sexta-feira, 16 de julho de 2010

Yehuda Amichai



13 canções de guerra e de paz
Yehuda AmichaiTradução de Sebastião Edson Macedo





meu filho cheira a paz
Meu filho cheira a paz.
Quando eu me inclino sobre ele
Não há só o cheiro do sabonete.

Todo mundo foi uma vez a criança com o cheiro a paz.
(E não há em toda a terra um só
Moinho que ainda gira)

Ó moinhos despedaçados como roupas
que não se pode remendar.
Duros, solitários patriarcas na tumba de Hebron
Sem filho algum em seus silêncios.

Meu filho cheira a paz.
O ventre de sua mãe o prometeu
Aquilo que deus não pode
Nos prometer.


minha amada não esteve na guerra

A minha amada não esteve na guerra.
Ela aprende o amor e a história
No meu corpo, que foi dois, ou três.
E de noite.
Quando meu corpo faz duelos na paz
Ela se confunde.
Seu pasmo é seu amor. E seu aprendizado.
Suas guerras e sua paz, seu sonho.

E eu estou bem no meio da minha vida.
O tempo quando se começa a coletar
Os fatos, e muitos detalhes,
E mapas exatos
De um país que jamais ocuparemos
E de um inimigo e um amante
Cujas fronteiras jamais cruzaremos.



nós o fizemos

Nós o fizemos na frente do espelho
E a claro. Nós o fizemos no escuro,
Na água, e na grama alta.

Nós o fizemos em memória do homem
E em memória da fera e em memória de Deus.
Mas eles não queriam saber da gente,
Eles já entendiam a nossa sorte.

Nós o fizemos com imaginação e a cores,
Com uma confusão acaju e marrom de cabelos
E com difíceis exercícios
Gratificantes. Nós o fizemos
Como a bicicletas e a seres sagrados
E com as cátedras próprias para os profetas.
Nós o fizemos seis asas
e seis pernas
        Mas os céus
Austeros eram sobre nós
Como a terra por debaixo do verão.  


caminhada com uma mulher

Quando depois de horas de caminhar
Tu subitamente descobres
Que o corpo da mulher que vai a teu lado
Não tinha sido pensado
Para a viagem ou a guerra,

E que suas coxas se tornaram pesadas
e suas nádegas se movem como um rebanho cansado,
Tu te inflas numa grande alegria
Pelo mundo
No qual as mulheres são mesmo assim.


espião

Muitos anos trás
Eu fui enviado
Para espiar a terra fora
Para além da idade dos trinta.

E eu fiquei por lá
E não voltei para os meus mandantes,
Para não ter que
Contar
Desta terra

Nem ter que
Mentir.


faz muito tempo que ninguém é perguntado

Faz muito tempo que ninguém é perguntado
Quem viveu nestas casas, e por último falou, quem
Esqueceu sua capa nestas casas,
E quem ficou. (Por que ele não caiu fora?)

Uma árvore morta fica no meio das árvores floridas.
    Uma árvore morta.
É um velho engano, nunca compreendido,
E nas fronteias do país, o princípio
Do tempo de outro alguém. Um pequeno silêncio.
E os delírios do corpo e do inferno.
E o fim do fim que se move nos sussurros.
O vento passou por este lugar através
E um cão muito sério vê humanos se rirem.


e nós não devemos ficar excitados

E nós não devemos ficar excitados. Porque um tradutor
Não tem que ficar excitado. Calmamente devemos transmitir
As palavras de pai para filho, de uma língua
Para os lábios dos demais, des-

Conhecidamente, como um pai que transmite
Os traços do rosto de seu pai morto
Para seu filho, e ele próprio não semelha nenhum deles. Um mero mediador.

Nós devemos lembrar das coisas que tivemos nas mãos
E escapuliram.
O que eu tenho em minha posse e o que eu não tenho em minha posse.

Nós não temos que ficar excitados.
Os apelos e seus apeladores naufragaram. Oh, a minha amada
Disse-me umas poucas palavras antes de partir,
Para dar conta dela.

E nós não devemos mais contar o que nos contaram
Para outros contadores. O silêncio como aceitação. Não temos
Que ficar excitados.


de três ou quatro pessoas numa sala

De três ou quatro pessoas numa sala
Uma sempre fica na janela.
É obrigado a ver o mal entre os espinhos
E as chamas na colina.
E como as pessoas que saíram todas juntas
São devolvidas aos lares ao anoitecer
Como se fossem um troco miúdo.

De três ou quatro pessoas numa sala
Uma sempre fica na janela.
Seus cabelos negros sobre seus pensamentos.
As palavras ficam atrás dela.
Em frente a ela, vozes se perdendo sem bagagem,
Corações sem mantimento, profecias sem água,
E as grandes pedras devolvidas
Como cartas lacradas
Sem remetente nem destinatário.


o prefeito

É triste ser
O prefeito de Jerusalém.
É terrível.
Como pode um homem ser prefeito de uma cidade dessa?
O que ele pode fazer por ela?
Ele só pode construir e construir e construir.

E à noite,
As pedras dos montes ao seu redor
Virão até as pedras do limiar das casas
Como lobos que vêm uivar para os cães
Que se tornaram escravos dos homens.


não aceitar

Não aceitar estas chuvas que vêm tarde demais.
Melhor se segurar. Fazer da tua dor
Uma imagem do deserto. Dizer está dito
E não olhar para o poente. Recusar

Render-se. Tentar este ano também
Viver sozinho no longo verão,
Comer teu pão ressequido, refrear
Tuas lágrimas. E não aprender com

A experiência. Tomar a minha mocidade como exemplo,
O meu retorno tarde da noite, o que foi escrito
Na chuva no ano passado, não faz a menor diferença

Agora. Ver teus casos como meus casos.
Cada coisa será como antes: Abraão será de novo
Arão. Sara será de novo Sá.


é chegado o tempo de colher os testemunhos

Quando foi a última vez eu chorei.
É chegado o tempo de colher os testemunhos
Daqueles que me vivenciaram nisto. Alguns estão  mortos.
Eu lavo meus olhos com água
Para tornar a ver o mundo
Através de um véu úmido e doloroso. Eu preciso
Colher os testemunhos. Estes dias
Pela primeira vez eu senti umas pontadas
No meu coração:
Eu não estava espantado. Eu estava quase tão orgulhoso
Quanto um menino que descobre o primeiro pêlo em seu sovaco
E em sua púbis.

com a minha mãe

Minha mãe sempre me chama pra dentro
Se estou a brincar lá fora. Certa vez me chamou
E eu não voltei para casa por muitos anos,
E eu não estava brincando.

Quando eu me sento diante dela agora
Ela fica igual às pedras silentes.
Todas as minhas palavras e os meus poemas
São qual uma graxa derramada das palavras
De um vendedor de tapetes,
De um alcoviteiro, e de um dócil caixeiro viajante.

de Poemas sobre o Mar da Cesaréia

7.
A mulher que desapareceu no além
Da porta marcada como “Mulher” nunca apareceu novamente.
A areia entre meus dedões.
Metade de uma maçã e um quarto de hora chegando atrasados.
Um bilhete com uma ferida de uma viagem específica,
Um número em um antebraço, metade de um fósforo queimado.
A pele untada. Para quem?

Rubros pecadores de pé
No fogo do inferno de uma ducha
A gritar fervorosos por socorro.
Dois homens obesos rolando
Nas tábuas da lama como um rolo compressor.
Palhas de milho e romãs ressequidas
No fundo de uma tigela.

Alguém sussurra com um bocado de areia:
“Qual a areia nas bordas do mar.”
Uma mulher entra com seu vestido
Como se subisse uma escada. Seu rosto em chamas.

9.
Volte aqui no próximo inverno,
Ou algumas dessas palavras
Sustentem a minha vida
E atravesse meus dias,
Como uma fila de soldados, um por um, sobre a ponte
Marcada para explodir.

Volte aqui no próximo inverno.
Quem não ouviu tais palavras, e quem vai retornar?





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Yehuda Amichai (1924-2000) é um dos mais destacados poetas de língua hebraica do século XX. Nascido no seio de uma família ultra-ortodoxa em Würzburg, Alemanha, emigou para Israel em 1936. Sua obra é extensa, com 15 livros de poemas, dois romances, vários contos e teatro, sendo considerada fundamental para se refletir as margens da experiência da linguagem na lírica moderna. A poesia de Amichai está intimamentemente conectada ao convívio possível entre os homens num mundo destroçado pela falência do Humanismo. Por isso, talvez, haja tão recorrentes temas da esfera privada implicados na vida pública do homem comum. Amichai ganhou inúmeros prêmios internacionais de poesia e está traduzido para mais de 35 idiomas. A presente tradução se baseou nas versões em língua inglesa de Bloch & Kronfeld (Harcourt: NY, 2000), de Barbara & Benjamin Harshav (HarperCollins: NY, 1994) e de Gutmann, Schimmel & Hughes (Penguin: London, 1978).


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Sebastião Edson Macedo é poeta e ensaísta, autor de: para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e: cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde se tornou Mestre em Estudos Literários Portugueses pela UFRJ.



[publicado originalmente em dEsEnrEdoS 4, janeiro de 2010]



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