quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Antilírica praça, lírica poesia


[por Adriano Lobão Aragão]




Em entrevista concedida a Halan Silva e João Kennedy Eugênio, o poeta H. Dobal declarou que “quem considera minha poesia antilírica está completamente equivocado. Ela é lírica por excelência. Esse tipo de raciocínio parte de quem confunde lirismo com sentimentalismo”. O comentário de Dobal, publicado na biografia As formas incompletas, poderia remeter àqueles que atribuíssem, equivocadamente, o termo “antilírica” à poesia de Dobal a partir do poema “Antilírica”, constante em seu livro de estreia, O Tempo Consequente, desarticulando-o assim de seu contexto original, presente no poema homônimo. Trata-se tão somente, embora não exclusivamente, da uma praça retratada no poema em questão, sem que nenhuma implicação o termo impute à poética dobalina: “Antilírica praça / de árvores mortas. / Balcão de peixes / é teu cimento / e namorados / de olhar de peixe / nas tuas pistas / passeiam seu desamor. / (...)”.

O rigor e a contenção sentimental que o poeta desenvolveu em O Tempo Consequente contribuíram para que a ideia de uma poesia “antilírica”, ou de um lirismo “áspero”, “agreste”, se popularizasse, de certa forma indevidamente. O fato de Dobal dedicar-se de maneira incisiva na construção metodicamente consciente de sua obra não implica, necessariamente, numa poesia mecanicista, desprovida das singularidades e subjetivismos tão inerentes ao lirismo poético. O fato é que, mesmo correndo o risco de imprimir uma marca tão indelével à sua poesia, Dobal manteve-se fiel às suas convicções e, como todo grande artista, desenvolveu sua poesia sob o risco da incompreensão. 

Em 1963, Odylo Costa, filho, publicou alguns poemas do projeto inicial de O Tempo Consequente, que seria bem mais extenso. Concebido silenciosamente entre 1952 e 1966, H. Dobal suprimiu todos os poemas que não estivessem alinhados com o tema recorrente, independente de seu valor estético, e então dividiu o livro em duas partes: Campo de Cinza e As Formas Incompletas. Não houve interesse, por parte do poeta, na publicação dos poemas suprimidos, permanecendo inéditos. Halan Silva, biógrafo de Dobal, em As Formas Incompletas, apontamentos para uma biografia (2005, p. 42), afirma que não foram poucas as oportunidades de entrosamento literário que H. Dobal dispensou (...) permanecendo anônimo, na rígida disciplina de não fazer concessões literárias a si mesmo e de só publicar quando absolutamente seguro. Este foi o motivo por que não acatou uma só das sugestões que fizeram o dramaturgo Francisco Pereira da Silva e o poeta Odylo Costa, filho, que leram O Tempo Consequente antes de sua publicação em 1966.” 

Quanto ao poema mencionado, “Antilírica”, fica claro que o poeta refere-se inicialmente a uma praça desde seus primeiros versos, e, ao longo do poema assim a qualifica: “antilírica”, “antilivre”, “antipraça”. O que não é “lírico”, o que não é “livre”, não seria então uma “praça”. Subentende-se assim um conceito de praça próprio do poema: lírica e livre. A questão seria: o que não a torna nem livre nem lírica, “uma antipraça”, portanto?

Na primeira estrofe, aborda a construção imagética da praça, caracterizando-a através de árvores mortas, balcão de peixes, namorados passeando. Porém, há uma subversão do que se poderia esperar de uma descrição aprazível. As árvores estão mortas e os bancos (de cimento) são balcões de peixes. Namorados passeando simbolizam o desamor. Na segunda estrofe, “sem o sol e o gado do Piauí”, observa-se que o poeta, de maneira antitética, situa a praça ao mesmo tempo em que não a situa, ela “está” e “não está” em um mesmo lugar. “Não se procure em Laranjeiras uma praça (onde ela está)”, pois ali existira somente uma “antipraça”. É notório que, em 1963, H. Dobal residia no Rio de Janeiro, justamente no bairro de Laranjeiras. Considerando que O Tempo Consequente foi publicado em 1966, é provável que o poema tenha sido escrito sobre e em Laranjeiras. Esse aspecto o torna um caso peculiar, pois se encontra na primeira parte do livro, que apresenta uma ambientação voltada quase que totalmente ao Piauí. Entretanto, Dobal não se apresenta como um poeta de regionalismos. A poética de seu livro de estréia permeia uma aridez tipicamente piauiense, mas que pode ser decantada em qualquer outro espaço, numa praça da cidade do Rio de Janeiro ou nos poemas da segunda parte do livro, como O Campo Inglês ou Lovely London. Porém, é nos poemas “piauienses” que esse aspecto se torna mais intenso, indicando que é desse chão que o poeta retira a matriz agreste de seus versos. E mesmo numa antipraça em Laranjeiras, haveria referência ao árido chão piauiense: “Estes confins a praça / prendem entre montanhas. / E tristes tristes de tão longe / voltam as planícies do Piauí.” A praça estaria reduzida apenas a uma feira de peixes e um “pasto de namorados”. Trata-se de uma construção frequente na obra de Dobal – o ser humano e o gado abordados dentro de um mesmo contexto. Sob o sol e a aspereza do campo piauiense ou numa praça de um centro urbano, o sentimento de solidão e abandono é o mesmo.

Há ainda um outro poema intitulado “Antilírica”, publicado em Ephemera, 1995. Na organização de sua Poesia Completa, passaram a ser nomeados “Antilírica I”, o poema de O Tempo Consequente, e “Antilírica II”, o de Ephemera, conforme ocorreu com alguns outros poemas de Dobal que apresentassem coincidência nos títulos, como Inverno III e Os Namorados II, também de Ephemera. Nesse segundo “Antilírica”, lê-se: “Na serenidade / que logo se planta / na face dos mortos / as antilíricas forças / que incessantes empurram a vida / dia após dia.” Para o poeta, é mais provável que “antilírica” não seja nem a praça nem sua poesia, mas a própria vida, a antilírica existência humana. Resta saber se a Poesia seria seu antídoto ou sua confirmação. 



[Publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, 21 de fevereiro de 2011]

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