domingo, 30 de janeiro de 2011

Paulo Coelho leitor de Borges

 
 
Um dia desses, vi um jogador canela-de-pau dizer na televisão que jogava inspirando-se em Messi e Cristiano Ronaldo. Paulo Coelho reivindica Jorge Luis Borges como uma de suas maiores influências. Nem o futebolista nem o escritor mentem: o problema é que há influências e influências. A que nos ensina Harold Bloom chama-se “desleitura” (misreading), e supõe uma espécie agon intelectual no qual o influenciado busca cavar seu espaço próprio na tradição literária através de uma leitura revisionista da obra do influenciador. ”Precisamos parar de pensar” – diz-nos Bloom, em A angústia da influência – ”em qualquer poeta como um ego autônomo, por mais solipsistas que sejam os poetas mais fortes. Todo poeta é um ser colhido numa relação dialética (transferência, repetição, erro, comunicação) com outro poetas ou poetas.” Posso dizer, neste sentido, que Ronaldinho Gaúcho “desleu” Mané Garrincha, ou que Borges “desleu” Kafka, Whitman e o Livro das mil e uma noites. Desler, no sentido reclamado por Bloom, requer certa paridade de forças, uma astúcia de saber deslocar, reinterpretar, até mesmo distorcer.

O que me parece, e o que eu vou discutir aqui, é justamente o agon que Paulo Coelho estabelece com a obra de Jorge Luis Borges. Parto da hipótese de que Coelho deslê Borges numa pauta demasiado adocicada, conivente com certa cultura da auto-ajuda,dando um tom de parábola a certas narrativas pesadelosas do autor argentino. O mau leitor, o mau leitor de verdade, é aquele que não se abre para a experiência do Outro: prefere “adaptar” a seu mundinho de idéias prontas a palavra do Outro.  Não reconhece suas limitações. Não se abre a possibilidades de mudança. O Aleph (2010) de Paulo Coelho, por exemplo, é a redução do Aleph (1949) de Borges a um misticismo de boutique. Quem conhece minimamente a obra borgeana sabe do seu agnosticismo; sabe que o misticismo e a religião são tratados por ele com muita ambigüidade, muitas vezes de forma abertamente paródica; especialmente no conto “O aleph” é difícil sustentar a leitura de uma iluminação mística. No entanto, o escritor brasileiro não estava disposto a sair do mundinho dele, então trouxe até ele um Borges caricaturesco.

Como cotejar o aleph coelhiano como o aleph borgeano resultaria num ensaio um tanto extenso e talvez enfadonho, tomo como objeto de análise o texto-homenagem “O Grande Mapa”, que Coelho faz “deslendo” o relato borgeano “Do rigor na ciência”. Vejamos:


DO RIGOR NA CIÊNCIA


...Naquele Império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não foram satisfatórios e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

(Suárez Miranda: Viajes de Varones Prudentes, livro quarto, cap. XIV, Lérida,1658.)

[Jorge Luis Borges. Trad. Josely Vianna Baptista. In: O fazedor]

*

O GRANDE MAPA

Certo rei encomendou aos geógrafos um mapa do país. Mas exigiu que tal mapa fosse perfeito, com todos os detalhes. Os geógrafos mediram todos os locais, e fizeram um rascunho. Um deles comentou que ainda faltavam detalhes de rios.
 Resolveram refazer o desenho numa escala bem maior. Quando ficou pronto, o mapa estava do tamanho do primeiro andar de um edifício; mesmo assim, alguns conselheiros do rei argumentaram:
- Não dá para ver os caminhos nos bosques.
E os sábios geógrafos foram desenhando mapas cada vez maiores, com detalhes e mais detalhes do país.
Quando, finalmente, conseguiram o mapa perfeito, chamaram o rei e o levaram a um imenso deserto. Ali chegando, mostraram uma estranha tenda, que se estendia até o horizonte.
- O que é isso?
- O mapa do país - responderam os geógrafos. - Como quisemos fazê-lo o mais próximo da realidade, ele ficou tão grande que ocupa o deserto inteiro.
- O medo de errar, na maior parte das vezes, termina nos conduzindo ao próprio erro - comentou o rei. - O mapa é tão detalhado, que não serve para nada.
     E mandou enforcar os geógrafos.

[Paulo Coelho. In: O Liberal (Belém) 02/07/2006]



O detalhe inútil, o aforismo infeliz, o moralismo piegas – tudo isso a leitura de “O grande mapa” nos oferece, revestido na forma alegórica do apólogo não porque busque, pela via metafórica, exprimir o inexprimível, mas por mera acomodação.  Anoto a seguir algumas mudanças empobrecedoras, para que não se diga que acusei sem demonstrar:

Mudança de Título - “Do rigor na ciência” (no original: “Del rigor en la ciencia”) direciona nossa leitura, sem necessariamente empobrecê-la. Perceba-se o que há de paródico, escarnecedor às pretensões da Ciência. Num parágrafo, Borges expõem com sutileza a crítica que Adorno e Horkheimer fizeram à razão iluminista (vide o clássico Dialética do iluminismo). E não é por acaso que Jean Baudrillard amava este fragmento, que, aliás, é aludido em Simulacros e simulação: Borges anuncia ali o que o pensador francês chamará de morte do real e domínio do simulacro. Naturalmente, estou fazendo uma leitura uma leitura “ilustrativista” (Costa Lima) do fragmento borgeano – que não faz justiça à autonomia da literatura, na medida em que a toma como mera ilustração de teorias filosóficas – e a sugiro aqui apenas para realçar a força crítica da literatura borgeana, tanta vezes acusada de ser demasiada esteticista e auto-referente. É possível trazer a metáfora para outros campos: por exemplo, para as pretensões da crítica literária de esgotar o conteúdo do produto literário, fazendo coincidir o conteúdo simbólico da obra (o Império) à sua explicação racional (o Mapa). Outra leitura possível seria ver ali uma crítica (que Borges repete em outros textos) ao realismo literário em suas manifestações mais extremas, que vindica uma espécie de mímesis total: a obra literária como capaz de recobrir a totalidade do real. Bem, o que faz Paulo Coelho? Intitula sua parábola de “O grande mapa”, cujo poder de sugestividade é praticamente nulo.

Eliminação da falsa atribuição – Quem conhece minimamente a literatura de Borges sabe que ele é perito em nos enredar em labirintos cheios de falsas saídas: inventa autores e teorias que não constam em nenhuma biblioteca do mundo, faz prefácio de livro inexistente, atribui a teoria de um autor a outro bem diferente etc com fins lúdicos e estéticos, criando uma rede densa de referências que questionam, simultaneamente, o estatuto da literatura e a consistência ontológica do nosso mundo. O fragmento “Do rigor na Ciência” é atribuído ao inexistente Suárez Miranda. Note que o suposto livro de onde Borges retirara o fragmento, “Viajes de varones Prudente”, fora escrito no século XVII. Numa leitura de fato aprofundada, seria preciso pesquisar sobre o colonialismo nas Américas, sobre a situação das ciências no século XVII etc para perscrutarmos os efeitos de sentido daí gerados. O que fez Paulo Coelho? Eliminou a falsa atribuição, um importante elemento na constituição da polissemia do texto borgeano.

Mudança de gênero – O texto de Borges enquadra-se com mais precisão no gênero “fragmento”, e sua filiação óbvia dá-se com o universo de Franz Kafka, gênio do relato curto. Até mesmo certo clima de pesadelo – devido especialmente ao recurso da mise en abyme – que lembra o universo kafkiano está presente aí. Uma leitura aprofundada não dispensaria um cotejo cuidadoso com fragmentos semelhantes de Kafka. O que faz Paulo Coelho? Opta por substituir o fragmento por outro gênero, fortemente didático e moralista: a parábola. Com isso, Coelho ganha em transparência o que perde em complexidade. A narrativa de Borges, sendo um fragmento, começa in media res e termina sem gran finale; o apólogo de Paulo Coelho é uma narrativa íntegra, que acumula detalhes típicos de narrativas de maior extensão. Numa, o mistério e o desconforto; noutra, a linearidade e a mensagem consoladora. A narrativa de Paulo Coelho é totalmente conivente com o discurso consolador e conservador da auto-ajuda, que sempre conclui serem os problemas que vivemos solucionados no âmbito pessoal, através de uma “reforma interior”, e não através de uma mudança coletiva.

Eliminação das maiúsculas simbólicas – Perceba que no texto de Borges há várias palavras com maiúsculas que fogem às exigências da gramática normativa. Com isso, elas ganham um vigor simbólico, numa franca ironia àquela forma de organização social; não menos ironia é direcionada à ambição organizada da Ciência. O que fez Paulo Coelho? Fechou mais uma vez em seu texto as comportas da polissemia, evitando a complexidade. 

Verossimilhança – Paulo Coelho corteja tanto a verossimilhança que “limpa” seu texto de detalhes absurdos: o seu “grande mapa” não cobre, como o de Borges, o Império, mas apenas o deserto. Assim, o erro é apenas dos geógrafos, que são enforcados: os demais irão viver felizes para sempre; Borges, ao contrário, instaura um desconforto total: é a própria forma que o Império tem de organizar o mundo que falha, ou seja, o mundo é corrompido em seu fundamento. Perceba-se a dimensão do pesadelo: o mundo onde o povo não encontra nem um amparo transcendente nem um imanente, nem Deus nem a Ciência – um mundo de “Animais” e “Mendigos”.


P. S. – Este breve ensaio provavelmente será publicado numa conhecida revista, em versão aumentada e, espero, melhorada. Quando isto ocorrer, aviso aos meus leitores desse blog.


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Wanderson Lima é escritor e professor universitário (UESPI).Co-editor da revista dEsEnrEdoS e colaborador da revista RUA - UFSCAR. 


Um comentário:

antonio luceni disse...

Olá Lobão,

gostaria de convidá-lo a participar da coletânea Tantas Palavras... mais informações: www.antonioluceni.blogspot.com

abração