terça-feira, 13 de setembro de 2011

Nícolas Gómez Dávila: aforismos





Nícolas Gómez Dávila [tradução Wanderson Lima]



 
O ironista desconfia do que diz sem crer que o contrário seja certo.
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Temos necessidade de que nos contradigam para afinarmos nossas idéias.
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A literatura toda é contemporânea para o leitor que sabe ler.
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A prolixidade não é excesso de palavras, mas sim escassez de idéias.
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O homem mais desesperado é somente o que melhor esconde sua esperança.
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Dos seres que amamos sua existência nos basta.
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Quem critica ao burguês recebe duplo aplauso: o do marxista, que nos julga inteligentes porque corroboramos seus prejuízos; o do burguês, que nos julga acertados porque pensa em seu vizinho.
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A tentação do comunista é a liberdade de espírito.
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Vencer a um idiota nos humilha.
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Como pode viver quem não espera milagres?
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Pensar que só importam as coisas importantes é sintoma de barbárie.
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Vivemos porque não nos vemos com os olhos que os demais nos vêem.
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Entre a anarquia dos instintos e a tirania da ordem, estende-se o fugitivo e puro território da perfeição humana.
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O tom professoral não é próprio do que sabe, senão do que tem dúvidas.
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Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.
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A “psicologia’ é, propriamente, o estudo do comportamento burguês.
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Amor é o ato que transforma a seu objeto de coisa em pessoa.
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O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.
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O que distancia de Deus não é a sensualidade, mas a abstração.
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O estado moderno fabrica as opiniões que reconhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.
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Amar é compreender a razão que teve Deus para criar ao que amamos.
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Amar é rondar sem descanso em torno da impenetrabilidade de um ser.
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A verdade está na história, mas a história não é a verdade.
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A Bíblia não é a voz de Deus, senão a do homem que o encontra.
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Educar a alma consiste em ensinar-lhe a transformar em admiração sua inveja.
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Crer é penetrar nas entranhas do que meramente sabíamos.
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O pior vício da crítica de arte é o abuso metafórico do vocabulário filosófico.
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A hipocrisia não é a ferramenta do hipócrita, senão sua prisão.
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Só o imbecil não se sente nunca copartidário de seus inimigos.
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A imparcialidade é filha da preguiça e do medo.
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O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
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A estatística é a ferramenta daquele que renuncia a compreender para poder manipular.
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A grandiloqüência das teorias estéticas cresce com a mediocridade das obras, como a dos oradores com a decadência de sua pátria.
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A tragédia da esquerda? Diagnosticar a enfermidade corretamente, mas agravá-la com sua terapêutica.
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A inteligência não consiste no manejo de idéias inteligentes, mas no manejo inteligente de qualquer idéia.
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Toda reta leva direto a um inferno.
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As “soluções” são as ideologias da estupidez.


[In: DÁVILA, Nícolas Gómez. Escolios a un texto implícito (selección). Bogotá - Colômbia: Villegas editores, 2002]


P. S. Júlio Lemos escreveu uma sucinta e esclarecedora apresentação de Nícolas Gómez Dávila aqui.

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