terça-feira, 1 de novembro de 2011

Uma tempestade para Peter Greenaway


[Adriano Lobão Aragão]




É possível que “A Tempestade” seja a mais híbrida de todas as peças produzidas por William Shakespeare. Obra elaborada no limiar de sua carreira, mantém os méritos estéticos, poéticos e contextuais que imortalizariam o bardo inglês, mas deixa entreaberta uma questão que não alcançou suas demais produções: seria “A Tempestade” uma comédia? Para além de um mero exercício de classificação, as diversas implicações políticas e filosóficas presentes na peça, numa estrutura que evoca intensamente seus dramas históricos, transformam a obra em questão num curioso exemplo de autor transcendendo os próprios gêneros que ajudou a definir, seja ao longo do desenvolvimento histórico do teatro ocidental, seja no próprio contexto em que escreveu e encenou suas peças. Não se afirma aqui que “A Tempestade” possa ser apontada como um ponto culminante da maturidade artística de Shakespeare, mas certamente trata-se de uma obra onde a ousadia do bardo não se limitou ao tema e à estrutura técnica, mas também contagiou sua própria concepção de gênero dramático. Tanto que séculos depois, adaptar “A Tempestade” para o cinema contemporâneo implicaria inevitavelmente no enfrentamento desse dilema.

Na primeira versão de seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, datado de 1935-36, Walter Benjamin afirma que “toda forma de arte amadurecida está no ponto de intersecção de três linhas evolutivas.” Em primeiro lugar, Benjamin observa que “a técnica atua sobre uma forma de arte determinada.” Ora, como fazer jus a uma adaptação do Shakespeare de “A Tempestade” dispondo somente do que tecnicamente a arte cinematográfica já elencou como convencional ou, mais sintomático ainda, como porto seguro para uma adaptação que anseia revelar-se classicamente bem-sucedida. Já em sua concepção, Shakespeare direciona sua peça para a superação da convencionalidade. Como segunda linha evolutiva, Benjamin menciona que “em certos estágios do seu desenvolvimento as formas artísticas tradicionais tentam laboriosamente produzir efeitos que mais tarde serão obtidos sem qualquer esforço pelas novas formas de arte.” É certo que o hibridismo de “A Tempestade” é plenamente visível em diversas produções romanescas e cinematográficas, tornando-se, em boa parte do romance dos séculos XIX e XX e no cinema de massa do século XX, uma tônica constante. O efeito artístico que pudesse emular “A Tempestade” de Shakespeare para as telas, na última década do século XX perpassa, inevitavelmente, pelo questionamento do desenvolvimento das formas cinematográficas de expressão.

Quando o cineasta Peter Greenaway dedicou-se a tal tarefa, em 1991, seu controverso currículo já apontava para a busca de maneiras ousadas de superar tais dilemas. Apresentando visíveis influências de Federico Fellini (“Satyricon”), Pier Paolo Pasolini (a Trilogia da Vida) e até mesmo do infame Tinto Brass (“Calígula”), Greenaway orquestrou uma obra na qual nenhuma construção alegórica ou efeito de montagem resolveria o impasse do hibridismo de gênero, já bastante navegado na cinematografia. Mas, assim como Júlio Bressane (“Cleópatra”, a alegórica versão com Alessandra Negrini), Greenaway desafia a própria representação cinematográfica ao compor sua “ópera das telas” como um teatro moderno que se realiza através do cinema. Se Benjamin indica como terceiro ponto o fato de que “transformações sociais muitas vezes imperceptíveis acarretam mudanças na estrutura da recepção, que serão mais tarde utilizadas pelas novas formas de arte”, resta saber se a recepção de Greenaway para a obra de Shakespeare será ou não incorporada por outros cineastas portadores de relevantes realizações. Mas a arte, como a vida, é sempre feita de riscos.   



[publicado no Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 1º de novembro de 2011] 

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