quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conversando com Woody Allen




[por Adriano Lobão Aragão]



Você anota as ideias quando elas vêm?”, perguntou Eric Lax para Woody Allen, em novembro de 1987. “Anoto, sim, uma porção de piadas quando elas me ocorrem. Sempre fiz isso porque sempre esqueço se não anoto. Ainda tenho uma gaveta cheia de piadas e palpites. Muitos ainda estão em pedaços de papel." Em fevereiro de 2006, Allen acrescentaria que "só jogo as ideias fora depois de realizadas." O diálogo entre Eric e Woody estende-se por décadas, desde 1971, quando um editor da New York Times Magazine mandou-lhe investigar três pautas para uma possível matéria, dentre elas, o perfil de Woody Allen, um comediante de 35 anos de idade que havia escrito duas peças da Broadway e que começara a dirigir seus próprios filmes. 36 anos depois, acompanhando os inúmeros filmes de Allen (de Um assaltante bem trapalhão, 1969, a O sonho de Cassandra, 2007, passando, dentre outros, pelos antológicos Noivo neurótico, noiva nervosa, 1977; Manhattan, 1979; A rosa púrpura do Cairo, 1985; Hannah e suas irmãs, 1986; Poderosa Afrodite, 1995 e Match Point, 2005, com direito a um anexo para os mais recentes Vicky Cristina Barcelona e Tudo pode dar certo), as entrevistas concedidas a Lax delineiam o cotidiano criativo do cineasta, a gênese de suas obras, suas influências e anseios, bem como o intenso e repetitivo elogio à equipe e aos atores que participaram de seus filmes contrastando com a constante reafirmação de suas limitações. Em fevereiro de 2006, referindo-se a O Escorpião de Jade (2001), diria que "decepcionei um elenco excepcionalmente talentoso. Eu tinha a Helen Hunt, que é uma atriz e comediante soberba. Tinha o Dan Aykroyd, que sempre achei hilário. Tinha o David Ogden Stiers, que usei muitas vezes, e que sempre se sai bem. A Elizabeth Berkley era maravilhosa. (...) Mas, do ponto de vista pessoal, sinto que pode ser - e existem muitos candidatos a isso - o pior filme que fiz. Me mata ver um elenco tão talentoso e eu não ser capaz de realizar uma coisa com eles. (...) sinto muito arrependimento e vergonha, porque as pessoas confiaram em mim e aceitaram o trabalho sem dinheiro nenhum."

Conversas com Woody Allen, Eric Lax [2ª edição ampliada, Tradução de José Rubens Siqueira, Cosacnaify, São Paulo, 2009] nos remete ao curioso retrato de um cineasta exposto ao longo do tempo a um ciclo de perguntas que envolvem suas ideias; o ato de escrever; casting, atores, atuação; filmagens, sets, locações; direção; montagem; trilha sonora; e, obviamente, sua carreira. Curiosamente, não há muita margem para a vida íntima e pessoal de Woody Allen, exceto em alguns, e raros, momentos que estejam fortemente relacionados ao filme em questão. E este é um dos méritos do livro de Eric Lax, o interesse voltado para o artista e sua obra apenas. Entretanto, o que emerge desse emaranhado de questionamentos é simplesmente um ser humano como qualquer outro, falível, mas disposto a arriscar; inseguro diversas vezes, mas ciente de seu talento e buscando explorar da melhor maneira possível suas próprias limitações. Em junho de 1974, já tinha plena consciência das dificuldades em se colocar em cena: "Porque não sou ator: não vou escrever uma história em que eu faça, por exemplo, um xerife sulino. Vou sempre representar dentro do meu âmbito limitado. E só sou convincente como eu mesmo em algumas coisas, como um boboca urbano, com cara de CDF, da minha idade. Eu não seria convincente, digamos, como um instrutor de ginástica ou um fuzileiro naval herói. E as pessoas esperam que eu diga coisas divertidas o tempo todo."

Allen não se entrega ao trabalho de simplesmente transformar suas respostas numa sucessão de piadas, comentários jocosos ou frases irônicas. Há, efetivamente, a figura de um autor disposto a comentar suas obras por dentro; ou pelo menos o que conseguir lembrar-se delas: “não é que a memória me falhe, mas fui fazendo ao longo dos anos, e fiz trinta e seis, trinta e sete filmes, e não assisti de novo desde que foram feitos. Um assaltante bem trapalhão foi em 1967, 68, faz quanto tempo?”, diria em novembro de 2005. Testemunhar como um cineasta como Woody Allen sobreviveu em meio ao predatório cinema americano durante tantos anos sustentando seus filmes nos diálogos e nas ideias, não nas ações e imagens, chega a ser uma lição de integridade artística bastante avessa ao forte apelo imagético atual. São raras, muito raras, as cenas em que se ouve um palavrão, por exemplo; mas sua obra é essencialmente adulta. Há assassinatos premeditados, humor negro, execuções, mas a violência nunca é gratuita. Também não há a presença de relacionamento sexual explícito; mas o sexo é constantemente um tema central de sua obra. Não se trata de nenhuma colocação moralizante, nem estamos afirmando que uma grande obra cinematográfica não possa ou não deva abordar a violência e o sexo de maneira mais visceral (há brilhantes exemplos nessas vertentes), mas Allen sabe que não é assim que seus filmes funcionam. É dessa integridade que estamos tratando.

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