sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sem Palavras - documentário

Arnaldo Albuquerque
 
 
[postagem extraída da Academia Onírica]

Sem Palavras é um documentário produzido pelo Coletivo Diagonal em parceria com o Núcleo de Quadrinhos do Piauí. O filme percorre fragmentos ainda existentes nas vozes de Cineas Santos, Durvalino Couto Filho, Alberti Piauhy, Paulo Machado, Maria Soledade, Bruno Leonardo e Antônio Amaral para registrar o panorama da cena underground teresinense na década de 70, tomando como foco inspirador o artista Arnaldo Albuquerque. Intencionalmente esquecido por alguns, respeitado e valorizado por outros, o filme se filia a segunda opção.

Resgatando um conjunto de memórias que localizam historicamente o papel desse artista, atuante no cinema super-8, ilustração, gravura, arte gráfica, artes plásticas, HQ’s, incentivador dos festivais de música autoral na cidade, happenings sangrentos na avenida Frei Serafim e muitas outras práticas culturais, o filme levanta nas suas entre-imagens o significado e importância de Arnaldo Albuquerque para a construção da cena artística teresinense e seus desdobramentos contemporâneos.
Longe dos estereótipos pós-torquateanos, mas contraditoriamente aderindo-se a ele, com ressalvas e devidas correções, Arnaldo Albuquerque continua vivo, ao seu modo...

Um vídeo de Bernardo Aurélio, Aristides Oliveira e Meire Fernandes.
Direção: Aristides Oliveira.
Roteiro: Aristides Oliveira.
Câmera: Aristides Oliveira e Bernardo Aurélio.
Direção de Arte: Meire Fernandes.
Edição: Denes Filho.
Realização: Coletivo Diagonal e Núcleo de Quadrinhos do Piauí.
Duração: 86’
Ano: 2009/2010.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Prelúdio

[Martins Napoleão]


 

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.
 
E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde para, admirado, em cima das montanhas.
 
Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.
 
Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.
 
A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.
[in Poemas da Terra Selvagem, 1940]



Martins Napoleão 
[Benedito Martins Napoleão do Rego nasceu em União, PI, em 1903. Professor, poeta, jornalista e tradutor. Presidiu a Academia Piauiense de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro em 1981. O Cancioneiro Geral, 1981, reúne sua obra poética, composta, entre outros, por Copa de Ébano (1927); Poemas da Terra Selvagem (1940); Caminho da Vida e da Morte (1941) e Prisioneiro do Mundo (1953).]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O engenho musical de Da Costa e Silva





A obra de Da Costa e Silva, desde o seu preâmbulo, “Sangue” (1908), se nos mostra como um rigoroso exercício melopoético (música e palavra). Isso porque, em grande parte de sua poesia, os aspectos fanopaicos e cognitivos parecem estar sobrepujados pelos aspectos musicais. Em outros termos: a literatura dacostiana – inegavelmente influenciada por vertentes simbolistas – procura se pautar em uma estética na qual os sons são a base material do fazer artístico. As palavras, desse modo, ligam-se umas às outras mais pela questão da afinidade fônica do que mesmo pelo sentido que procuram expressar. As construções frasais do texto são pensadas predominantemente com intuito de se atingir a precisão horizontal da música tonal: um arco melódico narrativo no qual se observa a alternância entre momentos de tensão e repouso.

Vejamos, em uma breve análisea)literário em um , dois importantes poemas do autor:


SAUDADE

Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... O caburé com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
a saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de Dor do Pensamento
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas de névoa sobre a serra.

Saudade! O Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando... E ao longe,
o mugido dos bois da minha terra...


A MOENDA

Na remansosa paz da rústica fazenda,
à luz quente do sol e à fria luz do luar,
vive, como a expiar uma culpa tremenda,
o engenho de madeira a gemer e a chorar.
Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
e, ringindo e rangendo, a cana a triturar,
parece que tem alma, advinha e desvenda
a ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...
Movida pelos bois tardos e sonolentos
geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.
Ai, dos teus tristes ais, ai, moenda arrependida
- Álcool! para esquecer os tormentos da vida
- e cavar, sabe Deus, um tormento maior!


            O poema ormpço, “Saudade”, por exemplo, agrupa um conjunto de recursos fonoestilísticos e musicais de uma maneira virtuosística. Aliás, “virtuosismo melopoético” é uma expressão que se coaduna muito bem ao universo da poesia dacostiana. Algumas vezes, o poeta chega mesmo a exagerar (como na seção Poemas da fauna, em “Zodíaco”), transformando um recurso literário em uma espécie de truque lingüístico. O poema “Saudade” expressa – através de uma série de imagens dispostas de maneira quase que cinematográfica e num um ritmo lento, arrastado – uma intensa melancolia, este sentimento tão peculiar à nossa cultura de tradição lusitana. Para tanto, o poeta se utiliza de várias pausas, reticências, suspensões, orações gerundiais, assonâncias – métodos que tornam os versos largos (no sentido musical do termo), como as frases musicais de duração longa. E de fato – como nos mostra os estudos musicológicos da canção, em especial as investigações na área da semiótica – as frases musicais de durações longas geralmente estão associadas à melancolia, à tristeza e à solidão. Um distanciamento entre sujeito e objeto.

            O que realmente nos impressiona nesse soneto é o equilíbrio entre imagem/ som/ sentido que Da Costa e Silva conseguiu atingir. Não raro, observamos que o sentimento de melancolia e saudade é tratado de maneira piegas pela nossa poesia e, mais ainda, pela nossa música popular. Da Costa e Silva conseguiu expressar a saudade pela sua terra natal de maneira extremamente rica e balanceada: as imagens soltas (o olhar de minha mãe rezando, o caburé com frio, as folhas lívidas ao vento, as mortalhas de névoa sobre a serra) se mesclam com o ritmo expressivo e com a sonoridade medida e pesada de cada palavra. A própria musicalidade do poema e a sugestão de suas imagens já nos impregnam de melancolia e de sentimento de perda e distanciamento das coisas. Em uma leitura em voz alta desse poema é possível ouvirmos os sons do vento (gemidos vãos de canaviais ao vento), sentirmos o fluxo ininterrupto de um rio (cantigas de águas claras soluçando), sentirmos a dureza de um sentimento pela própria “dureza sonora” do verso (Saudade! asa de dor do pensamento). Todas estas colocações parecem corroborar o conceito de Paul Valéry, para quem a poesia é “a hesitação entre som e sentido”.


Em “A Moenda”, o primeiro recurso que nos chama a atenção é a repetição insistente da consoante alveolar r. Esta consoante cria um efeito fônico muito sugestivo, já que está presente em grande parte dos versos. O ruído simboliza a sonoridade ríspida da moenda, o seu “choro” e “gemido”, como nos diz o poeta. O efeito onomatopaico fica mais claro na segunda estrofe:

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
e, ringindo e rangendo, a cana a triturar

O ritmo fônico deste verso é gerado pela sonoridade constante da consoante vibrante e da fricativa g. Em relação ao uso das vogais, observamos que a seqüência das nasais imprime no texto um ritmo arrastado e uma sonoridade mais fechada. Vejamos também que a pontuação (vírgula e ponto-e-vírgula) contribui mais ainda para engendrar a sensação de lentidão do poema. A cadência rítmica criada sugere o próprio movimento de uma moenda, “movida pelos bois tardos e sonolentos”. “A Moenda” é um poema cujo ritmo e sonoridade, a todo o momento, nos proporcionam uma sensação de dureza, de cansaço. Os adjetivos e substantivos escolhidos pelo poeta estão intimamente concatenados com os elementos estruturais: tristes, arrependida, sonolentos, doridos lamentos, ruína, dor, desgraça. Observamos que o escritor procura harmonizar o ritmo fônico com a semântica, o que dá unidade ao texto poético.

Da Costa e Silva nos apresenta – através de uma linguagem rica em efeitos onomatopaicos, assonâncias e aliterações, mudanças rítmicas repletas de sutilezas, modulações melódicas de grande expressividade – uma moenda personificada, que geme, chora e parece ter alma. Um engenho de madeira carregado de ruídos que compõem uma estranha música. Esta musicalidade que simboliza a própria “coisa representada” no poema, como é o caso de “A Moenda”, dos poemas da Fauna e de “Saudade”, é recorrente na obra do escritor piauiense.
           
Os estudos de literatura piauiense geralmente não enfatizam as camadas estruturais e fônicas da obra do poeta de Amarante. Debruça-se muito mais em análises insipientes de poemas de menor envergadura como “Amarante”, do que mesmo em suas experiências melopoéticas mais bem realizadas artisticamente. Muito mais que “um poeta telúrico que canta as belezas de sua terra natal”, Da Costa e Silva é um arquiteto do verso, um engenheiro que experimenta incansavelmente as potencialidades musicais da palavra.



Alfredo Werney é músico, pesquisador e arte-educador. Autor do livro “Reencantamento do mundo: notas sobre cinema”.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A imagem da conquista

[Adriano Lobão Aragão]



“Estamos arriscados a ser o primeiro povo da história que conseguiu tornar suas ilusões tão vívidas, tão persuasivas, tão ‘realistas’, que é capaz de viver dentro delas”, assim afirmava o historiador e sociólogo americano Daniel J. Boorstin em seu livro The Image, publicado, na primavera de 1962. Boorstin discutia os modernos meios de comunicação de massa, a suplantação da racionalidade da palavra escrita por uma variedade estonteante de imagens gráficas e eletrônicas, e suas consequência nos valores, expectativas e visão de mundo no amplo público que atingiam. Eis que Clint Eastwood, famoso por atuar como o policial 'Dirty' Harry Callahan na série de filmes das décadas de 1970 e 1980, e principalmente como o “Homem sem nome” dos antológicos westerns spaghetti de Sergio Leone, nos anos 60, acrescentou à sua filmografia (que nas últimas décadas também incluem a direção), um instigante mergulho na necessidade de persuasão que o poder público faz uso para atender suas necessidades através da imagem pública.  

Produzido por Steven Spielberg e pelo próprio Eastwood, “A Conquista da Honra” (Flags of our fathers, EUA, 2006) não é, essencialmente, um filme de guerra, tampouco a visão americana do conflito em Iwo Jima, durante a II Guerra Mundial, que se contrapõe a uma visão japonesa apresentada em “As Cartas de Iwo Jima” (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), realizada simultaneamente por Eastwood. A princípio, poderia ser a reutilização de um recurso que pode ser visto em “O Mais Longo dos Dias” (The Longest Day, 1962), dirigido por Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki, abordando o desembarque dos aliados na Normandia a partir dos dois lados em conflito, mas Eastwood quis ir além da mera documentação histórica, da representação/encenação do combate. “A Conquista da Honra” volta-se para algo maior, mais abrangente e fundamental para a construção da vida contemporânea, não apenas ocidental: o poder da imagem.
 
Essa visão torna-se mais relevante nos dias atuais que em 1944, numa sociedade cada vez mais voltada para a estética iconográfica. É o contraste entre a aparência e a essência, entre o real e o simbólico que interessa a Eastwood. E sobretudo para os propagandistas militares americanos, que precisam de dinheiro para continuar uma guerra que, segundo suas próprias palavras apresentadas no filme, durou mais do que deveria (o que corresponde a dizer que "gastou-se mais do que deveria"). Mas, a partir da imagem de seis soldados fincando uma bandeira no alto de uma montanha japonesa, as pessoas estariam dispostas a patrocinar aquela guerra, pois não estariam comprando bônus de guerra do exército, mas investindo em heróis que, com certeza, trariam a vitória. Aquela foto era mais que uma esperança, era uma garantia. A controvérsia das bandeiras, a morte de diversos soldados, a tênue linha entre a homenagem e o anonimato, juntamente com a angústia de Reyes, o soldado indígena, o altruísmo de Doc e o senso oportunista de René, nos remetem a uma nova história sobre uma bandeira e seus frágeis personagens, uma história muito mais instigante e sincera que a história oficial, recontada por Eastwood em seu habitual estilo sóbrio e equilibrado, como uma reminiscência do que Hollywood já teve de clássico. Mas há um senão: o final ancora-se excessivamente na necessidade de um narrador, arrastando-se demais. Essa indeterminação de encerrar a película é uma característica recorrente em outros filmes de Eastwood, como “A Troca” (Changeling, 2008) e “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby, 2004), mas felizmente não chega a comprometer a relevância e a harmonia de suas obras. Talvez porque, acima de tudo, Eastwood é um cineasta necessário em um mundo cada vez mais dominado pela imagem vazia, mas altamente persuasiva, que marca fundamentalmente nossa contemporaneidade.

sábado, 13 de novembro de 2010

o tempo as fotografias

[Adriano Lobão Aragão]


em tempo: antigo passeio fixado em sépia    
de bordas um dia brancas agora amareladas
de data em um canto auxílio da memória
em torno do que ainda é possível lembrar

em tempo: olhando o olhar de outrora
a vida para um instante para a pose



[in as cinzas as palavras, 2009]

sábado, 6 de novembro de 2010

inútil poema

[Adriano Lobão Aragão]
quando o poema
é inútil
a inutilidade me desusa
pra coisas úteis
por isso gosto tanto
do desfazer poético

espero que me incompreendam

apoéticos pensam que ser poeta
é uma coisa boa
...



[in Uns Poemas, FCMC, 1999]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Deus e o Diabo no Reino deste Mundo

[por Adriano Lobão Aragão]





É bastante sintomático que o dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635) tenha posto na boca do demônio a afirmação de que a América, ainda não possuída pelo europeu, há muito lhe pertencia, e que questionasse o motivo de para o novo mundo terem enviado Colombo. E a história transcorrida no continente desde então não se desvencilhou de seus aspectos míticos e, quase sempre, emaranhados entre o sonho de um paraíso perdido e a aspereza de um inferno terrestre, onde ser humano implica, por diversas vezes, clamar a Deus e ao Diabo. Ao iniciar a primeira parte de O reino deste mundo (Martins Martins Fontes, 2009), é justamente o fragmento de Lope de Vega que o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) toma por epígrafe para sua obra, que aborda a vida do escravo Ti Noel em meio ao processo de independência do Haiti. No prólogo, Carpentier define a própria história da América Latina como o real maravilhoso, em franca oposição com o universo europeu, como uma história que somente poderia se passar no hibridismo cultural do Novo Mundo. 

O crítico literário Harold Bloom, em seu livro Gênio (Objetiva, 2003), observa que “a idéia de que latino-americanos, seja em Cuba, na Colômbia, ou em qualquer outro local, vivem uma realidade mais mágica do que, digamos, os habitantes de Manhattan, é dúbia. É possível que os gênios de Borges, de Carpentier, de García Marquez nos convençam do contrário, enquanto nos encontramos no interior de suas narrativas, mas delas emergimos com novas dúvidas, tanto de natureza metafísica quanto psicológica.” Uma dualidade que a narrativa condensada de Carpentier parece herdar do barroco, acumulando ainda um hibridismo que não seria apenas uma interseção entre Europa e América, Civilização e Barbárie (ou melhor, no caso do Haiti, uma tríplice interseção que incluiria também e, sobretudo, a África), mas os eventos relativos à independência da ilha caribenha constituem justamente uma negação do próprio ambiente híbrido que se desenvolveu na América, onde colonos franceses haviam tomado posse para a construção de algo que não seria nem Europa, nem África, nem mesmo o que fora a América até a sua posse. Mas que aspecto poderia tomar a independência haitiana, em seu pioneirismo libertário numa terra governada pelo signo da dualidade? Carpentier nos apresenta continuamente um ciclo, como as metamorfoses que o personagem Mackandal vivenciou até retomar sua forma humana, destroçada pelo trabalho com os brancos de maneira visível e irremediável, faltando-lhe o braço esquerdo. E Ti Noel, muitos anos depois, também vivenciaria seu ciclo de metamorfoses. Da mesma maneira que a população negra manteria vivo Mackandal na ordem do imaginário, a própria África permaneceria pulsando em sua ânsia de retornar ao continente original sem abandonar a posse da nova terra. E repetir em prol do novo a mesma opressão de dominadores e dominados. Resta-nos, portanto, observar como a peculiar e dinâmica narrativa de Carpentier recria a transição haitiana de colônia francesa, sob dominação branca, para uma nação negra regida pelo primeiro monarca coroado no Novo Mundo; e como a revolução mergulha numa barbárie através do terror. Novamente, eis o interminável ciclo do Reino deste Mundo.

Curiosamente, Alejo Carpentier apoiou a ditadura de Fidel Castro, e foi enterrado em Cuba, com honras de chefe de Estado, embora sua magnífica literatura estivesse voltada para o absurdo do autoritarismo e a decadência das revoluções. Na vida e na obra, temos o signo da dubiedade, como na descrição da segunda rebelião dos escravos haitianos, liderada pelo jamaicano Bouckman, quando “cercaram as casas dos capatazes, apoderando-se das ferramentas. O guarda-livros, que aparecera de pistola em punho, foi o primeiro a tombar, a garganta cortada de um lado ao outro com uma espátula de pedreiro. Após banharem os braços no sangue do branco, os negros correram em direção à casa-grande, gritando morte ao senhor, ao governador, a Deus e a todos os franceses do mundo. Porém, compelidos por velha sede, a maioria correu para a adega, em busca de bebida alcoólica.” No decurso da rebelião, Ti Noel subirá com os filhos para o primeiro andar da casa, pois “havia tempo sonhava em estuprar Mlle. Floridor”, e deixará a jovem “atirada sobre o tapete, pernas arreganhadas e uma foice enterrada nas entranhas.” Ao que parece, o demônio de Lope de Vega tinha razão. 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina-PI, 02 de novembro de 2010]