sábado, 24 de dezembro de 2011

José de Alencar e a tradição épica


 



João Adolfo Hansen, em Notas sobre o Gênero Épico, antológico prefácio para o volume de poemas épicos brasileiros da coleção Multiclássicos, editada pela USP, observa que “enquanto duraram as instituições do mundo antigo, a epopéia narrou a ação heróica de tipos ilustres, fundamentando-a em princípios absolutos, força guerreira, soberania jurídico-religiosa, virtude fecunda. Desde a segunda metade do século XVIII, a universalização do princípio da livre-concorrência burguesa que impôs a mais-valia objetiva a todos e contra todos foi mortal também para ela, pois o heroísmo é improvável e inverossímil quando o dinheiro é o equivalente universal de todos os valores. Desde então, apesar de algumas tentativas românticas de revivê-la nos séculos XIX e XX, é um gênero morto.” Entretanto, George Steiner, em sua obra Nenhuma Paixão Desperdiçada, alude a um esforço bastante recorrente na literatura inglesa de retomar Homero. O mesmo não deve ser absolutamente alheio às demais literaturas ocidentais: “Impressionam-nos, principalmente, a qualidade e diversidade da extensa linhagem de tradutores e autores que reagiram ao estímulo de Homero. É a complexidade das modulações, é a riqueza de visões que nos leva de Lydgate e Caxton a Ulysses e Omeros. Não foi apenas em Keats que o Homero de Chapman exerceu sua atração desconcertante. O que seria da Ilíada projetada por Dryden se ele tivesse persistido além do Livro I. Não sei que outro poema épico em inglês depois do Paradise Regained de Milton – e como Homero está presente em Milton! – equipara-se em prestígio e maestria de narrativa à Ilíada de Pope. Encontram-se instâncias de inequívocas ‘domesticidades’, como no caso de uma decoração interior em estilo flamengo na Odisséia de Cowper e do tratamento que ele deu ‘àquela espécie sublime que deve sua própria existência à simplicidade’. Os Cantos homéricos de Shelley revelam tanto seu virtuosismo poético quanto sua intimidade com os textos líricos gregos. (...)

Em terras brasileiras, as tentativas de reviver o gênero épico incluem a Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira; O Uraguai (1769), de Basílio da Gama; Vila Rica (1773), de Cláudio Manuel da Costa; Caramuru (1781), de Santa Rita Durão; I-Juca Pirama (1851), de Gonçalves Dias; e A Confederação dos Tamoios (1856), de Gonçalves de Magalhães. Também merece atenção o trabalho empreendido por Odorico Mendes, que, em meados do século XIX, dedicou-se avidamente em divulgar e traduzir Virgílio e Homero para o português. Falecido em Londres, a 17 de agosto de 1864, deixou prontas para edição suas versões da Ilíada e da Odisséia, publicadas posteriormente. A relevância do trabalho de Mendes pode ser aferida através do seguinte fragmento de Machado de Assis, publicado originalmente no Diário do Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1864: “Odorico Mendes é uma das figuras mais imponentes de nossa literatura. Tinha o culto da antiguidade, de que era, aos olhos modernos, um intérprete perfeito. Naturalizara Virgílio na língua de Camões; tratava de fazer o mesmo ao divino Homero. De sua própria inspiração deixou formosos versos, conhecidos de todos os que prezam as letras pátrias. E não foi só como escritor e poeta que deixou um nome; antes de fazer a sua segunda Odisséia, escrita em grego por Homero, teve outra, que foi a das nossas lutas políticas, onde ele representou um papel e deixou um exemplo. Era filho do Maranhão, terra fecunda de tantas glórias pátrias, e tão desventurada a esta hora, que as vê fugir, uma a uma, para a terra da eternidade.

Alencar não permaneceu indiferente a esta busca de recuperação da épica. Afeito a polêmicas, o notório romancista cearense foi protagonista de uma acirrada pendenga a respeito de A Confederação do Tamoios, conforme nos lembra João Adalberto Campato Jr, em A Confederação de Magalhães: Epopéia e Necessidade Cultural (constante no volume Multiclássicos, já citado): “Como se sabe, a publicação de A Confederação dos Tamoios deu azo, ainda no ano de 1856, a uma das polêmicas mais significativas e acirradas da literatura nacional, em que se enfrentaram, resguardados sob pseudônimos, pelas páginas dos jornais da Corte, o romancista cearense José Martiniano de Alencar – que, além de listar erros de várias espécies no poema, negava-lhe brasilidade – e os defensores de Gonçalves de Magalhães, entre os quais destacamos o Imperador Pedro II, o frei Francisco de Monte Alverne e o escritor Manuel de Araújo Porto Alegre. Desde aquela época até os tempos que correm, os críticos, em sua maciça maioria, não fazem senão repetir as censuras de Alencar ao poema e seu autor (...)

Era de se esperar que em breve José de Alencar se dispusesse a transpor para suas próprias páginas os elementos que tanto defendeu em sua famosa polêmica. Justamente no ano seguinte, publicaria O Guarani, obra que, de maneira praticamente imediata, o elevou ao posto de autor consagrado. Mas um dilema se apresenta diante do escritor: como, inevitavelmente mergulhado na tradição impregnada na cultura letrada e no próprio idioma, criar a literatura de um novo povo (como pretendia Alencar) recalcando antigos arquétipos euro-ocidentais apenas com o bronze da cor local?



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 20 de dezembro de 2011]

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