Superaventuras Marvel nº 17








Dentre os diversos bares ou restaurantes que meu pai administrou na vida, houve um no bairro São Cristóvão no qual às vezes eu passava as tardes de domingo para que pudéssemos ter um pouco mais de contato, pois sua atividade nos bares impedia que convivêssemos cotidianamente em casa. Desde pequeno, admirava sua paciência, sua preocupação com os detalhes em cada coisa que fazia, sua dedicação ao trabalho. Isso foi no final de 1983, e em breve eu completaria sete anos. E gostava sobretudo de ter aprendido a ler. Para mim, era essa a minha descoberta fundamental, uma chave que me levava para além dos desenhos que havia nos quadrinhos, e minha mãe não precisava mais dizer o que neles estava escrito. Ela comprava gibis da Disney, embora eu nunca tenha gostado muito da Disney. Exceto alguns desenhos animados do Pato Donald, mas tinha certa ojeriza pelos seus quadrinhos. E era justamente esses famigerados quadrinhos os que ela constantemente comprava, e me entregava-os aportuguesando bastante o nome do personagem: Donaldo. Mas o ato de trazer-me aquelas revistas era algo fabuloso que expressava sua preocupação em manter-me interessado na leitura. E muito me agradou quando um dia ela deixou de comprar coisas da Disney e adotou o Maurício de Sousa. Cascão, Cebolinha e Mônica, depois o Horácio, principalmente, (pois tornou-se o meu personagem favorito) tratavam de um universo que eu considerava bem mais próximo e atraente, e o vício por suas histórias foi por mim muito bem-vindo. E eu levava sempre alguma revista para ler nas tardes em que eu passasse nos bares de meu pai. Curiosamente, ali me parecia um lugar bastante propício para tal atividade, naqueles tempos.

E um dia eu conheci os quadrinhos da Marvel. Devo isso a dois de meus primos, um de cada lado da família. Marcelo Lobão era bem mais velho do que eu, tinha revistas de super-heróis e sabia desenhá-los, estas eram duas coisas que eu passei a almejar: 1) ter revistas como aquelas, com histórias do Conan, do Warlock, dos Vingadores, do Punho de Ferro. Basicamente, algumas Heróis da TV, editadas pela Abril, e alguns poucos títulos editados pela RGE. É interessante lembrar que nunca me identifiquei com o Homem-Aranha. Até o Hulk me parecia mais interessante. 2) saber desenhar aqueles personagens. Na verdade, eu queria muito saber desenhar pelo menos alguma coisa com um mínimo de qualidade.

O outro primo era o Raul Aragão, com quem passava alguns finais de semana na casa dele, lendo revistas de super-heróis e jogando videogame Odyssey. Mas o que interessa neste momento aconteceu numa tarde, quando Raul e eu estávamos no bar, e meu pai nos disse para irmos até a banca de revistas (nunca consegui chamá-las de “bancas de jornais”) e cada um poderia escolher uma revista. Raul voltou com um exemplar do Capitão América. Eu fiquei hipnotizado com a capa de Superaventuras Marvel n.º 17, a edição de novembro de 1983, revelando quatro personagens que eu sequer havia ouvido falar, mas que de imediato me cativaram: Pantera Negra, Homem-Coisa, Sonja e, sobretudo, o Demolidor, escrito e desenhado por Frank Miller. Tudo ali me atraía. Do título das histórias ao enredo, dos heróis aos vilões, do desenho às cores, era um novo mundo que se abria misterioso e fascinante. “Espinhos na Alma”, onde o majestoso Pantera Negra, o herói africano, enfrentava um medonho vilão cujo corpo era coberto por espinhos. “A Origem do Homem-Coisa”, um ser estranhíssimo que sente o medo das pessoas. “A Chave Maldita”, a sensual guerreira Sonja, uma ruiva em trajes sumários, enfrentando um gigante mecânico em um remoto mundo bárbaro. Mas a história que me deixou mais intrigado foi “Demônios da Mente”, com um herói cego buscando recuperar sua capacidade de sentir o mundo com uma espécie de radar cerebral. Atirava flechas no alvo enquanto relembrava sua infância, enfrentava seus traumas, seus medos personificados em um monstro abjeto. Na verdade, ele enfrentava a si mesmo. O Demolidor passou a ser instantaneamente meu herói favorito, e Frank Miller o autor a ser louvado. E naquela tarde de novembro de 1983, naquele bar, nenhuma outra revista ou brinquedo seria mais importante para mim que as Superaventuras Marvel n.º 17. 

Curiosamente, o desejo de ter revistas instaurou-se em mim de maneira tão forte quanto o ato de ler. Algumas vezes, até em maior intensidade. Eu sentia-me bem com o fato de poder ter revistas, de serem minhas. Esse sentimento de posse me acompanhou pela vida, esse desejo de comprar cada vez mais revistas, depois discos, filmes, livros, principalmente. Mas nem isso era suficiente. Eu sentia que precisava experimentar ser também um autor de tudo o que despertasse meu interesse. Não me bastava ler uma revista, eu precisava também escrever e desenhar minhas próprias revistas, e o objetivo maior, que nunca eu conseguiria alcançar, era justamente o estilo e a linguagem daquela Superaventuras Marvel, daquele Demolidor, daquele Frank Miller. Acho continuaria tentando até hoje, se um dia não tivesse descoberto o irremediável vício da poesia. Mas essa já seria uma outra história.


[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 24 de abril de 2012]

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