domingo, 13 de fevereiro de 2011

H. Dobal: A linguagem do tempo e seus artifícios

[Adriano Lobão Aragão]



Menciona-se que, durante o período de composição dos poemas que figurariam em O Tempo Consequente, o poeta piauiense H. Dobal encontrava-se lendo escritores que se direcionavam para a angústia da existência humana, tais como Jean Paul Sartre, e desde o final da década de quarenta lia T.S. Eliot e Albert Camus. Quando da publicação de sua primeira obra, em 1966, no Rio de Janeiro, pela editora Artenova, administrada pelo também poeta piauiense Álvaro Pacheco, Hindemburgo Dobal Teixeira (1927-2008) já possuía alguma experiência poética, lapidada não por publicações imaturas e apressadas, mas por intenso labor e dedicação silenciosos que levaram o poeta a abandonar não apenas seus poemas da juventude, mas o próprio conceito artístico que os havia estruturado. Podemos afirmar então que se trata de um autor que estreava com uma forte carga de maturidade, com um projeto poético consistente, consciente e bem definido, bem como interessado pela condição existencial humana. Contava o poeta então 39 anos.

A partir do poema “Pedras”, constante em O Tempo Consequente, destacamos os seguintes versos: “Aqui os bois do agreste desgarrados / vêm pastar o silêncio e a calmaria / das tardes vêm ariscos ruminando / a lentidão dos dias o repouso / dos domingos espalhados na chapada.” Neste, e em diversos outros poemas, o abandono, a calmaria da tarde e do domingo são símbolos recorrentes da condição desoladora do ser humano na poesia de H. Dobal. Embora seja o silêncio e a calmaria o pasto das reses (que, no poema “Réquiem”, pastavam “a poeira”), e a lentidão e o repouso seu pasto ruminado, a inquietação é expressa nos bois, estes que “vêm ariscos”. Considerando o homem equivalente ao gado, conforme expressa a poética dobalina em vários momentos, é nesse sentido que o ser vivente se indispõe inutilmente à sua condição. Inutilmente porque “não foge o tempo ao que lhe cabe”, conforme se afirma nos versos de “Tempora”. Observando a utilização de imagens-chaves essenciais à sua obra, poderíamos também mencionar que não foge o ser ao que lhe cabe: o inevitável desolamento espalhado pela chapada. Ao longo do poema “Pedras”, Dobal faz uso de muitas dessas referências, constantes em vários poemas de O Tempo Consequente. “Aqui os bois do agreste...” nos remete a Introdução e Rondó sem Capricho (“Os boizinhos do agreste / estão na pele e nos ossos.”); “Como outros bichos...”, remete a Réquiem (“o homem e os outros bichos esquecidos.”) e Bestiário (“O homem e outros bichos que passeiam”); “A paisagem de cinza devorada”, remete novamente a Réquiem (“onde entanguidos bois pastam a poeira”, “tão revertida ao pó nesta paisagem / neste campo de cinza...”) e Bestiário (“neste campo de cinza te perseguem”); “E em nós a fome o perguntar calado:”, remete a Os Pescadores (“mas calam tudo como / seus cambos de peixe”); “e o tempo lhes sobra para as lembranças”, remete a Homem (“como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso / não conta as eras que se extinguem.”). “... o repouso / dos domingos espalhados na chapada.” encontra correspondência em Tempora (“... E nos concede os domingos / onde acuados sonhamos com outros domingos.”).
 
Uma hipótese corrente é a de que a linguagem dobalina seja “pobre”. Halan Silva, em As Formas Incompletas (p. 49), atribui a Cineas Santos, editor de Dobal, tal afirmação. “O vocabulário dos poemas, como tem enfatizado o professor Cineas Santos, é pobre, o que exige maior lucidez do escritor. É impressionante como consegue atingir tamanha expressividade poética usando um vocabulário tão diminuto e repetitivo.” Ressaltamos que o comentário em questão não é, em hipótese alguma, depreciativo, pois trata-se sobretudo de um elogio. Entendemos que se quis utilizar o termo “pobre” para indicar uma relação entre [forte expressividade] x [vocabulário diminuto]. Mas, nesse aspecto, não acreditamos que o termo “pobre” seja exato. Primeiro, os termos “conciso”, “sucinto” ou “reduzido ao essencial” talvez se apresentassem muito mais próximos daquilo que se tencionou expressar, sobretudo porque acreditamos que não se buscou afirmar que a linguagem de Dobal seja desprovida de maiores recursos. Segundo, em um poeta que utiliza em um mesmo poema termos tão díspares como: simulacra e mocós (Pedras) bestiário e cavalim (Bestiário); lonjura e DNOCS (Réquiem); compáscuo e desamor (Antilírica), para citarmos apenas alguns dos primeiros poemas de O Tempo Consequente, não deve, efetivamente, ser considerado de vocabulário “pobre”. Terceiro, as aliterações e assonâncias, como as demonstradas no primeiro verso de “Pedras” e observáveis em diversos versos e poemas, dentre outros recursos linguísticos presentes ao longo de toda sua obra, nos dão a devida prova de que o termo “pobre” não se aplica nem à linguagem nem ao vocabulário de Dobal. Só é possível compreender tal hipótese se entendida como antítese de verborragia, aspecto linguístico do qual a poética de Dobal se afasta plenamente. Então, acreditamos que o comentário de Cineas Santos, mencionado por Halan Silva, poderia estar se referindo justamente ao conjunto de expressões, imagens, signos, (alguns deles listados no final do parágrafo anterior) que se repetem ao longo da poética de O Tempo Consequente. E eis que na última estrofe de “Pedras”, Dobal escreve que: “O tempo gasta estas pedras / com mil artifícios repetidos.” E é através dessa linguagem do tempo e seus artifícios que o poeta repetidamente nos observa que somente resta ao homem a aceitação de domingos sem sucessão (portanto eternos) plantados entre as pedras da chapada.





 

[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, 08 de fevereiro de 2011]

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