sábado, 30 de outubro de 2010

Notas de passagem: alguns espinhos



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A eleição do Tiririca é uma demonstração de nossa fragilidade e falta de crédito na política. Nessa sociedade dita “pós-moderna”, perdemos realmente a capacidade de sermos inteligentes. Nós estetizamos até mesmo a política... Aliás, esta nos parece mais estetizada do que a própria produção artística. Cada vez mais as propagandas políticas são carregadas de recursos cinematográficos, trilhas sonoras expressivas, iluminação menos natural e mais emotiva, maquiagem exacerbada, angulações de câmeras menos documentais e políticos que são verdadeiros personagens fílmicos. Parece-nos realmente um curta-metragem de ficção. Outras propagandas fazem da falta de recurso uma “comédia pastelão” de quinta categoria, como a campanha do famigerado Quem Quem, em Teresina. Eis o problema da Democracia: permite com que um Tiririca se eleja. “Pior do que tá vai ficar”

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O Brasil é um dos poucos países do mundo em que um bandido sai da cadeia e vai direto para o Congresso Nacional. Desconfio, entretanto, que nas cadeias encontremos pessoas mais leais e justas do que em nosso Congresso.

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Há um abismo entre Dilma e Serra. O mesmo abismo que há entre as últimas janelas de dois prédios vizinhos. Estão distantes, embora muito próximos.

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Há boas perspectivas para a política cultural do Brasil no próximo governo: de um lado a visão tacanha dos tucanos, para quem a cultura se torna um espaço de técnicos especializados e é incentivada na medida em que ela gera lucro para os cofres do governo (ou do capital estrangeiro?!); de outro, a cultura é vista como um espaço das minorias tocarem tambores e exibirem sua cor nas favelas e nas zonas marginais.

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No Piauí, a esposa de um famoso político achou que seria melhor não incentivar financeiramente um dos mais tradicionais festivais de arte santeira da cidade. Ela alegava o fato de que se tratava de um culto a imagens religiosas. Ela, como era evangélica, não aprovava a realização do festival com recursos estatais. Desconfio que se uma mula dessas fosse presidenta, ela mandava retirar dos livros de Arte todas as imagens que estivessem relacionadas ao sagrado. O que nos restaria?

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Um dos slogans da Fundação de Cultura do nosso estado é “A cultura é presente”. Esse trocadilho de profundo mau gosto diz muito sobre a política cultural desenvolvida nestes anos. A cultura para nossos gestores é apenas um presentinho: desses que a gente compra nas lojinhas bregas de 1.99 e dá, de ano em ano, aos parentes chatos.

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Muita coisa se fez pela cultura do nosso Brasil nestes últimos anos. Já conseguimos até mesmo fabricar tambores de couro e panelinhas de barro.

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O governo não tem 1 real para incentivar a produção cinematográfica de nossos jovens e sonhadores cineastas do Piauí, mas dá milhões para a produção de um filme sobre a vida do Frank Aguiar. Não tenho nada contra o Frank Aguiar (ele até me parece uma boa pessoa), mas sou contra a produção de porcaria incentivada pelo estado. Mas afinal, isso é a democracia, não é? Um sistema que iguala Villa-Lobos a Amado Batista.

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Muitas críticas foram feitas à política cultural do Piauí e, especificamente a de Teresina. A maioria das críticas que li são sem fundamentação e mal feitas. Mas valeram a pena, pois são do contra...

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A maneira mais fácil de um artista entrar em decadência na atualidade é ele participar dos eventos artísticos organizados pelo Estado. Além de não receber dinheiro, ele está demonstrando que sua arte não vai lá muito bem das pernas...

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Os nossos grandes pensadores da cultura piauiense puseram no regulamento do projeto musical “Boca Da noite”, a obrigatoriedade de (no mínimo) 60% de músicas “piauienses” no repertório. Quer dizer: o critério deixou de ser estético para ser geográfico. Um artista que desenvolver um belo projeto musical sobre Noel Rosa ou um recital com peças de Bach, automaticamente estará eliminado. Mas tudo bem, eu entendo: afinal Noel não teve muita importância para MPB, nem Bach para a música erudita.

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Assisti ao filme “Lula, filho do Brasil”, e fiquei impressionado. Pareceu-me, de fato, um filme de super herói (de quinta categoria, diga-se). A diferença é que esses filmes de super-heróis são mais bem feitos tecnicamente, além de serem mais divertidos.

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Ouvi, numa recente palestra, um ilustre piauiense dizer que devíamos trocar o iogurte pela coalhada e o beiju, que são “coisas nossas”. Entendi, através destas sábias palavras, que o sujeito que come iogurte está se despiauiensesando (desculpe-me o mau gosto do neologismo). Se um cidadão desses fosse um dia governador do estado, não tenho dúvida que comer petit gauteau seria considerado um crime hediondo...


OBS: Algumas dessas notas foram levemente inspiradas na "Bíblia do Caos", de Millôr Fernandes.

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