terça-feira, 31 de julho de 2012

Tarântulas e erotismo

[Adriano Lobão Aragão]







Dei pra mal dizer é a mais nova criação do Grupo Tarântula, que envolve os contistas J.L. Rocha do Nascimento, Airton Sampaio e M.de Moura Filho. Tendo o erotismo como temática comum, o livro apresenta-se divido em três partes, “Fesceninos”, de autoria de J.L., “Favoritas.com”, de Airton Sampaio, e “Pecadilhos”, de Moura Filho. Após a leitura da obra em questão, conversei com os Tarântulas sobra sua produção e os desafios do erotismo literário.


Adriano Lobão Aragão - O volume de contos Dei pra mal dizer revela uma reunião de três livros com temáticas afins. Que semelhanças e diferenças vocês apontariam entre si?

M. de Moura Filho - Duas semelhanças eu destaco: o erotismo e o tratamento exaustivo dado aos textos por todos os autores para que, ao final, não descambassem para a pornografia. Há várias diferenças: estilo de cada autor e a abordagem do tema, a ponto de se permitir a leitura de que o livro é composto, em verdade, por três livros; a intensidade do erotismo imposto nos contos também por cada autor.

Airton Sampaio - Várias diferenças, em níveis diversos de complexidade, sendo uma perceptível a olho nu: a extensão dos contos, que vão dos mais extensos, de JL Rocha do Nascimento, passando pelos menos expandidos, de Airton Sampaio, aos microcontos, de M de Moura Filho. Todos, acredito, com qualidades semelhantes. 

J.L. Rocha do Nascimento - Certamente. O livro é uma espécie de "três em um". Se fosse um produto descartável, cada terça parte poderia ser vendida separadamente. O que há de comum, além da temática: o esforço individual de conferir ao tema um tratamento estético. Em termos de qualidade, penso que os contos se encontram nivelados. Diferenças: o estilo pessoal de cada um dos contistas; o grau de intensidade do erotismo, em escala decrescente. Por fim, nos meus contos há uma relação de circularidade, um permanente diálogo entre eles; a rigor, é uma única história com as mesmas personagens, cenário, tempo e o espaço. Os contos de Airton Sampaio estão dispostos lado a lado, mas num sentido vertical, são sete personagens diferentes, cenários diferentes etc. Por fim, os contos de M. Moura Filho  estão em linha horizontal, a ligação entre eles decorre de um viés comum: os pecados capitais.


Adriano - Direta ou indiretamente, o erotismo é tema recorrente na literatura. Como surgiu a ideia de publicar um livro especificamente erótico?

J.L. - De fato, é recorrente. A experiência mais antiga que este lado ocidental tem conhecimento é o livro Gênesis, da Bíblia. A  ideia de publicação surgiu a partir do reencontro do Grupo Tarântula e da criação do blog confrariatarantula. A opção monotemática resultou da necessidade de se conferir uma unidade ao livro, por se tratar de uma obra coletiva. A temática erótica foi uma escolha dentre várias outras examinadas. A deliberação foi democrática. Influenciou o fato de se tratar de um tema, ainda que recorrente, interdito, além de representar um desafio no sentido de trabalhar o mesmo na ponta dos dedos, com rigor, sem fazer concessões.

Airton
- Como tínhamos os pés firmes no chão, foi delicioso correr o risco de nos equilibrar na tênue linha que separa o erótico do pornográfico, não se interditando, em princípio, nenhuma palavra, pois todas, quando esteticamente empregadas, se equivalem. Outro motivo foi palmilhar uma temática cercada de vedações e preconceitos, embora não haja ser humano nenhum que não seja erótico, até porque o ser humano é o único animal erótico que existe. Em terceiro lugar, ficou provado para nós que literatura não é tema, mas linguagem estetizada, seja sobre o que for, inclusive sobre nada.

Moura Filho - O lançamento de “Geração de 1970 no Piauí: contos antológicos”, organizado por Airton Sampaio, fez ressurgir o Grupo Tarântula de Contistas.  A partir de então, decidiu-se pelo lançamento de uma coletânea, e vejo que a eleição do erotismo deu-se no sentido de se buscar mesmo uma identidade comum a todos os contos; pelo desafio de trilhar por tema tão próximo da pornografia. Além do mais, para um grupo que, no passado, impôs um contística urbana na literatura manufatura no Piauí, um volume de contos eróticos teria uma expressão inovadora assemelhada.


Adriano - Todos os contos foram escritos especialmente para o livro ou já havia produção anterior?

Airton - No meu caso, os sete contos foram escritos para o livro, unificados pela ideia de que as sete personagens-título (Aspásia, Beja, Laís, Lola, Lucíola, Olímpia) remetem a célebres cortesãs, à exceção de Alice, uma Lolita.

J.L. - Não, não havia produção anterior. Definida a temática, partimos do zero. O que também fazia parte do desafio. Trata-se, vamos dizer assim, de um livro feito por 'encomenda' pelos próprios autores.

Moura Filho - Desde que extinto o Grupo Tarântula de Contistas, não produzi sequer um único conto. Estava apenas envolvido com o trabalho que me remunera regularmente. A minha retomada ao conto deu-se com a criação do blog Confraria Tarântula (www.confrariatarantula.blogspot.com.br). De sorte que, efetivamente, todos os contos foram escritos especialmente para o livro.


Adriano - Durante a divulgação do livro, houve algum tipo de controvérsia por conta do erotismo?

Moura Filho - Em absoluto. A divulgação do livro deu-se, basicamente, por página criada no Facebook: https://www.facebook.com/DeiPraMalDizerContosEroticos. Visitando-a, ver-se-á um frenesi pelo lançamento do livro — tanto que o lançamento na ADUFPI foi um sucesso, além das expectativas dos coautores.

J.L. - Controvérsia, no sentido de discussão ou polêmica, creio que não. Houve sim as mais variadas reações. Como a divulgação, pelo menos no meu caso,  foi feita mais no corpo a corpo, no dia a dia, deparei-me com expressões de surpresa, incredulidade, ironia, perplexidade e de desconhecimento da diferença existente entre o erótico e o pornográfico, enfim. Uma certa pessoa (de formação, esclarecida) chegou a dizer que não imaginava pudesse um magistrado ser escritor, muito menos escrever ficção erótica. Foi difícil convencê-la de que o juiz/professor e o escritor operam em estações diferentes.

Airton - No lançamento do livro, por exemplo, houve quem se retirasse do evento quando o ThiagoE recitou poemas hipereróticos de Arnaldo Antunes... Uma aluna (21 anos!) minha não foi ao lançamento porque os pais proibiram... Um leitor, desses para quem sovaco só serve se for axila, me disse na lata que precisamos é de uma boa ditadura para proibir livros como Dei Pra Mal Dizer... O MELHOR, porém, é que ELAS, sempre mesmo mais sensíveis, adoraram! 


Adriano - Vocês fazem alguma distinção entre erotismo e pornografia?

Airton - Há diferenças, porque o pornográfico não se pretende estético e não enriquece o repertório intelectual do receptor, que reage apenas física e fisiologicamente. Dou um exemplo: meus contos em Dei pra Mal Dizer podem despertar o interesse pelo conhecimento de quem são as cortesãs com que os nomeio e, se fizerem isso, vão se surpreender quanta história há protagonizadas por essas mulheres consciente, e poderosamente, eróticas. É claro que há, como em tudo, zonas cinzentas, mas o dado estético aclara as brumas. O que é lamentável é que geralmente as avaliações do texto erótico são moralistas, não estéticas. Essas eu desconsidero e tenho dó das mentes que a fazem, porque em geral são pessoas pornográficas, inclusive politicamente. Não é nada incomum corruptos se arvorarem em paladinos da  moral e dos bons costumes. Não conhecem estéticas, os infelizes, nem, muito menos, o grau máximo da estética: a ética.

J.L. - Acredito que sim. DEI PRA MAL DIZER, a partir de sua concepção inicial, foi construído com essa preocupação: a de demarcar os espaços, de separar o erotismo da pornografia. Optamos pelo erotismo, mesmo cientes de que em determinadas circunstâncias pode existir uma verdadeira zona cinzenta em decorrência da qual nem sempre é possível fazer a distinção.

Moura Filho - Com efeito, é muito mais fácil a elaboração de um texto pornográfico: basta preocupar-se unicamente com o sexo em seu estado bruto. O texto erótico exige do autor elaboração estética. Acho que, fundamentalmente, essa é a distinção.


Adriano - É possível existir alguma forma de "pornografia artística"?

J.L. - Pessoalmente, tenho dificuldade de conferir um tratamento estético ao tema.

Moura Filho - Não creio que seja possível a existência de uma pornografia artística. Contudo, é evidente que textos pornográficos existem que, historicamente, quer pelo período em que publicados, quer pela crueza no trato do sexo, ou pelo inusitado, tornaram-se relevantes para as artes, notadamente na literatura.

Airton - A pornografia e o erotismo são dados semióticos. Assim, se alguém "faz amor" ou "transa" pode não ser considerado pornográfico, pelo menos não tanto quanto quem "trepa". A cabeça da recepção e a cultura em se está imerso são fundamentais nessa definição, pois uma "pornografia artística" nada mais seria que um super-hiperotismo com elementos estéticos presentes. Ou seja, se o relato foca apenas o sexo pelo sexo, não há preocupação estética, assim como não a tem a violência pela violência. É preciso alguma transcendência, ainda que mínima.


Adriano - Moura Filho, foi difícil fugir dos clichês ao utilizar-se da referência aos pecados capitais?

Moura Filho - Estabeleceu-se, quando se discutiu a coletânea, que cada um dos contistas apresentaria sete contos. Daí a minha opção pelos sete pecados capitais, para criar uma unidade, imprimindo, em cada um os vícios que se contrapõem à adoração de Deus, o sexo — a luxúria é o único pecado capital que se relaciona com o sexo.  Houve, sim, uma certa dificuldade para fugir dos clichês. Mas tal fato, creio, valorizou os textos. Dou como exemplo a inveja, que é relacionada sempre a outra pessoa, enquanto no meu texto, a personagem tem inveja de si mesma, em virtude da velhice.

Adriano - Airton, quais as principais dificuldades ao utilizar a intertextualidade em textos eróticos? 

Airton - Há que ter o cuidado de não se quebrar o clima erótico com o dado intertextual. Por exemplo, num dos meus contos, o personagem tem como alerta de chamada do seu celular uma canção erótica de Chico Buarque, que pusera (isso fica implícito) como alerta do seu celular após ela deixar a letra da música como um bilhete de despedida enquanto ele ainda dormia. Essa intertextualidade não se deu, é claro, em pleno ato sexual, o que seria incabível, a não ser se a intenção fosse humorística...

Adriano - J.L., em “Dei pra mal dizer”, seus contos apresentam uma correlação entre si, como uma continuidade?

JL - Sim. Como já dissera antes, entre eles há uma relação de circularidade, um diálogo permanente. A trama é dividida em 05 partes. A primeira delas anuncia a ação futura (PRELÚDIO); segue-se um flashback (FORMAÇÕES ROCHOSAS); em seguida, as duas ações principais (MORANGOS SILVESTRES e CABRA-CEGA). E o ciclo se fecha tragicamente com FINALE. QUARTO DE MILHA e BUTIM são cenas que podem ser retiradas e/ou encaixadas em qualquer das duas ações principais, por isso mesmo foram deslocados para depois de FINALE, como se fossem uma espécie de bônus, cenas extras ou excluídas, na linguagem do cinema.
    


[trechos desta entrevista foram publicados no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, em 31 de julho e 14 de agosto de 2012]

quarta-feira, 25 de julho de 2012

dEsEnrEdoS 14





 
editorial



A cada dia, a quantidade de publicações dedicadas à arte, cultura e literatura vem aumentando bastante pela internet e pela publicação impressa. Se é absolutamente necessário que esse número continue em expansão, sobretudo se pensarmos nas dimensões continentais deste país, é natural e igualmente necessário que cada publicação busque a cada edição consolidar e extrapolar seu diferencial, sua voz própria em meio a um mosaico de vozes, tendências e ideais. Três anos depois de nossa primeira edição, continuamos um trabalho voltado para a construção de diálogos entre a produção literária e a crítica, entre o ensaio e o artigo acadêmico, entre a tradução e a tradição, entre a vanguarda e o regionalismo. Dialogando com a música, Floriano Martins conversou com o músico Graco Braz Peixoto. Um outro músico, o guitarrista Láryos Lima nos revela seu diálogo com a fotografia, ilustrando nossa capa e a seção galeria. Entre ensaio, resenhas e artigos, encontramos cinema, cultura popular, literatura, mitologia, letras clássicas e contemporâneas, regionalismos e arabescos. Acreditamos que seja essa a nossa vereda, encontrar a unidade na multiplicidade. Se acertamos ou não, o mais  importante é continuar trabalhando. E por falar em trabalho, a partir desta edição, a equipe de dEsEnrEdoS conta com mais um membro em seu conselho editorial, Fábio Galera, que há algum tempo já colaborava com artigos. E o diálogo continua na próxima edição.

  
Os Editores 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

nem úmido nem líquido falar

[adriano lobão aragão]



nem úmido nem líquido falar
quando ao banho de passarinho olhamos
se de areia se faz sua água e seu molhar
mas ainda assim se seca em seco banho

nem úmido nem líquido falamos
quando ao banho de passarinho olhar
se de areia faz a água de seu banho
mas ainda em seco seca o seu molhar




[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Os Poemas de Ovídio Saraiva


[Adriano Lobão Aragão]


Próximo ao litoral piauiense, encontrava-se a Vila de São João da Parnaíba, que segundo o ouvidor-geral Antonio José de Morais Durão, tinha, em 1774, uma população de 2.694 pessoas, distribuídas em 444 fogos, residências familiares, 79 fazendas e 500 sítios. Nasceria nessa vila, em 1787, o poeta Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, filho de Antônio Saraiva de Carvalho e Margarida Rosa da Silva. Segundo Maria do Socorro Rios Magalhães, em Literatura Piauiense, horizontes de leitura e crítica literária (1900-1930), o analfabetismo era generalizado e às famílias abastadas só cabia enviar seus filhos aos maiores centros ou valer-se da figura do mestre-escola negro, alforriado e proveniente da Bahia, para ensinar-lhe as primeiras letras, pois não havia ensino regular. Dessa maneira, Ovídio Saraiva permaneceria somente seis anos no Piauí, sendo enviado pelos pais, em 1793, para iniciar seus estudos em Portugal. Em um de seus sonetos, faz referência a seu exílio.

“E contando anos seis”, Ovídio foi enviado pelos pais a Portugal. Os versos declarando que, longe da remota vila no Piauí, o destino anunciado pelo Mocho, ave de rapina noturna menor que a coruja, seria morrer é mais reflexo de uma temática constante em seus versos que sentimento telúrico. Na realidade, o exílio foi determinante para sua vida, e não para a morte, pois em 1805 estava matriculando-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra.

Seu livro, Poemas, foi publicado na Imprensa da Universidade de Coimbra em 1808, mesmo ano em que Dom João VI transfere-se com a corte portuguesa para o Brasil, em virtude do cerco de Napoleão. Concluiria seu curso em 1811. No ano seguinte, é nomeado juiz na cidade de Mariana, Minas Gerais, e entre 1816 e 1819, em Nossa Senhora do Desterro, Santa Catarina. Embora sua poesia seja por muitos considerada Neoclássica, a formação literária de Ovídio, realizada em Portugal, possui uma nítida tendência pré-romântica expressa em seu anseio pela morte, tendo uma declarada influência de Bocage.

Uma vez estabelecida a independência, temos a busca dos valores nacionais que tanto caracterizou a 1.ª Geração da poesia romântica brasileira. A abdicação de Dom Pedro I, em 1831, marca o primeiro hino nacional brasileiro, Ao Grande e Heróico 7 de Abril de 1831, tendo letra escrita por Ovídio Saraiva. Nesse hino, os portugueses, tão venerados em Poemas, são agora tidos por “monstros”. Além disso, menciona preconceituosamente o sangue judaico e mouro, gerador de “homens bárbaros”. D. Pedro II é anunciado como um futuro monarca realmente brasileiro, após “uma prudente regência”. Dessa maneira, fica patente que o reinado de D. Pedro I era visto como um prolongamento da dominação portuguesa, em transição para a “independência verdadeira”. D. Pedro I, após a abdicação, assumiu o trono de Portugal.

Poemas não constitui um grande momento da literatura nacional, nem expressão de valores piauienses, sobretudo pelas condições culturais, sociais e políticas da província na época e do poeta ter tido uma formação cultural lusitana. Seu livro encontra influências na literatura portuguesa, notadamente Bocage, que Ovídio adotou como modelo poético. Da mesma maneira que o poeta português oscila entre o Neoclassicismo e um Pré-Romantismo, os poemas de Ovídio também buscam essa mesma tendência. Somente em 1825 o Romantismo iria surgir em Portugal, através de Almeida Garrett, com seu poema Camões, embora já existisse desde o século XVIII, na Alemanha e na Inglaterra. De qualquer forma, Bocage e seus seguidores enquadram-se num período em que a poesia portuguesa estava em transição para o Romantismo, resultando daí esse Pré-Romantismo, onde alguns valores do Arcadismo coexistem com aspectos românticos, como a morbidez configurada na morte, no desejo de morrer, no ambiente noturno e na angústia, mesmo que sendo convencionalismo e fingimento poético. Inserido nesse contexto, temos a poesia de Ovídio.

O primeiro poeta nascido em solo piauiense morreria a 11 de janeiro de 1852, na Vila de Piraí, na província do Rio de Janeiro. Atualmente, é nome de rua no Rio de Janeiro e patrono da cadeira n.º 27 da Academia Parnaibana de Letras. Em 1989, a Universidade Federal do Piauí, UFPI, publicou a segunda edição de Poemas, a partir de cópia enviada da Biblioteca Nacional de Lisboa pelo então embaixador Alberto da Costa e Silva, filho do poeta piauiense Da Costa e Silva. Não se trata de uma obra-prima, mas para valorizar nossa cultura literária, é preciso rever suas raízes, mesmo que tão presas aos moldes portugueses e à carência de leitores.



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 10 de julho de 2012]