quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Deus e o Diabo no Reino deste Mundo

[por Adriano Lobão Aragão]





É bastante sintomático que o dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635) tenha posto na boca do demônio a afirmação de que a América, ainda não possuída pelo europeu, há muito lhe pertencia, e que questionasse o motivo de para o novo mundo terem enviado Colombo. E a história transcorrida no continente desde então não se desvencilhou de seus aspectos míticos e, quase sempre, emaranhados entre o sonho de um paraíso perdido e a aspereza de um inferno terrestre, onde ser humano implica, por diversas vezes, clamar a Deus e ao Diabo. Ao iniciar a primeira parte de O reino deste mundo (Martins Martins Fontes, 2009), é justamente o fragmento de Lope de Vega que o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) toma por epígrafe para sua obra, que aborda a vida do escravo Ti Noel em meio ao processo de independência do Haiti. No prólogo, Carpentier define a própria história da América Latina como o real maravilhoso, em franca oposição com o universo europeu, como uma história que somente poderia se passar no hibridismo cultural do Novo Mundo. 

O crítico literário Harold Bloom, em seu livro Gênio (Objetiva, 2003), observa que “a idéia de que latino-americanos, seja em Cuba, na Colômbia, ou em qualquer outro local, vivem uma realidade mais mágica do que, digamos, os habitantes de Manhattan, é dúbia. É possível que os gênios de Borges, de Carpentier, de García Marquez nos convençam do contrário, enquanto nos encontramos no interior de suas narrativas, mas delas emergimos com novas dúvidas, tanto de natureza metafísica quanto psicológica.” Uma dualidade que a narrativa condensada de Carpentier parece herdar do barroco, acumulando ainda um hibridismo que não seria apenas uma interseção entre Europa e América, Civilização e Barbárie (ou melhor, no caso do Haiti, uma tríplice interseção que incluiria também e, sobretudo, a África), mas os eventos relativos à independência da ilha caribenha constituem justamente uma negação do próprio ambiente híbrido que se desenvolveu na América, onde colonos franceses haviam tomado posse para a construção de algo que não seria nem Europa, nem África, nem mesmo o que fora a América até a sua posse. Mas que aspecto poderia tomar a independência haitiana, em seu pioneirismo libertário numa terra governada pelo signo da dualidade? Carpentier nos apresenta continuamente um ciclo, como as metamorfoses que o personagem Mackandal vivenciou até retomar sua forma humana, destroçada pelo trabalho com os brancos de maneira visível e irremediável, faltando-lhe o braço esquerdo. E Ti Noel, muitos anos depois, também vivenciaria seu ciclo de metamorfoses. Da mesma maneira que a população negra manteria vivo Mackandal na ordem do imaginário, a própria África permaneceria pulsando em sua ânsia de retornar ao continente original sem abandonar a posse da nova terra. E repetir em prol do novo a mesma opressão de dominadores e dominados. Resta-nos, portanto, observar como a peculiar e dinâmica narrativa de Carpentier recria a transição haitiana de colônia francesa, sob dominação branca, para uma nação negra regida pelo primeiro monarca coroado no Novo Mundo; e como a revolução mergulha numa barbárie através do terror. Novamente, eis o interminável ciclo do Reino deste Mundo.

Curiosamente, Alejo Carpentier apoiou a ditadura de Fidel Castro, e foi enterrado em Cuba, com honras de chefe de Estado, embora sua magnífica literatura estivesse voltada para o absurdo do autoritarismo e a decadência das revoluções. Na vida e na obra, temos o signo da dubiedade, como na descrição da segunda rebelião dos escravos haitianos, liderada pelo jamaicano Bouckman, quando “cercaram as casas dos capatazes, apoderando-se das ferramentas. O guarda-livros, que aparecera de pistola em punho, foi o primeiro a tombar, a garganta cortada de um lado ao outro com uma espátula de pedreiro. Após banharem os braços no sangue do branco, os negros correram em direção à casa-grande, gritando morte ao senhor, ao governador, a Deus e a todos os franceses do mundo. Porém, compelidos por velha sede, a maioria correu para a adega, em busca de bebida alcoólica.” No decurso da rebelião, Ti Noel subirá com os filhos para o primeiro andar da casa, pois “havia tempo sonhava em estuprar Mlle. Floridor”, e deixará a jovem “atirada sobre o tapete, pernas arreganhadas e uma foice enterrada nas entranhas.” Ao que parece, o demônio de Lope de Vega tinha razão. 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina-PI, 02 de novembro de 2010]

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