sexta-feira, 25 de abril de 2014

O velho Hemingway e o mar de Alexander Petrov

[Adriano Lobão Aragão]

Santiago, personagem de Hemingway, sob as tintas de Petrov


Escrito em 1951 e publicado em 1952, O velho e o mar foi o último livro publicado em vida pelo escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961). Conta a história de um velho pescador cubano, Santiago, que ficara 84 dias sem pescar nada e lança-se ao mar almejando a superação de seus dias de azar. Ao fisgar um gigantesco marlin, passará dias enfrentando obstinadamente o seu maior desafio.  Mais que lutar para pescar o peixe, Santiago está em luta consigo mesmo. Hemingway foi agraciado com o Nobel de Literatura de 1954, e O velho e o mar é uma de suas obras mais conhecidas e reeditadas. 

O russo Alexander Petrov (Александр Петров) é um cineasta de animação que utiliza uma técnica rara e impressionante, consistindo em pintura a óleo, utilizando a ponta dos dedos, em vez de pinceis. Petrov pinta em superfícies de vidro, muito maiores que uma folha A4, posicionadas em vários níveis, cada um coberto com tintas de secagem lenta. Após fotografar cada quadro pintado sobre as folhas de vidro, ele altera ligeiramente a pintura para compor a próxima imagem, num processo lento e meticuloso (conforme se pode constatar em making of disponível no youtube).    

O velho e o mar foi adaptado por Petrov e lançado em 1999, recebendo, merecidamente, o Oscar de Melhor Curta de Animação de 2000. Durando cerca de 20 minutos, foram necessários mais 29.000 fotogramas (foto de cada uma das pinturas feitas no vidro) e alguns de trabalho intenso e solitário. Perfeccionista, cada pintura era exaustivamente trabalhada e retrabalhada até alcançar o efeito desejado, guardando alguma semelhança com o impressionismo de Renoir.

Uma obra excelente, podendo gerar em sala de aula boas discussões e significativas atividades com literatura, cinema, artes plásticas e, sobretudo, desfrutar de ótimos momentos de apreciação de uma apurada beleza artística.


O VELHO E O MAR

O VELHO E O MAR – Making of
http://www.youtube.com/watch?v=b_kjEJrJc-g


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Publicado originalmente no blog Português Cereja, em 10 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

matadouro

[demetrios galvão]
(diálogo com o livro “entrega a própria lança 
na rude batalha em que morra”
do poeta adriano lobão aragão)


a província diz não aos seus filhos,
é rude e árida, mesmo quando farta e molhada.
entoa liturgia de campo arrasado.


a província tem canto maldito.
não hospeda sementes em seu leito.
exporta desertos para quem mal diz sua sina.


a província é geografia esquecida.
nenhum coração palpita por seu mapa.
nas suas rotas corre sangue de matadouro.


a província deflagra dizimações.
cultiva um cemitério farto.
sisuda e quente, cozinha a própria cria.



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Demetrios Galvão, habitante da província de Teresina (PI), é historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (previsto para 2014) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi dos editores da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.