quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Entre a letra e o acorde


TODA PALAVRA
Entre a letra e o acorde 
Adriano Lobão Aragão


A geração que definiu o rock brasileiro nos anos 80 também gerou grandes letristas que mereceram a estima pública que lhes concedeu, talvez com razão, o título de poetas. Cazuza e Renato Russo são os mais lembrados nesse aspecto, mesmo antes de seus lamentáveis e prematuros falecimentos, mas é conveniente lembrar os nomes de Humberto Gessinger e Arnaldo Antunes. Certamente, boa parte da significativa relevância da discografia das bandas Barão Vermelho, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Titãs provém do trabalho de seus letristas. No caso dos Titãs, que até 1991 era uma reunião de 8 músicos, Arnaldo não exercia esse papel com a exclusividade que seus mencionados contemporâneos, mas a ele eram concedidos os méritos da poesia titânica, sendo obras individuais como Todo mundo quer amor e O que, parcerias como Miséria e Racio Símio, e até onde não houve sua participação no processo de composição como Flores e Desordem. Desde os primórdios de sua carreira, Arnaldo buscou conciliar as duas atividades, músico e poeta, e muitas vezes reuni-las em uma única manifestação. O ápice desse amálgama talvez tenha sido o primeiro álbum solo de Arnaldo, Nome, lançado em 1992. Curiosamente, enquanto sua música permeia a cada trabalho novas facetas, ou releituras significativas de experiências anteriores, sua mais recente reunião de poemas, n.d.a (Iluminuras, 2010) pouco ou nada acrescenta aos seus livros anteriores, mais parecendo um diluidor de si mesmo. Apesar de ter escrito obras mais significativas, como Psia (1986), Tudos (1990) e o ótimo As Coisas (1992), por mais que o ex-titã prossiga em seus ânseios poéticos (e como poeta, é justo que prossiga), o mais provável é que continue sendo lembrado como o grande músico e letrista que é. Entretanto, essa distinção entre poeta e letrista, para seu público, não aparenta ter relevância alguma. Ao que parece, desde o momento em que Vinicius de Moraes trocou a poesia propriamente dita, ou convencionalmente veiculada pela letra de música popular (e o fez com maestria), nos habituamos a desfrutar a poesia nas canções e relegar aos poetas que não impunhassem um violão o silêncio sepulcral das bibliotecas. E daí temos o "poeta" Caetano Veloso, o "poeta" Gilberto Gil, o "poeta" Gonzaguinha, o "poeta" Chico Buarque, e a carruagem de Apolo segue até os dias atuais com o "poeta" Zeca Baleiro e o "poeta" Marcelo Camelo, para ficar com apenas poucos exemplos. Até artistas anteriores são lembrados da mesma forma e afirmo que, inegavelmente, Cartola é Poeta. Trata-se de um aspecto tão notório e sintomático que até o Concretismo, uma estética absolutamente desprovida de melodia, soube perceber e aproximar-se dos Tropicalistas para angariar seu lugar junto ao público. É justo acrescentar que alguns nobres artífices do verso e do violão merecem o termo Poeta quando conseguem que suas letras se sustentem artisticamente ainda que sem o auxílio do respectivo acompanhamento musical. Mas isso não é regra.

Além de Arnaldo Antunes, diversos outros até poderiam, se quisessem, desenvolver a atividade poético-literária propriamente dita, quem sabe com grande talento e desenvoltura, mas é notório que o palco e o suor de fãs que acompanham as letras de cor é bem mais atraente que a fria página de um livro e o campeonato de indiferença disputado pelo público e pela crítica. Ainda assim, John Lennon e Jim Morrison se arriscaram no mundo dos livros, Chico Buarque já demarcou seu lugar de romancista e Chico César lançou seu livro de poemas, Cantáteis, em 2005. Não é de hoje que se menciona o nome de Bob Dylan como sério candidato ao prêmio Nobel de Literatura, e até Lou Reed, que cancelou sua participação na Festa Literária de Paraty de 2010 após ter sido largamente divulgada, já declarou suas pretensões literárias e o anseio que sua obra seja reconhecida também como literatura. Seria um retorno aos moldes medievais que, durante o trovadorismo, não estabelecia limites entre música popular e poesia, e seus menestréis/trovadores/poetas voltavam sua produção exclusivamente para o público, inexistindo a figura da crítica? Muito bem, mas vale lembrar que, pelo menos na vertente portuguesa de cantigas e novelas, de 1189 (quando Paio Soares de Taveirós talvez tenha composto a Cantiga da Ribeirinha) a 1556 (data estimada da conclusão de Os Lusíadas), demoraram cerca de quatro séculos para surgirem os versos que imortalizariam Luís Vaz de Camões.


[Publicado no jornal Diário do Povo, 10 de agosto de 2010, coluna Toda Palavra, pág 18]

3 comentários:

Lucas Felipe disse...

Com os devidos créditos, peço licença para passar adiante o seu texto à comunidade de Raul Seixas, MPB - Música Brasileira, Arnaldo Artunes, Titãs e Bob Dylan. Um forte abraço!

Adriano Lobão Aragão disse...

Lucas, pode utilizar o texto. Abraço.

Lucas Felipe disse...

33 anos de saudades:

http://mais.uol.com.br/view/323r8gzmol16/elvis-today-tomorrow--forever-33-anos-de-saudade-0402193566D88113C6?types=A&