sexta-feira, 25 de setembro de 2009

aos que aqui primeiro plantaram uma cruz onde há mortos

[adriano lobão aragão]



Lembremos hoje os nomes de Francisco
Pereira Pinto e Luís Figueira, padres
acompanhados de índios tabajaras,
seguindo a barco para Jaguaribe.
Lembremos a submissão tabajara
que fiéis guiavam os homens de fé
por lentos dias pela sombra da selva,
onde a semente européia buscava
abrir este caminho pela fé.
Haveremos de revelar a face
iluminada de Deus ao gentio.

De Jaguaribe ao Maranhão, o caminho
da verdade por terra deve ser.
Seguem Pinto e Figueira carregando
uma cruz para além daquela serra.
Carajirus, Caratiús ou Crateús,
eram estes os senhores da terra
pela rústica expedição invadida.
Marca-se a reação crateú com a morte
de Francisco Pinto e três tabajaras.
Restou-lhes o retorno a Pernambuco.

Recaía sobre os Caratiús a vingança
do gentio tabajara em guerra
que uma nação apagada não redime

Aos sobreviventes deste embate
o constante contato com colonos
em encontros cada vez mais hostis.
Estrangeira mão renova-se armada,
não mais os homens da cruz e da fé
mas os senhores suas armas e espadas
buscando estabelecer o direito
de posse de terras, de homens e de almas.

Lembremos aqui todos os que com sangue
marcaram os passos de seu caminho.



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ilha Deserta - filmes



Ilha Deserta - filmes
Agnaldo Farias, Amir Labaki, Bernardo Carvalho, Inácio Araújo, Isa Grinspum Ferraz, João Moreira Salles, Ugo Giorgetti
[São Paulo, Publifolha, 2003]

Interessante coletânea de textos nos quais cada convidado elenca e justifica os dez filmes que levaria para uma ilha deserta. Praticamente todos adotaram, acertadamente, não repetir a idéia de “os dez melhores filmes da história do cinema”, mas indicar suas preferências. Isso dá espaço ao inusitado e torna o livro mais curioso. Apaixonados por cinema, era inevitável que nem todos se limitassem à minguada lista de dez, indicando onze, mas é certo que poderiam passar todos os dias na tal ilha deserta a listar muitos outros filmes. Destaque para os textos de Bernardo Carvalho e João Moreira Salles.

domingo, 20 de setembro de 2009

nem úmido nem líquido falar

[adriano lobão aragão]


nem úmido nem líquido falar
quando ao banho de passarinho olhamos
se de areia se faz sua água e seu molhar
mas ainda assim se seca em seco banho

nem úmido nem líquido falamos
quando ao banho de passarinho olhar
se de areia faz a água de seu banho
mas ainda em seco seca o seu molhar





[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

nas calçadas alinhados os fícus

[adriano lobão aragão]


nas calçadas alinhados os fícus
disciplina militar uniforme
não de seu verde mas de sentinelas
assim alinhadas pelas calçadas
a sol e chuva segue sua vigília

agora sendo vigília velório
diferente dos que seguem ao enterro
mas estas sentinelas permanecem
em seus rígidos postos espartanos
o próprio enterro os pés antecipando



[in Entrega a própria lança na rude batalha em que morra, 2005]

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Nome próprio




Nome próprio: Leandra Leal

Nome Próprio [Brasil, 2007], de Murilo Salles, é mais um exemplo de certo sintoma recorrente em diversas produções recentes da cinematografia brasileira; o “filme de ator”. São essas produções que, ancoradas no eficiente trabalho de um determinado ator, relevam todos os outros aspectos a um segundo plano, não tendo muito mais o que oferecer ao público quando concluída a película. De “Se eu fosse você” (leia-se “Tony Ramos e Glória Pires”) a “Divã” (leia-se “Lílian Cabral”), os exemplos são muitos, inclusive no circuito independente. Em outras palavras, o verdadeiro “nome próprio” desse filme chama-se Leandra Leal, em uma soberba atuação onde direção, roteiro, fotografia, montagem, coadjuvantes (com raríssima exceção) não cumprem função nem relevante nem eficiente, apenas servem para a atriz desenvolver seu talento de forma ousada e marcante. Mas sem um roteiro que justifique tamanha entrega de uma atriz, até a personagem de Leandra, a junkie egocêntrica Camila, também se apresenta irrelevante. É só mais um folhetim de garota underground sonhando desenvolver seu suposto talento e buscando seu lugar no mundo, em meio à sexo, álcool e o que mais aparecer. Enfim, roteiro convencional, personagens mal construídos, direção fraca, produção modesta e uma atuação magnífica que extrapola os frágeis limites da película.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Aleph de Borges



O Aleph
Jorge Luis Borges
[São Paulo, Companhia das Letras, 2008]

A escrita de Borges fantasia a linguagem, nos leva a inúmeros mundos que se sobrepõem sem se excluir, como o “aleph” mencionado no último conto desse volume. Ao mesmo tempo erudito e lúdico, essa sua grande virtude, a fluência que imprime em seus contos possibilita alçar intricados labirintos literários sem sair da simplicidade quase tátil das fábulas, das lendas e das sublimes histórias atemporais. Leitura obrigatória.



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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Quem quer ser um milionário?




Quem quer ser um milionário?
Danny Boyle
[Slumdog Millionarie, EUA/Inglaterra, 2008]

A pergunta do título no Brasil é bem fácil de responder. Um pouco mais complexo é entender por que esse filme ganhou o Oscar. Dentro do universo criado pela obra artística, querer que acreditemos naquela história é exigir demais. Na ânsia de “mostrar a realidade”, tudo em Quem quer ser um milionário? revela-se construído in vitro. A começa pelo excesso de efeitos e jogos de câmera que talvez fiquem interessantes em um video-clipe, mas numa narrativa cinematográfica apresentam-se absolutamente desnecessários. Aliás, como um diretor como Boyle, que filmou o interessantíssimo Trainsppoting, pôde cometer tantas cenas repletas de efeitos vazios, sem significação nenhuma para a narrativa?



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