terça-feira, 12 de junho de 2012

Ler Nélida Piñon




Nélida Cuiñas Piñon nasceu no dia 3 de maio de 1937, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, filha de Olivia Carmen Cuiñas Piñon, brasileira filha de galegos, e Lino Piñon Muiños, comerciante, natural de Borela, município de Cotobade (Galiza). Na década de 1910, seu avô materno, Daniel Cuiñas, chega de Carballedo (Cotobade) "para conquistar o Brasil". Em 1947, aos dez anos, mudou-se com pais e avós maternos para Borela, onde permaneceram por dois anos. Na aldeia galega, a forte presença da natureza, o modo de vida camponês e o imaginário galego iriam influenciar bastante a obra que Nélida viria a produzir anos depois, principalmente seu romance A República dos Sonhos.

Desde seu primeiro romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, a linguagem da autora é apontada como inovadora e hermética. Em 1978, em depoimento para a Folha de S. Paulo, Nélida declararia que buscava expressar-me através de uma linguagem nova, de uma sintaxe pessoal. Lutei por isso porque, desde menina, compreendia que tinha de subverter a sintaxe bem comportada, pois as palavras que nela estão, são, de modo geral, também muito bem comportadas. São palavras oficializadas, institucionalizadas, estatutizadas. Então, eu busquei um caminho que subvertesse essa noção de realidade que me implantavam.”

Entre Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo e A República dos Sonhos, editado em 1984, Nélida publicou os romances Madeira Feita Cruz, 1963; Fundador, 1969; A Casa da Paixão, 1972; Tebas do Meu Coração, 1974; e A Força do Destino, 1977, além de livros de contos. Em todas essas obras, a autora imprimiu seu estilo peculiar, sua sintaxe desafiadora e uma apurada visão do universo feminino. Tais aventuras linguísticas e estéticas exigiram da autora um rigoroso procedimento de produção, um compromisso exaustivo de escrita e reescrita em busca da expressão exata que respondesse artisticamente a seus anseios enquanto escritora ciente da necessidade de uma voz própria.

É importante frisar que, além da narrativa em si elaborada por Nélida, sua trajetória como escritora e personalidade pública confirma-se como uma das mais expressivas e louváveis carreiras, configurando-se como um inestimável exemplo da plena emancipação feminina. Entre outros méritos, destacamos sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 27 de julho de 1989 (instituição que promoveu ao longo de sua história lamentáveis episódios calcados em um machismo inadmissível para uma entidade voltada para o âmbito cultural, como a impugnação da candidatura de Amélia Bevilácqua e as sucessivas décadas sem que nenhuma mulher fosse admitida em seus quadros); ainda em 1989, recebe o título de Personalidade do Ano, deferido pela União Brasileira de Escritores, participa do Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, em Lisboa, e em abril viaja aos EUA para o lançamento de The Republic of Dreams, traduzido por Helen Lane. Em 1991, assume a Cátedra Henry King Stanford em Humanidades, na University of Miami, ministrando cursos semestrais de Literatura Comparada, atividade que se estendeu até 2003. Em 1992, a University of Miami organiza o International Symposium “The World of Nélida Piñón”, nos dias 3 e 4 de abril, no Lowe Art Museum, Miami. Em 1996, foi eleita presidente da Academia Brasileira de Letras, primeira mulher a ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis. Coube a Nélida a responsabilidade de coordenar, com exemplar maestria, a celebração do centenário da ABL, em 1997. No ano seguinte, foi nomeada Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres, comenda do governo francês. Também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), concedido pela primeira vez a uma mulher em 503 anos, além de conquistar o Prêmio Príncipe de Astúrias-Letras, pela primeira vez concedido a autor de língua portuguesa. Entretanto, nenhuma dessas láureas concedias à autora supera a maior homenagem que se possa fazer a quem se dispõe a mergulhar profundamente na criação literária: ler, comentar, discutir e divulgar sua obra. Nélida exige muita atenção e reflexão de seus leitores, mas gentilmente oferece, como uma verdadeira musa da narrativa plena de significados, a oportunidade de nos tornarmos melhores leitores.
 
 
[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 12 de junho de 2012]

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