sábado, 6 de outubro de 2012

Três perguntas para o tecladista Vinícius Bean

[Adriano Lobão Aragão]




Atuando há mais de uma década no cenário musical de Teresina, o tecladista Vinícius Bean participa atualmente das bandas Acesso, Cojobas e André de Sousa & Mojo Band. Ao longo da semana passada, conversamos sobre música autoral, projetos e profissionalização. A seguir, alguns fragmentos desse diálogo.


Adriano Lobão Aragão - Como você avalia o atual cenário da música autoral no Piauí?

Vinícius Bean - Eu entendo a música autoral no Piauí como um ciclo. Nós estamos, na minha percepção, na curva ascendente (novamente) desse ciclo... No início dos anos 2000, havia uma efervescência musical bem grande por aqui, muitas bandas autorais estavam aparecendo e produzindo muita coisa legal. Narguilé Hidromecânico (que já vinha de antes um pouco), Acesso, Roque Moreira, Fullreggae, Os Caipora, e tantos outros vieram dessa leva. Alguns anos depois, já por volta de 2006, essa produção deu uma diminuída. Foi a época em que se viu muita banda cover aparecendo por aqui. Eu mesmo participei (e ainda participo) de algumas... Mas eu percebo que, de um, dois anos pra cá, a produção de música autoral está surgindo novamente, há novas bandas com trabalho próprio, e algumas que já estão na noite há muito tempo, mas que só recentemente lançaram trabalhos próprios. Você vê, nessa leva, o Validuaté, Aclive, Regaplanta, fora as bandas que mantiveram a produção desde o topo do ciclo anterior, como Batuque Elétrico, e por aí vai. Há, também, uma cena muito forte no blues de Teresina, nos últimos anos. Mojo Band, Clínica Tobias Blues e BR 316 são os melhores exemplos dessa leva. Além disso, há mais bares para bandas autorais tocar do que há 2, 3 anos, e isso tudo movimenta a cena. Não que dê pra viver somente disso, mas, pelo menos, há produtores de eventos e festas que estão voltando a colocar para movimentar essa cena autoral, e isso é muito importante.


Adriano - Profissionalmente, é possível viver de música no Piauí?

Vinícius - Isso é muito relativo... Dá pra viver sim, mas desde que se vire um operário da música... Não se pode ter preconceito com estilos de música. É profissão, então tem que levar a sério o que aparecer. De música autoral, especificamente, não lembro de nenhum artista que viva no Piauí, atualmente, que sobreviva estritamente das suas composições e shows contendo mais da metade do set de músicas próprias... Eu mesmo, posso dizer que passei alguns anos da minha vida vivendo praticamente da minha musica, mas eu era jovem, não tinha filhos e morava na casa dos meus pais. E isso faz toda a diferença.


Adriano - Em sua trajetória musical, quais os momentos mais marcantes?

Vinícius - Meu jovem, momentos marcantes, tem tantos que tenho medo de citar e esquecer de algum... mas vamos lá: No Piauí Pop de 2004, simplesmente todo mundo que tava lá (umas 20 mil pessoas), cantando nossas músicas (da banda Acesso)... pra um artista que trabalha com suas próprias músicas, é uma sensação que não tem preço! No mesmo Piauí Pop, em 2006, tocamos (banda Acesso) no palco principal do evento, nesse momento tivemos um misto de consolidação do trabalho com um pouco de "volta por cima", alguns artistas nacionais citaram o nome da nossa banda nas suas coletivas, falando bem do trabalho, e isso foi absurdamente gratificante pra gente como banda. Mais recentemente, com a Mojo Band, participamos do festival Rock Cordel em Fortaleza, e tivemos uma receptividade muito boa, que rendeu (e está rendendo) bons frutos. Aliás, eu me sinto um privilegiado, de certa forma, especialmente em se tratando de Piauí Pop, porque tive a oportunidade de tocar no palco principal em quase todos os anos do evento, de 2005 até 2008, com vários artistas diferentes, de estilos diferentes. Lembro que em um dos shows com o Teófilo, no palco principal, o Toni Garrido (do Cidade Negra), subiu pra cantar uma música com a gente... Outro momento muito importante na minha carreira foram as participações no Ceará Music, em Fortaleza... em todas tivemos experiências muito legais, tanto de contatos firmados, quanto de abertura de horizontes. Me sinto um privilegiado, também, pela quantidade de discos que gravei, com vários artistas diferentes... Acesso, Edvaldo Nascimento, Teófilo, Anno Zero, Radiofônicos, Madame Baterflai, Cojobas, André de Sousa & Mojo Band, Clínica Tobias Blues, entre outros (me perdoe quem eu não citei). Tiveram também os prêmios: também com a banda Acesso, ganhamos alguns prêmios legais, tipo Chapadão, Prêmio Clube, foram experiências bem bacanas. Além disso, tive a oportunidade de tocar com alguns artistas mais famosos, de expressão nacional, como Marcelo Bonfá (Legião Urbana), Fernando Magalhães e Rodrigo Santos (Barão Vermelho), Afonso Nigro (Dominó), Tico Santa Cruz (Detonautas), André Matos (Angra / Shaman), mais recentemente alguns artistas de blues e jazz, tipo Kenny Brown, Atiba Taylor, Harmonica Hinds, entre outros. São experiências bem interessantes, e muitas delas promovem certas realizações engraçadas. Imagine que eu toquei com o Fofão! Hehehe... Mais recentemente, também, não posso deixar de citar as apresentações com o Cojobas, que sempre são marcantes, seja pelo público que assiste, seja pela estrutura dos shows, seja pelo cuidado que nós temos com a parte musical... isso tudo fica marcado, positivamente, pra sempre. São alguns fatos e situações que estou lembrando no momento, mas há situações marcantes em todas as épocas da minha vida musical, e ainda virão mais algumas (assim espero).


[Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, coluna Toda Palavra, 02 de outubro de 2012]

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