sábado, 26 de novembro de 2011

Flores Fúnebres e outros contos cruéis - Villiers de L’Isle-Adam

Villiers de L'Isle-Adam, Flores Fúnebres e outros contos cruéis. São Pedro de Alcântara, SC: Edições Nephelibata, 2009.

 

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Notas para quem desconhece

Villiers de L’Isle-Adam


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Eu não me aventuraria a dizer que o conto cruel se constitui em um subgênero do conto, mas se for, forçoso será reconhecer o Conde Auguste Villiers de L’Isle-Adam (1838-1889) como o grande mestre desta forma narrativa. Antes dele, para não citar Sade e permanecer no século XIX, Prosper Mérimée (1803-1870) escrevera Mateo Falcone, sem dúvida um dos contos mais cruéis da literatura universal, por seu peso de relativismo moral. Também Edgar Allan Poe (1809-1849) já havia escrito, entre outros, O barril de Amontillado. Entre seus contemporâneos, Leon Bloy (1846-1917) e Guy de Maupassant (1850-1893) são os que mais se lhe aproximam no que tange a crueldade. Bloy, no entanto, resvala freqüentemente para o humor negro, dada sua insistência no macabro, enquanto Maupassant, parece-me, amplia-se para outros horizontes não estritamente cruéis, mesmo que muitas vezes imorais. De modo que, no século XIX, nenhum desses contistas foram tão insistentes e constantes na crueldade, sob suas diversas formas, como foi Villiers de L’Isle-Adam.
Os contos aqui selecionados dão uma mostra da diversidade da crueldade em Villiers. Não vou dissecar os contos, nem indicar onde se encontra seu caráter cruel, pois creio que isso pode ameaçar o prazer da leitura; limito-me, no entanto, a indicar que três contos desta seleção fogem às características do cruel: em É de se confundir!, Lembranças ocultas e A incompreendida. Isso para o leitor não pensar que a escrita de Villiers se reduz a estampar formas de crueldade; digamos que isso nele é apenas uma forte característica. Há muitas outras: a filosófica, a poética, a política, etc. O que é relevante afirmar, repito, é que nenhum outro contista escreveu tantos contos cruéis como ele. Daí ser um título muito bem acertado o de Contes cruels para sua primeira reunião de contos, publicada em fevereiro de 1883. Além disso, Villiers escreveu poesias, teatro e romances, além de uma infinidade de outros textos diversos, onde a crueldade e o sarcasmo também estão presentes, mas não em tão alto relevo como em seus contos.
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É curioso encontrar Villiers de L’Isle-Adam em diversas coletâneas de contos fantásticos — pois que ele também criou obras primas desse gênero — em que o conto que o representa nem sempre é fantástico. O caso exemplar é o de A tortura pela esperança de Nouveaux contes cruels, de 1888. Jorge Luis Borges, que adorava esse conto, o incluiu na famosa Antología de la literatura fantástica organizada por ele, Silvina Ocampo e Bioy Casares. Italo Calvino, depois de dizer que: “A tortura com a esperança é um dos exemplos mais perfeitos de fantástico puramente mental”, afirma que somente não o incluiu na sua antologia “para não repetir escolhas alheias”. E, no entanto, não penso que A tortura pela esperança seja um bom exemplo de conto fantástico. — Os melhores exemplos de contos fantásticos em Villiers, sem dúvida, são Véra e O intersigno. De seus romances: A Eva Futura e Claire Lenoir (de Tribulat Bonhomet).
A tortura pela esperança, que é um dos contos mais cruéis de Villiers, e, talvez, de toda a literatura, “contudo”, escreveu H. P. Lovecraft com muita razão, “não tanto pertence à tradição fantástica como forma uma categoria especial — o chamado conto cruel, em que o esporear das emoções é provocado por dramáticas tantalizações, frustrações e tormentos físicos atrozes”. Mas deixo por conta do leitor decidir se esse conto pertence ao fantástico ou não — se é Borges e Calvino quem estão certos, ou se Lovecraft e este humilde tradutor que vos escreve.
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Como todos os franceses, e meio mundo mais, foi através de Charles Baudelaire (1821-1867) que Villiers de L’Isle-Adam conheceu a obra de Edgar Allan Poe. Villiers tinha cerca de vinte e três anos, em 1861, em Paris, quando conhece Baudelaire e logo em seguida, na casa desse, Richard Wagner (1813-1883). Ambos os “velhos” ficaram encantados com a genialidade do jovem.
Em 1866 Villiers, também caído na graças de Theophile Gautier (1811-1872), quase que se torna seu genro, pois foi noivo por um ano da filha mais jovem de Gautier, Estelle Gautier, devido a amizade que tinha com a filha mais velha, Judith Gautier.
Além de Baudelaire, Gautier e Wagner, constam entre seus amigos, e esses mais íntimos do que àqueles: Stephen Mallarmé, (1842-1898) Joris-Karls Huysmans (1848-1907) e Leon Bloy, entre outros.
E, fato relevante, todos esses são inimigos da realidade diária, da vida comum, dos burgueses. Todos eles arautos do Sonho. Daí ser Villiers ao mesmo tempo um escritor de literatura fantástica, uma referência da prosa simbolista — na qual a obra Axël é o cume — e, ao lado de Maupassant, retratista de sua época devido a sua perspicácia na observação e pintura da vida, e do modo de vida, do homem burguês — que se assemelha muito, não sejamos ingênuos, com os homens que ainda hoje encontramos pelas ruas...
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Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, Conde de Villiers de L’Isle-Adam, nasceu em Saint-Brieuc, na Bretanha. Desde cedo demonstrou gosto pelas artes, principalmente pela música e pela literatura. Na adolescência habituou-se a dormir de dia e viver a noite; tornou-se então, quando foi para Paris, por volta de 1860, conhecidíssimo boêmio. Mesmo sendo descendente de uma antiga família de nobres, tendo ancestrais ilustres que figuram na história política da França, ele não herdou nada. Seu pai, Joseph-Toussaint-Charles Villiers de L’Isle-Adam, dissipou o que restara das riquezas da família em expedições, em busca de tesouros que nunca encontrou. Auguste viveu na pobreza, inclusive nas ruas, e se subordinou aos mais diversos trabalhos. Mesmo depois de publicar Contes cruels, seu livro mais popular, ele ainda recorria a outros expedientes, como por exemplo, ser “monitor em sala de boxe inglês”, onde recebia 60 francos por mês e “cerca de duas dezenas de socos no rosto a cada semana para alimentar seu filho”.
Auguste Villiers de L’Isle-Adam morreu de câncer no estômago, no leito de um hospital, tendo ao seu lado Huysmans, Mallarmé e Marie Dantine, uma serviçal analfabeta com a qual vivia há dez anos e para a qual deixou o título de Condessa em um casamento in extremis — e o filho, Victor de Villiers de L’Isle-Adam, que morreu miserável, tuberculoso, em 1901, com apenas 20 anos de idade.
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As frases longas, com excesso de travessões e vírgulas, são propriedades do autor que, ao contrário de outros tradutores, eu procurei preservar. Quanto ao vocábulo raro, nada que um velho Aurélio não resolva.

Camilo Prado, junho de 2009.

 

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