sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Comício de beco estreito

[Jessier Quirino]


Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodeio
Nem dinheiro muito não
Basta uma F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado mal feito
Cruzando em dez posição.

 

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

 

Uma gambiarra velha
Banguela no acender
Quatro faixa de barbante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um tarol
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.

 

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corrupto
Quatro babão, cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessa por minuto.

 

Anunciar a chegança
Do corrupto ganhador
Pedir o “V” da vitória
Dos dedo dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

 

Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.

 

Com voz de vento encanado
Com o VIVA dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar do roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.

 

E terminada a campanha
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta e programa...
É só mergulhar na Brahma
E curtir a posição.

 

Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:

 

Ele, um diabo sério, honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.

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