terça-feira, 29 de maio de 2012

A posse da memória





Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.” (S. Bernardo, edição de 2008, p.7)

Paulo Honório, protagonista e narrador de S. Bernardo, inicia a narrativa de sua vida pela gênese material da própria obra em questão. É preciso esclarecer, antes de história propriamente dita, as circunstâncias que permearam a redação de seu livro. Mais que a construção de um personagem, Graciliano Ramos destila a criação de um narrador, fundamental elemento para o desenvolvimento do romance. É certo que a proposta para divisão do trabalho como elemento condutor do livro foi uma experiência malfadada, mas bastante reveladora de certas limitações e características peculiares ao narrador Paulo Honório. A visão do outro como objeto, tão significativa para compreender o vazio que irá se apoderou do protagonista, já se manifesta em sua proposta inicial de trabalho para a realização da obra, na qual após o labor de seus convocados para a realização dos planos do narrador, Paulo Honório se encarregaria das despesas e, claro, teria seu nome, e apenas seu nome, figurado na capa. As funções de tais asseclas, rigidamente estabelecidas pelo narrador, tornam-se mais claras logo adiante, onde lemos: “Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me fervilhavam na cabeça. O resultado foi um desastre.” (p.8-9)

Ora, para que tal empreitada fosse efetivamente um fiasco, pelo menos aos olhos de Paulo Honório, bastava que algo não fosse realizado de acordo com suas determinações. No caso, a linguagem empolada de Gondim, vista pelo narrador como “pernóstica”, “safada” e “idiota”, “tão cheia de besteiras” que o levou a bradar: “– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço.” (p.9) Tornava-se evidente que, como manifestação íntima de suas angústias, expressáveis somente através de sua própria linguagem, Paulo Honório encontrava-se sozinho com seus demônios, e sua materialização em literatura nem sua autoridade nem a firmeza de sua índole, muito menos seu dinheiro, poderiam efetivar. “Afinal foi bom livrar-me da cooperação do padre Silvestre, de João Nogueira e do Gondim. Há fatos que eu não revelaria, cara a cara, a ninguém. Vou narrá-los porque a obra será publicada com pseudônimo. E se souberem que o autor sou eu, naturalmente me chamarão potoqueiro.” (p.12)

Lembremos que, na abertura do romance, o narrador indica que poria seu nome, Paulo Honório, na capa. Em seu projeto inicial, fruto de trabalho coletivo sob sua orientação, talvez até lhe fosse possível estampar sua identidade, entretanto o que haveria de Paulo Honório nessa suposta obra, além das letras que compõe seu nome? Numa segunda empreitada, sozinho em seu labirinto de remorsos, para revelar o que atormenta seu ser e calcar-se no que haveria de substancial em sua vida, era-lhe preciso apagar o próprio nome. Apegar-se à falsidade de um nome para revelar a verdade de sua vida. Para efeito de análise, partamos da premissa, absolutamente fictícia, claro, de que Paulo Honório realmente publicou sua obra utilizando como pseudônimo o nome de Graciliano Ramos. Tal afirmação, absurda se apresentada para além dos limites intrínsecos da obra, mas curiosamente revela-se em consonância com a ânsia de posse que domina Paulo Honório. Incapaz de dominar a narrativa de outros personagens (Gondim, Padre Silvestre, João Nogueira), eis que toma posse da escrita efetuada pelo autor material. E nada impede que Paulo Honório não seja igualmente um falso nome cuja utilização revelaria não uma mera identidade física, mas angustiante confissão de um ego em ruínas.

Um outro aspecto do ponto de partida dessa narrativa merece atenção. Ciente de sua precária formação, incapaz de ler algo além de algumas notícias de jornal e artigos de agricultura, Paulo Honório requereu uma ajuda coletiva para escrever o livro de sua vida. Decepcionado com os resultados, inicia, ele mesmo, a redação da obra, alinhando-se a um estilo sóbrio, econômico, próximo da fala, mas sem recair ao coloquialismo rasteiro. Uma linguagem direta, reduzida ao essencial, mas justamente por isso revela-se altamente revisada e expressiva. Como que um homem tão rude e ignorante, analfabeto nas precárias condições de uma cela de cadeia aos dezoito, seria capaz de elaborar tão elevado romance? O fato é que a reflexão de sua verossimilhança pouco me interessa diante da narrativa em si, a memória de um homem rude que nomeia o romance de sua vida com o título S. Bernardo; talvez porque efetivamente a fazenda S. Bernardo lhe pertença, enquanto Madalena, sua esposa e causa maior da desestruturação de seu ser, não. Portanto, talvez sua única possibilidade de alento, após a perda da esposa (que não se deixou dominar pela rudeza do marido) seja sentir a posse de sua memória amarrada ao seu consequente ato de narrar. Talvez...   



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 29 de maio de 2012]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

COLÓQUIO/Letras



A melhor revista de literatura em língua portuguesa, a COLÓQUIO/Letras, está dispondo em seu site os textos para leitura online. Editada desde 1971, entre seus inúmeros, mas seletos, colaboradores, encontramos o que de melhor se produziu em crítica literária no idioma português: Luiz Costa Lima, José Guilherme Merquior, Eduardo Lourenço, Oscar Lopes, Jacinto Prado Coelho, Antonio Candido, João Barrento, Abel Barros Baptista, Vasco Graça Moura, Benedito Nunes etc etc etc.

Eis o endereço: http://coloquio.gulbenkian.pt/index.html

terça-feira, 15 de maio de 2012

A lavoura e o labirinto


[Adriano Lobão Aragão]



A abordagem cinematográfica de uma obra literária acompanha o cinema ao longo de toda sua história. Os exemplos são inúmeros, em suas múltiplas vertentes, sendo, em alguns casos, uma mesma obra literária abordada com grande subserviência ilustrativa e empobrecedora (Memórias póstumas, de André Klotzel, 2001) ou com audaciosa releitura alegórica (Brás Cubas, de Julio Bressane, 1985). A liberdade criadora de Bressane contrasta com a leitura pontual de Klotzel. Já o caso de Luiz Fernando Carvalho, ao abordar Lavoura arcaica, apresenta um aspecto curioso; se, à primeira vista, o delírio alegórico-visual desenvolvido no filme poderia nos remeter à vertente aqui representada por Bressane, na verdade não se distingue do esforço de Klotzel em buscar a ilustração conveniente da obra original. Em outras palavras, Bressane busca realizar uma criação a partir de uma obra literária, enquanto Klotzel realiza uma leitura pautada na montagem cinematográfica. Luiz Fernando Carvalho conduziu o olhar de suas câmeras com o livro de Raduan Nassar entre as mãos, como se a leitura do livro substituísse a criação cinematográfica.

A despeito de qualquer crítica, Lavoura arcaica é constituído por uma arregimentação bastante bem cuidada em termos de iluminação, trilha sonora, enquadramento, não deixando detalhe algum adentrar no enquadramento sem que haja uma necessária referência à construção de seu discurso fílmico. Tecnicamente, estamos diante de uma obra que salta aos olhos pelo esmero de sua linguagem estético-visual. Mas a construção desse intricado labirinto que busca emular a complexa sintaxe de longíssimos períodos da obra de Raduan Nassar revela-se repleta de armadilhas. Qual seria o saldo dessa experiência?

Em primeiro lugar, o aspecto narrativo parece secundário em relação à construção de elementos simbólicos. O íntimo de André, protagonista da obra, é mais representativo que suas ações exteriores. Deise Ellen Piatti e Acir Dias da Silva, em O discurso cinematográfico de Lavoura arcaica, afirmam que, “endo a câmera conduzida pelo fluxo de imagens que provêm do inconsciente de André, sua linguagem é impregnada de significados cujas expressões têm o valor de autênticos símbolos, porquanto expressam conteúdos ainda desconhecidos que são pontes lançadas a uma longínqua margem invisível. O símbolo significa possibilidade e início de um sentido mais amplo e elevado, que está além da nossa capacidade de compreensão naturalizada.” A representação simbólica em linguagem cinematográfica é sempre um desafio delicado para qualquer diretor, correndo constantemente o risco de realizar uma obra calcada excessivamente em si mesma, como se o desafio estilístico de representar sua simbologia imagética fosse seu verdadeiro objetivo ao invés das relações humanas ali configuradas.

A narrativa desenvolve-se a partir do fluxo de memória de André, num movimento convulsivo entre passado e presente, impregnada de carência e culpa, culminando numa vivência angustiada e devaneadora. O conturbado mundo de André, como era de se esperar, volta-se constantemente para a infância, sempre pontuando o discurso do protagonista com a linguagem utilizada, seja no livro ou no filme.

A câmera simulando a sensação do menino André, rememorada anos depois por ele mesmo, é um exemplo de marca fundamental da leitura de Carvalho: colocar a câmera e, por extensão, o espectador, na condição do protagonista. A labiríntica linguagem de Raduan é também o simulacro do estado mental de André. A linguagem delira junto ao personagem. Na criação artística, ordem e unidade se coadunam para simular o caos introspectivo e sua peculiar maneira de traduzir o mundo. Para Paul Valery (Discurso sobre a estética), “a unidade da natureza só aparece em sistemas de signos fabricados expressamente para tal fim e o universo não passa de uma invenção mais ou menos cômoda.”

Essa representação visual de uma obra intimista revela-se como um momento relevante da produção cinematográfica nacional por seu mergulho na caracterização alegórica de um universo literário que pouco se deixa apreender por uma transposição imagética ilustrativa. Ainda que para tanto, Luiz Fernando Carvalho tivesse que aliar a ousadia visual e o delírio narrativo a uma rígida leitura da obra original (trechos inteiros foram transpostos para a fala de personagens e narrador/personagem) e de uma produção técnica laboriosa e racionalizante. Ainda que se possa incutir à Lavoura arcaica a pecha de obra excessivamente cerebral, é conveniente lembrar, através de Valery, que “a razão é uma deusa que pensamos velar, mas que, na verdade, dorme, em alguma gruta de nosso espírito: aparece diante de nós, às vezes, para nos obrigar a calcular as diversas probabilidades das consequências de nossos atos.” 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 15 de maio de 2012]

sábado, 12 de maio de 2012

besouro passeia no púbis

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Poema do livro inédito FAUNA DOMÉSTICA, de Wanderson Lima
publicado no jornal O DIA, de 5-6-12, na coluna INTACTA RETINA, de Thiago E