maior de todos):
costumávamos comer num restaurante grego
perto do hotel du levant
na harpejante rue de la harpe
e um dia me fez entrar num de seus contos
onde me pus a transcrever de trás pra diante em língua morta
um seu soneto corrediço feito um zipper
(depois descreveu-me como um cachalote de barbas de netuno
no centro extremoso do círculo
dos seus amigos brasileiros)

vi tudo isso e vi muitas outras coisas
como por exemplo na via del consolato
murilo mendes entre quadros de volpi
perguntando pela idade do serrote
e nessa mesma roma de fachadas amarelo-ovo
na trattoria del buco
ungaretti o leonardo ungaretti
(que costumava praticar com leopardi
no locutório das estrelas)
indagou-me uma vez em tom de confidência:
ci sono ancora quelle mulattine a san paolo?
(não havia mulatinha nenhuma- era só
explicou-me depois o paulo emílio -
a fantasia turbinosa do poeta)

mas vi tudo isso
tudo isso e mais aquilo
e tenho agora direito a uma certa ciência
e a uma certa impaciência
por isso nãome mandem manuscritos datiloscritos telescritos
porque sei que a filosofia não é para os jovens
e a poesia (para mim) vai ficando cada vez mais parecida
com a filosofia
e já que tudo afinal é névoa-nada
e o meu tempo (consideremos) pode ser pouco
e só consegui traduzir até agora uns duzentos e setenta versos
do primeiro capítulo da Ilíada
a há ainda a vontade mal-contida
de aprender árabe e iorubá
e a necessidade de reunir todas as forças disponíveis
para resistira mefisto e não vender a alma
e ficar firme
em posição de lótus
enquanto todos esses recados ambíguos (digo: vida)
caem na secretária eletrônica


 

[in Crisantempo: no espaço curvo nasce um]

domingo, 20 de março de 2011

de anábase, minha fria dama

[adriano lobão aragão]




de anábase, minha fria dama, trago estas lendas escassas
onde o frio enrijece os nervos sem esfriar os desejos

de anábase, minha fria dama, trago estas lendas escassas
o meu corpo caído em batalha nos campos gelados
insepulto abandonado e minha alma repousando ao teu lado

de anábase, minha fria dama, trago estas lendas escassas
o horror do sangue derramado em lança
a vitória inútil que nem aos mortos alcança
e a derrota gloriosamente estampada em soldado em criança

de anábase, minha fria dama, trago estas lendas escassas
quando afio a lança antes da próxima última batalha
quando ouço em conflito o eco de tua doce fala
quando toco a tua mão que minha mão desarma
quando em meu peito esqueço a arma que o inimigo encrava

de anábase, minha fria dama, trago estas lendas escassas
o guerreiro que morre ao lado do próprio escudo despedaçado
a capa aberta inerte a lança inútil caída o elmo desnecessário
o rio vivo que segue em neve em sangue em breve um outro rio alcançado
de águas sangrentas eu trago estas lendas de remoto passado
onde uma fria dama teria de seu eleito o retorno inesperado

quinta-feira, 17 de março de 2011

Pedras

[H. Dobal]

Estas pedras se gastam com o tempo.
Vão lentamente se desgastando
e o tempo lhes sobra para as lembranças
que não conservam. Acaso haverá
mais do que céu e sol mais do que pedra
desta seca paragem outra memória.
Aqui o céu é a lembrança mais bela.
O clarazul céu do Piauí e a destroçada
pedra simulação de ruínas
(onde os mocós se escondem)
onde somente as macambiras vingam.
Aqui os bois do agreste desgarrados
vêm pastar o silêncio e a calmaria
das tardes vêm ariscos ruminando
a lentidão dos dias o repouso
dos domingos espalhados na chapada.
Como outros bichos nos seus fósseis presos
também de pedra num momento quedam
quando a cabeça sobre as moitas param.

A paisagem de cinza devorada
e ruminada pelas cabras mansas,
e sobre as copas os despejados pássaros
por gaviões sonhados nas muralhas,
as copas onde os frutos se preparam
para a farinha e a fome desses dias.
E em nós a fome o perguntar calado:
desembestados cavalos cujo ímpeto
ou vôo articulado nestas pedras
na seca solidão jamais veremos.

O tempo gasta estas pedras
com mil artifícios repetidos.
Contra a pedra e o tempo nos afiamos
e em nós porfiamos estas lembranças
que se vão desgastando para nunca:
estas formas de pedra simulacra
de bichos ou de sonhos são perguntas
ao claro azul  às arenosas trilhas
que aceitamos aqui como os domingos
sem sucessão plantados na chapada.



[in O Tempo Consequente, 1966]

sexta-feira, 11 de março de 2011

"Penso que poesia é jogar com o risco"



Adriano Lobão Aragão e Herasmo Braga 
entrevistam Rita Dahl





Durante o mês de outubro de 2009, entrevistamos via e-mail a poeta finlandesa Rita Dahl. Autora de diversos livros de poemas, organizadora de antologias, atua de maneira constante na divulgação da poesia finlandesa em Portugal e no Brasil, através de coletâneas. Também realiza o caminho inverso, divulgando poesia portuguesa na Finlândia. Para nós, ficou a sensação de que a verdadeira pátria de Rita Dahl é, acima de tudo, a Poesia. Sem fronteiras.
Adriano Lobão Aragão
Herasmo Braga


Adriano - Como surgiu esse interesse pela poesia portuguesa?
Rita - Surgiu primeiramente por ler uma seleção de poemas de Fernando Pessoa traduzida para finlandês e chamada "Hetkien vaellus". Essa seleção data dos anos 70, e temos uma outra, "uppdated", mais extensa seleção de sua poesia feita pelo mesmo tradutor. Gostei especialmente da existência e identidade vaga dos todos heterônimos, que nos faz perguntar questões fundamentais sobre a sua existência. Depois estudei a língua e a cultura portuguesa na universidade de Helsinguia e na Universidade Clássica de Lisboa. Decidi fazer a minha outra licenciatura (Master´s Thesis) em Literatura Comparada (já fiz uma outra em Ciências Políticas) sobre “O mito romântico e modernista de Pessoas heterônimos”.

Encontrei a literatura portuguesa quando estive em Lisboa e em setembro saiu a minha primeira tradução em forma de livro – uma seleção dos poemas de Alberto Pimenta traduzidos e escolhidos por mim. Estou também a traduzir uma antologia da poesia contemporânea portuguesa que inclui 10 poetas, começando do poeta mais velho, Eugénio de Andrade, até o mais jovem, Daniel Faria. Há muito a descobrir na literatura em português para o público finlandês que conhece só Pessoa, Saramago.

Participei do Encontro Internacional de Poetas em Coimbra no ano 2007 e encontrei o poeta e editor Márcio-André, para quem estou a editar uma antologia da poesia jovem finlandesa, com 10 poetas. A antologia sairá em 2010. Os meus próprios poemas saíram em revistas e antologias literárias em Portugal, no Brasil e em diversas partes do mundo. Os meus poemas são traduzidos para 10 idiomas diferentes.


Adriano - E quais as maiores dificuldades no tocante à tradução de poesia em língua portuguesa para a língua finlandesa?
Rita - Tradutora tem que transmitir o conteúdo e forma em língua diferente em sintaxe e fonética. É impossível de manter a mesma estrutura em outra língua, e o poema muda também foneticamente. Em línguas românicas usa-se, por exemplo, preposições, que faltam completamente em finlandês. Em finlandês causes são colocados no fim de palavras. Faltam também artigos indefinidos e definidos. O poema fica uma outra obra de arte em língua diferente, com sua existência própria. Ultimamente, acho que o português é a língua românica mais difícil.


Adriano - No campo da poesia, o tradutor seria então um recriador? Um artista que desenvolve uma criação a partir de outra já existente?
Rita - Primeiramente, sou uma autora, não tradutora. Traduzir é um hobby para mim, e um meio muito bom de aprender uma língua estranha. Não acho de viver com traduções. Mas sim, acredito no conceito de tradução de Ezra Pound: ao tradutor há a liberdade de interpretar os textos numa maneira livre e pôr os significados que ela ou ele achar corretos. Mesmo os significados não intentos são aceitos no conceito de tradução de Pound. Mas eu não sou uma recriadora neste sentido, pois tento ter respeito para com o texto original em primeiro caso.


Adriano - Quais suas principais influências?
Rita - Eu tomo influências ao todo lado: a literatura, mas também as artes visuais, o cinema, o pensamento contemporâneo podem me influenciar numa maneira inconsciente. Também gosto da prosa com temas sociais. Por exemplo, José Saramago com suas histórias alegóricas que são sempre baseadas na realidade atual ou histórica. Mia Couto e seus contos mágicos e prosa baseada em realismo mágico me tomam bem. É possível encontrar realismo mágico em qualquer tipo de sociedade, mais racionais também. No fundo da racionalidade existe sempre a irracionalidade, a inconsciência e os sonhos.


Adriano - Poderia comentar como se deu o processo de criação de seu livro O Tempo dos Aforismos?
Rita - Este livro foi feito com ajuda do Google-generator, em página da internet de Leevi Lehto. Eu comecei com uma coleção de poemas muito modernista e quis estar completamente diferente nesta vez; estive um pouco frustrada com a reputação de poeta modernista, quando eu só queria estar nova em cada coleção. Saiu "O Tempo dos Aforismos" que inclui todos os tipos de registros de língua alargando dos registros mais baixos e cotidianos até os mais elevados. O poema é um grande poema que consiste de 80 páginas. O processo de escrita foi muito burocrático mesmo. Comecei com algumas palavras de pesquisa que me deram outras palavras, e às vezes inventei palavras da pesquisa eu mesma. O resultado é poesia social que assemelha-se aos textos de L = A = N = G = U = A = G = E - poetas nos Estados Unidos. O Google foi só um meio de obter este resultado, não algo que dominou o processo de criação.



Adriano - Nesse sentido, que outras experimentações poderíamos esperar de Rita Dahl?

Rita - A experimentação não pode ser valor em si próprio. Depois de “O Tempo dos Aforismos”, escrevi dois livros de poesia influenciados, por exemplo, pela “Language-escola”, mas estes livros também incluíram a matéria mais tradicional: poemas aforísticos, grandes poemas de prosa e poemas escritos em formas rígidas, como villanelle etc. O meu livro mais novo e ainda não publicado será um livro de poemas de amor, bastante tradicionais. Então, não é possível prever o que vai acontecer. Mas eu vou escrever um livro sobre poética e política, a minha própria também, especialmente em “O Tempo dos Aforismos”, e mais alguns outros livros também.



Herasmo - Quais as carências que a literatura passa em um mundo tão fragmentado?

Rita - A literatura em si mesma pode ser fragmentada também; o público não pode procurar "a consolação" da literatura que segue as suas próprias normas e princípios. Pessoalmente, acho que esta consolação não seja a função mais importante da literatura. A literatura pode funcionar como "simulacrum" da sociedade e ser tão fragmentada que a sociedade que nos circula. Então, quando a literatura real já não necessariamente oferece esta consolação tradicional, tem que ser procurada em outro lugar, por exemplo, na mídia.



Adriano - Há pouca divulgação da poesia finlandesa no Brasil. Além de sua obra poética, seria possível indicar quais outros poetas finlandeses contemporâneos merecem destaque?

Rita - Introduzi algumas nomes em meu dossiê publicado em número mais novo da revista de Confraria do Vento: por exemplo, a poesia feminista de Katariina Vuorinen, poemas quase mágico-realistas de Saila Susiluoto, e Juhana Vähänen, poesia psicológica que apanha os movimentos rápidos da mente em movimento. Estes são poetas mais jovens. Naturalmente, há clássicos modernistas como Sirkka Turkka, Eeva-Liisa Manner, Paavo Haavikko, que vale a pena de ler sempre. Poeta vanguardista Jyrki Pellinen, cujo perfil escrevi, é uma poeta muito original e variada também.



Herasmo - Será que para um autor hoje ser lido e consagrado deve passar pela exposição constante nos meios midiáticos, participando de feiras e outras atividades do gênero?

Rita - É uma boa pergunta e muito atual. A feira do livro de Helsinquía já começou hoje. Sim, o grande problema é a comercialização da literatura que se mostra especialmente em editoras grandes para quais a literatura é somente "business". Pessoalmente, acho que esta "globalização" não se alarga para a comunidade dos poetas que se concentra em sua criação, que se encontra em primeiro lugar para eles. Feiras do livro para escritores aqui são um evento social, uma possibilidade de encontrar outros escritores que não fosse possível cada dia.



Adriano - No Brasil, a poesia, sobretudo de autores recentes, costuma ser vista pelos editores como um produto de risco, devido à sua baixa venda de livros no país. Que relações o mercado editorial finlandês estabelece com a poesia?

Rita - Penso que a poesia é "jogar com o risco"; Charles Bernstein dizia que "poetry is the ultimate small business". O público consiste do pequeno grupo dos "connoisseurs". O novo fenômeno na Finlândia são "print-on-demand", editoras que fazem o mercado muito mais variado. (Na Finlândia, temos só 3 ou 4 grandes editoras, e o grande problema é que a mesma gente que lê e escolhe a poesia que vai ser publicada. Esta gente tem a mesma opinião sobre "a boa" e "a má" poesia. E a nova geração dos poetas finlandesas já tem esquecido esta valorização e rompem fronteiras da poesia tradicional e modernista. Por isso, muitos poetas jovens que seguem também "a poética de mal" publicam pelas editoras alternativas. Há uma comunidade muito ativa que trabalha com a poesia voluntariamente, sem pensar em ganhar dinheiro, e que querem pensar em questões mais teóricas também. Os poetas mais jovens são mais conscientes da sua poética que poetas da "geração do meio", que começaram a publicar nos anos 90. Estes poetas já estão estabelecidos e em posições muito conformes, mas a nova geração continua a sua luta, resistência pacifista, pelas suas palavras. 



[publicada originalmente em dEsEnrEdoS número 02, novembro de 2009]

terça-feira, 8 de março de 2011

Machado de Assis, 04 de fevereiro de 1894

[por Machado de Assis]
04 de fevereiro de 1894
Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de l'homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira de deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.
 
Não veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. 

Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.

Não admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as mesmas cousas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria simples, na mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pede com graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miçanga. Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos deus ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!

Como se disfarçarão os homens pelo carnaval quando voltar a idade da miçanga? Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Notícias escreverá por esse tempo um artigo, em que dirá: Pelas figuras que têm aparecido nas ruas, terão visto os nossos leitores Onde foi, séculos atrás, já não diremos o mau gosto, que é evidente, mas a violação da natureza, no modo de vestir dos homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que são a própria epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas vestiduras perversas, falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa aperfeiçoar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o lenço; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestável, desde que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar uma idéia viva da diferença das duas civilizações, publicam um desenho comparativo, dous homens, um moderno, outro dos fins do século XIX; é obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o nosso excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.

Que não possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compará-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civilização mudará outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrópolis, capital da vida eterna. Lá ao menos há fresco, não se morre de insolação, nome que já entrou no nosso obituário, segundo me disseram esta semana. Não se pode imaginar a minha desilusão. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, não morreríamos nunca de semelhante cousa. Há anos deram-se aqui alguns casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser isso; mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão ainda outros. A chuva destes dias não fez mais que açular a canícula.

De resto, a morte escreveu esta semana em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas, um José Silva, um Coelho Bastos. Não se conclui que ela tem mais amor aos que sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia não distingue. Mas há certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas águas tudo se funde e confunde, e que não há serviços à pátria ou à humanidade, que impeçam de ir para onde vão os inúteis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a memória dos que o merecem, e na proporção de cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.

Essa há de ser a moda que não acaba. Ou caminhemos para a perfeição deliciosa e terna, ou não façamos mais que ruminar, perpétuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer é a mesma ... Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princípio e o fim da crônica. A razão de o não termos este ano, é justa; seria até melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo.


[Machado de Assis, Crônicas publicadas em A Semana. Obra Completa, vol III. Ed. Nova Aguilar]

sábado, 5 de março de 2011

Em antológicas imagens, Debret retratou a vida brasileira


Jean-Baptiste Debret (Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848) pintor e desenhista, integrou a Missão Artística Francesa (1816), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou pintura.

terça-feira, 1 de março de 2011

os gestos o silêncio

[adriano lobão aragão]


o aéreo gesto de tua mão
suave fala silenciada em azul
seu tom espalha

o passo do pássaro no ar
perdido em amplidão
seu canto prepara

contido em calma
em chama adensada
e para

seu voo sua cor sua asa
no gesto aéreo que tua mão
então se cala



[in as cinzas as palavras, 2009]