sábado, 25 de agosto de 2012

Temos nosso próprio tempo

[Adriano Lobão Aragão]


Os legionários Dado, Rocha, Russo e Bonfá
  
    
Segundo depoimentos publicados na época pela extinta revista Bizz, Renato Russo havia preparado uma cartilha contendo as orientações de como deviria ser o segundo disco da Legião Urbana, apropriadamente intitulado Dois. “O efeito Cinderela, vamos ver se a carruagem vira abóbora, se a banda vai pra frente”. As preocupações de Renato o levaram a montar em sua cartilha a sequência das faixas, a descrição precisa delas e o que representavam no emocional coletivo, tudo visando não repetir o formato visceral do primeiro disco. A questão atual era gravar um novo trabalho calcado na sutileza, lirismo, dedilhados e violão. Para que o restante da banda entrasse no clima pretendido, Renato tomava medidas como entregar uma fita K7 para o guitarrista Dado Villa-Lobos contendo músicas de Cat Stevens, Bob Dylan, Rolling Stones e Paul McCartney. De qualquer forma, é inegável uma queda pelos arpejos de Johnny Marr, guitarrista dos Smiths. Mas esse universo acústico permeado de lirismo emanado da vida privada nem sempre foi regra para a Legião Urbana.

A banda foi formada no início dos anos 1980 após a dissolução do Aborto Elétrico, uma banda seminal da cena punk de Brasília, que deu origem também ao Capital Inicial, e de um período no qual o vocalista do Aborto, Renato Manfredini Jr. apresentava-se acompanhado apenas de um violão, atendendo pela alcunha de Trovador Solitário. Já com a Legião Urbana em atividade, adentraram o primeiro palco relevante para o rock nacional dos anos 80 mostrar sua força: o Circo Voador, montado na praia do Arpoador em 1982. Em 1983, com o Circo já transferido para a Lapa, a Legião daria um importante passo em sua trajetória. No dia 23 de julho, após sua apresentação, a banda é convidada a gravar uma fita demo com a EMI. No ano seguinte começam então a gravação do primeiro disco, Legião Urbana. A incerteza diante do futuro, herança do Aborto Elétrico, estava em quase todas as faixas. Extremamente politizado, apresentava críticas a diversos aspectos da sociedade brasileira. O discurso angustiado do LP de estreia da Legião só amenizava em algumas poucas canções de amor, como Ainda é cedo, e na última faixa, Por Enquanto, com o significativo verso “Estamos indo de volta para casa”, como se preconizasse mudanças em sua sonoridade e discursividade para o próximo trabalho, que dirigia-se a um ambiente menos social e mais privado. Diante do desafio de seu segundo álbum, a ideia era fugir do Aborto Elétrico, apesar dessa influência estender-se até o inevitável retorno às origens em 1987, com o álbum Que País É Esse? [1978-1987], talvez uma nova tentativa de exorcizar o fardo punk através de uma nova postura: no lugar da fuga de Dois, o acerto de contas de Que País É Esse?.

Seguindo a cartilha de Renato, a primeira música gravada foi Daniel na Cova dos Leões. Com tudo fluindo conforme o programado (Quase sem Querer, Tempo Perdido...), somente em Andrea Doria começaram a surgir os primeiros empecilhos, mas logo resolvidos. As gravações alternavam arranjos acústicos (Eduardo e Mônica, Central do Brasil...) e elétricos (Metrópole, Fábrica...). A última faixa a ser gravada foi “Índios”, tendo violão gravado por Renato, pois Dado mantinha seu hábito supersticioso de não tocar nenhum instrumento em pelo menos uma das faixas de cada disco da Legião; embora em Dois, Renato já tivesse assumido a persona do Trovador Solitário de sua fase pós-Aborto / pré-Legião, gravando sozinho as faixas Eduardo e Monica e Música Urbana. 

A ideia original era gravar um álbum duplo intitulado Mitologia e Intuição, que incluiria diversas músicas mais antigas, como Faroeste Caboclo, Conexão Amazônica, Tédio (com um T bem grande pra você) e O Senhor da Guerra, que havia sido composta para um especial infantil da Rede Globo e teria agora um registro mais pesado. Entretanto, a EMI considerou o projeto economicamente inviável. A gravadora preferiu não arriscar, o que deixou Renato chateado, sobretudo com a exclusão da faixa Grande Inverno da Rússia (assinada por ele e Ico Ouro-Preto) e de uma vinheta de Bonfá, que seria a faixa-título e primeira música do disco. Renato considerava as duas músicas muito boas, mas só fazia sentido gravá-las se estivessem no projeto original. No lugar da música de Bonfá, na abertura do disco, é possível ouvir um pouco da música Será envolto a ruídos de rádio e do hino da Internacional Socialista. Resquícios de um passado conflituoso que materializava em um disco que, lançado em 1986, venderia mais de 1,2 milhões de cópias, sendo o segundo álbum mais vendido da banda, atrás apenas de As Quatro Estações, de 1989, que vendeu mais de 1,7 milhões.


[Jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, em 21 de agosto de 2012]

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