terça-feira, 10 de abril de 2012

“Poemas cuaze sobre poezias”




Cleyson Gomes nasceu em Campo Maior, no ano de 1982, mas reside em Teresina desde os sete anos de idade. Além de publicar seus poemas e afins no blog saladapoeticalia.blogspot.com, teve seu livro Poemas cuaze sobre poezias publicado e agraciado com o Prêmio Cidade de Teresina, Concurso Novos Autores, realizado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves (Teresina-PI). É com o autor desses poemas, ou cuaze poezias, que nesta semana conversamos.


Adriano Lobão Aragão - "Poemas cuaze sobre poezias" é um título bastante estranho, não? Como você chegou a essa construção?
Cleyson Gomes - Pra responder a essa pergunta, irei contar uma historinha. Quando terminei de escrever o "p. c. s. p", mostrei para um colega. Ele, depois de ler o primeiro poema (poemas das 7 fases), disse: "cara, isso é quase poesia!". Eu: "como assim?!". Ele: "parece com o poema do Drummond...". Eu: "rapaz, isso é intertextualidade.". Ou seja, pro meu colega, "esse negócio de poema intertextual e metalinguístico não passa de 'quase-poema'"; e como o livro é intertextual e metalinguístico, resolvi, em homenagem a meu colega, batizar o livro de Poemas Quase Sobre Poesias e "brincar" no/com o título, modificando a grafia das palavras QUASE e POESIAS. O cuaze com "c" e "z" é justamente para representar/materializar o advérbio QUASE – aquilo que é "aproximadamente", aquilo que é "pouco menos" – e o poezias com "z" é a representação de "quase-poesias". Dessa des-construção, ou melhor, dessa "desautomatização da linguagem" nasceu o título "poemas cuaze sobre poezias" que, até então, causa estranhamento. Mas a idéia (em desacordo com o acordo ortográfico) é essa, causar estranhamento mesmo, levando o leitor a buscar novas percepções, sair do rotineiro; pelo menos amenizar os automatismos da linguagem cotidiana. É como diz o Chklovski: "A finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostranenie] dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objeto, aquilo que já se 'tornou' não interessa mais a arte." (CHKLOVSKY, 1971, p.82)

Adriano - A intertextualidade permeia sua obra. Seria essa uma marca fundamental da sua poesia?
Cleyson - Talvez não diria marca, mas uma "pitada". No "p.c.s.p.", sem dúvida, posso dizer que a intertextualidade é uma marca, já nos outros livros (inéditos) a intertextualidade aparece em um ou dois poemas ou até mesmo é inexistente. Cada livro que escrevo, através do processo de "(trans)piração", se diferencia um do outro, ou seja, num livro você vai encontrar o predomínio da metalinguagem, noutro, por exemplo, o "p.c.s.p.", a intertextualidade. Sem falar dos variados temas, como o erotismo, a loucura etc, presentes em meus poemas. Procuro não "marcar" minha poesia, mas dividi-la em "marcas".

Adriano - Como tem sido a repercussão do Poemas cuaze sobre poezia?
Cleyson - Para um autor desconhecido e um país onde as pessoas leem menos de dois livros por ano, até que tem sido boa. Crítica, por enquanto, positiva. Por exemplo, os e-mails que recebo semanalmente elogiando o "p.c.s.p". Tenho vendido livros para várias partes do Brasil – São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Brasília – através do meu blog. Esse livro tem me proporcionado muitas amizades/contatos com pessoas das cinco regiões do Brasil, como o poeta e jornalista Romar Beling, a poetisa gaúcha Daniela Damaris e o poeta Valter Lima. Isso é mais do que gratificante.

Adriano - Qual o lugar da poesia nos dias atuais?
Cleyson - Por ser uma arte minoritária – no dizer do Octavio Paz –, a poesia, creio eu, não só no Brasil, mas em qualquer parte do mundo, está o final da fila. Como o "inútil" não serve, não é utilitário, então acaba não tendo importância para a grande maioria das pessoas.

Adriano - Então, por que razão ainda se escreve poesia?
Cleyson - Vou te responder com uma pergunta. Pra que viver?

Adriano - Tem certeza de que uma coisa implica a outra?
Cleyson - Pra mim, poesia e vida estão interligadas. Vivo intensamente a poesia; poesio intensamente a vida. Certas coisas não se explicam. E o porquê de se escrever poesia... Escrever poesia é "vontade de potência".



[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 10 de abril de 2012]  

5 comentários:

Anônimo disse...

ótima entrevista. perguntas e respostas dignas de elogio.

sandra

Valter Lima disse...

de um ótimo questionário/questionamento elaborado por um grande nome das letras (A. Lobão )não poderia vir respostas distanciadas. Li/degluti o Poesias sobre cuase... Adorei a intertextualidade, deve_se pelo fato de que jogo muito (também) com o intertexto e permeio figuras poeticas como gullar, drummond, ana cristina cesar, exupéry . . . Parabéns para o esclarecido, esclarecedor e ouvintes (leitores).
Abraço aos amigos da terra mafrensina.
Limavalter.blogspot.com

Valter Lima disse...

caro amigo adriano lobão.
Gostaria de saber se tem disponivel se livro de poemas "uns poemas".
Gostaria de adquiri-lo.
Caso positivo, responda que te passo endereço e valores em réis para custas.

Valter Lima disse...

ALA,

horinha que puder visita
limavalter.blogspot.com

deixe seu precioso comentário.

* tive falando esses dias com cleyson gomes sobre a ideia de 10 autores e uma coletanea. Ja tem 4 loucos na lista do meduna.
Só seriam 11 se uma poetisa se dispusesse a engrossar a fileira e quisesse tomar diazepan conosco.

Que acha?

Adriano Lobão Aragão disse...

Valter, valeu pela leitura deste blog. Quanto ao Uns Poemas, a FCMC, que publicou a obra em 1999, informou-me que o livro está esgotado. Infelizmente não tenho exemplares disponíveis comigo. Espero conseguir reeditá-lo em breve.

Quanto à antologia de 10 autores, vamos combinar isso por e-mail: lobaoaragao@gmail.com

abraço, Adriano