terça-feira, 27 de março de 2012

Arte e entretenimento quadro a quadro



A Quinta Capa é uma livraria especializada em quadrinhos, localizada na rua Senador Cândido Ferraz, nº 1031, edifício Globo Center, segundo andar, sala 08 (próxima à av. Nossa Senhora de Fátima). Sobre esse inusitado empreendimento, conversamos com o quadrinhista Bernardo Aurélio.


Adriano Lobão Aragão - Como surgiu a ideia de abrir a Quinta Capa? 
Bernardo Aurélio - Eu havia lançado meu livro "Foices e Facões - A Batalha do Jenipapo" há poucos meses e ainda estava com uma boa grana que havia recebido por esse trabalho, mas estava desempregado. Minha formação é em história, eu poderia correr atrás de escolas com meu currículo ou investir esse dinheiro guardado em algo que eu gostasse muito: quadrinhos. Juntar três pessoas com o mesmo objetivo foi o segundo passo. Entraram na sociedade meu irmão, Caio Oliveira, meu primo, Victor Rolf, e o amigo Márcio Freitas. Juntamos a grana inicial necessária e colocamos o projeto em execução.

Adriano - Seria a criação de uma loja ou um centro de criação? Que tipo de espaço é a Quinta Capa? 
Bernardo - Eu acredito que um dos principais problemas da cultura brasileira seja a questão dos produtores e editores. Penso que no ramo dos quadrinhos, que eu entendo melhor, o grande problema da falta de material nacional nas bancas e livrarias seja um problema criado de cima pra baixo: falta de políticas editorias e de produtores culturais. Infelizmente, o artista não tem como ser de modo eficiente seu próprio editor/produtor. A Quinta Capa é uma livraria, mas acima disso ela surgiu como o anseio de um pequeno grupo de pessoas que querem fazer a diferença. Não queremos apenas vender revistas. É triste ver grandes e poderosos livreiros, ou donos de gráficas, pessoas que têm um potencial incrível de fazer a diferença, de incentivar a criação e se resumem a imprimir e vender coisas dos outros. A Quinta Capa surgiu como editora e, aos poucos, nós estamos mostrando nosso material e nossos projetos, não apenas vendendo as revistinhas importadas dos super-heróis ou mangás. Nós queremos criar. A Quinta Capa é também um produtora e incentivadora de eventos como a Feira HQ e exibições de filmes e desenhos animados. É um ponto de encontro e de incentivo à leitura de novos trabalhos, bem como de valorização de publicações raras, como deve ser todo sebo.

Adriano - Quais as maiores dificuldades para empreender esse tipo de trabalho em Teresina?
Bernardo - É um serviço novo. As pessoas não estão acostumadas a livrarias especializadas em Teresina, a não ser que você procure alguma livraria de artigos e publicações religiosas... Mas a novidade não é a maior das dificuldades. De fato, muitas pessoas já leram ou leem quadrinhos. É um público imenso e existem produtos para todas as seguimentações dele. A maior dificuldade, acredito que seja acordar esse público, levá-lo até sua livraria e mostrar o mundo de opções que estão fora das bancas normais, onde costumam comprar seus títulos preferidos. Diria que esse anúncio e conquista é a maior dificuldade. Com o boca a boca e as redes sociais vamos ganhando cada vez mais clientes, buscando ainda a autossustentação junto ao crescimento.

Adriano - Há muito preconceito em relação aos quadrinhos, como se fosse algo mais ligado ao entretenimento do que à criação artística propriamente dita? 
Bernardo - Eu diria que há um preconceito, mas não com um tom pejorativo. Um preconceito que existe mais simplesmente pela desinformação do que por qualquer outra coisa. Acho que superamos esse momento da história onde os quadrinhos foram considerados sub-literatura ou coisas assim. De uma maneira geral, podemos encontrar arte no entretenimento e exemplos de quadrinhos verdadeiramente artísticos. O grande problema é: as pessoas não conhecem quadrinhos. Conheço pessoas que passam a vida lendo quadrinhos de super-herói e que não procuram outros gêneros. Hoje eu posso ver crianças que começaram nos quadrinhos lendo mangá começarem a ler super-heróis. Não estou querendo dizer que super-heróis seja o próximo passo evolutivo na leitura dos quadrinhos. Existem interpretações profundas dentro de um gênero de quadrinhos de super-heróis desde Watchmen, em 1985. O que eu quero dizer é que existe muita arte real a ser descoberta e a ser criada dentro de uma linguagem como os quadrinhos. As pessoas ligam quadrinhos ao entretenimento? Qual o problema disso? Quantas vezes você foi ao cinema só pra se divertir nos últimos anos? E quantas vezes você assistiu a um filme ou escutou uma música que trazia aquela coisa profunda ou transformadora que só uma verdadeira arte pode trazer? Agora, pense bem e me diga quantas vezes você procurou ler uma história em quadrinhos diferente nos últimos anos? A verdadeira arte é difícil de ser encontrada, mas ela está por aí.


[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 27 de março de 2012]

http://www.diariodopovo-pi.com.br/Jornal/Default.aspx?c=3

Um comentário:

Wanderson Lima disse...

Uma ótima aposta, Teresina precisa. Boa sorte ao Bernardo!