quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

“Minha vivência acaba se transformando na poesia que construo”


foto: Danilo Medeiros



Durante o mês de outubro, entrevistei o poeta e músico Thiago E, que assim costuma apresentar-se: “músico em reabilitação labiríntica – professor com problemas de visão – ator driblador autodidata da própria gagueira – maravilhíssimo o pôr-do-sol na av. joão xxiii – integrante da banda validuaté, com a qual lançou 2 discos: pelos pátios partidos em festa |2007| e alegria girar |2009| – maiores informações no site www.myspace.com/validuate – com o grupo academia onírica, gravou o cd veículo q.s.p. |2010| – não se sabe se a pressa é um acúmulo de menos ou uma soma que abrevia a vida – as árvores da av. santos dummont são lindas – autor do livro cabeça de sol em cima do trem, ainda inédito – seu comportamento não presta para o capitalismo – poeta e vai ver viver é vrum! incompreendigo:” A seguir, apresento-lhes uma prévia dessa conversa.

Adriano Lobão Aragão - Em que aspectos poesia e vivência se encontram?

Thiago E - Minha vivência acaba se transformando na poesia que construo, naturalmente. Como eu acredito que seja com quase todo poeta. Digo quase todo porque cada um tem seu modo de produção. Mas esse limite entre poesia e vivência não pode ser definido. Não dá pra ser definido. É excessivamente brumoso. Uma vez li uma frase do poeta-filósofo Wittgenstein que nunca esquecerei: os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem. E ele ainda diz que quando se tem algo em mente, se tem a si mesmo em mente. Então você pode tomar a linguagem poética como sua vida e explodir essa fronteira que separaria as duas. Você investiga, por exemplo, uma orelha e começa a escrever: é uma casa na cabeça – encerada e sem madeira não tem porta para entrar: recebe a ressonância e esse som reside lá, clareia o ir do cego – seu sentido mais aberto, e mostra-lhe a cara do barulho ali por perto [...]. Nesse momento você escreve uma nova realidade, sua nova realidade, e, consequentemente, vive esse novo também. O poeta Roberto Piva diz que não acredita em poeta experimental que não tenha vida experimental. Eu acho essa afirmação perigosa. Depende do que se entenda por vida e por experimental. O que é experimental? Poderia ser usar uma droga para tentar escrever diferenciadamente? Aprender uma nova língua? Se masturbar com a mão esquerda? Educar uma criança? Poderia ser traduzir textos tidos como intraduzíveis? Experimental varia de acordo com seu referencial e tudo pode ser diferente. Enfim, dou essa volta filosófica pra lembrar que, de vez em quando, é bom prestarmos atenção em alguns conceitos e preconceitos por aqui. Recentemente comecei a escrever sobre alguns problemas que tenho: problema de visão, transtorno de equilíbrio, gagueira, etc. Se eu não passasse por essas dificuldades e revelações e aprendizados, talvez esses temas não fossem abordados por mim. E agora isso começou a virar substância de poemas também.

Adriano - E como é a tua relação com a forma?

Thiago - Sempre procuro investigar os vários modos de se fazer um poema. Seja no suposto verso livre ou no verso metrificado ou poema visual ou escrita automática ou outro jeito. Não vejo o metro com preconceito, ou como um vilão, ou algo ultrapassado, ou uma velharia inadmissível. Não penso assim. É claro que eu entendo que, em alguns momentos da história, alguns movimentos literários precisaram ser radicais e execraram o verso metrificado – ou super-defenderam como único caminho possível. Como ainda não precisei ser unilateral, pra mim é apenas mais um veículo da comunicação. Me interessa percorrer as singularidades dessas vertentes todas. Não há dúvida que uma grande vantagem que o verso formal, metrificado, tem é a facilidade pra ser decorado pelo leitor-ouvinte. Você entra naquele compasso do poema e lembra mais fácil. Frequentemente, a publicidade usa isso com precisão de atirador de elite! E aí a gente novamente presta atenção na grande importância do ritmo do texto. Um poema com um ritmo legal, musical, mesmo que não obedeça ao metro, estabelece um contato mais agradável com o leitor. Ninguém gosta de ler um poema duro, que não flui. A primeira coisa que presto atenção num poema é a música: as ressonâncias das letras, das palavras, a dicção, as assonâncias, as aliterações, a sintaxe de tudo. Quando fiz o curso de Letras da UFPI, conheci a maravilhosa professora Maria do Socorro Fernandes de Carvalho – a Só. Eu já lia muita coisa sobre Concretismo, poesia visual, poesia marginal, outras contemporaneidades. A Só já havia estudado isso, mas passou a estudar poesia seiscentista e todas as suas divertidas complexidades históricas e retóricas. Em 2007, resolvi fazer um trabalho nesse campo poético menos visitado e aprender algumas antiguidades(?) da poesia que não eram comuns pra mim. E estudei velhas boas novas. Nesse período, li e reli a Arte Poética, e da Pintura, e Symmetria, com Princípios da Perspectiva do português Philippe Nunes, de 1615, e o Luzes da Poesia, do Manoel da Fonseca Borralho, de 1724. Esses dois foram trazidos de Portugal em fac-símile pela Só. Também conheci trechos do Said Ali, M. Cavalcante Proença, o Tratado de Versificação do Olavo Bilac e Guimaraens Passos e, o mais recente, o grande livro Teoria do Verso, de 1974, do professor Rogério Chociay. Pra quem quer se inteirar de ritmo poético formal, o Teoria do Verso é fantástico! E agora eu tô lendo O Sexo do Verso, do Glauco Matoso – também excepcional! Que inclusive pode ser baixado inteiro da internet. Essas várias experiências tidas criam um bom repertório na minha cabeça e, num determinado poema, resolvo usar uma ferramenta ou outra. Depende do que quero dizer – de como a mensagem vem. Acho legal aprender essas estruturas rítmicas – já são células musicais para o baldrame de uma poesia. Resta adaptar um ao outro. Percebo que muitos poetas falam mal do metro na poesia, mas gostam de música pop – como se a música pop não tivesse uma fôrma, um fórmula também. Basta perceber que o som pop tem uma introdução, geralmente 2 estrofes, um trechinho que prepara pro refrão envolvente, um solo ou rife e tudo repete novamente. E é ruim? Não. É só se preocupar com uma boa construção naqueles limites. Na poesia é parecido.


[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, 06 de dezembro de 2011]

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