segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Palavra em Crise (I)



Lendo alguns ensaios de Linguagem e silêncio (ed. bras. 1988), de George Steiner, me angustiei com o diagnóstico, bem argumentado e demonstrado, sobre o retraimento da palavra. A imagem do mundo recua, já não mais ao alcance comunicativo da palavra. A linguagem deixou de abarcar a (quase) totalidade de nossas experiências; dela devemos agora desconfiar. Uma faceta “menor” desta questão diz respeito ao depauperamento da linguagem no uso cotidiano. Nossos idiomas hoje têm mais palavras que à época de Camões, de Cervantes e de Shakespeare, mas efetivamente usamos um mínimo possível de palavras. Steiner cita um pesquisador que constatou que o vocabulário básico, essencial na comunicação cotidiana nos EUA e na Inglaterra, se constitui de 34 palavras. É diferente conosco?

Empobrecimento vocabular não significa a perda de um adorno aristocrático, mas um processo de empobrecimento humano da pessoa. Isso não começa, mas ganha peso quando a chamada cultura de massa (não gosto de termo, mas vou deixar passar) está se expandindo e sente a necessidade de nivelar a comunicação por baixo.

Nomear, penso eu, ajuda a compreender. Não quero aqui entrar na polêmica da primazia ontológica da linguagem, que desde Heidegger e Lacan é um “fato” amplamente aceito por pesquisadores de várias latitudes. Só penso que saber nomear bem é entender, ao menos em parte, um processo, um objeto, um sentimento; o que se sente e não se sabe nomear, esmaece, passa. Não me refiro aqui a experiências inefáveis, místicas, que estas em qualquer tempo são dificilmente comunicáveis – ou talvez incomunicáveis mesmo. Refiro-me a experiências mais ou menos corriqueiras. Nossa linguagem, de tão simplificada e reduzida a um punhado de palavras, só funciona se caricaturizarmos as coisas. A caricatura tem força cômica e crítica, mas por sua natureza é grosseira, generalizante – e exige, assim, uma linguagem peremptória, taxativa.  Wanderley Luxemburgo perde um jogo: na caricatura aparece com cara de burro, “experimentando”, como faz um burrico, a qualidade do gramado. Ora, quem entende minimamente de tática futebolística, sabe que nisso Luxemburgo nunca foi, nunca vai ser burro. Mas a caricatura encurta o caminho da complexidade. Obviamente, esse encurtamento pode ser benéfico em determinados contextos, mas não deixa de ser uma simplificação.  

O aniquilamento da experiência que a modernidade promoveu (vide as teses de Benjamin sobre o fim da arte de narrar), exige que a representação se torne caricatural para ser entendida. A pornografia, como caricatura do sexo, é, como bem observou Baudrillard, a metáfora-mor da caricaturização geral da sociedade. Nossa sociedade é pornográfica na medida em que deseja um ver tudo, reduzindo os significados a uma obviedade extrema. Precisamos do exagero, porque ele traz a certeza, e se temos certeza nomeamos com segurança. O modismo teórico do momento, sob a tutela de Derrida, é prodígio em desfazer extremos, mas, aqui embaixo, o povo gosta é de extremos. Close-ups no estilo MTV, hiperrealismo, jornalismo em tempo real, webcam, Big Brother, orkut, 3D – tudo isso, como sabia Baudrillard, são formas de pornografia, isto é, manifestações do impulso do querer mostrar tudo, do querer ver tudo, até que se esgote todo mistério e toda ambigüidade. Até que a mais lassa e imprecisa das linguagens possa se banquetear do cadáver dissecado. Nomear o que é vivo e impuro, o que desliza dos extremos, é problemático, exige interpretar sentimentos humanos; nomear o caricatural é simples, porque a caricatura nivela as camadas da realidade, organiza o mundo em grandes blocos de fácil identificação.

O que não é pornográfico, isto, um mostrar explícito, direto, livre de sutilezas, fácil de nomear, tem dificuldade de ser percebido, causa enfaro. Murnau não assusta mais, Jacques Tati não faz mais rir, Hitchcock se tornou lento, “sem ação”; é preciso um Jogos Mortais para assustar, um Debi & Loide pra fazer rir, um 007 para ser um “cinema de ação”. Proust é chato e seus personagens nebulosos, por não saberem o que querem; Hamlet é nada mais que um “cara perturbado” e Bentinho, um “corno”. Ora, que têm em comum Murnau, Tati, Hitchcock, Proust, Shakespeare, Machado? Não muita coisa, claro, mas se pode dizer que todos nos falam de sentidos sutis, de estados de espírito cuja captação exige dedicação e certa experiência; são humoristas ou ironistas nada resignados, mestres na anatomia das paixões humanas. Como verbalizar tais sentimentos, tais paixões, no vocabulário pobre que temos?

Imagine essa situação. Você leva um filme para sala de aula, nem é preciso ser Tarkovski ou Godard. Digamos que você leve um filme como O silêncio, de Mohsen Makhmalbaf, comentado no meu último post sobre cinema. A galera, pode ter certeza, vai achar lento, sem ação. Claro, a linguagem de cinema da maioria deles é a da novela, a da MTV, a do blockbuster hollywoodiano. Suponha, porém, que 3 ou 4 alunos gostem. Peça a estes que gostaram para tentar verbalizar. Dirão os seus “Legal”, “Bem diferente”, “Muito louco!”. Essas expressões e semelhantes, fáceis de ser discriminadas, escondem uma gama de sentimentos para os quais falta vocabulário (não no repertório do idioma, está claro) adequado para expressar.

A experiência é rasteira; a linguagem também. Assim, se topo com algum produto artístico inabitual, resistente à redução aos lugares-comuns propalados naquele setor, a saída é eu o caricaturar. É mais fácil, é mais prático do que me esforçar para encontrar no repertório do meu idioma os termos que possam se adequar àquele caso.  

Um comentário:

alfredo disse...

ótimos argumentos...isso me dói muito...mas realmente empobrecemos a linguagem, e com ela a experiência humana